A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 17

Chapter 173,916 wordsPublic domain

Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha precisão de viver para alguma cousa; mas a arte não me galardôa a minha dedicação. Do seio da tela tenho arrancado imagens, que são a reminiscencia d'aquella mulher que me fugiu dos braços para os braços do tumulo.

Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me lagrimas, e não m'as paga com a esperança de crear por ella um nome, como o de muitos desgraçados que se immortalisaram nos quadros, em que verteram muitas.

Eu não sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro, anhelante de não sei que esperança embriagadora, atraz d'essa visão impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S. Francisco. Lá dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada! Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e retiro-me d'alli gelado pela dúvida, gelado como a pedra que a separa dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por não sei que mão fatal que me não deixa resvalar no meu abysmo!

Sou bem desgraçado, não é assim? Muito! Este meu viver é alguma cousa mais dilacerante que a dôr. Não tenho a esperança consoladora, que a Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O presente conta-me o futuro. O que vem não receio que seja peor que o que é. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!

V. exc.ª comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o entendimento. Para o que soffreu não ha mysterios de dôr no coração do estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo querido. Já depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficára fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolações á amargura dos outros. Eu, hoje, não saberia consolar ninguem.

Minha amiga, dê-me a sua estima, que eu não tenho mais nada. Em remuneração, dou-lhe a verdade da minha alma, que é um thesouro, raras vezes, concedido.

De v. exc.ª

Verdadeiro amigo,

_Paulo_.

II

_30 de setembro_

Palpita-me com sobresalto o coração. Preciso escrever-lhe emquanto me dura esta febre, que está sendo a minha felicidade! _Felicidade_! com que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! Já é desejar muito possuil-a! Bem se vê que sou um homem sem presentimento nenhum alegre, sem nenhum direito á felicidade. Um pequeno lance na minha vida transtorna-me a cabeça; e, comtudo, estes lances, creio eu que são frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente feliz.

Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa de v. exc.ª Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado para todo o mundo. Chamou-me «amigo» e esta palavra banal fez-me sorrir, pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que tão distante está da minha obscura classe!...

Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua mãe que a chamava do céo. Eu já sabia que v. exc.ª lhe tinha dado este quadro. Entendi, quando o soube, que não devia magoar-me; mas quizera, antes, que os profanos na religião do martyrio ignorassem o author daquella pintura. Não me receba isto como queixume. É a innocente sensibilidade de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos injustos...

Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que nunca veio desfigurada do meu coração. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Sério, a casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio José da Silva, e creio mesmo que v. exc.ª me fallou, ha tempos, n'esse homem, contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo de traz da Sé.

Em casa d'essa viuva está uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A nossa chorada amiga fôra companheira d'ella nas orphãs em S. Lazaro, e contou-me cousas que lhe não eram muito favoraveis á sua indole de menina.

Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhança dos genios aproximára dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vêl-a.

Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas bellezas que não se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o coração nos olhos, e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo, porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde não chegou ainda a cultura e o despejo da França

Eu disse-lhe que não podia prescindir dos seus olhos por algumas horas. Sentia-me com disposição para zombar da belleza, que tinha a vaidade de reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as rugas da velhice, no vívido scintillar dos olhos o amortecimento do cansaço.

Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braços uma pequena creança a quem chamavam Assucena. É filha de Rosa. Conheci-a pela semelhança com sua mãe; mas não sei o que ha na physionomia da pequena, que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?

Emquanto esboçava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena Christina, nas orphãs. Disse-me que sim, e que chorára, quando teve a noticia da sua morte, por causa d'uma paixão que cegamente tributára a um homem, que não era da sua condição.

Que homem era esse?--perguntei-lhe eu--Era o filho d'um advogado.--Pensei que a condição do advogado era nobre, repliquei eu.--É nobre; mas a d'um general é muito mais nobre, e Helena era filha d'um general.

Não pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no braço, e o pincel traçava linhas confusas. Pedi licença para retirar-me, e deixei Alvaro enleado da minha improvisada sahida.

Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.ª Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocação augmenta. Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena? Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque não posso accusar meu pae, que devera ser general, e não advogado.

Como é a sociedade, senhora! É impossivel que a Providencia não abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus presidisse á organisação do genero humano, ninguem viria dizer-me: «A tua condição social collocou um tumulo entre ti e a filha de um general!»

E é a isto que eu chamei _a minha felicidade_! É um novo crime! Aquella mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena até lhe merecer o sacrificio da vida. Será isto um egoismo barbaro?

Adeus, minha boa amiga.

De v. exc.ª

Amigo do coração,

_Paulo_.

III

_12 d'outubro_

Tive hontem o desgosto de não encontrar em casa v. exc.ª Procurei-a porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas tão desordenadas, que receei não poder escrevel-as. A bondade, com que a minha paciente amiga costuma attender os desvarios d'este forte coração e d'esta debil cabeça, seria mais uma vez tolerante comigo.

Não a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc.ª verá n'esta carta o tumulto de sensações que se me atropellam na alma, ha dez dias.

Instado por Alvaro de Sousa, fui recomeçar o retrato da viuva. Era-me preciso, para não passar por doudo, remediar de qualquer maneira a precipitação com que sahi d'aquella casa. Não me occorreu algum pretexto. Adoptei o silencio como explicação, e não dei uma palavra que suscitasse recordações do dia anterior.

Reparei com animo frio na physionomia de Rosa. É uma d'estas mulheres que o mundo chama bellas, e eu creio que o são. Sem uns traços de soffrimento, que lhe assombram os olhos, não seria tão bella. Tem um olhar humilde, como quem pede compaixão. Não sei que transparente brilho de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se não ha estudo n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa póde exprimir muito amor, ou muito fastio.

Muito amor, talvez... é mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente embebido na contemplação d'esta mulher, não a deixa um instante sósinha. Muitas vezes a viuva do negociante vem á sala trocar algumas palavras com Alvaro, e não consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. Não pude comprehendel-os. Achei demasiada precaução no amante, e alguma frieza, se não era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz, são correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem sêcca do coração. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traçava as feições de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.

Á primeira secção vieram ao panno os traços formosos da viuva. Alvaro abraçou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle jubilo, que me pareceu pueril. É que aos vinte annos é assim o amor. A felicidade embriaga os que não provam o fel nas primeiras libações da infancia.

No dia seguinte fui continuar o retrato.

Alvaro de Sousa não tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e recebeu-me com um sorriso de graça e confiança. Antes de sentar-se perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me, na primeira vez que alli fôra, d'um modo que a deixára cuidadosa. Pedi-lhe que me não interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena, recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por não sei que infantil capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mão, com um ar de bondade, e um desembaraço de que eu não seria capaz, disse que me conhecia, e pediu-me perdão de ter ferido o filho do advogado, que adorára a filha do general.

Não respondi a este lance affectuoso. Pedi-lhe que se sentasse para continuar o retrato. Rosa parecia mais commovida que eu. Sentou-se. N'este momento entrou Alvaro. Cortejaram-se com algumas perguntas e respostas triviaes, e eu, com os olhos do coração no tumulo de Helena, e os da face na physionomia da sua companheira de recolhimento, continuei, sem vontade nem attenção, o retrato.

No dia immediato fui concluir a obra. Rosa recebeu-me com estranha affabilidade. Perguntou-me quantas secções faltavam. Respondi que era aquella a ultima.

--E, depois--proseguiu ella, titubeando--não torna a esta casa?

--Tornarei todas as vezes que v. exc.ª se dignar occupar-me no seu serviço.

--Eu desejava possuir o retrato de minha filha.

--Enviarei a v. exc.ª um habil pintor.

--Pois não quer encarregar-se d'este trabalho que eu tanto queria que fosse seu?

