Part 6
Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á chacara, depois de ter deixado o armazem.
Magdalena chorava sósinha no seu quarto.
Sympathicas lagrimas aquellas!
Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente, deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual ellas brotavam!
Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!
Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo, com toda a magia dos seus infinitos esplendores!
Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma paixão ardente, mas pura, casta e honesta.
Parece-me que não.
As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.
Eram assim as lagrimas da Magdalena.
No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que fôra tratada por Luiz.
Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual Magdalena ia já cobrindo Luiz.
Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor. Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a sua absolvição.
Se é amor verdadeiro!...
Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas brancas da sua alma candida e perfumada.
Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.
Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!
Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!
Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.
Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os seus affagos de filha estremosa.
A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais sobresaltou ainda Jorge.
--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.
--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um pouco opprimido.
--La vou papae!
Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e, diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim encobrir o rosto.
--Papae! disse ella com voz meiga.
--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e formosos cabellos.
--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais impressionada. Porque?
Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.
--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle, mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios das lagrimas?
--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.
--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.
--Não, papae, engana-se.
--Diz a verdade, Magdalena.
Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco, sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha. Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e exclamando soluçante:
--Sou muito desgraçada, papae!
E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.
Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a chorar, chamando-se desgraçada!
Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.
Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu verdadeiro e acrisolado amor.
Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.
--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por piedade, diz-me o que tens!
--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.
--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te aconteceu!
E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.
Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:
--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. Magdalena... Magdalena...
--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se afflija....não?
--Então para que choras d'esse modo?
--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...
E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge, ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de subito:
--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...
--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem sabes como devo estar soffrendo!
Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:
--E não se zanga comigo?
--Não, minha filha.
---Então ouça-me.
E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava elle de suppôr siquer o que se havia passado.
Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto, ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista, junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e levantou-se exclamando:
--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que ha dias lhe dei!...
E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu, nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo? tão bondoso?
Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a, dizendo-lhe:
--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.
--Oh! muito, meu papae!
--E não te enganarás?
--Não, eu bem o sinto.
--Então ainda hasde ser muito feliz.
Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.
_Meu socio e amigo._
«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica esperando o seu
Socio amigo, etc.
_Jorge de Macedo._»
E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade, ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.
XVII
Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel. Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha, outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e rir, de implorar e impôr-se!
Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.
O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de facilmente as esquecer e perdoar!
Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição, que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante coração.
Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!
Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.
As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração, d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.
Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.
Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle d'um modo tão barbaro e tão cruel?
Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse, unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?
Não era crivel.
Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa, na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na presença d'ella.
No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?
Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do problema.
Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?
Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal aguçadissimo que o feria dolorosamente.
Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.
Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na alma.
Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio, na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a castigar-lhe a menor insolencia.
O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe importavam os meios e até as consequencias.
Dirigiu-se tambem ao escriptorio.
Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.
--Então? perguntou elle.
Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.
--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.
Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e perguntou tambem com voz firme:
--Então o que!
--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.
--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.
--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?
--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.
--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!
--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!
--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!
--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.
--Começam as ameaças?
--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!
--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.
--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a força d'um desesperado.
Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.
E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.
Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o escravo, mas d'alma grande.
O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.
Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado, contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio do escriptorio.
--O negro cá está! bradou o cabinda.
--Não preciso de ti! acudiu Luiz.
--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.
--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.
--E a senhora moça? interrogou Luiz.
--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!
--Vêl-o-has, cabinda!
E procedeu á leitura da carta de Jorge.
Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da tranquillidade da consciencia.
O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:
--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!
--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha! bradou Luiz.
--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.
--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço o meu dever, e nada mais.
--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente a sua filha!
E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria do nariz.
Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de fazer justiça, castigando-o.
Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e dispoz-se a soffrer tudo.
Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que todo o bem é premiado.
Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos perfumes embriagam a vida.
Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.
E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella conferencia que ia ter logar agora.
O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?
O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?
Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!
Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!
XVIII
Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo d'uma duvida!
A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e triste.
Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no espirito, embora oppostamente.
O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro do seu ninho.
Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a vimos.
Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto, os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava o seu coração, tão viçoso e tão sedento!
Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do sul!
No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o juizo recto da sua impolluta consciencia.
Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se, embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.
Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava e dominava!
O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar, era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de antipathia e de raças.
Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, mas o mulato não se fez esperar.