A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 18

Chapter 183,914 wordsPublic domain

«--Pois por satisfazer ás suas exigencias imperiosas, senhor Alvaro de Sousa, respondo ambas as palavras: _sim_ e _não_.

«--Não comprehendo...

«--Tanto peor para v. exc.ª que não póde esperar de mim outras explicações.

«--O senhor parece ignorar a qualidade de pessoa com quem falla...

«--Poder-me-hei ter enganado, mas creio que fallo com um dos mais distinctos cavalheiros do Porto... O senhor Alvaro de Sousa é muito conhecido, para que eu não conheça a qualidade da sua pessoa, até pela libré dos seus lacaios.

«--É preciso que nos entendamos.

«--Desejo-o de todo o meu coração...

«--O senhor tem algumas relações com D. Rosa?

«--Continuemos na mesma desintelligencia, senhor Alvaro... Essa pergunta já foi respondida.

«--Mas a resposta não me satisfaz.

«--Não tenho outra, e falta-me até a paciencia para lhe offerecer, outra vez, a que v. exc.ª não acceita.

«--Eu sinto que o senhor não seja um cavalheiro da minha classe para responder-me á ponta da espada.

«--Dou, portanto, louvores á Providencia por me ter feito d'uma classe diversa da dos heroes, que teem ponta de espada para os que não tem ponta de lingua...

«--O senhor zomba de mim?!

«--Zombo.

«--E não receia as consequencias d'essa affronta á minha honra?

«--Não, senhor.

«--Estou em sua casa...

«--Que quer dizer com isso?

«--Não quero dizer nada... Encontrar-nos-hemos...

«--Senhor Alvaro de Sousa, eu tenho épocas em que difficilmente sou encontrado, e esta parece-me que é uma. Se v. exc.ª tem urgencia de encontrar-se comigo, sahirei hoje.»

Não me respondeu, e sahiu.

São tres horas da tarde. Vou dar um passeio.

V. exc.ª ha de permittir-me que, invocando o sagrado testemunho da nossa amizade, eu lhe imponha o preceito de não fazer transpirar uma palavra d'esta minha carta, a não desejar um completo rompimento nas nossas relações.

De v. exc.ª

Humilde criado,

_Paulo_.

VI

_20 de outubro_

A carta de v. exc.ª, cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexões a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa, é uma nova força que v. exc.ª quer dar ás minhas convicções na sua amizade.

Felizmente, o primo de v. exc.ª, sentindo por ventura que lhe não era glorioso um desforço com o pintor, já teve a summa discrição e bondade de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o meu caminho.

Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado, n'esta ridicula lucta com um moço digno d'outro competidor, era de certo eu.

Não me levava para este acto de suprema vaidade o coração. O meu mal pensado cavalheirismo era todo da cabeça, que tenho cheia de loucuras, e refractaria a tudo que é submissão a classes, cuja superioridade--desculpe-me v. exc.ª--não reconheço debaixo do céo.

D'este orgulho, que eu supponho não existirá d'hoje a cem annos, porque então os homens serão todos iguaes perante a lei, e irmãos perante Deus, d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D. Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.

Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para arrostar as furias do seu fidalgo amante.

Sorri piedosamente para aquelles receios, aliás naturaes no coração d'uma mulher.

Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que fosse grata aos extremos do gentil moço, que, por ella, se arriscava a um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos nós. N'este sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos. Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o fervor d'amigo, estabeleci comparações entre nós que redundavam em grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a minha posição falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmão.

Rosa Guilhermina não me quer para irmão. Achei-a de marmore para este sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais lhe agradeceria, e o primeiro e derradeiro que eu posso offerecer a uma mulher. Ella, não. Fallou-me do seu amor com estranho desembaraço. Explicou-me os effeitos d'uma impressão violenta. Disse-me que só um prompto desprêso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio necessario para não succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a não comprehendia. Empregou, na exposição eloquente da sua sympathia, as melhores palavras da novella, e concluiu o seu não interrompido discurso com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade palavrosa.

