A Filha do Cabinda

Part 5

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Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina brilhava aos raios da lua.

Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.

N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.

Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas victimas, rasgando dois seios.

E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve resultados funestos.

Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, chegava Magdalena collocando-se entre elles.

Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.

--Que faz, senhora moça! gritou o negro.

--Estás doido, cabinda!

--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.

--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!

--Creança!

--Lacaio!

O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e ai do mulato se a lava podesse romper!

Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu atrevidamente a Magdalena:

--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.

--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para Americo.

--Não, que te enlameias!

--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que não ficaremos sem saldarmos as contas.

--Quando quizer. Vamos, cabinda.

E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em direcção a casa.

O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:

--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.

Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.

Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.

Estava cançado.

As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as offensas e as affrontas que havia recebido.

Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um momento em que quasi succumbiu.

Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, Magdalena e o negro.

A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.

O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.

Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem d'astucias e d'ardis.

No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.

No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, com ar de quem lhe impunha a sua vontade:

--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.

--Descance a minha filha.

--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?

--Nem o branco?

--Nem esse.

--Então o mulato hade ficar assim?

--Perdoo-lhe, Cabinda.

--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.

--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.

--E se elle voltar? o mulato é mau...

--Se voltar, fallaremos então.

--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda estende-o logo como o caçador á onça do mato.

--Já te disse que não fazes nada.

--A minha filha manda.

--E tu obedeces.

Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.

Magdalena apenas a viu perguntou logo:

--Onde vaes, Maria.

--Ia procurar a senhora moça.

--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, acompanhada do cabinda.

--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.

--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.

--Fez bem, senhora moça.

--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava cantando um sabiá!

--Bonito, Maria!

E n'isto foram entrando em casa.

Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, inesperada.

Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto tinha acabado de passar-se.

Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.

Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.

O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, injuriasse ou affrontasse.

Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma esperança. Desanimar, não desanimava.

Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os obstaculos, que as barreiras se vão levantando.

Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez:

--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!

XIV

Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada vingança.

Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.

Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.

Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.

Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.

Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, seu socio.

Teria elle respeitado Magdalena?

Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua dolorosa ausencia?

Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de que fôra encarregado.

Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.

Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a salvação, ou evitar-lhe um naufragio?

Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua indole, da sua perversidade.

Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria dos seus intentos.

No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o não estivesse remordendo intimamente.

O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.

A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam de recomeçar a luta com o seu antagonista.

Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.

Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e além d'isso era... portuguez!

Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter preparado.

Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.

Nem sequer olhou para o seu socio.

--Fez-se algum negocio? começou Luiz.

--Bastante, respondeu Americo seccamente.

--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?

--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.

Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis convulsões nas mãos.

--Mentes! bradou o moço.

--Mentirei...

--Mas como um vilão!...

--No entanto tenho as provas comigo.

--Mostra-as, se és capaz!

--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.

--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem esmaga um reptil venenoso!

--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.

--Fazes-me perder a razão, e depois...

--Conheces esta letra? lê...

E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a entrevista.

--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos seus cabellos... Que dizes agora?

Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.

Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:

--Tão infame é ella como tu!...

--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle podésse dirigir-lhe.

--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?

--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete falla bem alto.

--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...

--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!

--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não póde ser classificado senão de infame!

--Embora! com tanto que eu vença...

--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, Americo; as contas serão então comigo.

--Que pretendes, pois, fazer?

--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!

--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?

--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?

--Indaga.

--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia merecer-te todo o respeito.

--Em todo o caso restitue-me isso.

--O bilhete e a fita? nunca!

--São meus.

--Que importa,

--Importa muito. E, ou m'os dás ou...

--As ameaças depois, agora... a verdade!

E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia entrado.

O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter amargurado e bem o coração de Luiz.

Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.

O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou menos no seu perjurio.

N'este estado, seguiu para o Botafogo.

XV

Eram onze horas quando chegou.

Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo _Camões_ do nosso immortal Garrett.

Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:

«Longe, por esse azul dos vastos mares, Na solidão melancólica das aguas, Ouvi gemer a lamentosa alcyone E com ella gemeu minha saudade...»

quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.

Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.

Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das mãos e correu para elle, gritando commovida:

--Ah! ainda bem que veio!

Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as procuravam, e recuou dous passos dizendo:

--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!

--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.

--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. Ex.^a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...

--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz em lagrimas.

--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.^a é uma mulher, como todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos olhos, quando, afinal V, Ex.^a só preparava a victima para lhe despedir a punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.^a era a mascara, debaixo da qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, emfim!

--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas pupillas.

--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e sobretudo, digno de V. Ex.^a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e aspirações, em quanto que V. Ex.^a, zombando da sua fé, zombando do sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.^a! O que não sei é como V. Ex.^a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como V. Ex.^a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!

--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque eu estou innocente!...

--Innocente!...

--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o meu peccado!...

--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, para me fazer um protesto d'amor!

--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou ella, inundada de lagrimas.

--É muito! é muito! diz V. Ex.^a! O que não será, então, rojar um homem aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha muito o que me está ouvindo?

--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!

E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.

Eram as consequencias da sua imprudencia!

--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.^a teve razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.^a é a senhora D. Magdalena, a filha riquissima, a herdeira unica do ex.^mo capitalista Jorge de Macedo!

Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais evidente da dôr aguda que estava sentindo:

--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora, na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece! Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!

--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!

--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco benevolamente?

--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.

--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! Consciencia!

--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.^a n'ellas. Ahi lhe ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!

E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite fatal da entrevista junto ao lago.

Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando, debulhada em pranto:

--Ah! é assim que se paga um amor como este!...

E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!

Pobre creança!

Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam, e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.

E como ella não soffria agora!

Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança, depois das arguições o arrependimento.

Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica, nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a respiração.

Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais as labaredas que lhe queimavam o seio.

Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e as suas alegrias.

Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar, sobretudo a quem era tão digna d'ellas.

No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso amor, havia feito desencadear.

N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando esperava achal-a contentissima.

O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés, exclamando:

--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?

--Sou muito desgraçada, cabinda!

--O branco...

--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!...

O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:

--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda cá está, e a minha filha hade ser muito feliz!

XVI