A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 12

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O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores. Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocação para a mulher do seu proximo! Cahe-me da mão a penna indignada por se vêr na dura precisão de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o véo da caridade esta ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou inflingir ao leitor pudibundo! Não é possivel. Sou muito amigo do publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois, primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das tentações hediondas d'este grande peccador, que a estas horas já sabe o bem ou mal que fez!...

Fernandes (_proh pudor!_) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que é sempre um sugeito respeitavel, ainda que seja um grande tôlo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fôra o primeiro immoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina, esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assidua cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer foi elle! Não queremos fazer pêso aos seus enormes peccados, mas releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o «planeta sete-estrello»! Á sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem sectarios, graças á civilisação que vai ensinando os limites dos deveres, não só internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue d'aquelle homem, que (_vox faucibus hæsit!_) não havia mulher casada, com um palmo de cara soffrivel, que o réprobo de Deus e dos maridos não tentasse abysmar nas profundezas do báratro perpetuo!

Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal á senhora Marcellina, que não é digna do _dom_, attendendo á villã fraqueza com que se deixou embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que já me fez suar tres vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeições, e cynico na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam depressa. Esta segunda immoralidade é uma questão á parte. A nossa missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de Athenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir Maria Elisa!

O peor não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraizo, cedeu á tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, não me recordo bem) ás calidas manifestações d'aquelle grande desaforado, perverso, dissoluto, scelerado, e não sei mesmo se concussionario!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria Elisa. A sua habitual direcção era á Ponte-da-Pedra, a uma legua do Porto, na estrada de Braga.

Ahi apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala da estalagem, que já n'esse tempo era as delicias dos honrados amadores de peixe frito, e azeitona. E n'essa sala... (_digitis callemus et aure!_... Soccorre-me, meu velho Horacio!) encontrava sempre esse homem para o qual o meu vocabulario de indignação não tem um nome adequado! E isto aconteceu muitas vezes, emquanto o senhor Antonio sachava os repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que dificuldades na curvatura da columna vertebral!

Tres mezes, seis, nove, um anno esta pouca vergonha! E o céo não tinha raios para o impio, e o senhor Antonio não tinha n'aquelle coração um presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia ha alguma cousa que deve occupar a cabeça d'um homem sensato!

A Providencia, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente que os Antonios Josés levem no somno a palma ao cantor de Ulysses, que tambem dormitou emquanto Penélope fazia muitas cousas, em que se parecia com Maria Elisa. Ora já não é pequena gloria para o senhor Antonio José collocar-se a par de Ulysses!

Era em uma bella tarde de agosto.

Maria Elisa sahira para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antonio ficára n'um banho de tina, chafurdando como o proprio tubarão de barbatanas. Quando sahiu do banho, achou-se fresco, como é natural, e resolveu dar um passeio, e, o que mais é, surprender sua mulher, que devia ficar contentíssima de tal surpreza.

Ao pensamento seguiu-se a execução. O senhor Antonio repartiu as suas duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por aquella estrada fóra! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo do vulto magestoso do senhor Antonio, parecia consubstanciada na organisação do seu dono! Iam contentíssimos!

--Lá está a carruagem!--disse elle, exultando, á sua jumenta, com a qual tivera um longo colloquio, em que a submissa interlocutora não fôra menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quizera conceder honras de Balaam.

Pararam á porta da estalagem. O senhor Antonio não queria fazer ruido, e perguntou baixinho:

--Onde está a dona da carruagem?

--Está lá em cima com o primo.

--Com o primo!--exclamou elle com um som de ventriculo.

--Sim, senhor, o primo...

--Quero vêl-a...

E subia as ingremes escadas, agarrado ao corrimão.

Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo immediato, e escapára-se pelos pinhaes visinhos, sem ser visto.

