A Filha do Arcediago Terceira Edição
Chapter 8
O DINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio José da Silva que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar a Eva da viella do Laranjal.
CAPITULO XIV
A pobre orphã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina, enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das ricas, que tinham o direito de responder com altivez ás reflexões das mestras, e ás rabugices da velha regente.
Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a á humilhante condição de orphã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze annos, lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia muita fé ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso casamento.
Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orphã esqueceu-se um pouco das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu, independente da misericordia, como irmã com a pensionista.
Se algumas vezes contou á companheira os seus passados sonhos de casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir com ella.
Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e soffria, lembrando-se que não podia indemnisar alguma vez as liberalidades que recebia de Rosa.
Quando se installaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por outros affectos os carinhos d'ella, e acharia pesado o encargo de sustentar com tantas regalias uma estranha.
Este reservado pensamento, que ella, eminentemente philosopha, sabia calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e para o seu caracter.
Quando veio á sala zombar de Angelica não havia n'essa caricatura de rapariga apaixonada intenção séria, nem podia havel-a.
Quando o senhor Antonio principiou a franca exposição dos seus sentimentos, que elle significava na melodiosa palavra «sympathia», Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas ás caretas de Rosa.
Quando, porém, o capitalista fallou em luxo, em carruagens, em fidalgas, e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herança, que não queria deixar aos sobrinhos, a moça pobre lembrou-se das suas esperanças desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lançava as cartas.
E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade do assumpto, e ouviu as ultimas palavras do ingenuo negociante, com a discrição, que o caso pedia.
Aqui o que temos a admirar, se alguma cousa vale a pena da admiração, é a philosophia tão saturada aos dezeseis annos!
A ideia philosophica, em uma mulher, começa aos vinte e cinco annos, e acaba aos quarenta e cinco. Até aos vinte e cinco, domina a poesia, dos quarenta e cinco para diante, se não domina a theologia, ha de forçosamente dominar a toleima, que os vocabularios definem «tolice grande». Isto não é maxima, que valha as de _Larochefoucauld_; mas é, no seu tanto ou quanto, uma maxima que deve aproveitar a muita gente.
Maria Elisa, porém, fôra demasiado temporã na razão da philosophia. Anticipou-se, é verdade; mas veremos que não abortou por vir cedo de mais. Os grandes pensamentos tem cincoenta annos de incubação nas entranhas da sociedade. Terão: não duvido nada; mas o maior pensamento, que se conhece, é o de Elisa em casar com o senhor Antonio, e vingou em cincoenta minutos.
As perguntas de Rosa mortificavam-na.
A ciumosa amiga custava-lhe a crêr similhante extravagancia; mas a importancia grave que Maria Elisa estava dando ás perguntas zombeteiras, que lhe eram feitas, aggravou a desconfiança de sua amiga.
Por esquivar-se ás impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva, em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu dissuadir a amiga, que foi tão facil em descrêr como tinha sido em irritar-se por um ciume extravagante.
Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa era rival do senhor Antonio. Como estas cousas são, não me importa a mim sabel-o. Ha no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim, segundo me consta.
Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.
Para neutralisar a cubiça do luxo, e da independencia, a ambiciosa pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o crepe dourado, para vêr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o demonio tentador não lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e já lhe não parecia tão repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a cabeça lhe promettia.
E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza pósthuma a gosar, e um coração, cheio de vida, a offerecer.
Foi esta a final conclusão dos seus raciocinios, que ella não deixou escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que, depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as delicias das educandas. Os bons príncipios teem isso comsigo.
O dia seguinte correu sem novidade.
O outro foi um dia triste para ambas as meninas.
Elisa parece que se esquivava á sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta definitiva; mas não ousou proferil-a.
Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antonio José da Silva foi causa de grandes dissabores. O conteúdo era assim:
«_Senhora D. Maria Elisa._
_Porto, 24 de abril de 1818._
_«Minha senhora do meu coração e da minha particular estima. Faz hoje tres dias que fallamos em certo negocio a respeito da nossa união. Muito desejava eu saber, para meu governo, se v. s.ª está resolvida a dar-me a sua mão de esposa. Estes negocios não devem demorar-se. Eu já lhe disse o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que á vista lhe direi, estou deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s.ª sympathisava comigo, e eu da minha parte não desgosto da sua pessoa. Por isso, se houver de se fazer este casamento, ha de ser já, quando não com bem desgosto do meu coração procurarei outra que tenha as boas qualidades da menina. Peço-lhe que responda com brevidade. Mande no seu serviço este que é e será até á morte_
_De v. s.ª_
_Attento venerador e criado obrigado,_
_Antonio José da Silva._»
Está conforme o original, excepto a grammatica, a pontuação, e a orthographia.
