A Filha do Arcediago Terceira Edição
Chapter 16
Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes sérios, apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em Hespanha, e entrou como portuguez distincto nas primeiras casas da capital. Encontrou ahi fidalgos portuguezes, que o não conheciam; mas respeitavam-no pelos appellidos, e não se recusavam a chamar-lhe primo, visto que os Pereiras Forjazes eram ramificação do heraldico tronco dos condes da Feira.
Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em alguns mezes alcançára uma publicidade que lhe não convinha. O seu nome era repetido de mais nos salões. As suas conquistas amorosas excitavam invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu abandonar Hespanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver bem, sem excitar curiosidades funestas.
Em Paris deu-se como hespanhol, e era conhecido por D. Affonso Vilhegas. Fallava correntemente o hespanhol, associára-se a uma partida de jogadores da sua patria adoptiva, e engrandecera o seu peculio, que já subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fôra abençoado!
Não tivera, até então, alguma noticia de sua mulher. Não lhe convinha solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residencia. O coração tambem lh'a não pedia.
Passeava uma tarde nos _boulevards_, e viu um homem, que lhe não era de todo estranho, e reparava muito n'elle. Perguntou-lhe, em francez, se era hespanhol.
--Sou portuguez--respondeu o cavalheiro.
--Estimo muito... Eu gosto dos portuguezes. Viajei alguns mezes na sua terra, e sympathisei com as mulheres, que são quasi todas gordas e vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.
--Tem razão... mas, pela pronuncia, parece-me hespanhol, e as mulheres da Hespanha não são inferiores ás de Portugal. Não tem razão de invejar a minha patria... Que cidades conhece em Portugal?
--Conheço as que lá ha que mereçam esse nome... Lisboa e Porto.
--Esteve no Porto? É uma bonita cidade, não é?
--É muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao escurecer. Não ha nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita tranquillidade de espirito. E na semana sancta vêem-se as mulheres, quando passam as procissões.
--Conheceu alguma no Porto?
--Apenas uma. Como fui recommendado a um negociante chamado Antonio José da Silva, tive occasião de vêr de passagem uma bonita rapariga, que fallava em estylo de Corneille.
--Pois conheceu essa senhora?!
--Perfeitamente. Que é feito d'ella? É feliz?
--Penso que não. A sua fortuna está perdida. É por causa d'ella que eu vim a França.
--Sim? é notavel a coincidencia!... Pois senhor, veja se eu posso servir-lhe de alguma cousa com o meu pouco valimento... Que desastre foi esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...
--E era. O negociante morreu ha dez mezes. A viuva liquidou a sua fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ella em uma casa commercial franceza, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa acaba de fallir, e o dinheiro de Maria Elisa está perdido, segundo creio.
--Coitada...! fica pobre por consequencia...
--Pobrissima...
--E tem filhos?
--Não, senhor.
--Nem familia?
--Tem em sua companhia uma amiga e a filha d'essa desgraçada senhora, que tambem foi rica, e está reduzida a nada...
--Tambem tinha os seus bens de fortuna na casa commercial que falliu?
--Não, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deploravel...
--Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que não sejam tão infelizes como o senhor as pinta...
--Pois não digo metade das desgraças que as esperam.
--E o marido d'essa amiga da viuva... naturalmente é um perdido que lhes não póde valer de nada?...
--Esse homem morreu... ou ha todas as probabilidades para o julgar morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladrão...
--Era ladrão? Oh diabo! então foi bem feito matarem-no!
--Roubára em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuia algumas propriedades, de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A viuva do negociante, que o senhor conheceu, não lhe dava tempo a scismar nos seus infortunios; mas agora a situação d'ambas é desgraçadamente igual.
--E o seu procedimento?
--O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e é natural que a outra viuva a acompanhe.
--Então o senhor que veio fazer a Paris?
--Vim tentar o ultimo esforço; mas inutilisei despezas e trabalho. Pedi que se indemnisasse a viuva da massa fallida; mas o tribunal do commercio não deferiu ao meu requerimento.
--Quando parte o senhor para o Porto?
--Ámanhã deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.
--Póde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio José da Silva?
--Com muito boa vontade.
