# A Filha do Cabinda

## Part 2

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--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres! atalhou ella.

--Muito. E vais ter hospedes.

--Hospedes? interrogou com curiosidade.

--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do armazem.

--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.

--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.

E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae extremosissimo.

Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que esquecida de onde estava e com quem estava.

O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com a avidez de quem parecia estar estudando-a.

Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo?

Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella passagem suave do alegre para o triste?

O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso, lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.

Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir!

E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:

--Esqueces o piano, Magdalena?

--Não, papae; esperava por si.

--Vamos, então.

--Vamos.

E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.

Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda, uma _reverie_ de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam presas, nas suas azas, o espirito até ao céo.

Jorge ouvia-a n'um extase.

Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos braços!

O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o terreiro, dizendo comsigo a meia voz:

--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça é tua filha!

IV

Vai em meio o jantar, no dia seguinte.

A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que referve em cada conviva.

É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem sentadas em volta da sua meza.

Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar, onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de si e tudo dos outros.

Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!

Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura que captiva.

Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros, tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas d'uma perfumada rosa branca.

Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de Magdalena.

Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico, elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.

Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter, e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que não merecem menção especial.

Falla-se alegremente; discute-se com placidez.

Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida pouco.

Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria da sua filha.

O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que dizendo-lhe:

--Foge d'elle!

O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois um para o outro.

Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.

Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto se tem comido como fallado.

A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.

Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.

Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas rosas de purissimo rubor.

--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus annos, papae.

E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.

--Acompanho a V. Ex.^a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como hoje.

--Do mesmo modo, repetiram os outros.

--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.

E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:

--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...

--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.^a, fazendo, todos nós, sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.

Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de reconhecimento, e respondendo-lhe:

--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.

--Á felicidade de V. Ex.^a, brindaram todos.

--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.

E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.

Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava sempre os olhos d'ella pregados nos seus.

Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.

No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo, sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de todo dissipar.

Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á sua refeição.

O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos a abusos.

Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.

Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do Porto, dirigiu-se aos seus convidados:

--Vamos ao ultimo brinde.

E encheram-se os copos.

--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á saude das suas familias ausentes.

--Agradecidos, senhor, accudiram todos.

--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.

--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente impressionado.

--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim, lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram, declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam, desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro, para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim mais contentes.

--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.

Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.

Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:

--Se V. Ex.^a me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus esforços.

--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.

E dispunha-se a deixar a meza.

N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.

--Que é isso, cabinda?

--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça, respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo ramo de mimosas flôres.

--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em quanto vamos para o jardim esperar o café.

--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.

E foi assim que terminou o jantar.

Jorge e os convivas desceram para o jardim.

Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.

O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como doido:

--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!

Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;

--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!

V

Pouco depois era servido o café.

Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras floridas.

Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana, e do serviço quasi aturado do armazem.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.

Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo d'harmonia nas fallas.

--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé de _suspiros_. Não é tão, bonito?

--Formoso, minha senhora.

--E estas _saudades_, não são tão lindas?

--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que, como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas vezes, triste.

--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?

--Se tenho!...

--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.

--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.

--Sim, admira-se?

--E com razão. Pois V. Ex.^a, cercada de todas as commodidades da vida, dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, formosa, permitta-me V. Ex.^a esta verdade; vendo realisados todos os desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.^a, que é, que deve realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu, exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e embellezam, me admire e espante d'essa confissão?

--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a verdade.

--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.^a diga antes que tem desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.^a, na idade florida dos amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.

--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque eu nunca amei.

--Ah! V. Ex.^a nunca amou?

--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.

--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.^a tem, são desejos de amar e ser tambem amada.

--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, grandes e formosos olhos.

--E acreditaria V. Ex.^a no amor do primeiro homem, que ousasse render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?

--Conforme. O coração é que havia de decidir.

--E o coração de V. Ex.^a não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu affecto?

--Já.

Luiz estava pallido e tremulo de commoção.

--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.

--Que tinha! era muito feliz, era?

--Se era, minha senhora! muito! muito!

--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.

--Oh! com delirio até!

--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo muito!

E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando que alguem a ouvisse.

Creança!

Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas flôres estava desabrochando!

Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um homem a impressionava.

O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!

Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um horisonte illimitado de felicidades sem fim!

Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem!

Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude murmurar:

--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me engane nunca!

--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!..

E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para um dos angulos do jardim.

Sentaram-se como que machinalmente.

Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do fumo aspirado.

Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que inebriavam.

E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como duas juritys.

--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade para Magdalena.

--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?

--Sempre que não haja quebra de conveniencias.

--Conveniencias? interrogou Magdalena.

--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.^a que a minha presença muito frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje.

--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.

--Em todo o caso não a descubra V. Ex.^a por ora, não?

--Não.

---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.^a, ou se mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua familia?

--Despedil-o-ei.

--Agradecido, minha senhora.

--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia!

--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?

--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.

--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.^a gravada nos olhos, e no coração.

--Faça-me ainda uma coisa, faz?

--Tudo, minha senhora.

--Deixe as _excellencias_ com que me trata e mostre-me mais confiança.

--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.

--Até breve... Luiz!

E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e impressionados.

Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.

Jorge deixou depois a filha e sahiu.

Magdalena ficou só.

Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.

Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia gemer saudades com aquelle amigo.

As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde nunca tinha subido.

As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:

--Luiz.

E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma das portas.

O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste, approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a transparecer-lhe na voz:

--Ainda está triste a minha filha?

Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:

--Não, cabinda. Agora penso na felicidade.

--E o branco?

--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.

--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!

--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!

VI

Vai um pouco adiantada a noite.

A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.

Que noite formosa!

Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada do céo.

Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol fecundante fez amadurecer e desabrochar.

O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e suave, e agradavel.

O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.

No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.

É Magdalena, a filha do cabinda.

A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa, firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito, estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!

Está como que sonhando.

Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite transporta nas suas azas!

Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas; porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade! Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e se aqueça ao calor do sentimento que a anima!

Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo elles fossem, duas perolas mimosas!

Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego, embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da tua felicidade?

E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.

Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a varinha magica do condão do infinito sentimento.

Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!

E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!

Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!

Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!

D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz, o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não comprehendia!

Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!

Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios, com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes, que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.

E Magdalena continuava a scismar.

Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.

Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o nome de Luiz.

Este velava tambem.

Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor, perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.

Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar da casa do armazem de Jorge de Macedo.

Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo, visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.

É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de Magdalena.

Encheu-lhe o amor o seio.

Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso, agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa indifferente.