Maria Elisa, não podendo illudir as instancias de Rosa, sem lêr a carta, ralatou a seu modo o conteúdo. Vejam que a vaidade não a deixava já expor ao escarneo da sua amiga a redacção do capitalista! Por mais que a curiosa teimasse, não conseguiu julgar do coração do seu antigo amante pela eloquencia da carta!
Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse á sua companheira de dous annos:
--Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a unica pessoa a quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia, que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na independencia...
--Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?
--Fizeste.
--Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!
--Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira. Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro, nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás, mais ditosa que eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...
--Isso nunca!
--Nunca!... porquê?...
--Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois offerecer-me riquezas que despréso, e não preciso.
--Eu não virei offerecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a separação de instantes é um laço de dous corações que se desata! Rosa, não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?
--Impostora!
--Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? Não sentes o remorso de tamanha offensa?
--Não! És uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro d'um homem que eu despréso.
--Porque és rica.
--D'um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.
--Que hoje outra vez lhe dou.
--Então como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominavel?
--Porque não tenciono sacrificar-me... O escravo ha de ser elle.
--Não te entendo! O escravo ha de ser elle!... de que modo?
--Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.
--Quaes caprichos?
--Todos.
--Vaes ser uma esposa infiel?
--Não.
--Vaes ter carruagem, e vestidos ricos?
--Vou.
--E se te não dér carruagem, nem vestidos?
--Ha de dal-os.
--E se não dér?
--Divorcio-me... metade da sua riqueza é minha.
--E queres dar escandalo?
--Escandalo é ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.
--E tu pareces-me philosopha de mais.
--Antes isso.
--Que maneira de responder!
--É como a tua de perguntar... Não nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas amigas. Aconselha-me que me case, que é a maior prova que pódes dar-me da tua estima.
--Faz o que quizeres... és livre... Enganei-me comtigo... creei uma vibora no meu seio.
--Isso é d'uma novella que nós lêmos ha dias. Nada de arrufos... Vamos cear?
CAPITULO XV
RESPOSTA Á CARTA DO SENHOR ANTONIO JOSÉ DA SILVA
«_Ill.mo snr._
«_Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de contentamento, e a minha penna não póde fielmente interpretar os jubilos do espirito._
«_Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para a fascinação dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e humilda-se o amor proprio na presença de v. s.ª_
«_Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emmudeça para que a razão falle. Raciocinemos, pois, que assim é preciso._
«_V. s.ª já conhece bem o meu caracter? Creio que não. Eu não sou uma mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação, de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos._
«_Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os outros. Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s.ª se comprometta, por sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gôso da riqueza que me transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender._
«_Eu sei que v. s.ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto é tempo; e responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que tem a honra de fazer-lhe esta que é_
«_De v. s.ª_
«_Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,_
«_Maria Elisa Sarmento de Athaide.»_
O senhor Antonio leu tres vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das maiores difficuldades que zombaram da sua intelligencia foi a mais simples das cousas: a assignatura.
--Como é (dizia elle) que ella se chama _Sarmento de Athaide_, se seu pae era Joaquim Nunes, e sua mãe Michaela Felisberta? Isto, pelos modos, cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...
Estas sensatas reflexões foram interrompidas pela senhora Angelica.
--Já recebeste resposta, Antonio?
--Agora mesmo.
--Ora lê lá isso.
O noivo leu a carta, que sua irmã ouviu com a bôca aberta, franzindo a testa a cada palavrão, que seu mano não entendia melhor que ella.
--Está uma carta d'uma vez!--disse a senhora Angelica, abrindo os olhos para o lado da testa, e apanhando com os seus tres dentes, resto de maior quantia, o beiço inferior, em signal de admiração--Isso é que é fallar! O diacho da rapariga parece que tem cousa má! Aquillo é que é uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e lê pelos livros grandes dos doutores! Ora vejam lá como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz tudo que faz mesmo pasmar!... É um regalo ouvir essa carta... Ora lê lá outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a sabedoria!
O senhor Antonio leu quinta vez a sublime carta.
--Com effeito!--tornou a senhora Angelica--eu aposto se um doutor a fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe... Cousa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que quer dizer?
--Pois tu não entendeste?
--Assim me Deus salve que não.
--Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer, que me tem uma grande affeição da sua alma, e que está prompta a ser minha esposa...
--Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não t'o disse? Ora vê lá como as cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja te sahia brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?
--Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita grandeza para metter figas nos olhos...
--Á Rosa? bem haja ella! Eu cá tambem fazia o mesmo!... Pois olha, Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu, que lhe hão de ficar ás mil maravilhas. O vestido não tem mais que pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de trinta annos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me manda visitas?
--Não... esqueceu-se...
--Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoções. Diz-lhe mais que faça por ter saude, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita juizo e graça para servir a Deus... Ouviste?
--Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.
Entretanto, o senhor Antonio ficou sósinho passeando, e traduzindo para vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.
