A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 13

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--De mais a mais quer dar leis!--interrompeu a cosinheira, animada pelo silencio approvador de sua ama--Sabe que mais, minha senhora? mande-a pôr no ôlho da rua, que, emquanto a mim, essa mulher não vem para fazer boa obra... Eu cá vou queimar arruda...

--Tome lá...--disse Rosa Guilhermina, offerecendo-lhe um pataco.

--Seja pelo divino amor de Deus...--disse a mendiga, beijando a esmola.

--Então não se vai embora?

--Ainda não, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a dizer-lhe muito em particular...

--Que negocios poderei eu ter comsigo?!

--Negocios nenhuns; mas Deus não deu lingua á gente para fallar só em negocios.

--Diga o que quer mesmo ahi.

--Aqui não, porque a sua criada está ouvindo o que nós dizemos.

--E que tem isso? Eu não tenho segredos de que me esconda á minha criada.

--Mas vai tel-os agora, e bom é que ella não saiba o que vou communicar-lhe.

--Fóra com a alcoviteira!--exclamou a criada lá do interior--_Má mez_ para ella!... Olha o estafermo que me apparece em jejum!...

--Esta sua criada, minha senhora, é bem pouco caritativa com os desgraçados, e v. s.ª não é melhor que ella, pelo que vejo...

--Está bom!--atalhou irada D. Rosa--Eu não admitto reflexões! Saia, que quero mandar fechar a porta.

--Pois devéras não me quer ouvir?

--Não, já lh'o disse.

--Pois ha de ouvir-me, digo-lh'o eu.

--Se cá tivesse o criado, mandava-a pôr no meio da rua.

--E a senhora para isso precisa d'um criado? Eu sou uma pobre velha sem forças... qualquer sôpro me faz cahir, e a menina mesma póde empurrar-me por esta escada abaixo...

--E esta? já se viu um descaramento assim? Vossê parece-me uma mulher sem vergonha!...

--Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.

--Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se não retira?

--Não me retiro, porque os desgraçados não se satisfazem só com pão... precisam d'outras consolações, que a menina póde dar-me.

--Pois que quer?

--Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou muito fatigada, falta-me já a força n'estas velhas pernas, que tanto andam, e tão pouco caminham... Tudo me falta... até a vista; nem já a menina me parece o que era aqui ha um anno!... Deve ter feito uma grande mudança a sua vida!... Vejo-a tão coadinha... A menina soffre do corpo, ou da alma?

--Que lhe importa do que eu soffro? Não soffro d'uma nem d'outra cousa...

--Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aquelles que assim o podem dizer... Pois veja que differença... Eu soffro de tudo...

--E que culpa tenho eu disso?

--Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...

--Faz favor de sahir, que quero recolher-me?

--Está o almoço na mesa--disse a criada.

--Se a menina consentisse que eu tomasse uma chavena de chá comsigo...

--Comigo?... essa é boa!

--Envergonha-se d'isso? Pois olhe que não descia de quem é, porque os pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Christo repartiu o seu pão, e os seus peixes.

--Parece-me esperta de mais para pobre...

--Pois é de obrigação que todos os pobres sejam brutos! Então dá uma chavena de chá... a sua mãe?...

--A...

--A sua mãe!

--A minha mãe!... Quem é minha mãe?

--Falle baixo que a não ouça a sua criada!... Não lhe tinha eu dito que era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina? Pois não sabia que tinha mãe? Não soube ha um anno, que ella precisava de recorrer á sua generosidade? Não calculou, que, mais hoje ou mais ámanhã, a sua desamparada mãe devia cobrir esta mantilha esfarrapada para vir receber dez reis da mão de sua criada?

--Eu não a reconheço como minha mãe... Eu já colhi informações de que minha mãe não existia... Meu pae nunca me disse que eu tivesse mãe viva!

--Deus perdôe á alma de seu pae... Não lhe quero por isso amaldiçoar a memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro annos, é sua mãe.

--Não acredito, já lh'o disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe farei aquillo que já lhe quiz fazer, se vmc.e é uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita.

--Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem vê que soffri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguem que a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo eu moça e rica do muito que seu pae me dava, não gostei de que minha pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para comprar uma gallinha para minha pobre irmã, que morreu de miseria depois d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quiz poupar minha filha a similhantes vergonhas, que só sabe o que ellas são quem passa por ellas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bemdita esmola no pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um aneurisma no coração, e queria vêr se morria descansada para me reconciliar com a misericordia divina... Se não fosse isto, minha filha, eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna de me chamar sua mãe...

Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a commoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:

--Pois v. s.ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?

--Não... eu não acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha... é a necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.e uma chicara de chá?

--Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhe _filha_...

--Será ella douda!--atalhou a criada.

--Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras... Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que não farei doudice nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, já não... A desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem minha filha...

--E ella a dar-lhe com o _minha filha_!...--interrompeu a criada.

--Ouça-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de fazel-a chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quasi que a não reconheci minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia fazel-a muito mais desgraçada que eu sou... N'este mesmo momento, em que venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me offendo com o seu desprêso. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado com um pontapé á rua, eu havia de levantar-me, se podésse, para lhe dizer: «eu te perdôo, filha de Leonardo Taveira!» Veja que bom coração eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços, um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas consolações...

D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no coração.

--Entre para esta sala--disse a filha do arcediago commovida.

--Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o coração mais desabafado, e creio que a não offendi... Se a magoei, diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.

--Entre...--balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mão..

--Não... já lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de lagrimas, que são a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala não posso entrar como mendiga: se eu podésse visital-a, como senhora, viria muitas vezes aqui, e talvez lhe podésse fazer serviços que a poupassem a muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...

--Não consinto que se retire; quero informar-me de quem a senhora é. Se fôr minha mãe, hei de tratal-a como quem é...

--Por ser sua mãe, não sou ninguem, minha filha... A menina não me honra, nem me deshonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo, como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria Sanctissima, e diga á sua criada que não é do agrado de Deus insultar assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero despedir d'ella...

A criada veio, instada por D. Rosa.

--Não se afflija, moça!--disse Anna do Carmo--Não tenha pesar de me ter offendido, que eu perdôo-lhe de todo o meu coração... Tire d'aqui uma experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zêlo por sua ama é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que vmc.e espera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do que esta velha da mantilha rôta lhe disse, quero deixar-lhe uma lembrança de mim... Pegue lá...

--O quê?--perguntou a criada, recuando a mão.

--É uma peça de quatro mil reis, com que vmc.e póde comprar umas arrecadas... Acceite que lh'a dá a pobre mãe de sua ama!... Não quer?... Ora pois, Deus lhe dê muito que dar...

A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, emquanto Anna do Carmo sahia. Quando vieram á janella para vêl-a, ia já na extremidade do bêcco, mas á porta de D. Rosa estavam dous homens, que conversavam apontando para a mulher da mantilha rôta.

--Não a conheceste?--dizia um.

--Eu não, nem tenho pena--respondeu o outro com desprêso.

--Pois não conheces aquella mulher?

--Não... já t'o disse...

--Pois não conheceste a fidalga, que ha tres mezes comprou a quinta dos Engenhos, na ponte de Ramalde!

--É aquella?

--É... dou-te a minha palavra d'honra que fui eu o tabellião que lavrei a escriptura, e contei os doze mil cruzados.

--Mas então que historia é esta!... Ella vai assim rôta!

--Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a côca da mantilha...

--Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passear n'um jumento, com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras queria casar com ella.

--Tu não sabes a historia d'esta mulher?

--Eu não... ouvi dizer que fôra casada com um livreiro, aqui no Porto, e que depois ficára rica...

--É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a França, onde morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausencia do marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso cabedal que elle lá trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes, morre lá uma freira, que, á hora da morte, declarou que o tal arcediago lhe deixára em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer entregar a Anna do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só á hora da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...

--Mas por ahi dizem que ella é fidalga...

--Isso é uma historia á parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que era fidalga, porque a fizeram fidalga á força, uns taes que moram ahi atraz da Sé, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Começaram a visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha... Quem me déra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me que ella sahiu d'esta casa...

O tabellião olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com cousas muito mais pequenas. Mas o que devéras me espantou, foi dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o ex.mo snr. ***, fidalgo, morador atraz da Sé, e fôra, _ipso facto_, reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!

CAPITULO XXIII

O senhor Antonio José da Silva deve ter movido a compaixão interessante das damas, e talvez o desprêso dos briosos maridos, que, no logar d'elle, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa em sangue.

Eu lhes digo: faziam uma solemne asneira, e arrependiam-se, depois, como o senhor Antonio (que não era menos brioso que v. exc.as e s.as ) se arrependeu de ter superficialmente condemnado sua mulher.

