A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 4

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--Diacho das velhas estão doudas!--segredou Maria Elisa--Vamos nós assustal-as?

--Como?

--Assim...

O _assim_ era um empurrão na sua companheira. A porta, mal fechada, não susteve o impeto, e Rosa foi de encontro á velha Clemencia, que dava um terceiro pulinho em louvor de Sancta Quiteria, e do provedor da Sancta Casa. O choque foi desastrado! Aterradas as duas irmãs, que não podiam sustentar-se sobre a esboroada peanha de oitenta annos cada uma, cambalearam e cahiram, guinchando de modo que a turba das raparigas alvoroçadas veio, por assim dizer, peorar a sua situação.

Entre as que vieram estava Maria Elisa, perguntando ás pobres velhas quem as atormentava.

--Era o demonio!--disse Clemencia.

--Em corpo e alma!--accrescentou Rita.

--Tragam agua benta, e a regra do patriarcha S. Bento--disse a regente.

--Emquanto as abluções demonifigas se faziam na cella endemoninhada, Maria Elisa contava a Rosa o primeiro capitulo do Cavalheiro de Faublás.

CAPITULO VII

Os planos, que o arcediago incubára no seu profundo saber do coração humano, abortaram. Sahia-lhe tudo ao envez das suas esperanças. Previra a humildade de Rosa, depois das mortificações da reclusão; e Rosa cada vez mais contente, agradecia ao pae, que a procurava todas as semanas, a lembrança de a castigar com o recolhimento.

No principio, a regente era instada para augmentar as privações da educanda; mas as privações não podiam ser dadas como supplicio a uma menina que vivia contente, e cumpria com regularidade e promptidão as poucas obrigações de pensionista.

O zêlo pharisaico do arcediago afrouxou, porém, com a frieza do senhor Antonio José da Silva. A catastrophe ridicula, de que fôra victima o esmurrado negociante em casa do João retrozeiro, modificou-lhe consideravelmente o coração, a respeito de Rosa Guilhermina, pomo de discordia, e causa desastrada de similhante conflicto.

O senhor Antonio soffreu, pela primeira vez, uma decepção nas suas crenças senis. O pugilato com a senhora Anna Canastreira chamou-o á razão, e, se não é profanar a ideia, diremos que a poesia matrimonial do senhor Antonio fôra dilacerada pelas unhas felinas da visinha.

O pobre homem tinha vergonha do successo. Na rua das Flores não se fallava em outra cousa. O seu visinho João Pereira, o do chinó, ria-se á sucapa com o visinho da loja immediata, emquanto sua mulher contava á visinha, com grande hilaridade, os famosos murros, que o ciumoso Antonio jogára com a mãe de José, por causa da Rosa. O que ella não dizia, por não escandalisar, e todos o sabiam, era que um seu amante fôra a forçada testemunha do apaixonado dialogo, que os leitores, sem serem os amantes da mulher do senhor João Pereira (se é que alguns o não foram), tambem ouviram.

O rico negociante tinha inimigos, émulos de negocio, os peiores de todos, que espreitavam o primeiro ensejo de o apoquentarem. Não podia ser melhor o motivo. Algum mais odiento levou a sua vingança ao extremo de fazer quadras ao desventurado negociante. Algumas d'essas quadras, em verdade chistosas, chegaram á minha mão. Se não fosse o medo de aggravar a indigestão de versos em que imagino encruado o estomago do publico, podéra dar-lhe quatrocentos e tantos versos consagrados ao senhor Antonio José da Silva, debaixo do titulo: CUPIDO DESDENTADO. Sem embargo, porém, da christã generosidade que tenho com o leitor, não o poupo ao flagello de lêr um fragmento d'esse poema, que devia ser a causa principal do abandono a que o infeliz heroe votou a filha do arcediago.

O dito poema é de author incognito, e o fragmento não vol-o dou como primor de arte; é crivel, porem, que o author tivesse filhos, e os filhos do author, apurados em raça, serão talvez os genios que hoje prendem a nossa admiração, e engrandecem as letras patrias.

Elle ahi vai:

Dom Cupido desdentado, Despresado em seus desvelos, Jurou, sobre os seus chinelos, Guerra eterna ao seu rival!

Fumegando pelas ventas As tormentas do ciume, Todo elle é fogo, é lume, No solar do Retrozeiro.