O senhor Antonio estava diante de sua mulher, solemne e magestoso como todos os maridos em similhantes apertos. Queria fallar, e parece que a eloquencia lhe ficava estagnada nos papos do pescoço que oscillavam como duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abysmo da sua situação, e a unica imagem que lhe apparecia aos olhos pávidos era João Pereira, o do chinó!

Angustias d'estas... não tem nome na terra! Cahiu, como forçado por um enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo d'esta avalanche de carne, acordou os eccos da estalagem.

Maria Elisa, essa, pallida e confusa na surpreza do crime surprendido, aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:

--Que tem?...

--Que tenho?... perguntas-me o que tenho?

--Sim!... pois que fiz eu?!

--O que me fizeste?!

--Sim!... o que lhe fiz?!

--_O que lhe fiz?!_ diz ella.

--Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha commoção?

--Tu escarneces de mim!... Que primo é esse que estava comtigo?

--Um primo!?...

--Sim, um primo... quem é esse primo, que nunca me fallaste n'elle?... Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ella te dirá quem é que me disse que tu estavas aqui com um primo... Espera ahi...

O senhor Antonio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da sala, e tomava fôlego para chamar a estalajadeira, quando Elisa, atordoada da surpreza, mas não de todo, correu a elle, embaraçando-o do vergonhoso proposito.

--Não chame... que é uma vergonha...

--Então sempre é verdade, que me és infiel!... Deshonraste, Maria Elisa, um homem a quem deves tudo!... É assim que se é mulher honrada!... Foi para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeço... Eu morro!... Que dirá o mundo!...

O senhor Antonio começava-lhe a dar cuidado o que diria o mundo. N'estas enfermidades, o temor do que o mundo dirá é sempre um symptoma favoravel; porque o mundo cala-se depressa, e as funcções vitaes do espirito entram no seu curso regular.

Maria Elisa não era tão esperta como eu suppunha. Ficou estupidamente surprendida. Não teve nenhuma lembrança feliz, que obrigasse seu marido a pedir-lhe inclusivamente perdão da calumnia injuriosa! Cahiu com miseravel imbecilidade n'um torpor moral, indigno da sua experimentada philosophia. Deu-lhe para amuar, e morder o labio inferior, mas não com tanta força que espirrasse sangue. Ella sabia fazer as cousas com prudencia; e, com quanto soffresse bastante na alma, parece que poupava o corpo como cousa sua, e não lhe quero eu mal por isso. Uma mulher, como eu seria se o fosse, deve fazer muito por que o corpo se não sinta das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais envelhecida que esteja não se vê. O corpo tem só uma, e essa está sujeita á maldita perfeição das lentes que lhe não deixam uma ruga precursora de decadencia sem demorada analyse.

Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia de reduzil-os á quinta essencia do amor, que é a demencia. Com preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um curioso estudo dos scepticos. Estas feras é que eu amansaria. Se eu conseguisse tornar-me objecto dos seus estudos physiologicos, prometto-vos que a seita ridiculamente comica dos _cansados_, dos _scepticos_, e dos _não comprehendidos_ acabava como as preciosas ridiculas de Luiz XIV.

Querem saber o que eu fazia? Ahi vai... É um serviço gratuito que eu offereço ás mulheres, embora provoque inimizades de homens, que são realmente os entes que menos me incommodam. N'este mundo ha só duas cousas que me affligem: são os maus charutos, e madrugadas antes de uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver callos e rheumatismo.

Se eu fosse mulher com uma cara soffrivel, estabelecia para meu uso as seguintes theorias:

_Solteira_

Tendo de quinze a vinte e cinco annos, dava-me ares de candida innocencia, e singeleza patriarchal. Olharia este ou aquelle importuno, mas só com tres partes d'um ôlho, imaginando que elle tinha quatro. Far-me-ia passar por myope, para que ninguem reparasse no olhar penetrante com que os myopes costumam encarar os objectos a certa distancia. Não usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No theatro teria a barba sempre apoiada na convexidade da mão, e nunca pegaria do binóculo sem reparar que a luva retezada não tivesse rugas.

