A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 15

Chapter 153,822 wordsPublic domain

--Já não... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso esperar do céo...

--E eu tenho-a pedido tantas vezes!...

--Tambem soffres, Rosa?! Não tens um esposo amado?

--Não.

--Como não? pois não casaste por paixão?

--Casei... e depois, vi que me tinha perdido...

--Pois que? elle não te estima?

--Não... arrasta-me na sua desgraça... Meu marido é um homem perdido... um ente sem honra, nem futuro, nem presente.

--Pois teu marido não está a formar-se em Coimbra?

--Já não trata d'isso... Meu marido é um jogador.

--Jogador!

--Sim, jogador de profissão... Gastou quanto podia gastar do meu patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao Porto vender aquella prata, que tu déste a minha filha, depois de a comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que não tenho, noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive, porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphãos arbitrou para o sustento da minha familia... Aqui tens a minha vida... Estou pobre... Maria Elisa!...

--Tu não estás pobre, Rosa! Não me falles assim, que me fazes chorar! Tu não estás pobre... Eu preciso que te esqueças de todo o nosso passado, para entrares de novo no coração de Elisa... Queres ser minha? Eu estou viuva, e viuva tambem tu estás... O teu coração não é já d'esse homem... É da tua filha, e meu; a tua filha é minha e tua, sim?... Não chores... Troquemos entre tres as nossas affeições todas... Vivamos n'uma só vontade... Foge para os meus braços, que não tem no mundo ninguem que os queira, a não seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que n'estes ultimos dous annos me tem sido tão negra... tão negra... Rosa! Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... Dá-lhe algum prestimo... Só tu podes, se vieres ser outra vez minha irmã, explicar-me a razão por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa menina... Vai buscal-a... Vai... Não me digas que não... que me matas... Essa mesada que tens dá-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre, mas foge-lhe tu, que não tens ainda uma nódoa na tua vida... Vem ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...

--O quê?... que tens tu sido?...

--Uma desgraçada...

--Tambem eu... que culpa temos nós?!

--Eu?... muita!... Calemo-nos, Rosa... Olha aquelles sinos pezam-me sobre o coração... Tenho mêdo d'aquelles sons... Se meu marido tivesse sido n'esta vida um homem, como eu deveria ter encontrado um, eu pensaria que aquelle dobre era a voz d'elle que me accusava da eternidade... Ai!... tu ignoras a minha vida? Parece impossivel!... Nunca ouviste fallar de mim como se falla d'uma infame mulher?

--Nunca...

--Pois pergunta ao mundo o que eu fui... Não, não perguntes nada... Ignora tudo. O meu coração para ti está puro... Restituo-t'o como t'o roubei, ou tu o lançaste de ti para fóra... Não te importem os meus defeitos... Foi um sonho horrivel! Acordei nos teus braços... quero aqui viver... Deixas-me esquecer aqui do muito que tenho soffrido?...........

........................................................................

Rosa Guilhermina recebia com lagrimas as meias confidencias de D. Maria Elisa, quando lhe disseram que seu marido a procurava, por saber que ella estava alli.

A surpreza brutificou-a.

Maria Elisa mandou subir Augusto Leite, e reanimou a sua amiga do lethargo em que a deixou esta apparição tão pouco desejada. Fôra preciso muito para que a pobre senhora aborrecesse seu marido.

Não bastariam para isso as dissipações que elle fizera do seu patrimonio. A mulher perdôa sempre os desperdicios de seu marido, com tanto que elles não envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo de preço aos amores alheios que se vendem.

Não fôra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa, deixando a sua dona só os indispensaveis.

Estes vexames nunca se perdôam. A esposa, assim ultrajada, póde soffrel-os calada como martyr, mas não poderá nunca reservar um resto de affeição ao homem, que a humilhou assim.

Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu marido, que não vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou. Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto. Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e farpáda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do brilho da desesperação, fixavam Rosa com ar ameaçador.

Cruzando os braços com a importancia tragica d'um marido de tragedia, que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite disse, aproximando-se:

--Parece que me não conheces, Rosa?

--Vens tão mudado do que eras!... não admira que te não conhecesse, Augusto!

--Pois sou eu mesmo... Vejo que não sentes grande prazer com a minha visita...

--Não te esperava... Como ha seis mezes me não escreves...

--Entendeste que não havia nada commum entre nós... Pois, minha amiga, sou teu marido, apesar de ambos nós...

--Sinto muito que o sejas a teu pesar... Eramos ambos bem mais felizes, se o não fosses.

--Parece-te? a mim tambem; mas já agora o remedio é seres minha mulher, e eu teu marido...

--Fallas-me d'um modo que me fazes gelar o coração!... Que te fiz eu para me tratares assim?