D. Maria Elisa convenceu o candido marido de que effectivamente tinha um primo, filho d'uma irmã de sua mãe, que morrera pobre, e o deixára abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido á sua compaixão, pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa existencia. Que ella, como esposa e dona de casa, responsavel pelos cabedaes de seu marido, se negára, muito tempo, a dar-lhe os supplicados recursos; mas, por fim, taes foram as instancias, que a seu pesar, não pôde deixar de ceder aos impulsos do coração, que lhe mandavam soccorrer o infeliz com as migalhas da sua mesa.

O senhor Antonio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez mais eloquente e philantropa, continuou:

--Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse suspeitas malevolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na Ponte-da-Pedra, e eu, indo sósinha a passeio, lhe daria o que podésse esconder aos olhos de meu marido, sem que elle desse pela falta, que de certo era um crime...

--Pois não fizeste bem, Mariquinhas! É o que eu te digo, e perdôa... Se me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispôr á tua vontade do que ha n'esta casa, porque o que é teu é meu, e o que é meu é teu.

--Pois sim; mas eu não tenho ainda um cabal conhecimento do seu caracter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz parente, e não ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido annuiria mais por delicadeza, que por vontade do coração. Agora, que tudo se declarou, não quero que o senhor Silva se mortifique por me ter offendido com as suas imprudentes calumnias. Faça de conta que não houve entre nós a mais ligeira desintelligencia. Estamos quites: o senhor fez-me uma injustiça, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra, julgando-o sôffrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mão bemfeitora a meu desgraçado primo!...

--Ora, pois, não nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero é saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente lhe quero ir levar os recursos necessarios para a sua subsistencia... Onde mora elle?

--Onde mora elle?... (Maria Elisa não esperava esta! O improviso não era o seu forte, e viu-se na mais embaraçosa atrapalhação). Eu, se quer que lhe diga a verdade, não sei bem onde elle mora... mas deixe passar alguns dias, e talvez que elle aqui mande algum recado...

--Pois então logo que elle appareça, farás favor de lhe dizer que eu quero fallar com elle... Mas tu não conheces ninguem (tornou o suspeitoso marido depois de reflectir um momento) que saiba onde elle mora?

--Não, senhor.

--Não?... Eu não sei o que me parece isto, a fallar-te a verdade!... Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguem, ninguem?

--Talvez me lembre d'uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta d'elle, e me disse onde elle morava... Deixe-me recordar, e depois lhe direi...

--Pois olha lá se te lembras... Eu sempre quero vêr os focinhos ao teu primo... Acho que a cousa assim não vai bem...

--Que é o que não vai bem?!

--Eu cá me entendo...

--Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais palavras... Não está ainda satisfeito com a explicação?...

--Podia estar mais, se queres que te diga cá o que tenho no meu interior...

--Pois não sei que lhe faça. Creia, se quizer, e, se não quizer não creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu não lhe dou direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irmã, engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o odio. Sei amar, e sei aborrecer... Entende-me, senhor?

--Mas a que vem todo esse farelorio? Que te disse eu para tanta arrenegação?

--Parece que duvida da explicação que lhe dei do meu comportamento?! Esse direito só o dou á minha consciencia!

--Tem a menina muita razão; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que não sou mau homem, nem mau marido, se tenho cá minhas comichões de conhecer seu primo!...

--Se tem comichões, coce-se... é o que eu tenho a dizer-lhe... E de resto, se quer esperar que meu primo appareça, espere; e se não, procure-o até encontral-o.

D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz n'esta lembrança, porque o senhor Antonio precisava de similhante reacção para entrar nos justos limites d'um marido exemplar, como todos os maridos que não tem pública-fórma.

Que é pública-fórma d'um marido? Eu sei cá... Lembrou-me isto; se me lembra, em logar de pública-fórma, dizer uma sandice mais compacta, creiam que não era homem de a deixar no tinteiro, porque, se ha inviolabilidade n'este mundo, é para todas as sandices que se escrevem. D'este peccado tenho eu a dar sérias contas a Deus; mas quem de certo não deu nenhumas, quando d'este mundo se partiu, foi aquella alma gentil do senhor Antonio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escripto para os jornaes uma carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da barbara linguagem do systema representativo.

N'aquelles felizes tempos, as asneiras desciam á sepultura com o individuo; e d'essa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quaes peço ao publico imparcial que classifique a minha da «pública-fórma do marido» pelo que me declaro já summamente penhorado, como todos aquelles que se retiram d'um baile ás cinco horas da manhã.