--Tenha a bondade de acompanhar-me.
Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D. Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras sobre o Porto, entregues á ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma carta ao procurador, accrescentando:
--Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua sorte.
O procurador, aturdido como é natural, desejou n'aquelle momento vencer como n'um vôo de espirito a distancia, que o separava de Maria Elisa. Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas não conseguiu elucidar-se mais do que tinha sido.
Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse á sua imagem representada no espelho: «Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa acção é o unico prazer sem mistura de dôr. É a primeira acção boa que praticas, meu caro Augusto! Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra, porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos da loucura. Se vaes dizer á sociedade que te dê os meios para sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te trabalhar. Pois então, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.»
Este dialogo, com o seu _unico amigo_, foi interrompido por uma personagem, que apeára d'uma sege e mandára adiante o seu nome: era o visconde de Bellarmin.
--Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.
--É necessario que te retires de Paris immediatamente.
--Porquê?
--O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de Hespanha, que combinas com o de França uma reacção. Ha ordem de prisão para ti.
--Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser prêso como homem temivel a duas nações. Ainda agora me lembro que posso ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando VII!
--Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens passaporte para Portugal.
--Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Hespanha, e perdôo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que volto do Japão. Acceitas?
--Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionario.
--Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!... Avia-te...
Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito franciscano, a face amarellecida por não sabemos que tinturas finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar para Cadiz.
Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!
O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava em Cadiz, onde as côrtes se refugiaram com Fernando VII, que estava prêso, a pretexto de demencia, por não ter sanccionado a constituição.
Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e offereceu, como fanatico pelas prerogativas reaes, e inimigo encarniçado da França, o seu apoio, e o seu braço, sendo necessario.
Tal fôra a sua enthusiasta eloquencia, que os chefes da reacção, sem discutirem a pessoa, abraçaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o segredo dos seus planos, acclamando-o unanimemente seu secretario.
Era necessario fallar ao rei, que os liberaes retinham com sentinella á vista. Empreza difficilima! Foi pedido o parecer do frade missionario, em quem os fanaticos reconheciam o providencial redemptor de Hespanha. Antes que elle abrisse a bôca, já todos sabiam que a sua palavra seria a salvação, e as suas ordens immediatamente executadas.
Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. Não respiravam os circumstantes. Fixavam-se todos os olhos nos labios do moço frade, quando elle, antes de pronunciar uma palavra, deixou cahir o habito, e deixou vêr um fardamento completo de general francez.
As escarlates physionomias dos conspiradores empallideceram, murmurando um prolongado _ah_!
--Não me julguem algum magico--disse Augusto Leite, sorrindo bondosamente.--Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para vestil-o um dia, com a consciencia de ter servido a Hespanha, fortalecendo-lhe a sua independencia, e defendendo-a das impias aggressões da França. É necessario fallar a Fernando VII. Eu irei apresentar-me ás côrtes, e direi que sou um enviado do duque de Angouleme, que, a estas horas, bate ás portas de Madrid. Direi que o meu fim é capacitar o rei a acceitar a constituição, e serei conduzido pelos interessados ao pé do monarcha.
--E depois?--exclamaram algumas vozes.
--Depois da minha conferencia a sós com o rei, retirar-me-hei dizendo ás côrtes que Fernando VII está doudo, e não concebeu as minhas razões. As côrtes, que por força precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-hão d'uma intelligencia muito fina, ou d'uma astucia tão cavillosa como a sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dirá ao seu medico que sente uma forte dôr de cabeça; duas horas depois sentirá uma convulsão, e cahirá...
--Morto?!
--Apparentemente morto. O medico virá dizer ás côrtes que o rei morreu d'uma apoplexia fulminante. Far-se-hão os funeraes. O cadaver será transportado para o palacio municipal. Tres horas depois que o julgarem morto, o rei resuscitará, e, á frente do exercito fiel, dirá: «A Providencia restituiu ao povo hespanhol o seu monarcha!»
Os venerandos frades sacudiram a cabeça em ar de pasmo. A alguns afigurou-se-lhes que o seu irmão era o proprio diabo, que vestira o habito do serafico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que elle era, desde que o Senhor o expulsou do céo. Os mais circumspectos, encarando-o com o respeito da superstição, por isso que o reputavam embaixador d'um poder sobrenatural, não ousaram interrompel-o no extenso discurso, que não publicamos na sua integra, porque na sala do conciliabulo não estiveram tachigraphos, que nos transmittissem o discurso completo.