O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus collegas que figuravam na roda dos fidalgos. Se desejasse deslumbral-os, não olharia a despezas. Mas o coração não lhe pedia essas cousas, e muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia elle) não podia dar grande saude aos bofes d'um homem gordo. O orgão que o senhor Antonio respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo a mão no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito. Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que já tive a honra de vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, não tenho absoluta certeza da collocação do figado, supposto que fui em anatomia estudante profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou n'isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do que, tinha muita razão o senhor Antonio em recear que o balanço da carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lêra nos livros que a carruagem era hygienica, e o senhor Antonio renunciára, como vimos, o pensamento do carroção.
O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao coração refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna, uma travessa de arroz com rodellas de linguiça, uma concava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho á proporção, e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco mais comeu. O amor espiritualisára a organisação do nosso amigo o senhor Antonio José. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo, poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes não comprehendidos na face da terra!
--Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio, á hora melancólica do crepusculo, fixava o ôlho lagrimoso na amplidão dos céos, espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de lá!
Eu daria de graça este meu romance, se podésse, em estylo scintillante umas vezes, e outras morbido, afiançar-vos que o senhor Antonio José da Silva fôra poisar a sua redonda pessoa na fraga de-á-beira-mar, e ahi com os olhos no horisonte, e os bofes arquejantes, perguntára á gaivota gemebunda o segredo dos seus gemidos!
Não é possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pôde fazer, no auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais d'aquelle homem, porque d'ahi ao suicidio vai só um passo.
Antonio José da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra, e a tua geração não te comprehendeu!
Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento fino, de doloroso trespasse d'uma civilisação material para o reinado do espirito.
Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido ás camaras fallar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense, e pedirias a palavra na associação commercial, para dizeres que eras um honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura, serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que perpetuasse a gloria d'essa illustração![3]
Antonio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!
Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braços com uma paixão séria, e não sinto cá dentro ferir-me o toque inspirador com que tu, depois de jantar, respondias assim á carta de Maria Elisa Sarmento de Athaide:
«_Ill.ma snr.ª_
«_Porto, 27 de abril de 1818._
«_Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a proposito, porque eu já não estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito de tudo não tenho nada a dizer contra. Eu não sou d'esses sovinas que são capazes de engulir, á hora da morte, o dinheiro, como certos avarentos que eu conheço. A menina não ha de ter falta de cousa nenhuma; ponto é que tenha juizo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu é, e de mais ninguem. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e fallou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que é o melhor. Sem mais, sou_
«_De v. s.ª_
«_Vosso amante do coração_,
«_Antonio José da Silva._»
Maria Elisa leu sósinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do riso cedeu ao da meditação. Momentaneamente, a melancolia ennuviou o semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquellas relações, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um bello futuro por detraz da campa de seu marido, assaltou-a tres vezes, e venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.
Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, não lhe fallava. Esta demazia de aspereza concorreu muito para a definitiva resolução do casamento, porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o effeito da dependencia. De mais a mais a colerica filha da Anna do Carmo tinha-lhe dito que tal casamento não seria feito em sua casa. Que sahisse ella para onde quizesse, porque, no momento em que annuisse a tal infamia, terminavam de todo em todo as suas antigas relações. Isto foi de mais: mas a filha da Anna do Carmo tinha uma costella de sua mãe, e essa costella vencera, na questão, as vinte e tres de seu pae.
O portador da carta esperava a resposta.
Maria Elisa, passada uma hora de lucta, dolorosa talvez, respondeu assim:
«_Não tenho nada que esperar. Póde dar como resolvido o nosso casamento. Cumprirei a minha palavra, quando v. s.ª quizer. Eu recolho-me hoje mesmo ás orphãs._»
Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lagrimas, talvez as menos inteligiveis de todas as lagrimas de que tenho fallado:
--Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as tuas ordens, venho despedir-me de ti.
--Estimarei que sejas feliz.
--Devo considerar acabadas as nossas relações de amizade?
--Deves.
--Menos as da gratidão, porque te sou muito devedora.
--Dou-te paga e quitação d'essa divida. Não quero mesmo ser tua credora, porque me envergonho.
--E eu tambem... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus favores, e darei á Sancta Casa da Misericordia esse dinheiro, por tua tenção.
--Basta! Eu não admitto escarneos! Basta de affrontas!
--Cada vez agradeço mais á Providencia a inspiração de me casar... adeus...
Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão d'um accesso de cólera, filho do amor. Já a não viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixára um bilhete com estas linhas:
«_Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas._»
A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos, e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.
Que taes eram as bichas!
CAPITULO XVI
Não conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavissima que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antonio, quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento, fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesuvio d'amor, misturado de orgulho, por se vêr amado d'uma donzella, que tão nobre amostra dava da sua virtude.