Dom Cupido desdentado, Desarmado, vai sem frecha Quer abrir, a murro, a brecha Do rival no coração.

Torce os olhos, solta um urro, Préga um murro na maçã Da fanhosa castellã, Que se atira a elle á unha.

Dom Cupido desdentado, Não vingado, cahe de chofre, E tal pêso a velha soffre, Que estourou! ó vista horrivel!

Pobre Aonio, pobre Aonio, Que demonio te tentou!? Antes dentes ter, Antonio, Que não ter, e ser Cupido!

Dom Cupido desdentado, Quer o fado que eu te diga, Que não pódes ter barriga Mais mal feita para Rosa!

Come bem, morre a comer, Que, a meu vêr, é grande asneira Ter inveja do João Pereira, Teu visinho, ao tal chinó!

..........................

Et cetera.

O chinó de João Pereira fôra sempre o pensamento negro da victima do poeta! Este sarcasmo ferira atrozmente o infeliz! A reacção devia ser dolorosa, mas, passada a crise, o senhor Antonio sentia-se bom, porque ao pino do meio-dia, horas de jantar, a sua paixão dominante era o melhor dos appetites. Não tinha havido poesia, que tão util fosse ao genero humano, até então, porque só depois vieram as poesias hygienicas, ás quaes a humanidade está muito agradecida, principalmente a humanidade atacada de vigilias. Afóra estas, foi aquella a poesia que melhor fructo colheu. O senhor Antonio, desde esse dia, comeu como sempre, e dormiu como nunca. Ao mesmo tempo que era açoutado em effigie no quarto de Maria Elisa, o razoavel negociante apertava os vinculos, meio lassos, que o prendiam á Thereza, com barraca de fructa na Ribeira, e entendia de si para si que a mulher que lhe convinha era aquella.

E, tão de maus humores o encontrava o arcediago, que nem ousava fallar-lhe em Rosa, nem, o que mais era, o convidou para o vinho verde de Campanhã nos domingos de tarde.

Data d'ahi, portanto, a tolerancia do padre com os divertimentos da filha. Visitava-a com melhores maneiras. Festejava Maria Elisa, que lhe chamava padrinho, presenteava-a com vestidos similhantes aos de sua filha, e redobrava de contentamento, sabendo que o filho do retrozeiro era uma cousa sem importancia no voluvel coração da pequena.

Tudo corria maravilhosamente para todos, quando Rosa Guilhermina, dia de entrudo, atirava cantaros de agua, e recebia-os agradavelmente pela cabeça. O resultado, porém, foi uma constipação despresada, uma tosse continuada, febre, e, na primavera seguinte, foi julgada no principio d'uma phtysica.

O arcediago resolveu levar sua filha a ares para uma sua quinta de Ramalde, e alcançou licença a Maria Elisa para acompanhar a sua amiga. Sahiram, e desde esse dia, a regente, a sacristã, e todas as velhas, especialmente as Limas, agradeciam, todas as manhãs, á Providencia o favor de lhes afastar de casa similhante flagello.

Rosa melhorou apenas se viu em boa harmonia com seu pae, livre do pavoroso negociante, senhora da sua vontade, rindo e brincando com a sua amiga, amimada pelas duas criadas que o arcediago lhe dera, e decorando cada vez melhor o romance predilecto de Maria Elisa.

No inverno proximo, as meninas vieram para a cidade, e encontraram uma casa bem mobilada, apetrechada de tudo que mais lisongeava duas amigas inseparaveis. Esta casa, situada á entrada da viella do Cirne, com frente para a rua do Laranjal, ainda hoje conserva um ar campestre, que, ha quarenta annos, era muito mais agradavel, porque a não assombravam então os edificios do largo da Trindade.

O quintal d'esta casa communicava com o do defunto Rodrigues Passos, professor de latim, e o leitor, se tem prestado alguma attenção ao que se lhe diz, deve lembrar-se que José Bento, no extremoso colloquio com a sua visinha, annunciou a sua ida para o collegio de Passos.

Rosa nem de tal se lembrava já, quando encontrou os olhos piscos do esquecido amante espetados nos seus. Elisa, que reparou na surpreza da sua amiga, perguntou:

--Aquelle mono conhece-te?

--Conhece... Aquelle é o filho do retrozeiro... Agora me lembro que elle disse que vinha para a Cancella-Velha!...

--Vamos nós namoral-o?