Com as lentes attestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista, como dizem os francezes, pelo rebanho de Epycuro, que somos nós os miseraveis estafermos de calças.

Surprendida, retirava os olhos com indignada commoção, e perguntaria á mamã se o vestido de D. Efigenia, ou de D. Simplicia não era de pessimo gosto.

No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre occulta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, não sahia nunca sem lançar com languida graça uma pelliça pelos hombros. Nos bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada offerta d'um fôfo, ou d'um rebuçado de chocolate. Liquidos, excepto agua limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço de uma rôla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de victima sacrificada ás conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do tempo entretel-o-ia com o palito.

Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigestão.

Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece profundamente as irrisorias pieguices do homem.

Cheguei á especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na estação do theatro lyrico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flôres da minha corôa na estufa do real theatro de S. João, e escolheria de preferencia certos catos reaes que eu lá conheço. Eu denomino cato real o leitor, qualquer que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito outras tantas a respeito do scepticismo. É cato, de trapeira pelo menos (esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco minutos na sua pallida physionomia.

Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher litterata, porque, do contrario, agradeço á Providencia o favor que me fez de me atirar qual sou á torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um d'esses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se, insaciaveis de espirito, precisassem dar á materia todos os repellões, que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a attenção, aventuraria um d'esses sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas, mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma fabulosa semsaboria.

A fera, domesticada no seu sanguinario scepticismo, procuraria revelar-me dez paginas intimas da sua agonia dilacerante. Fallar-me-ia quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria Lazaro, levantando-se do tumulo á voz do Christo: e acabaria por pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a morte.

O que eu faria, então, attenciosas leitoras, não sei se alguma de vós já teve a condescendencia de o fazer. Mandava-o á meia noite apparecer debaixo da minha janella; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de cheiro; sendo na semana sancta, quatro confeitos; e, no Natal, uma tigelinha de ovos moles.

A humanidade estava vingada.

Ora aqui está o que eu faria, sendo solteira.

_Casada_

Sendo casada, eu era, com grande despeito da mulher d'um certo ministro da fazenda do Egypto, chamado Putiphar, e da mulher do senhor Antonio José da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de necrologios diriam depois: _Era uma esposa carinhosa, o modelo das mães, e uma senhora virtuosa a todos os respeitos_. É verdade que não é necessario ser tanta cousa para, á sahida d'este mundo, deixar os jornaes encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que eu lhes prometto uma boa duzia de epithetos.

Eu seria não só o que me fizessem ser os constructores de necrologios e epitaphios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes conhecidas, e muitas outras que ninguem conhece. Seria, por abreviar moralidades, que me dão grande trabalho, e aborrecimento aos leitores, seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.

O que o senhor Antonio seria, isso é que eu não sei; mas o que elle estava sendo, em verdade vos digo, que não deve ser inveja de ninguem!

A eloquencia dolorosa, que o auxiliou no choque da surpreza, falhou-lhe. Quiz fulminar a perjura com uma apostrophe corrosiva, e não lhe occorreu nada a proposito. Um pensamento ignominioso esvoaçára-lhe na cabeça febril... Teve tentações de esmagal-a contra a parede do quarto em que esta scena attribulada corria desapercebida!

O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as affrontas orgulhosas com que tentára ferir a honra do seu visinho João Pereira.

No auge da desesperação, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um tremulo de sezão vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que o senhor Antonio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher á sua perfidia.

Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna, e acabava o conto aqui. Não ha nada mais semsabor que a situação da mulher desleal surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando os deuses! Porque não disse o senhor Antonio alguma cousa fóra do commum?

Porque não fez estylo de marido, que é o mais mascavado de todos os estylos? Porque não exclamou: «_Perfida mulher! hei de beber-te o sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!_»

Com estas palavras já eu compunha um capitulo, porque as outras tolices encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo Antonio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu genero, não era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella não pareçam dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta, que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ella faria á sua liberdade.

