A Filha do Arcediago Terceira Edição
Chapter 14
--Não admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus irmãos foram frades; um morreu dom abbade em Tibães, e outro foi bispo de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.
--Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhóplas!...
--Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmão legitimo do meu terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.
--Não é preciso; eu vejo que v. s.ª falla verdade... Mas como é que o pae de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?
--Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de riscar de seu nome os appellidos de nossos avós, porque não podia sustental-os. Ora aqui está a triste historia dos meus ascendentes, que mal diriam elles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide precisaria de estender a mão á caridade de estranhos!...
--Pois, senhor Pedro, não ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade. Havia de topar um homem como se quer para o seu amigo. Não fez bem... mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dirá o que se ha de fazer...
--Perdão... eu acho que não será bom que ella saiba que eu vim aqui, porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v. s.ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...
--Qual?... Ora o senhor então não sabe como ella é!... Verá que ha de estimar que se declarassem d'este modo cá certas suspeitas...
--Suspeitas!... quaes?...
--Eu cá me entendo...
--Mas eu é que não entendo... A minha honra está compromettida n'essas suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s.ª, em nome da honra, me declare quaes foram as suspeitas...
--Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo, metteu-se-me cá uma asneira na cabeça...
--Qual asneira?
--Pensei que o tal primo era algum rufião...
--Rufião!... Eu não entendo essa linguagem!
--Quero dizer que pensei que andava por ahi algum farropilhas a arrastar-lhe a aza!
--Então o senhor não sabe que minha prima pertence á veneranda linhagem dos Sarmentos e Athaides, e não consta que, na genealogia dos Pesicatos e Bemóes, se désse uma infidelidade porca e villã!... V. s.ª offendeu as cinzas de meus avós! Em nome de meu quarto visavô, João de Lencastre e Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me dê uma satisfação!...
--Não se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido póde enganar-se muitas vezes com sua mulher!
--Mas eu, neto de heroes, é que não admitto enganos taes! As suspeitas são affrontas! V. s.ª affrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela satisfação! Na França entre cavalheiros é costume disputar-se a honra á ponta de espada. V. s.ª ha de bater-se comigo!
--Eu!... essa é que é daquella casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha mulher não era tão boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se d'isso... Eu não sei cá d'esses costumes dos francezes... Que os leve o diabo e mais quando elles cá vieram...
--Não me importam os francezes! Importa-me a honra de meus avós, insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor Antonio! Dentro em vinte e quatro horas um de nós estará na eternidade!
--O senhor, por mais que me digam, está a mangar comigo, ou não regula bem da cabeça!
--Com a honra não se manga, senhor negociante de pannos! Se a sua arma é o covado, a minha é a espada, que herdei de meu vigesimo-quarto avó D. Alarico Themudo Pesicato! É forçoso que se bata, ou então que declare á face do céo e da terra que é um covarde. Dentro de vinte e quatro horas virei procurar a resposta. Se não quizer bater-se, hei de sacrifical-o aos manes de meus illustres avoengos, que do Olympo excitam a minha coragem! Não tenho mais a dizer-lhe, senhor!
--Venha cá... isto não é modo de tractar o homem de sua prima!... Se quer dinheiro, diga-o, e não esteja ahi a arrotar postas de pescada.
--Com que então chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!... Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo tambem se arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de nós será cadaver!
O neto dos Pesicatos sahiu. O senhor Antonio, atordoado com a seriedade do negocio, entrou no quarto de sua mulher.
--Que diabo de homem é este teu primo, ó Mariquinhas?
--Meu primo!... pois elle esteve cá?!
--Sahiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...
--Pois que fez elle?
--O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com elle!
--Porquê?
--Isso agora é que eu não sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer que tive cá minhas desconfianças a teu respeito... e, ás duas por tres, põe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e quatro horas um de nós havia de morrer!... Que te parece isto?
--Parece-me um sonho!... Porque me não chamou?
--Porque elle não me deu tempo... Começou a desembuchar umas trapalhadas d'avós, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens da tua linhagem?
--Quaes homens?
--Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?
--Eu sei cá que homens eram esses!...
--Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso não é para isso... O tal teu primo, se é doudo, o melhor é amarrarem-n'o, e mandem-n'o para o hospital de S. José...
--Que figura tinha elle?
--Pois tu não sabes que figura tem teu primo?
--Sei... mas... lembro-me se não seria elle...
--Elle não se chama Pedro?
--Sim... elle... chama-se... Pedro.
--Pois então ahi está... É elle mesmo... deu-me todos os signaes certos da Ponte-da-Pedra.
--E que lhe disse?
--O homem fallou bem, a respeito de não ter meios, e fez-me cá no coração uma certa aquella; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, lá com as suas valentias. É preciso saber como isto ha de ser; eu não quero historias com elle. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?
--Pois sim; mas eu ignoro a sua residencia. Quando elle cá tornar, chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.
O senhor Antonio, um pouco mais socegado, relatou, pouco mais ou menos, a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, afflicta com vontade de rir-se, e, ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao ridiculo. Era bem natural esta mortificação do amor proprio.