--Agradeço a lisongeira fineza... Se eu tivesse o amor artistico, não teria mais incensos a desejar para o seu culto; mas eu não posso, sem grande sacrificio, fazer retratos. Fui surprendido, quando me prestei a este serviço; agora, se v. exc.ª me concede recusar um sacrificio que não é necessario ao seu bem, eu declino de mim esse trabalho, e, repito, enviarei a v. exc.ª um retratista, que de certo não posso substituir.

--N'esse caso, prescindo do seu favor... agradecendo-lh'o muito... Não será retratada minha filha.

--Eu receio ter sido grosseiro, minha senhora... Se v. exc.ª determina que seja eu o retratista d'esta linda menina, recebo a sua vontade como ordem...

--Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe não seria penoso conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.

--É muito penoso...

--Muito?... é admiravel!... E porquê?... Mereço-lhe a confiança de me dizer que motivos lhe dou para não ser digna testemunha de suas lagrimas?

--Nenhuns motivos, senhora D. Rosa... É que eu não tenho a tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as recordações d'essa mulher que amei como não posso tornar a amar... Já vê que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que promette fallar-me de Helena...

--Não lhe fallarei n'ella...

--Então seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre adiante dos olhos... Não posso mandal-a afastar da minha alma, para entreter-me em cousas futeis...

--Nem tudo é futil, senhor Paulo...

--Para mim... é. Não tenho vida que não seja uma insoffrivel saudade; mas acho esta dôr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco de boamente todas as felicidades que o mundo possa traiçoeiramente offertar-me...

--Traiçoeiramente...

--Sim... Creio que o mundo não póde offerecel-as d'outro modo... Tomára eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v. exc.ª... Preciso que me deixem, porque eu não procuro alguem. Será forçarem-me a soffrimentos com que não posso, e contra os quaes empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei como o homem sem patria, nem affeições, nem amigos.

--Não crê na amizade?

--Não, minha senhora... Eu tinha uma grande alma, cheia de todos os sentimentos bons; essa alma foi como um raio de luz amortecida no prestito funebre da filha do general... Apagou-se ao pé da sepultura... Não tinha senão essa alma...

--Nem espera resuscitar d'esse lethargo?

--Nunca mais.

--Nem emprega diligencias para isso?

--Nenhumas. Eu sei que o mundo não tem nada para mim...

--Nem o senhor Paulo tem nada que dê ao mundo?

--A compaixão para os desgraçados como eu, um sorriso de escarneo para as felicidades d'um dia, e um adeus invejoso áquelles que morrem... Bem vê que ainda sinto impulsos nobres no coração...

--Deseja a morte?...

--Procuro-a; mas entendo que é debil o poder das paixões nas organisações fortes... Eu lucto, ha dous annos, face a face, com uma dôr, que me não deixa cinco minutos de descanso, e vivo... vivo assim com o aspecto da serenidade, e talvez com o rosado juvenil d'uma saude perfeita... Não se morre de paixão...

--E que importaria morrer?

--Importava não sentir...

--Pois o senhor não crê n'outra vida?

--Não creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo, porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo da immortalidade, que consultava, a minha alma, além de incredula, sentia a cruel precisão de escarnecer a fé dos que nos mandaram crêr. Disseram-me que eu não cria, porque a fé era uma graça especial do Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraça, pedi, invoquei, suppliquei com fervor a fé. Esperei-a. Deixe-me rir, senhora, que este riso é um insulto bem merecido às minhas crenças... O homem é um verme. Deus não tem nada com este grão de areia, que lançou no oceano, a turbilhões, com a ponta d'um pé...

--Deve ser muito desgraçado...

--Não sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A immortalidade de que me servia?

--De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...

--Isso é falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A putrefacção, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a immortalidade a mim, se os vermes me não restituissem a mulher que teve um dobre a finados, uma oração mercenaria, uma lagrima do costume, e a eternidade do _nada_, que é a verdadeira eternidade?...

--Com uma razão tão forte é impossivel que não possa vencer os seus soffrimentos.

--Chama v. exc.ª a isto _razão forte_? É uma debilidade, minha senhora... Forte é a razão do homem que se dá voluntariamente a esperanças chimericas, e crenças sem critica... O forte é esse, que vence a propria razão... Fraco sou eu, que não posso subjugar o espirito...