--Eu sei cá o que me fizeste!... não me fizeste nada... Penso que me tornaste mais desgraçado do que eu era...

--Vejo que sim; mas não era essa a minha intenção.. Eu quiz fazer-te feliz; se o não consegui, é porque não pude, nem tu me disseste o que eu devia fazer para a tua felicidade...

--O que me perdeu foi o teu dinheiro...

--Não tive culpa, Augusto...

--Eu, se fosse sempre pobre, não me illudia com as esperanças do teu patrimonio, e trabalharia, estudaria para chegar a ser homem...

--Que hei de eu fazer-te, Augusto!... Eu nunca te aconselhei que arruinasses o que te dei; se soubesse que o meu dinheiro te fazia infeliz, lançal-o-ia ao mar para me casar pobre comtigo... Mas, se eu fosse pobre, de certo me não quererias...

--Não sei, não me importa saber, todas as conjecturas agora são estupidas...

--Perdôa as minhas conjecturas... Eu d'antes era espirituosa, segundo tu dizias, que eu nunca o acreditei... Agora sou estupida, é porque a desgraça embrutece...

--Nada de ironias... Sabes que estou pobrissimo?

--Não sabia; mas acredito que o estás.

--Pódes avaliar a minha situação?

--Posso; porque eu tambem estou pobrissima.

--Menos que eu...

--Mais que tu... Tenho uma filha que sustento, e cheguei á extrema dôr de querer comprar-lhe um vestido, e tive de vender um meu, para que a minha filha te não envergonhasse... Avalias tu agora a minha situação?

--Diz ao teu tutor que te entregue o que tens, e tu administrarás...

--Já lh'o suppliquei muitas vezes. Não me concede cinco reis além da mesada que me arbitraram... Não posso conseguir nada... Emprega tu os meios, que eu concedo-te tudo; e, se não podéres alcançar mais do que eu, desde já te cedo toda a minha mesada, e eu e minha filha recorreremos á caridade da minha amiga Maria Elisa.

--Não quero caridades de ninguem: quero aquillo que é meu, quando não enterro uma faca no coração do tutor...

--Cala-te, Augusto, que me pareces demente!

--É porque eu realmente estou louco... Preciso sahir d'esta desgraçada vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando não vou com um bacamarte para as estradas...

--Augusto!--exclamou ella, tirando-lhe a mão do cabo do punhal, que empunhára instinctivamente no bolso interior do casaco.

--Tu não sabes onde a desgraça é capaz de me levar... A sociedade fez-me assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; não roubei nada a ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, não dér um conto de reis, sou prêso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.

--Oh meu Deus, que vergonha!...--disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e escondendo o rosto entre as mãos.

--Nada de exclamações... Esse remedio não me presta de nada... Visto que tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me queres salvar... Não me respondes?

--Augusto!... eu não posso responder-te já... Deixa-me possuir bastante do meu infortunio, para perder a vergonha...

--Isto não soffre delongas... Quero a resposta já...

--A resposta dou-lh'a eu--disse Maria Elisa, que apparecera de improviso.

Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se logo, porque lhe faltavam forças para acolher-se ao seio da sua amiga.

Maria Elisa veio ter com ella, abraçou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:

--Queira demorar-se, que eu volto já.

Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o visse. Não era loucura. Era o contentamento de se vêr possuidor d'um conto de reis, com o qual contava já. Era a esperança de transportar-se com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que não poderia tornar a Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braços, espreguiçando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: «ha um demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de mostrar-lhe que sou agradecido...»

Maria Elisa voltou. Sentou-se no canapé, e fez signal a Augusto, offerecendo-lhe uma cadeira:

--Senhor Augusto, v. s.ª vai receber da minha mão uma quantia de dinheiro, que me não pertence, nem a sua mulher. É uma generosidade de sua filha, de que eu sou interprete...

--De minha filha?!

--Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de recebel-a, v. s.ª lh'a entregará. São tres contos de reis em notas. É um deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s.ª procure reconquistar a sua honra, e não lhe faltarão recursos para um dia entregar a sua filha esta quantia augmentada...

Augusto, balbuciante de prazer, não avistando d'um relance toda a extensão do seu futuro, murmurou:

--Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.

--Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.

--Qual?... a viuva de meu tio manda, não pede...

--A viuva de seu tio nem manda, nem pede nada. Repito-lhe que sou absolutamente estranha a esta troca de favores que faz o pae com sua filha. O que em nome d'essa menina lhe peço, é que consinta que ella e sua mãe vivam na minha companhia.

--É muita honra para mim, minha senhora. Eu vou fazer uma pequena viagem por causa de certos interesses, e durante a minha ausencia não posso confiar a mais valiosa protecção minha mulher e minha filha.

--Vai viajar?... Sua senhora já o sabe?

--Ainda lh'o não disse.