A conversação foi interrompida pela chegada de dous senhores, que precisavam immediatamente fallar com o senhor Silva.
--Temos alguma!...--murmurou o negociante, e entrou na sala onde o esperavam dous officiaes de cavallaria, de grandes bigodes, e caras de arremetter.
--Quem são v. s.as?--perguntou o assustado dono da casa, apenas os encarou.
--Somos embaixadores de Pedro José de Sarmento e Athaide!--respondeu um d'elles, arqueando os braços, e levantando a caneca com orgulhoso entono.
--Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?
--Advertil-o de que é desafiado pelo nosso amigo...
--Ora, deixem-se d'isso!...--interrompeu o senhor Antonio, fingindo que recebia a intimação com gracejo--V. s.as estão a brincar... Queiram mandar-se sentar.
--A nossa missão cumpre-se de pé... e v. s.ª ha de responder-nos tambem de pé! Queira tirar o seu barrete, por que nós tambem estamos descobertos. As formaes solemnidades d'este acto não permittem distincções de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira descobrir-se!
--Eu estou em minha casa, posso estar como quizer.
--N'este momento a sua posição é outra. O homem desafiado não se considera em sua casa, emquanto a sua honra não está illibada, porque o homem deshonrado não tem casa, nem propriedade, nem direito! Descubra-se!
O senhor Antonio tirou o barrete, e emmudeceu na presença de similhante insolencia.
--Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duello com o senhor Pedro José de Sarmento e Athaide Pesicato?
--Não quero lá saber d'essas cousas, já lh'o disse a elle, e não me façam azedar o estomago, senão eu mando chamar o meirinho geral, e os senhores são catrafiados e mais elle na Relação.
--O senhor insulta-nos! Se não tivessemos piedade da sua barriga... essa lingua seria cortada pelo gume d'esta espada!...
--Os senhores vem insultar-me a minha casa! Já no meio da rua, quando não chamo os visinhos.
--Cale-se, monstro! quando não...
Os esturdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.
--Isto que quer dizer?--perguntou ella--Não respondem?... Que infamia é esta de entrarem n'uma casa estranha insultando o dono d'ella?
Os embaixadores do imaginario primo arrefeceram nas suas comicas furias, e não ousaram responder.
--Retirem-se d'esta casa!--disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da sahida.
--Minha senhora...--balbuciou um d'elles--nós somos enviados por...
--Seja por quem fôr. Vão dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe manda dizer que o seu procedimento é muito infame, e que eu muito sinto não ser homem para poder dar a v. s.as uma resposta cabal! Retirem-se!...
Os officiaes sahiram vexados, e o senhor Antonio estava espantado da coragem de sua mulher.
CAPITULO XXV
O senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas, á carta que Maria Elisa lhe enviara, contando-lhe os successos occorridos desde a fatal surpreza da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavallaria, e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do risco.
O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a casta de maroteira, acceitou o papel e estudou-o com muita habilidade. Era necessario que D. Maria Elisa o não visse para obviar aos embaraços muito naturaes em tal surpreza. Fernandes inventára o desafio, e o cadete inventára de improviso a historia genealogica dos Pesicatos e Bemóes, que encaminhou ás mil maravilhas a historia do duello.
O comico, retirando contentissimo do bom exito da sua travessura, antes de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou n'elles dous optimos bargantes para continuarem a caricatura.
Quando a ultima scena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a mal este excesso de escarneo a seu marido. Elle bem sabia que nenhuma mulher consente que a desgraçada condição do marido ultrajado seja um brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma fraqueza de coração.
Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possivel de ter ella sido testemunha da zombaria feita a seu marido.
Não se enganára. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos officiaes. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava grandes gargalhadas, e promettia contar o caso a toda a gente, escreveu a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossivel salvar-se! Embora não tivesse elle sido o inventor do escandalo, quem expozera Antonio José da Silva fôra de certo elle, e Maria Elisa leu a carta, rasgou-a, e devolveu-lh'a.
Seguiram-se novas remessas de cartas, que ella nunca abriu. Deixou de sahir de casa, para não ser encontrada. Soffreu quanto póde soffrer o amor proprio. Não sentiu, por isso, mais interesse por seu marido; todavia córava, muitas vezes, diante d'elle, lembrando-se que o fizera descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciencia estivera tranquilla até ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O que lhe pesava não era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a ella, escarnecendo um traste de sua casa, uma cousa que a sociedade chamava o «seu marido»!
Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que estabelecesse termos de comparação com meu marido.
A situação de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antonio estava assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os officiaes de cavallaria o encontrassem a geito. Ao anoitecer mandou trancar as portas, e armar os criados, emquanto, confiado na coragem de sua mulher, consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da sua arriscada corpulencia os golpes de espada d'aquelle par de Damocles que o neto de D. Alarico Themudo Pesicato lhe enviava a casa.
Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se lhe dizia que tudo aquillo fôra uma phantasmagoria, ficava a sua honra muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o pobre homem succumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada nas proximidades da barriga provocante.
Os palliativos não valiam nada para a cura. O senhor Antonio, no auge do medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de mais, quando deu ordem de despejo aos militares.