Por não esgotar as frioleiras de que disponho, saberão, estimaveis leitoras (se me dão a honra de me dirigir a v. ex.as, como quem quer divertil-as da seriedade austera das suas cogitações) que D. Maria Elisa entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes, contando-lhe miudamente os infaustos successos.

Na manhã do seguinte dia, a anciosa esposa recebeu a seguinte resposta:

«_Não te afflijas. Hoje de tarde ahi vai teu primo. Falla pouco, e deixa-o fallar a elle._»

CAPITULO XXIV

O senhor Antonio estava sériamente amuado. Atormentava-o a dúvida, e as suspeitas terriveis principiavam a obra maldita do arrependimento. Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequencias da vida matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de pannos, e considerava-se o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o proximo do chinó, em circumstancias analogas.

Era isto que affligia o coração do marido de Maria Elisa, emquanto ella, amuada tambem, se fechára no seu quarto, imaginando a comica solução que o senhor Fernandes daria ao problematico parentesco da Ponte-da-Pedra. Assim se entretinham aquellas duas creaturas, quando foi dito ao senhor Antonio que estava alli um sugeito, que queria fallar-lhe, sendo possivel.

--Que diga quem é.

O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.

--Devéras?!--disse o senhor Antonio, com sobresalto, expandindo as bochechas em ar de contentamento.

--Sim, senhor, diz que é primo da senhora.

--E quer fallar comigo?

--É o que elle disse.

--E não fallou ainda com a senhora?

--Nada; nem por ella perguntou.

--Pois que suba para a sala.

Em seguida, foi introduzido na presença do senhor Antonio um sugeito de trinta annos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado, e maneiras delicadas.

--Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.

--E eu a mesma. Com que então o senhor é primo de minha mulher?

--Sim, senhor: filho d'uma irmã de sua mãe.

--Estimo muito conhecel-o.

--Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s.ª o fim que me traz a sua casa.

--Ora diga lá sem ceremonia, os homens são uns para os outros, e eu estou prompto a mostrar-lhe que não sou daquelles que... emfim... diga lá o que quer...

--Quero ser eu o proprio accusador da mão bemfeitora, que tem derramado sobre mim alguns beneficios. É preciso que v. s.ª saiba que eu sou pobre, e não tenho podido até hoje agenciar pelo trabalho a minha independencia. No commercio não me acceitam, porque me acham adiantado em idade. Emprego não me dão nenhum, porque não tenho protecções. Para militar não sirvo, porque sou muito doente do peito, e além d'isso muito curto de vista. Para frade tambem não sirvo, porque não tenho patrimonio, e de mais a mais não sei latim para poder entrar nas ordens mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; não tenho de quem me valha, a não ser d'esta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v. s.ª, é a unica pessoa do meu parentesco, a quem se póde pedir uma esmola! Nas minhas tristissimas circumstancias, dirigi-me a ella, e achei-a fria, dura de coração, e insensivel ás minhas súpplicas. Instei, segunda e terceira vez, obrigado pela indigencia, e consegui que ella me mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o pouco que podésse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes. Disse-lhe eu que não duvidava fallar pessoalmente a v. s.ª, e ella tirou-me d'isso, dizendo que não queria ser pesada a seu marido com os seus parentes pobres. Hontem foi um dos dias em que ella me deu uma pequena esmola, e me prometteu algum dia empenhar-se com v. s.ª para que se me désse um logar na alfandega, ou em qualquer repartição da justiça, em que eu podésse ganhar com honra um bocado de pão. Quando fallavamos n'isto, ouvimos uma voz, minha prima empallideceu, dizendo-me que fugisse, porque ouvira fallar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos de minha prima, e nem tempo tive de reflectir nas consequencias da minha fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que se passava. Quando v. s.ª sahiu com ella, reparei que vinham amuados, e entendi que eu fôra a causa d'essa desgraçada desintelligencia entre dous esposos que tanto se amam, segundo ella me tem dito...

--Ella disse-lhe isso?

--Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da estrebaria, e dizer quem era, porque v. s.ª não seria tão barbaro, que maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado é tão pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendo este velho casaco e estas calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero que minha prima soffra por minha causa.

--Com que então o senhor metteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?

--Pedro José Sarmento de Athaide.

--Já que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde é que herdaram esses appellidos?

--Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...

--Dos...?

--Pesicatos e Bemóes.

--Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.