--Pois então... não lh'o diga... Salvo se tem motivos fortes para dizer-lh'o...

--Não tenho alguns... Era simplesmente despedir-me...

--N'esse caso, eu encarrego-me de fazel-a sciente do seu adeus, e v. s.ª de qualquer paiz lhe escreverá...

--Minha senhora... dispõe do meu quasi inutil prestimo?

--Empregue-o, que tem muito, em ser um digno marido da minha amiga, e um digno pae da menina que adopto como minha sobrinha. Além dos vinculos de parentesco que o prendiam a meu marido, ha outros mais consistentes que são os da amizade, que consagro a sua mãe.

........................................................................

Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o coração alvoroçado de prazer, foi abraçar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na soffreguidão d'um beijo: «És minha para toda a vida!»

CAPITULO XXVII

Sigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha dão a Maria Elisa a felicidade, que ella lhes remunera com afagos.

O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal, disse algumas palavras a sua mãe, e mandou preparar a inseparavel moçoila, que o acompanhava, na boa e má fortuna, havia quatro annos.

Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sêda escarlate, chapéo de guizos, um par de pistolas, um cobrejão, e dous cavallos de baixo preço.

Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chôpa debaixo da perna, esporeando o cavallo, á laia de cigano, caminhava a par com ella.

N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mézinha para matar as _bichas_ dos pequenos.

Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. «Christão ás pulgas!» deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinario, como o fatal «Christão ás feras!»

Era alta noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetaceos áquellas pulgas, de horrivel recordação. No sobrado immediato ao da possilga em que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos gallegos residentes no Porto.

Descompunham-se em raivosas apostrophes por causa das mantas, que algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se, esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas, e vieram de encontrão á porta do meu quarto, que não resistiu ao choque, e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de camisa, que me pareciam, á luz mortiça da véla, executarem uma dança macabra, uma mazurka de demonios!

Eu levantei-me em pé sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello, e presenciei com os cabellos erriçados o desfecho d'aquella tremenda lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o meu quarto campo neutro.

N'esse mesmo quarto, ás duas horas da noite, tambem o senhor Augusto Leite recebeu uma inesperada visita; mas não de gallegas em guerra crua. Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio cadete, que o leitor conhece, e reforçados por alguns meirinhos do corregedor, e um especial enviado do regedor das justiças.

Já soubemos que Augusto Leite roubára em Lisboa uns brilhantes. A razão por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.

Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? Não é bem liquido, e eu não quero inventar, porque não tenho necessidade de deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua admissão á academia. Eu, de mim, para não duvidar de nenhuma das explicações, acredito-as ambas, e não offendo os diversos opinantes.

O que devem todos acreditar é que Augusto Leite dispensou á condessa o trabalho de pôr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico, visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres horas, trinta mil cruzados em casa do barão de Quintella. Os curiosos averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um judeu na rua dos Fanqueiros comprára na vespera por trinta mil cruzados uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorsão, perguntando se reviviam os tempos nefastos de D. João III; offereceu-se voluntariamente para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o procurador da condessa respondeu: _res ubicumque est sui domini est_.

O judeu não ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa legislação, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o ladrão.

Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a pé, sem dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro mezes, não sabemos por onde, até que o vimos entrar em casa da viuva de Antonio José da Silva.

Tornemos agora a Casal de Pedro.

O enviado do regedor das justiças bateu á porta da estalagem, e perguntou que passageiros pernoitavam alli.

--Dous almocreves, o recoveiro de Vianna, um passageiro do Porto, com sua mulher, e um criado.

--Abra lá a porta--disse com a costumada intimativa o executor da lei.

Abertas as portas, os meirinhos encaminharam-se para o quarto do passageiro. Augusto Leite ouvira as perguntas. Saltára fóra da cama para fugir, mas não conhecia um palmo da casa fóra do seu quarto. Antonia Brites, companheira dos seus trabalhos, lembrou-se d'alguns sanctos, que conhecera na infancia, e incommodou-os com as suas orações. O antigo traductor de novellas não lêra cousa que lhe servisse de modelo para similhante conflicto. Quiz precipitar-se da janella, mas viu na rua os cavallos em linha. Recuou diante d'um sacrificio inutil, e appellou para os extremos.

Os meirinhos entraram, e viram uma mulher de joelhos com as mãos erguidas, e um homem de semblante feroz com duas pistolas aperradas.

O estalajadeiro, que caminhava na frente com a candeia, fez dous passos á rectaguarda, e declarou-se neutral. Os meirinhos, que tinham á vida o amor suficiente para viverem oitenta annos mais, não foram mais adiante que o prudente estalajadeiro. Augusto conservou-se na postura ameaçadora, fuzilando dos olhos um clarão mais vivido que a candeia tremula do petrificado taverneiro.