Eu não sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher. Como se Deus lhe désse a humildade por instrumento de triumpho, eu senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem, pedindo-a á saudade de Helena, como se pede uma alegria ás recordações do passado, que se nos foi com todas ellas.

Eu creio já ter dito a v. exc.ª que D. Rosa é uma linda mulher. Quando a retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do coração, uma viveza robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.

Hontem não era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas escondidas, em longas noites de desesperação. Posto que vaidoso, eu não me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses padecimentos. Se é por mim que elles existem, não se me dá da gloria inutil que elles possam dar-me. Não tenho nenhuma: não me prestam de balsamo para o coração; não me aquecem esta cabeça de gêlo; não me deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de impossivel felicidade.

Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? Não. A aproximação é o divorcio das grandes paixões, que a distancia esposára. Aos pés do homem cahe partido o prisma, quando o hálito da mulher é tão de perto que lhe empana as côres.

E eu, de mais a mais, não desejei aproximar-me, quando a vi de longe. Não senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma só vez recebida na existencia de cada homem.

Poderá o tempo fazer o que não fez um instante?

Não.

Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanação da amizade contrahida pela semelhança de vontades, resultado d'uma demorada elaboração de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de propensões e desejos. Não sei o que seja isto. A razão rejeita essas candidas theorias.

Eu só creio no amor não esperado, não grangeado por sacrificios, não calculado de dia para dia.

Se me dizem que essas paixões improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e n'um córar, são instantaneas, e ephemeras como o féto arrancado ao embrião, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem essas paixões na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia póde desvanecel-a no coração, que se envolve n'um pedaço da mortalha, roubada a outro coração, que o deixou viuvo de todas as esperanças, e gélido para todos os confortos.

Minha paciente amiga, eu sou fastidioso com as minhas choradeiras. Acolha-m'as com amor, que eu não tenho, sequer, em galardão de tantos soffrimentos, o poder de as lançar ao papel de modo que consternem a compaixão da unica pessoa que póde sentir comigo.

Estou pintando. É o meu sonho de ha dias. É Helena, quando me deu uma rosa murcha, e me disse: «Ahi tens o meu amor: a rosa cahirá desfeita em pó; mas a saudade ficará perpetuamente entre os vivos, como o germen d'essa flôr.» Estas palavras repetiu-m'as no sonho. Vi-a tal qual era, n'esse primeiro dia em que os medicos lhe disseram que désse um passeio recreativo á ilha da Madeira. N'esse dia começou ella o seu curto passeio em redor da sepultura!...

Adeus, minha estimavel senhora.

De v. exc.ª

Amigo dedicado,

_Paulo_.

VII

_29 de Outubro_

Tem decorrido sete dias, depois que lhe escrevi, minha boa amiga. V. exc.ª não calculava a razão do meu silencio, quando na sua queixosa carta de hontem arguia a minha reserva, ou indolencia.

Eu indolente, senhora! Eu que não tenho cinco minutos de repouso desde o dia á noite! Eu, que conto os longos instantes do escurecer ao dia!

Não lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crêr-me, senhora! não tenho tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.

Que é o que se passa em minha alma? Que transfiguração se operou na minha vida? Que brinquedo cruel é este que vem ludibriar-me no canto esquecido em que me refugiei com as minhas desgraças?

A minha organisação está debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razão com o seu brilho sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque debaixo dos meus pés estava o ardor do deserto, e nos horisontes da minha esperança... nem uma gôta d'agua que me apagasse este lume que me queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solidão era-me cara. O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboçada em cada téla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus labios articulavam não sei que palavras animadoras, que me mandavam subir com o sorriso da resignação as escadas do meu patibulo.

E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e espavorida da solidão do meu quarto. A sepultura d'ella... é uma pedra êrma de phantasmas para mim. Comecei por descrêr das minhas passadas visões. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que foi, e o cadaver que é; sobre o coração arquejante de amor, e o coração minado de vermes.