--Deus me livre!... Tomára eu que elle me não dissesse nada... Olha o tôlo!...

--O que nós queremos é rir-nos... Pergunta-lhe se está melhor das dôres de barriga.

--Eu não... Deixa o pobre rapaz... Vamos embora.

O estudante, cada vez mais pasmado do silencio de Rosa, é natural que meditasse na razão d'aquelle inesperado encontro, quando Maria Elisa, com a maior naturalidade, lhe perguntou:

--Como está da sua barriga, senhor José?

O rapaz fez-se muito vermelho, e não respondeu palavra.

--Cala-te, Maria!--murmurou Rosa, puxando-a pelo vestido.

--Não quero calar-me. Pois eu não hei de saber como está a barriga do teu namoro? Então vmc.e não me responde? Olhe que eu sou sua amiga, e faço esta pergunta, porque a Rosinha tem vergonha, e pediu-me que lhe perguntasse se está melhor.

--É mentira!--atalhou Rosa, córando--eu não disse tal... Não digas o que não é, Mariquinhas...

--Pois então, não dirias; mas eu quero que aquelle senhor me responda. Vmc.e é mudo?

--Não sou mudo--disse o estudante embezerrado.

--Então, falle á gente.

--E se eu não quizer?

--Se não quizer, não falle; mas é má creação tratar assim quem lhe pergunta se está melhor da sua barriga.

--A minha barriga, graças a Deus, está boa, e vmc.e que lhe quer?

--Não quero nada... eu já lh'a pedi?

--Pensei que lhe queria alguma cousa... Eu não sou boneco de palha para caçoadas.

--Vmc.e parece-me um mau rapaz! Quem é que o caçôa? Nem me parece um estudante! Valha-o Deus! eu, se fosse Rosinha, não lhe tinha amor...

--Cala-te, Maria!.., Tu pareces-me tôla! Deixa o rapaz!--disse baixinho a Elisa, forçando-a a retirar-se d'alli.

--Deixa-me caçoar com elle... Eu não te disse que lhe havia de pôr um _rabo-leva_ de papel? Já que não posso, deixa-me rir com este gêbo, e tu ri-te tambem.

José Bento, favorecido pelo dialogo, ia-se escapando surrateiramente, quando Elisa o chamou:

--Psiu!... psiu!... Olhe cá!...

--Que me quer?

--Vmc.e estuda para frade?

--Que lhe importa se estudo para frade?

--É que se vmc.e fosse frade, eu queria ser frada, e haviamos de ter uma casinha ambos e um quintalinho, e as nossas gallinhinhas, que nos haviam de pôr os seus ovinhos, que nós haviamos de cosinhar ambinhos na nossa cosinhinha, e depois a gente dizia a sua missinha... e depois a gente vinha tomar o sol no seu quintalinho... e depois...

Rosa ria-se como uma perdida, quando o filho da senhora Anna Canastreira, alongando a tromba, e franzindo o nariz, resmungou:

--Sabem que mais? vão bugiar! O meu regalo era...

--Qual era o seu regalo, ó senhor José?

--Se não fosse estar em casa do mestre... eu lhe responderia...

--Ora diga lá baixinho a sua resposta, que eu não digo nada ao mestre.

--Vá...

--Que vá, aonde? Não seja tão mausinho, senhor Josésinho do meu coração. Vmc.e ha de ser um fradinho de pau de sabugo muito bonito... Já tem corôa?

--Tenho um dardo que a parta.

--Olha que mau!... Senhor José, não seja assim... Tome lá uma beijoca.

O corrido estudante tinha desapparecido, não só porque se via embaraçado em responder ás zombarias da importuna rapariga, mas porque o mestre, ouvindo-o fallar, vinha de manso espreitar com quem era. O zeloso professor appareceu no muro, e ainda viu as duas meninas, que se retiravam em grandes gargalhadas. Enfurecido com a audacia do lôrpa, como elle generosamente o intitulava, foi ter com elle explicações acerca de tal conversa.

--Que dizias tu áquellas meninas?

--Eu, nada... Eram ellas que...

--Que... o que? que te diziam ellas?

--Ellas diziam que...

--Acaba d'ahi selvagem!

--Eu estava alli a estudar a selecta primeira, e ellas disseram-me que...

--Estás zombando comigo?

--Perguntaram-me se eu era...

--Um burro? e tu disseste-lhe que sim.

--Não foi isso... perguntaram-me se...