--Nem com as consolações d'uma verdadeira amiga?

--O que é uma verdadeira amiga?

Fomos surprendidos por Alvaro de Sousa. Reparou no embaraço de Rosa, com ares desconfiados. Eu recebi-lhe os cumprimentos com a frieza não calculada dos meus habitos ordinarios. Continuei o retrato, com não sei que placidez incomprehensivel! Senti-me melhor do coração...

Agora é que eu me sinto incapaz de continuar esta longa carta... Creio que é longa e fastidiosa... Soffra, e tolere-m'a, minha querida senhora.

Até ámanhã.

De v. exc.ª

Dedicado amigo,

_Paulo_.

VI

_14 de outubro_

O retrato de Rosa estava concluido. Na tarde d'esse dia, Alvaro de Sousa procurou-me, agradeceu-me o emprego que eu fizera de todos os recursos da minha arte divina, e delicadamente deixou sobre a minha mesa um cartuxo de dinheiro. Não sei o que continha; porque, apenas o encontrei, depois que Alvaro se despedira, mandei entregal-o em sua casa.

Alvaro voltou no dia immediato, e instou pela razão de semelhante precedimento. Respondi-lhe, depois de importunado, que me dispensasse s. exc.ª de dar uma categorica explicação das minhas acções. Vi-lhe um sorriso de desconfiança, que me fez piedade. Estive quasi a pedir-lhe a definição do sorriso; mas não quiz culpar-me no erro, que lhe censurava a elle. Todo o homem póde chorar ou rir quando quizer.

Decorreram tres dias, sem o menor incidente, com referencia ao retrato da viuva. Hontem, porém, recebi a carta, que remetto a v. exc.ª, já que me impôz a obrigação de lhe não esconder os mais secretos incidentes d'esta minha attribulada existencia, que v. exc.ª segue, desde o berço, minuto por minuto. Communicando-lhe essa carta, entendo que não me deshonro. A mulher, que a escreveu, ou está deshonrada de mais para não soffrer nos seus creditos com semelhante revelação, ou está bastante pura para não soffrer no seu pudor, confiando-se á minha discrição, e á de v. exc.ª

«Já não sou de mim propria quando commetto a estranha temeridade de escrever-lhe. Separo-me das leis do meu sexo, e declaro-me muito forte na minha fraqueza para me abandonar loucamente á vontade caprichosa d'um sentimento, que póde deshonrar-me, mas que me absolve na consciencia.

«Escrevo-lhe, Paulo, porque não tenho esperanças de encontral-o n'esta casa. Quero deixar cahir este véo, com que me viu, porque tenho vergonha de parecer-lhe o que a minha razão me diz que não sou.

«Que julga de mim? Como tem avaliado o meu procedimento? Reputa-me amante de Alvaro de Sousa? Não quero essa consideração; renuncio a tal gloria, porque eu não sou amante de Alvaro de Sousa. Este homem entra na minha casa, e denomina-me prima. Intitula-me prima, porque dizem que minha mãe é casada com não sei quem que pertence á alta nobreza. Vi esta mulher; não pude amal-a; não pude reconhecel-a; e fui com ella rude como seria com uma pessoa estranha.

«Soube que a fortuna de meu pae a fizera elevar-se até ao ponto de nobilitar-se. Não me fez uma ligeira impressão esta mudança. Não a procurei nunca, e morrerei de indigencia antes de pedir-lhe uma dobra de seus velhos tapetes para resguardar do frio minha filha.

«Alvaro de Sousa tem-se-me offerecido para estabelecer entre mim e D. Anna do Carmo uma alliança filial. Revela um interesse extraordinario pelo meu futuro. Dedica-me extremos de irmão e encobre com muito fina astucia as suas intenções, se ellas são más.

«Não me importa saber quaes ellas sejam. Nada ha commum entre mim e este cavalheiro, senão uma amizade sem consequencias, e um commercio de frivolidades como é a troca de retratos, a que eu não ligo importancia alguma.