Que é isto, pois? quem rasgou este véo diante de meus olhos? Que homem sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?

Entre mim e Helena... está Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na face, quando estas palavras me fogem do coração! Parece que a vejo contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudança! O meu caracter apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo desprêso, desde este momento?

Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, com asco, para a minha miseria. Antes de v. exc.ª recuar nauseada da baixa condição da minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato, insensivel, perjuro, e vil!

Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade á memoria de Helena, e não posso. Vejo que é necessario ser cynico para me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. Não posso, não sei sêl-o, não está na minha mão rasgar o contracto que fiz com Helena, nos seus ultimos instantes.

Mas eu amo Rosa. Que sentimento é este? Como hei de convencer-me de que amo esta mulher? Se isto é uma illusão, como é que se dissipam estas chimeras?

Não sei! Lembra-me que senti uma commoção inexplicavel quando a vi chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me não sei que voz, que som dos anjos que me tinha ferido uma corda no coração!... Ri da minha fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse á minha alma que lhe inspirasse os traços de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um tumulo a dizer-me: «Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um coração, que renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que póde supprir a que não terá para ti um sorriso sobre a terra... Vê que os vermes corroeram a minha face. Não te illuda uma esperança em outros mundos, porque os limites da vida são a campa... Eterna é só a materia; mas a materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o sôpro da desgraça...»

Contive-me durante dous dias de tribulação incessante. O coração dizia-me que Rosa me escreveria. Li a carta que recebera com indifferença, e passei por a minha alma todas aquellas palavras. Achei-as sinceras... Acarinhei-as com soffreguidão... Recordei o que ella me dissera, depois. Accusei-me de ingrato. Tive orgulho do meu rival. Receei ter parecido um ente indigno de tamanho amor! Senti ciumes... Queria vêl-a... Precisava de lhe esconder metade de minha alma, revelando-lhe uma pequena parte dos meus sentimentos...

E procurei-a... Não sei o que lhe disse... Recordo-me que lhe apertei a mão com ardor; que lhe pedi lagrimas de piedade, e coragem para não transgredir um juramento... Penso que me não entendeu, porque me respondeu com um sorriso, e fugiu de ao pé de mim com a face abrazada...

E, desde esse dia, escrevo-lhe a todas as horas. Não lhe mostro as minhas cartas, porque não posso convencer-me de que o meu coração está n'ellas... É impossivel!... Aqui ha uma fascinação!... Eu não posso ter esquecido Helena!...

Preciso hoje da sua companhia, minha querida amiga!... Escrevi o que não ousaria pronunciar...

De v. exc.ª

Grato amigo,

_Paulo_.

VIII

_25 de outubro_

A ingratidão é punida. Principio a expiar o perjurio. Helena vai ser vingada por esta mulher, que, traiçoeiramente, me assaltou o coração, quando eu me julgava de ferro para as paixões.

Rosa Guilhermina vai recuando diante de meus passos. Aproximar-me foi gelal-a. Da tristeza profunda com que me olhava, antes da vergonhosa quéda que dei do alto do meu orgulho, transformou-se n'um rosto folgasão, n'um conversar futil e acreançado, n'um nem eu sei que de motejo e zombaria que me escandalisa e envergonha.

Esta mulher quiz experimentar-se, experimentando a minha soberba. Humilhou-se como a vibora, que se enrosca entre as urzes, para se levantar d'um salto de que eu devia fugir atrozmente ferido no meu amor proprio. Isto tudo é inexplicavel; mas o facto existe com horrorosa evidencia! Essa mulher, que me provocou, ha de amanhã despresar-me... despresa-me já hoje, e ousa dizer-me que me recebe, em attenção á delicadeza com que a tenho tratado!

