# A Filha do Cabinda

## Part 1

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/a-filha-do-cabinda-21961/index.md

Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search)

A filha do cabinda

PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.

ALFREDO CAMPOS

A FILHA DO CABIDA

ROMANCE ORIGINAL

PORTO EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR 119, Rua do Almada, 123 1873

A SEUS

ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS

JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS

ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA

e

JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS

OFFERECE

O auctor.

Ex.^mos Tios e amigos.

A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio do Brazil.

Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai, singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.

Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo, nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita gratidão, que devo a cada um.

Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos, mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos sentimentos do meu coração.

Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e não pelo que é.

Sempre

Sobrinho amigo e agradecido

Alfredo Campos.

A FILHA DO CABINDA

A FILHA DO CABINDA

I

A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a virgem da innocencia.

O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.

Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para, insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões, d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva sympathia, chega a julgar realmente sua filha.

E _filha do cabinda_ lhe chama elle.

O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua companheira, os filhos e a sua familia.

Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar o preço por que haviam de compral-os.

O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.

Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?

Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.

Tristissimo era o negocio da escravidão!

Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os separavam d'elle.

Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.

Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava com a sua veneração selvagem.

Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro que era.

Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.

A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.

O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um sorriso de sincero e intimo jubilo.

E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa Magdalena.

Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.

Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?

O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.

Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu unico encanto n'este mundo.

Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle edificio da sua ventura.

O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da enferma, chorando como creança.

--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...

--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.

--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se da sua senhora!

--Sahe, cabinda!

--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem coração!

E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:

--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe senhora!

--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso amigo.

--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem coqueiro ao lado.

--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.

--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.

--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?

--Não, minha filha.

--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, não quer viver longe da sua filha.

--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da consciencia:

--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!

Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao Creador.

Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.

Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.

O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram, mas havia ganho muito pela sua dedicação.

Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia sempre:

--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!

II

O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio de Janeiro.

As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, em grande parte da circumferencia, de _chacaras_ magestosas, com vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e explendidos e poeticos panoramas.

Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso palacete, circumdado de lindissimos jardins.

Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio de Janeiro.

O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre dedicado.

Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto, tractado com toda a estima e amisade.

Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas aos desgraçados e pobres.

Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que elle adorava muito, fanaticamente até.

A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.

Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita alegria.

Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.

O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e estimava como filha.

Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.

Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das palmeiras.

O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido, deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis dos jardins.

O céo está sereno e limpido.

Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago, coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de marmore fino.

Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e fructos.

Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel commodidade.

A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as paginas d'um livro, mimosamente encadernado.

Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da chacara.

Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero, uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos, d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a bondade d'alma e a magnanimidade do coração.

Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.

Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.

Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de sêda azul clara!

Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um laço azul pequenino!

As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito, e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.

E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!

Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de pedra, n'um dos bancos do caramanchel.

Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender.

Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.

Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga, seductora e angelical.

Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!

E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o lago.

Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:

Suspiras, alma, n'um anceio languido? Ninguem te affaga, perfumada flôr? Ao sol as rosas da manhã desdobram-se, E a brisa affaga-as com carinho e amor!

E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.

Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a impressionaram ou lhe fallarám á alma.

As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.

O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas sombras do crepusculo.

E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde, no retiro aonde repousava Magdalena.

De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.

Quem seria?

As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.

Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.

Era o cabinda.

O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um sorriso de verdadeira alegria.

--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!

E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem despregar os olhos d'ella.

Era uma loucura aquella affeição do negro!

III

O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do Christo crucificado.

Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.

A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de receio e de esperança, que ella acordasse.

Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os olhos pregados n'ella.

--Ah! és tu cabinda?

--O negro, senhora moça!

--E que fazias ahi de joelhos?

--Olhava para a minha filha, que dormia...

--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?

--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de noite lagrimas no escuro.

--Coitado!

--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua filha ri e falla ao negro!

--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...

E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o rosto em visivel expressão de melancholia.

--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as ferir.

--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.

E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu, acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha chegado ao lago.

Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava abstracto de tudo, sem vêr mais nada.

Que magestoso quadro aquelle!

Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os horisontes são vastos, largos e floridos!

O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e humilhando-se submisso á menor reprehensão.

Os dois caminhavam a par.

Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.

Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As aves já se haviam retirado aos gratos asylos.

--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.

--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.

--Sim.

--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, apenas ella acabou:

--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.

--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.

--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os filhos, mas o branco não apparece.

--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro lhe dizia.

--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é que ha de vir cural-a.

--Como?

--Não sei.

--Quando?

--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu mais, nem tornou a chorar.

Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.

Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.

Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.

Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma vasta varanda.

Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e n'uma attitude de quem esperava alguem.

Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:

--Ah! o papae!

O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:

--Olha que te canças, doidinha!

A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.

Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados pelos laços mysteriosos do sangue!

Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli!

--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido agastamento.

--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?

--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.

O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:

--A sua benção, meu senhor!

--Adeus, cabinda.

--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.

--Amanhã...