Um dos meirinhos, emquanto os outros voltavam as costas, veio á rua, e disse que o homem não era para graças. O cadete apeou, e subiu com dous soldados. Foi á porta do quarto, e encontrou o athleta na sua immobilidade sinistra. Deu-lhe voz de prêso, e viu que o ladrão era surdo, ou rebelde á lei.

--O melhor é botar-lhe as unhas--murmurou um soldado.

--Agarra-o, _trinta e quatro_!--disse o cadete.

O _trinta e quatro_ entrou no quarto, e, quando lançava mão aos copos da espada, sentiu um corpo duro bater-lhe na testa. Descarregou ainda um golpe, e foi de bruços atraz da espada que bateu no sobrado. Estava morto.

O camarada do _trinta e quatro_ correu em defeza do seu companheiro. Descarregou duas cutiladas na cabeça de Augusto; mas, á terceira, sentiu fraquear-lhe o braço, e veio recuando, cahir, com uma bala no coração, aos pés do cadete.

Os outros soldados tinham subido, e atropellavam-se á entrada do quarto. Augusto Leite, coberto de sangue, defendia-se debilmente com a chôpa, que vencia o alcance das espadas. Os soldados, arrefecidos pelo aspecto dos dous camaradas mortos, não ousavam affrontar o aço da chôpa, que algumas vezes sentiram resvalar-lhe na farda, deixando-lhe na pelle um ligeiro ardor, que depois se exacerbava com a humidade do sangue.

O cadete, envergonhado da cobardia dos seus, diante d'um só homem, entendeu que salvava a sua honra, desfechando uma clavina no peito de Augusto Leite. Ao desfechal-a viu interpôr-se-lhe um vulto. Era Antonia Brites, que vinha pedir-lhe de joelhos que não matasse Augusto. Não chegou a pronunciar a primeira palavra. Recebeu a bala, que havia de matar o marido de Rosa, e cahiu pedindo confissão. Deus lhe levaria em desconto das suas culpas o bom desejo de reconciliar-se com o céo, porque fechou os olhos antes de vêr o padre.

Augusto, impellido pelo instincto da vida, saltou da janella ao quinteiro com tal destreza, que as espadas não poderam tocar-lhe. O quinteiro estava deserto de homens, e os cavallos soltos entretinham a fome no tojo. A comitiva correu atropelladamente a impedir a fuga. Quando chegaram ao quinteiro, meirinhos e soldados, qual d'elles mais corajoso, o que viram foi um cavallo de menos, e na calçada fronteira as faiscas das ferraduras do que fugia. Alguns soldados quizeram montar; mas os cavallos assustados pelo salto de Augusto ao meio d'elles, não deixavam estribar, e jogavam de garupa com mau resultado para o meirinho geral, que perdeu ahi os tres unicos dentes que possuia.

--Já se não pilha!...--disse o cadete.

--Agora é vêl-o ir--accrescentou um soldado.

--Vamos ao quarto tomar-lhe conta das malas--disse o enviado do regedor das justiças.

Entraram no quarto. Abriram uma pequena mala de couro, e umas bolsas de hollandilha onde encontraram alguma roupa branca. Dinheiro, nem cinco reis. A volumosa carteira com tres contos menos duzentos mil reis, que o sobrinho do senhor Antonio José da Silva gastara em cavallos e pistolas, e fato, levava-a elle no bolso da jaqueta de pelles.

De madrugada os executores da lei voltavam para o Porto, com os dous cavallos de Augusto Leite.

Os tres cadaveres foram enterrados no adro da igreja parochial, porque o vigario duvidou sepultal-os em sagrado, visto que não traziam signal de christãos, como cruz, nominas, bentinhos, veronicas ou outro qualquer distinctivo da fé catholica.

_Relação das pessoas que já morreram n'este romance_

O mestre de latim 1

A senhora Escolastica 1

O arcediago 1

Uma velha da viella do Cirne, cujo nome me não lembra 1

O senhor Antonio José da Silva 1

Antonia Brites, amante de Augusto Leite 1

Dous soldados de cavallaria 2

Somma total 8

Continuarão a morrer convenientemente.

CAPITULO XXVIII

Augusto Leite quando chegou á Barca do Lago ia a pé. O cavallo cahira rebentado, e o cavalleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos que recebera na cabeça. Não lhe era difficil viver seguro em casa d'um lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que deu ao passageiro, que, segundo elle, tinha cara de pessoa de bem. Vendeu-lhe a sua egua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilancia dos aguazis, e levou-o á fronteira de Hespanha, curado das feridas, e salvo de encontros importunos. Ahi, foi facil ao foragido comprar um passaporte, que o levou a Madrid com o pseudonimo de D. Fernando Godinho Pereira Forjaz.