O que sabemos é que Augusto Leite n'esse dia apresentou-se ás côrtes, pedindo consentimento para fallar ao rei como enviado do duque de Angouleme, commandante do exercito francez.
Perguntado pelos meios que empregára para chegar desconhecido até Cadiz, respondeu que embarcára n'um porto da França, com passaporte que apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As côrtes acreditaram o enviado, e permittiram-lhe a entrada no carcere de Fernando VII.
O rei, quando lhe foi annunciado um emissario francez, declarou que o não recebia, sem ter ao seu lado uma peça de calibre 40, com morrão accêso. Esta dificuldade é que o marido de Rosa Guilhermina não previra. Redobraram as instancias inutilmente durante tres dias, ao cabo dos quaes o duque de Angouleme, defronte de Cadiz, bombardeava a cidade.
Augusto Leite, empregando a corrupção por meio do ouro, fez saber ao rei que o enviado francez era um partidario do congresso sacerdotal, que vinha offerecer á Sua Magestade valiosos serviços para a sua fuga do poder das côrtes.
O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro arcebispo de Toledo, graça que desde logo lhe confirmou com a sua real palavra.
Augusto Leite agradeceu com reverente effusão a graça, e offerecia ao rei a beberagem que devia paralysar-lhe a vida apparentemente, quando se ouviram exteriormente gritos que annunciavam a fuga do exercito hespanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.
O populacho dava _morras_ aos membros das côrtes; e os partidarios da constituição, que não sabiam as intenções pacificas da França, luctavam desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.
Augusto Leite, persuadido de que era já desnecessaria a realisação dos seus planos para a soltura do rei, não lhe ministrou o liquido, e dava graças á estupida fortuna que o collocára ao lado de Fernando VII, no momento da sua liberdade.
Um membro das côrtes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e cortada infallivelmente a sua cabeça um momento depois, resolveu um d'esses attentados sanguinarios, que são o caracter do povo hespanhol nas crises revolucionarias, resolveu o regicidio.
Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito á camara do rei. O primeiro que se lhe antepôz foi o supposto official francez. Recuou diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da desesperação, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração. Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.
O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia immediato, não fosse arrancado á enfermaria militar para padecer morte de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo, Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado com grandes honras por ter defendido, á custa da propria, a vida do seu rei.
O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos martyres franciscanos; mas um francez do estado maior do duque de Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de frade ao seu amigo por mil libras.
Ora pois, d'este sugeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza á eternidade individuos sufficientes para chamarem a attenção devota dos pios leitores em dia de fieis, defuntos.
CAPITULO XXIX
Maria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Sério, unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fôra enviado de Paris, melhorára a condição precaria das afflictas senhoras, que se viam na dura precisão de entrarem n'um convento como criadas de freiras.
Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abençoaram Augusto Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para tornar a Portugal.
Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o procurador que fallára com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na mesma casa, e soube que esse homem se retirára de França um anno antes.
Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D. Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.
Esta nova matou todas as esperanças das pobres senhoras. Pobres outra vez! Choraram muito, como é natural, e resolveram abraçar a baixa profissão de criadas de convento.
Mas eram bellas ainda. A desgraça, ao passar por ellas, nem lhes desbotára o viço da formosura, nem lhes arrefecera de todo o coração. Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas viessem ao mundo com o seu sorriso de seducção?
Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias, á mesma hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu quarto, onde ella, na hora das saudades, á luz crepuscular, costumava sentar-se com sua filha nos braços.
Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima palavras que ella não entendeu, nem quiz entender. Restirára-se a contar á sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora, dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava o fidalgo enamorado.
No dia seguinte, é certo que não veio á janella; mas, por entre as cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que não deu por isso, parou um momento, e disse ella á sua amiga que o vira suspirar. Se isto é verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim, era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja feita, não encarecem o genero; barateiam-no de modo que não ha consumidora que tenha razão de queixa.
E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe não dava em troca um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.
