A Filha do Cabinda

Part 3

Chapter 3 3,961 words Public domain Markdown

Oh! o primeiro amor!...

Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto menos as esperava.

Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua franqueza.

Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a aridez no coração.

Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por vezes.

Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.

Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato era capaz até d'uma infamia para a conseguir.

Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e tinha-o mesmo estudado.

Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.

O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes, desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.

Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...

Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?

Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?

Não tinha Luiz a sua consciencia limpa?

Não lhe dizia ella que elle havia de vencer?

Dizia.

No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se, mas não face a face, e a peito descoberto.

E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto Guanabára.

Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio, nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo!

VII

Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o escriptorio.

Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de saccas de café.

Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.

Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.

E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio, situado no fundo do armazem.

Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia do dia anterior.

Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar o café.

--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo, principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.

--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver os olhos dos livros, que tinha diante de si.

--Fui ao theatro.

--E eu vim para casa.

--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.

--Nao sei de que te admiras.

--Eu? de nada.

--Esse _ah!_ solto assim...

--Foi natural.

--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.

--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!

--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva admiração.

--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?

--Gracejas de certo, Americo.

--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento, durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em quanto passeiavas com ella pelo jardim?

---Não nego, nem affirmo.

--Calas; quem cala consente.

--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter com isso.

--Outro tanto não digo eu.

--Não sei porque.

--Porque tambem sou pretendente.

--Ah! sim!

--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.

--Veremos.

--Mas porque não has-de ser franco comigo?

--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto, propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe convier, o outro já sabe o que tem a fazer.

--E se eu fôr o escolhido?

--Paciencia. E se não fores tu?

--Hei-de empregar todos os meios.

--Todos?

--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o ignoras fica-o sabendo agora.

--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a mulher porque a amas.

--Quero-a por ambas as causas... principalmente.

--Comprehendo.

--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu, teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as mulheres e o dinheiro.

Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.

--Insultas-me! exclamou elle.

--Não; digo a verdade.

--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos, é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós, que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes, occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.

--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.

--E eu affirmo-te que nem um só vingará.

--Veremos.

--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa. Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia, recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.

--Ameaças-me?

--Não; previno-te.

--Pois bem; eu me defenderei.

--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.

--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma gargalhada.

--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.

--Luiz!...

--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de Americo.

Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a dizer:

--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena. Tenho tempo de desforrar-me.

--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.

Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo, como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato havia provocado.

No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que lhe avultava no seio.

A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava, apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.

Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude; Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os olhos da sua ambição e do seu calculo.

Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.

Teriam ambos a mesma força?

Qual d'elles tinha de attrahil-a?

É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na lua, e a alma a sentir o _gosto amargo_ d'uma saudade indefinida.

VIII

Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves emanações das flores dos jardins.

Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de tantos espinhos.

A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma indifferença verdadeira.

Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!

Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de Luiz.

O amor de Luiz!...

Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!

E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que Magdalena adormeceu.

Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi transparentes.

Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um vasto oceano d'amor.

Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira momentos antes.

A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.

Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!

Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é ventura e a ventura parece não ter fim!...

Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão perfumados.

E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o calix amargo e mortal do fel da desventura!

Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme, sonha, vive, e gosa!

E Magdalena sonhava.

N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.

Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.

As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno abençoando o Creador!

O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.

E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, cajueiros e pitangueiras.

--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.

--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo, com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.

--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das laranjeiras?

--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.

--Quero que vás á cidade.

--Ao branco? perguntou elle com rapidez.

--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só a elle, ouviste?

--Descance a minha filha, o negro vai já.

E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:

--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.

--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se tu soubesses como eu o amo!

--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.

--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle! Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!

--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.

--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida.

--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre as folhas do capim...

--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.

--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha.

--Vem depressa, ouviste?

--O negro não tardará.

E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.

No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.

Subiu.

Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.

--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao vêl-a.

--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres.

E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.

--E tão cêdo as deixas, doidinha!

--Já as vi, já lhes fallei, papae.

--E agora que vaes fazer?

--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.

--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?

--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano?

--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!

--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!

--Nunca?

--Nunca!

E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.

Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os paes são paes, e os filhos não degeneram.

IX

O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de terminada a disputa entre Luiz e Americo.

O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do seu interior ás pessoas que entravam.

Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma porta lateral.

--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.

--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.

--O negro quer fallar ao senhor Luiz.

--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção.

--O negro não sabe.

--Quem te mandou, então?

--A senhora moça.

E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.

--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o negro guardava da sua missão.

--Sim.

--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.

--O negro traz carta.

--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.

--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle.

Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:

--Bem se vê que és negro!

--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.

--Patife!...

--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco e de negro...

Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que, embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:

--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar recados da senhora moça, patife!

--O negro não tem mêdo.

E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe parecêra ouvir a voz de Luiz.

Chegou á porta e metteu a cabeça.

--Licença.

--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.

--O negro, meu branco.

--A que vens?

--Trazer isto. Manda a senhora moça.

E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando com alegria, sorrindo de contentamento.

Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques, que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do objecto do nosso amor.

Que papel aquelle! que thesouro não estava alli!

Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por elle todas as riquezas do mundo!

Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!

Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o devorava, do que como quem o estava lendo.

Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.

O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso, n'uma contemplação profunda e silenciosa;

A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos transportes sublimes da ventura.

O bilhete dizia o seguinte:

«Luiz

«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que nunca hasde esquecer a... tua

Magdalena.»

«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua imagem, que me sorria e eu acariciava.»

Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.

E Luiz olhou para o negro.

--Então? perguntou este.

--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a brilharem-lhe nas pupillas.

--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do extremo da alegria ao extremo do receio.

--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces, porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, cabinda!

O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:

--E o branco gosta da senhora moça?

--Oh! se a amo!...

--Muito?

--Até ao delirio!

--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando phreneticamente as mãos ao moço.

--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles beijos a affeição do escravo por Magdalena.

--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora moça muito feliz.

--És uma grande alma!

--Mas o mulato...

--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!

--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.

--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?

--A minha filha espera, bem sei.

Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:

«Magdalena

«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia, em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que te adoro muito, muitissimo.

«Luiz.»

O negro partiu.

Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com dous affectuosissimos beijos.

O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.

As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.

De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.

O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.

Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.

Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos faiscaram centelhas de felicidade.

--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.

--Carta do branco.

--Dá cá, depressa, anda.

O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo modo que aquelle havia lido a d'ella.