--És um asno quadrado! Ouviste, lôrpa? Se te vir outra vez a fallar com as visinhas, escangalho-te as mãos! Não tens habilidade para traduzir _mundus á domino constitutus est_, e sabes dar tréla ás raparigas!? Ora deixa estar que te farei a cama!...

A crise passou, e José Bento n'esse dia apenas teve, como era de costume, um bofetão e um puxão de orelhas, por causa do imperativo _laudandum_.

No dia immediato, as meninas não o viram; mas, no outro, Rosinha viera adiante esperar a sua amiga para colherem rosas do Japão, quando ouviu o som roufenho da voz conhecida de José Bento:

--Senhora Rosinha, assim é que vmc.e se porta comigo?

--Ah!... estava ahi?!...

--Pois então! cuida que eu me esqueci de si? Ficou de me escrever, e foi como se nada!... Olhe lá como vmc.e é!

--Não pude, senhor José... e tenho a dizer-lhe que é melhor não me fallar, que meu pae ralha-me. Faça de conta que nunca nos vimos. Aquillo que nós dissemos foi uma brincadeira de creanças. Trate do seu estudo, e não se embarace comigo, porque eu tenho muito medo a meu pae...

--Sempre vmc.e é... d'aquella casta! E eu a pensar em si todos os dias, e sempre a esperar noticias suas, ha quasi um anno!... Então eu já não sou o mesmo?

José Bento proseguia n'uma tirada eloquente contra a perfidia de Rosa, quando o vulto austero do mestre de latim surgiu de improviso ao lado do pallido estudante. Ao mesmo tempo, chegava Elisa, rindo muito da surpreza, e Rosa punha os olhos no chão, e cortava machinalmente uma rosa menos purpurina que ella.

--Chegue-se aqui!--disse o mestre ao rapaz aproximando-o do muro, que dividia os dous quintaes--Ó meninas!

--Que quer?-perguntou Elisa.

--Os meus discipulos ensinam-se assim. Dê cá a mão, seu lôrpa!

José Bento, córado como um mólho de malaguetas, recuou diante da palmatoria, cuja cabeça o espreitava por debaixo do capote de saragoça.

--Dê cá a mão! Vossê não obedece? Olhe que o mando pendurar n'aquella figueira.

--Como Judas Iscariote--atalhou Elisa, fungando, e esfregando as mãos.

O infeliz déra a mão, e quatro sonoras palmatoadas lhe estouraram na epiderme. A dôr moral devia ser grande! Rosa estava pallida, e Elisa, de repente, séria, disse ao professor:

--Se eu fosse elle...

--Que diz lá a senhora?

--Digo que, se fosse elle...

--Que faria?

--Dava-lhe um murro no nariz.

--Em quem?

--Em vmc.e ...

--Se é senhora, não o parece...--disse o professor, encarando-a com desprêso--Eu tratarei de saber quem é seu pae, e, se seu pae lhe não der com umas disciplinas...

--Que me ha de fazer? dá-me palmatoadas?

--Hei de lhe mandar dar com um chinelo...

--Fóra casmurro!... Venha para cá, que lhe hei de dar um docinho...

O infiado mestre foi cevar as iras impotentes no pobre moço, que levou a ponta-pés para o quarto.

José Bento recahiu n'uma profunda concentração. Durante o dia não comeu, nem bebeu, nem estudou. Á meia noite ergueu-se d'um impeto similhante a um ataque repentino de demencia. Abriu uma gaveta, e tirou um garfo. Ás apalpadellas atravessou um corredor, e, na extremidade, abriu de mansinho uma porta. Aproximou-se do leito onde resonava um homem, e cravou-lhe tres vezes o garfo no pescoço. O agonisante soltou um rugido, que só o assassino ouviu, e expirou.

Pela manhã encontraram morto o velho Manoel José d'Almeida, professor de latim, com um garfo tinto de sangue sobre a dobra do lençol.

--José Bento desapparecera. Foi procurado em casa do João Retrozeiro, e não o encontraram.

Horrivel acontecimento!

A lingua latina perdeu um dos seus melhores interpretes. O senhor Manoel José de Almeida poderia ser um temperamento colerico com os seus discipulos, mas a sciencia devia-lhe muito. Escreveu largamente sobre a genuina interpretação do _tam libet hirsutam tibi fulci recidere barbam_, de Ovidio. Deixou ineditos tres volumes sobre a conjuncção copulativa, e preciosos manuscriptos sobre o adverbio _quotiesqumque_. Era um bom catholico, e amigo dos pobres, que lhe chamavam pae. Era bom esposo, bom pae e bom irmão; e, se não era bom cidadão, é porque os cidadãos inventaram-se depois.