«Aqui tem o que eu sou para aquelle homem. Precisava abrir-lhe assim a minha alma, Paulo. O resto do mundo deixo-o julgar a seu bel-prazer; não me canso até em sondar a indifferente opinião da sociedade a meu respeito.

«A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias, vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.

«A sympathia entre dous desgraçados deve ser abençoada por Deus. Não fuja d'uma mulher que póde, se não dar-lhe consolações, recebel-as ao menos. Seja meu amigo, não como foi de Helena, mas como póde sêl-o d'uma pessoa, que desejára n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.

«Não ouso pedir-lhe nada, não tenho sequer coragem de implorar-lhe duas linhas em resposta a esta carta, que me sahiu tão ingenua do coração, que nem quero tornar a vêl-a, para que o artificio da fria cabeça não vá manchar a pureza natural com que a escrevi.

«Adeus, Paulo. Não desdenhe a inutil estima, que lhe offerece

_Rosa Guilhermina._»

Esta carta não me impressionou. Quasi que me não occupei senão do estylo em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de gélida atonia. Tenho-os assim, e então a minha alma é dura, o meu coração paralysa, os meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mãos para contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que caracterisa as feições da minha indole.

O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu não pensei que devia responder; por isso não tive o cuidado de saber se alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o subir. Perguntei-lhe se era forçoso responder; disse-me que tinha ordem de esperar até que eu lhe désse resposta, ou dissesse que a não tinha.

Escrevi...

Não me lembra bem o quê. Penso que eram estas as ideias:

Que eu não mostrára o menor interesse em conhecer indiscretamente a natureza das ligações que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de Sousa;

Que me eram tão indifferentes depois como antes, mas que muito ingenuamente estimava que ellas fossem taes, que nunca a excellente senhora tivesse de soffrer por ellas;

Que acceitava a offerta da sua estima, porque já não podia aspirar a outros triumphos no coração das mulheres, que sabiam separar a amizade do outro sentimento que a hypocrisia vestiu com os arminhos emprestados d'uma affeição nobre;

Que, na minha posição, não podia dar-lhe mais consolações do que as muito poucas que um homem qualquer póde offerecer no serviço de qualquer senhora, que precisa d'um criado.

Penso que foi isto, pouco mais ou menos, o que eu escrevi. São passadas vinte e quatro horas. Não tenho nada a accrescentar a este episodio, e creio que terminará aqui.

Não concebo bem o que esta senhora quer de mim! Não creio n'estas fascinações momentaneas, porque as não entendo, ou o meu coração está muito abaixo d'esses vôos.

O que em verdade lhe digo, minha boa amiga, é que não preciso recordar os juramentos que fiz a Helena, dous dias antes da sua morte, para vencer a impressão que Rosa Guilhermina me poderá ter feito. É nenhuma. Posso esperar com firmeza e animo frio a perseguição. Nem, ao menos, a lastimo, porque a febre da imaginação ha de mitigar-se, e, quinze dias depois, esta mulher terá por mim um sentimento de resentido orgulho que ha de salval-a. Entende-o assim?

De v. exc.ª

Grato amigo,

_Paulo_.

V

_19 de outubro_

Retirou-se, n'este momento, de minha humilde casa o senhor Alvaro de Sousa.

S. exc.ª é um lastimavel mancebo! Como seu primo, minha boa amiga, sinto que elle seja o incentivo irrisorio d'esta carta.

Entrou de chapéo na cabeça na minha officina.

Vou tentar recordar o dialogo, que tivemos.

«--Venho exigir do senhor uma prompta resposta--disse elle, dobrando o punho d'uma bengalinha com a ponta.

«--Tenha a bondade de fazer a pergunta--respondi-lhe eu, convidando-o a assentar-se no canapé, inutilmente.

«--O senhor tem algumas intelligencias com D. Rosa Guilhermina?

«--Não respondo.

«--Quer dizer que tem?

«--Não quero dizer nada. Digo que não respondo.

«--Mas eu preciso que responda sim, ou não.