Hão de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e generoso, e dado a prazeres que lhe não arruinavam a bolsa nem a saude. Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonára sériamente pela esquiva viuva de Augusto Leite.
Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo desprêso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi ao meio dia; mas, ás quatro horas, o soberbo moço anafava cuidadosamente os cabellos, para não ser suprendido, em desalinho, no Sério.
N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa, com a amiga, e a filhinha que brincava com um cão de regaço. O cãosinho, que não estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu á ama, na direcção da casa. As senhoras chamavam-lhe _Joli_, que era, por esse tempo, o nome favorito de todos os cães; mas o rebelde quadrupede não olhava para traz.
Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do cão, apeou-se gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no collo, e foi conduzil-o ás damas, que receberam a attenciosa delicadeza com o rubor na face.
O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. Já não fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim um respeitavel marido.
N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metáphoras, e vêr-se-ia na precisão de incommodar a mythologia para responder-lhes. Agora, já não. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas maravilhas aereas. Fallavam como nós, importavam-se pouco dos livros, sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente que tinham sido embrutecidas pela desgraça.
E se não vejam:
--Agradecemos muito a sua delicadeza--disse Maria Elisa, recebendo o cãosinho (não tenho a certeza se era cadelinha) das mãos de Alvaro.
--Só este irracional--disse Alvaro, mastigando a fineza--deixaria de obedecer ás ordens de suas amas. Assim mesmo peço que não seja castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido desobediente seria bastante castigo.
--Muito agradecidas ás lisonjas de v. exc.ª--atalhou Maria Elisa, emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da menina.
--Não é lisonja, minhas senhoras. O que eu digo é o menos que se póde dizer, e espero acreditem que não sei dizer tudo que sinto. Aquella senhora parece aborrecer-se da minha presença...
--Não, senhor--disse Rosa.--A presença de v. exc.ª não aborrece... É porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...
--Que é linda como sua mãe... Que annos tem?
--Quasi cinco.
--Em tão tenra idade é admiravel a esperteza d'esta creança!... Venha cá, minha menina... como se chama?
--Assucena--disse a creança.
--Que lindo nome!... Uma _rosa_ devia produzir uma _assucena_... É minha amiga?
--Sou.
--É? Já tenho uma pessoa que seja minha amiga!... Sou mais feliz do que pensava... Quer ir a minha casa?
--Quero.
--Pois hei de mandal-a buscar um dia. Minha mãe gosta muito de creanças... V. exc.ª dá-me licença que ella vá?
--Pois não! É muita honra...
--N'esse caso, amanhã, se me permitte...
--Quando aprouver a v. exc.ª
Ora aqui está como começou o namoro. No dia seguinte, Alvaro de Sousa veio de carruagem buscar a menina, subiu á sala, como era natural, e não viu Rosa que se fechára no seu quarto banhada em lagrimas. Quiz saber a causa de tal soffrimento, e disse Maria Elisa que a sua amiga tivera noticia de estar viuva.
--Viuva a reputava eu, ha muito!--atalhou Alvaro.
--Não o era... Convinha que esse boato corresse...
O fidalgo deu a entender que sabia a razão d'esse boato, e retirou-se sem _Assucena_, que não podia, durante o lucto, sahir de ao pé de sua mãe. Á tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e offerecer o seu prestimo.
Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.
Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo não se lhe dava de recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum espirito. Se vivesse hoje, de certo não era ferreiro; escreveria folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo, esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez então, e que ha de fazer-se no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro, não escrevia romances. A estas horas (são sete e meia da tarde) estava eu rezando vesperas em algum côro de frades carmelitas, para que tenho uma vocação imperiosa.
Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lêr, confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. São textuaes. Podem vêr-se em minha casa, desde o meio dia até ás quatro horas da tarde. Quem as escreve é um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo furtou á desgraça para cultivar a arte. Quem as recebe é uma senhora, que ainda vive.
CARTA I
_22 de setembro de 1824_
Minha estimavel amiga:
Não posso ser indiferente ao interesse, que v. exc.ª tem na minha felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas são a unica indemnisação que tenho das compridas horas de uma vida sósinha, escura, e despovoada de todas as bellezas, se é que algumas a existencia póde ter para mim.