Maria Elisa quando viu, ao cabo de tres dias, que seu marido tinha febre e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrupulos, e accusou-se de ter concorrido para os soffrimentos do pobre homem.
Fernandes teimava em escrever-lhe, e não conseguia que as suas cartas fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do negociante, pedindo-lhe perdão das asperezas do seu caracter, e affiançando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquillidade.
Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas não queria lembral-o ao seu indigno amante, porque jurára acabar taes relações.
O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da farça. O senhor Antonio não quiz ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida no quarto proximo, para intervir, sendo necessario.
--Eu venho--disse o cadete--desarmar a sua justa indignação, senhor Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima é sua mulher, e v. s.ª não tem obrigação de responder-me pelo mau conceito que fez d'ella. Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdão, visto que as minhas demasias são filhas do nobre sangue que me gira nas veias. Retiro-me na certeza de que v. s.ª, de hora em diante, não se lembrará mais do passado, e terá por mim a estima que se deve a qualquer individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como nós.
O senhor Antonio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com satisfação. Tinham-lhe alliviado do coração o pêso de quatro quintaes. O sangue girava-lhe de novo em toda a extensão do systema circulatorio; e os frouxos, que lhe accommetteram as pernas, desappareciam, á maneira que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdomen.
O senhor Antonio tinha um excellente fundo. Não era valente, mas odiento tambem não. Deu um abraço no estroina, que recuou dous passos para o receber com todas as formalidades d'um habil comico, e pareceu-lhe até que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe déra um beijo na bochecha direita. Não affianço isto; mas o que posso, debaixo da palavra de honra dos meus amigos, affiançar, é que um beijo na face do senhor Antonio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e alguma cousa de indecencia atroz na pessoa do cadete.
A verdade é que o tranquillo marido recobrou a felicidade inquietada, e restituiu a sua mulher a plena confiança retirada por uma fatal intermittente de ciume. Desfazia-se em satisfações, acarinhava-a a seu modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa acceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma indifferença.
Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de passageira felicidade eram as da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar as proprias mulheres que teem a consciencia de que são victimas. Talento e corrupção eram já n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se cortam os nós gordios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era uma d'essas certas.
O que ella teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo, apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ella, como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprêso, que elle reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais cahiu na leviandade de ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral e physica de seu marido.
Foi pessima lembrança aquella de enviar o cadete a representar de primo! Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar os maridos da escóla do senhor Antonio, que não são muitos, mas satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se honram d'essa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha sido o seu peccado, a gente de bom coração tem pena d'ella, vendo-a, depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sósinha, entregue á escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre na presença do senhor Antonio, carinhoso até á desesperação, terno até ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tôla até dar vontade de o mandar comer e dormir.
Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomago era uma cousa á parte na sua organisação. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume morreria de paixão: mas o António do estomago só uma indigestão poderia matal-o.
Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando, impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina mandava-o passear a pé, e elle sem Maria Elisa, não dava um passo. Já não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que o prendia áquella mulher, como se prende a creança timida ao seio de sua mãe.
Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto não se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem reflexão, e escrevendo cousas que o seu marido não entendia, mas gostava d'ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ella intitulara os trinta cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que não pareciam de mulher, energia de phrase, conhecimento do coração, e toque real d'uma verdadeira dôr. O que não viram n'ellas as pessoas, que me informaram, foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fôra para sempre banida das saudades de Maria Elisa.
Constrangida pela soledade, a antiga orphã de S. Lazaro lembrou-se com amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu coração, d'onde nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se côr de carmim quando lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.
Maria Elisa não replicava a este odio inveterado. Tinha compaixão do pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com o mesmo appetite. Já não accumulava com prazer as sopas na tigella do caldo de gallinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.
A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em oração permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer, visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedade do assumpto, a senhora Angelica, se fallava só dizia asneiras, o que não succede sómente á senhora Angelica.
Consta que ella fôra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante predizer o futuro, que, parece, á primeira vista, um bom modo de vida, depois de jornalista, que são as Escolasticas de calças e paletó do nosso tempo.
Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo, que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por não ter salvado d'um ataque apopletico o senhor Antonio José da Silva. Se fosse hoje, este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.
O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dôres de cabeça. Metteu os pés n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue negro, e fechou-se, porque as valvulas do coração estavam fechadas para sempre.
Maria Elisa tomou a mão do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu desentoadamente, e atordoou a visinhança com gritos. Feita esta berraria de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido, fechára-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pae! Sou orphã outra vez!»
CAPITULO XXVI
A viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio, escreveu a Rosa Guilhermina uma carta que era um grito supplicante á sua amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao pé d'um cadaver. Só, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.
Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraçaram-se, chorando. Fecharam-se, para se furtarem ás formalidades estupidas das visitas funebres, que nos vem dizer: «sinto muito» e nos obrigam a responder: «muito obrigado.» Dous dias e duas noites quasi não tiveram um intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e já não sabiam adubar as conversações d'aquella fina especiaria de risos, que tanto promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.
--Já não somos as mesmas, Maria Elisa!--disse Rosa, abraçando a sua amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.