Esta fria linguagem é a mascara impostora dos caracteres, que se não sustentam. Quando a mulher assim falla, é porque o amor, nos labios d'ella, foi uma expressão mentirosa, que passou por lá, como a palavra «Deus» que é seguida, na bôca do impio, pela palavra «demonio!»

É isso crivel, minha querida amiga?

Rosa será aquella mulher, que me escreveu? Não a veria eu chorar? As lagrimas podem assim prestar-se a uma infamia? Ha mulheres que tiram d'um coração gasto um tal proveito?

Hontem procurei-a com a resolução estupida de convidal-a a ser minha mulher! Eu não podia já luctar com ella, nem comigo. Um dia antes, perguntei-lhe a razão da sua frieza; respondeu-me que ella mesmo não sabia explical-a. Disse-me que Alvaro de Sousa não frequentava a sua casa, e accrescentou que desejava saber de mim a razão d'este procedimento.

--De mim?!--perguntei eu.

--Sim... do senhor... Por minha parte não lhe dei a elle motivo algum de abandonar uma casa, em que entrava como parente... O que fiz foi interpôr as minhas supplicas com o senhor Paulo e com elle para que não tivessem desintelligencias em que soffresse a minha reputação.

--A sua reputação é invulneravel...

--Não é tanto assim... A vinda frequente do senhor Paulo, e a ausencia completa de Alvaro de Sousa, é motivo de murmuração na visinhança.

--Quer com isso dizer que não a sacrifique á murmuração dos visinhos?

--Escuso lembrar á sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presença d'um mundo que não distingue as mais honestas das mais torpes intenções...

--Está raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em summa dizer que não devo vir a sua casa...

--Não digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas visitas...

Comprehendi-a...

E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o coração se me tinha despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a cabeça em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e não havia em mim sensação que me não fizesse recear uma demencia.

Sahi, e, só muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a retirada boçal que fizera. Como foi possivel que eu não respondesse áquella mulher?! Que indignação, ou que nobreza d'alma foi a minha, que me não inspirou uma palavra que a fizesse córar?! Será isto uma devassidão moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa desgraça petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amor de Helena, dous annos puro no sacrario do meu coração, fez-me cynico?

Tenho-me hoje feito estas perguntas. É um tormento não poder responder. Não posso. Não sei o que sou, nem o que é aquella mulher!

Seria uma desgraça, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que ella é tão infame como se me ostenta!

Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra para mim, nem para ella!... De que modo?...

Ha, por ventura, uma intriga? Qual? Por quem? E com que fim?

Não sei, não posso comprehendel-a.

Disse-me ella que nunca me confessou amor! Será isto verdade? Fui eu que me illudi? Então, aquella carta, aquella livre explicação d'um affecto repentino... foi tudo um sonho?! Terei eu mentido a v. exc.ª? A cópia da carta que lhe enviei, foi uma ignobil impostura?...

Como é especialmente horrivel a minha situação! Como eu, d'um lance d'olhos, vejo todos os casos em que um homem póde suicidar-se na sua honra cuspindo na face d'uma mulher!...

Esta situação não póde assim durar... Eu preciso ouvil-a... Ella ha de saber colorir a sua depravação d'outro modo... Eu quero até que ella se defenda, porque vai ahi n'essa defesa a salvação do meu amor proprio... Que dirá?... Que terei eu que responder-lhe?

Minha boa amiga, ha uma conspiração sobrenatural contra mim... Eu receio, hoje mais que nunca, uma demencia. Lamente o seu infeliz amigo

_Paulo_.

IX

_2 de novembro_

Tudo está perdido.

Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha quatro dias, a carruagem á porta de sua filha. Alvaro de Sousa reconciliou-as. Leia v. exc.ª essa carta, que recebo n'este momento:

«Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as suas visitas a esta casa, emquanto ella fôr minha hospeda, são bastante prejudiciaes á futura felicidade d'esta senhora. Sua mãe, informada das relações que o chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto. Suspeito que a sua direcção não pare aqui em Portugal.

«Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia, que o seu bom caracter nos afiança. Se a ama, como devo acreditar das cartas que lhe escreve, desvele-se em não prejudical-a. Até aqui a sua união com a filha sem mãe, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo reconhece sua filha para eleval-a até onde o dinheiro a collocou, declaro-lhe, com pesar meu, que serão, além de inuteis, nocivos todos os seus esforços.

«Com sincera estima

«De V...

«Veneradora affectuosa,

«_Maria Elisa_.»

Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella ahi vem pôr-me um pé, segunda vez, no pescoço! Cá sinto já a dôr vilipendiosa, e nem sequer sei já sorrir-me, quando a soberba me estende na face uma bofetada! É preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar nobreza da minha vilania! Esta dôr moral é mais forte que a outra. Sinto desvanecer-se o amor, e só tenho alma para compulsar as agonias d'uma paixão incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.

Hoje preciso da vida, porque é impossivel que eu não tenha a minha hora de vingança...

Vou sahir de Portugal... não porque me reconheça tão pusillanime que receie aqui uma consumpção moral... Não é isto... é que debaixo d'este céo não ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual com o meu inseparavel demonio.

Tenho dinheiro, que me é inutil aqui. Preciso desperdiçal-o... Quero tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faça artista, e o trabalho me salve d'estes ocios despedaçadores. Não sei onde irei... nem mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, virá uma minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a não receber... quando o silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poderá v. exc.ª dizer: «Aquelle desgraçado, de quem fui tão amiga, e que tanto deveu ás minhas consolações, morreu!»

E v. exc.ª poderá então louvar a Deus, que encravou a roda do meu infortunio. Poderá agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no mundo com o meu nome no coração, a graça da morte concedida ao talvez primeiro homem, que não teve cinco minutos de felicidade na demorada existencia de vinte e seis annos.

N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. Não amo Rosa Guilhermina; mas tambem a não detesto! O que eu muito queria era o segredo d'aquella indole, porque eu não seria acreditado se contasse a transição do amor ao desprêso, a infame mentira que me arrancou aos braços d'um cadaver para me lançar nos da desesperação.

Deixal-a! Quero até pedir a Deus... _a Deus!_ a desgraça, que é a mãe da piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu começo a temêl-o desde este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa Guilhermina. Os anjos vão com ella. Esta expressão do povo é a mais expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira consolação do infeliz é perdoar. Eu perdôo... Offereço o meu coração para todos os punhaes; curvo a minha cabeça a todas as desgraças; dobro o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar infames os instrumentos, que obedecem á vontade superior do grande motor da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.

Não tenho coragem de abraçal-a, minha cara irmã. Adeus.

De v. exc.ª

Amigo de toda a vida,

_Paulo_.

X[5]

_Roma, 4 d'abril de 1825_

Minha prezada amiga

Eu tinha esperanças na minha convalescença moral. O coração, aturdido por padecimentos tumultuosos, cansado e endurecido por cicatrizes de golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma nova estação na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma tranquilla vegetação. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem sobresaltos; veria tudo descórado em redor de mim; abriria para tudo, que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco para o repugnante.

Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos pés. Á convalescença da alma segue-se a desorganisação da materia.

Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me no coração. Muitas vezes sentia umas palpitações extraordinarias, e depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral, um mixto de aborrecimento e desesperação, que eu attribuia sempre á inconsolavel viuvez da minha alma.

Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu até se extinguir. N'outro tempo, não se me dava sentir aggravar-se o mal; mas, agora, queria vêr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos os sentidos.

Não o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que tenho uma aneurisma. Não sei o que é... É a morte, que me fugiu quando eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. Não posso dizer-lhe que bem vinda seja!

Mandam-me a ares patrios... Eu não sahirei, já agora, d'aqui... Este conselho da medicina é um futil subterfugio.

A minha doença estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. É inevitavel a morte... Póde-se assim viver longos annos; mas eu, assim, não desejo viver...