# A Filha do Cabinda

## Part 4

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Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os sentimentos da occasião.

Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo, e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:

--Ah! cabinda! cabinda!

--Está contente a senhora moça?

--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!

--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!

X

Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.

Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um tanto da meiguice que o caracterisava.

Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com todo o cavalheirismo, emfim.

Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel, bondoso e em extremo meigo.

Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu nome e a concorrer com os seus fundos.

Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.

Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em um baile, em um club, em uma associação recreativa.

Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os prazeres.

Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes, n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de venturas suavissimas.

Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma simplicidade abundante.

As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.

E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças ao systema d'educação empregado por Jorge.

A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres ou ricos.

Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava d'asperidades, maus tratos e indifferença.

Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.

Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas transacções de commum accordo.

Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de vêr as cousas era d'um alcance vasto.

Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como conselhos e lição.

Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.

Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.

Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de Jorge.

Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.

A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia. Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não tinha uma unica appellação.

Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:

--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens como entender conveniente.

--Sim, senhor.

--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao Botafogo.

--Não ha de ter duvida.

--Adeus.

Apertaram as mãos e Jorge sahiu.

Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram, pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle, conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.

Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.

Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e fortuna até.

Estava d'um lado o amor, do outro o dever.

A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu juramento, constante no seu affecto.

Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr que um anjo bom havia de proteger a sua causa.

Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.

Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia. Ainda tinha tempo.

No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.

O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as precauções.

Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem duvida, muito e muito a receiar.

A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.

O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso elle faria todas as diligencias para o evitar.

Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.

Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!

Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo que Jorge viesse da chacara.

Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para Macahé.

Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do mulato...

Ás nove horas entrava Jorge no armazem.

Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao armazem.

Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.

Um d'elles respondeu que sim.

--A que? perguntou Americo.

--Levar isto á senhora moça.

--Deixa vêr.

E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.

--Não é preciso ires, eu mandarei lá.

E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o sentimento d'uma vingança quasi realisada.

O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre pelos justos e pelos bons!

A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse tambem.

N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira, ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!

XI

Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma folha de papel e escreveu a seguinte carta:

«Ex.^ma Snr.^a

«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.^mo pae. Deixou-me uma carta para V. Ex.^a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja, peço a v. ex.^a o obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar a V. Ex.^a a referida carta.

De V. Ex.^a, etc.,

_Americo d'Abreu._»

Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge.

Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.

A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do mulato.

D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo lhe fazia.

Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.

Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.

Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora; não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um desgosto grandissimo.

Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.

Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando entrou o cabinda.

O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia tirar dos embaraços que a prendiam.

Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.

--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não podias chegar em melhor occasião.

--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?

--O senhor Luiz foi para Macahé.

--O branco? perguntou o cabinda admirado.

--Sim.

--Quem o disse á minha filha?

--O senhor Americo.

--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.

--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma carta de Luiz.

--E porque a não mandou o mulato?

--Porque só a mim a quer entregar.

O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça.

--E a senhora moça o que responde?

--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?

--Que a minha filha diga ao mulato que venha.

--Mas...

--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!

Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de papel e escreveu o seguinte:

«Espero-o á hora marcada.

_Magdalena._»

Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:

--Toma; dá ao negro que está esperando.

--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.

--Porque?

--A minha filha o saberá. O mulato não é bom.

Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.

Quando voltou já não encontrou o cabinda.

Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.

Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma imprudencia.

O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o mulato, é porque lá tinha os seus planos.

No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam, lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.

Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.

Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme peso, que a estava opprimindo!

Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz, os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava, os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!

Pobre creança!

Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar os seus planos.

A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.

Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.

Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso da parte de Luiz?

O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o dominava.

O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?

No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e dos receios, das esperanças e das saudades.

Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario, permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima pagina no seu livro de recordações.

Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas resplandecentes do sol da ventura!

Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada de perfumes e cega por excessos de luz divina!

Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!

Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de affectos, magico de harmonias.

Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?

Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades da anciedade que lhe opprimia o peito debil!

O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a topographia do local.

O negro lá tinha a sua ideia.

Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.

E Luiz?

O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a agitar-lhe todo o ser.

XII

É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa, mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.

Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas, sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes, embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis; os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.

É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa produzida pelo opio.

Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo, n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.

Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos aveludados, e os sabiás _desfiem as perolas_ dos seus cantos amorosos!

Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!

É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes, quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas estrophes d'amor.

É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades?

Não sei.

O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de Macedo.

O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas ruas, que vão desembocar ao lago.

Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando centelhas de fogo dos seus grandes olhos.

--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.

--É cêdo ainda, senhora moça.

--Vou com tanto mêdo.

--O negro lá hade estar, minha filha.

--Corre logo, se fôr preciso, ouviste?

--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo.

Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes de cipós, que o formavam.

--O negro fica aqui, senhora moça.

--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.

--Descance a senhora moça.

E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.

Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se despedir?

Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas, caindo no lago pela boca do tritão de marmore.

O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade vaga e indecisa.

De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e saltou para dentro cauteloso.

Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido.

O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os passos, não o esperava mais animosa.

Chegou á entrada do caramanchão.

--Magdalena! murmurou elle baixo.

--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.

--Esperou muito, não?

--Não; mas agora não posso demorar-me.

--Estamos sós.

--Estamos.

--Ainda bem.

E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella retirando-as accudiu:

--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.

--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha senhora.

--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.

--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco por V. Ex.^a!

--Senhor Americo!

--Oh! não se afflija V. Ex.^a Usei d'este estratagema, porque sei que não conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.^a Sei que o seu coração se inclina para Luiz, mas V. Ex.^a é que não sabe os sentimentos que o dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem, mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso, é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos que nascem entre os gelos que petreficam.

--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou nada tenho que fazer aqui e retiro-me.

--Não; V. Ex.^a não se retira assim. Já que consentiu em me receber a esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.

--Não tenho que ouvir-lhe, senhor.

--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.^a: porque ha de acceitar os galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que lhe offereço?

--E quem lhe dá o direito de m'interrogar?

--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós?

--Oh! mas isso é...

--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.^a não sabe, não comprehende os desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.^a excita-me em vez de esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!

E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.

--Deixe-me, senhor!

E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe ornavam a cabeça.

--Oh o senhor é um infame!...

--Mas não ha de fugir-me assim!

E seguiu-a continuando:

--Ao menos hei de levar um beijo...

E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.

Americo soltou um rugido.

Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:

--Que fazes, cabinda!

--Mato a serpente, senhora moça!

XIII

Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que, ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.

A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.

Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.

Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.

--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame mulato.