_A terra lhe seja leve!_

CAPITULO VIII

O tragico successo inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua amiga convenceu-a de que não devia dar-se por achada em similhante cousa. O director do collegio ignorava a causa do inaudito crime, presenciara a sóva de pontapés com que José Bento se recolhera ao quarto; mas suppoz que a justificada razão d'aquelle castigo fôra qualquer asneira do rapaz na impossivel conjugação do verbo _Laudo_, especialmente no imperativo _laudandum_.

Por conseguinte, as pequenas não tiveram de responder como causas involuntarias daquelle sinistro, e continuaram no gôso da sua felicidade.

O arcediago, supposto não vivesse com ellas, almoçava, e jantava com sua filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e, depois de ceia...

Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.

É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha predilecção do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.

O padre não andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Magôa-nos, porém, ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos que a senhora Anna do Carmo não era mau genero para agiotagem.

A verdade é que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não queria incorrer no defeito do _Cocu imaginaire_, que o leitor póde lêr, se a consciencia o não incommóda.

A honesta esposa repellia as seducções do padre, esquivando-se a encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes, dissuadia-a de temores piegas que não tinham nada com a verdadeira religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do matrimonio e de muitas outras cousas.

O francez não sabia que fôra elle o amante de sua mulher.

Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons livros lhe dava,--e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,--o senhor Hemerin Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo, e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz matrimonio.

Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre francas para o generoso compadre.

Este parentesco fôra contrahido muito contra vontade da senhora Anna. Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recem-nascido, perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algum _garçon de bone mine_ (rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso, declarando, pelo _sacre nom de Dieu_, que o arcediago de Barroso seria seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.

A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de fóra, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como habil e francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creança a dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear a _Marseillese_.

A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no collo da mãe, batendo as palmas, e articulando--_papá_, _papá_. O livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a dizer _padrinho_; e a creança, que não sabia ainda ajuntar tres syllabas, teimava em dizer _papá_.

Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e sua mulher, emfim, sabia viver perfeitamente com o compadre, e já se lhe não dava de jogar com elle a _bisca de nove_, e o _trinta-e-um_.

Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do francez, mas a razão do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.

Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os maledicentes sabiam que ella fôra amante do arcediago; o livreiro visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pozesse côbro áquelle grande escandalo.

O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella familia.

O pequeno Leonardo, já de dous annos, continuava a chamar papá ao padre, com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua mulher o córte de velludo vermelho que o compadre lhe déra. Tudo isto ia _le mieux qui se peut_, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seu _amigo intimo_, como todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seu _amigo intimo_, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que pozesse o padre fóra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.

O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito um _Flos-Sanctorum_ a um padre da aldeia, que se apeára d'uma égoa, no momento em que a porta se abrira.

--Estas obras de sanctidade--disse o padre--creio eu que se vendem pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem á regalada. O exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo: _Ante eas vadit, et oves eum secuntur_... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o edificio da religião, a casa de Deus, _ædes Domini_, esses são chamados a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade; _canes veniebant, et lingebant ulcera_, como diz S. Lucas no capitulo XVI.

--Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?

--Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada pela Mitra, e estou aqui ha um mez a gastar n'uma estalagem, e vou-me embora sem ella. O bispo é... o que Deus sabe... Dizem que é um sancto, mas barata virtude é a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor não é lá grande cousa, como diz o livro sancto: _Nam quod ab ovibus erratur, negligentie pastoris adscribitur_.

--Quer o senhor padre uma cousa?

--Nada, não, senhor, não quero mais livro nenhum; precisava d'este para tirar uma duvida sobre se o apostolo Sant'Thiago veio ou não a Portugal, e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...

--Eu não lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava um meio de v. s.ª...

--Alto lá! Nada de _vossa senhoria_... Eu não sou d'esses modernos, que se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, ha trezentos annos, se davam ao rei... Trate-me por vmc.e

--Pois bem; se vmc.e quizesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho para o bispo.

--Sim? então quem é elle?

--Isso agora é um segredo... Veja lá vmc.e quanto dá...