O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta contemplavam silenciosos a sua dôr. A lympha dos regatos era como um arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!

N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem aproximou-se.

--O senhor veio a pé?--perguntou ella, vendo seu marido encostado a um pilar da ramada.

--Que lhe importa?--redarguiu o marido convulso, mettendo as mãos nos bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca figura d'uma talha chineza.

--Porque não entra na carruagem?--replicou a carinhosa esposa, aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma fabrica de fundição.--Venha... eu lhe explicarei tudo... verá que estou innocente, ha de arrepender-se de me tractar assim...--proseguiu ella, com o tremor de voz, que precede as lagrimas.

--Como innocente!--murmurou o senhor Antonio, um pouco modificado nas caretas da sua furia legitima.

--Sim... innocente... Em casa lhe contarei tudo...

--Pois póde lá ser que estejas innocente?... Tu estás a mangar comigo!...

--Verá que não sou digna da sua cólera, e que os seus ciumes são injustos... A affronta que fez ao meu caracter de mulher casada, tarde ou cedo lhe fará remorsos, senhor Antonio José da Silva!...

O tragico entono d'estas palavras acobardára os espiritos briosos do marido. O senhor Antonio julgou-se algoz d'aquella victima; e, se ella teima, haviamos de vêl-o ajoelhar aos pés do innocente holocausto do seu ciume, e pedir-lhe perdão.

Maria Elisa, restituo-te os teus creditos! Andaste perfeitamente, por fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu fizeste.

Em 1819 ninguem faria mais do que tu!

Hoje... serias d'uma simplicidade boçal.

CAPITULO XXII

A seu tempo saberemos até que ponto o senhor Antonio podia ser civilisado por sua mulher.

Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.

Antes de entrarmos, reparemos n'esta mulher que bateu á porta primeiro que nós.

--Quem é?--perguntou da janella uma criada.

--Faz favor de dizer á senhora D. Rosa que está aqui uma mulher, que lhe quer fallar.

--Que lhe quer?

--A vmc.e não lhe quero nada, é a sua ama.

--Quer pedir-lhe alguma esmola?

--Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.

--Pois para isso escusa de fallar á senhora: pegue lá... Então não levanta do chão os dez reis?!

--Não levanto, porque lhe não pedi nada a vmc.e Já lhe disse que quero fallar com a senhora D. Rosa.

--A senhora D. Rosa não falla a mulheres de mantilha rôta... Se quer, queira, se não quer, ande sempre...

A janella fechou-se e a mulher da mantilha rôta sentou-se no degrau da porta.

Pouco depois, abre-se outra vez a janella, e apparece D. Rosa!

Vêde-a, já não é a rosa purpurina d'outro tempo!... A pallidez d'aquellas faces não é natural!... Alli, ha muita saudade do que foi, ou muito receio do que será! Aquelle desalinho não era d'antes assim... Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabellos negros!... Enfeitava-os tanto de fitas e flôres!... E agora?... Aquelle lenço branco, que lhe apanha as tranças desgrenhadas, é tão desairoso!... Aquelle chaile, que lhe esconde as fórmas do pescoço mais lindo ao pé dos hombros mais artisticamente torneados, dá-lhe um aspecto tão triste de enfermeira do hospital... Que mudança!... faz pena!... Cahiu tão depressa da haste aquella flôr, que tinha tanta vaidade das suas petalas avelludadas, e da fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que é da tua philosophia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar aos typos dolorosos que lá encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque ha de esta phantasia pintar-me realidades, que me fazem dôres no coração, quando as vejo sahirem infelizes dos bicos da minha penna!... Tenho cousas de muito creança, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...

Para que vieste tu á janella, Rosa, se quasi me obrigaste com a tua pallidez a discorrer com ternura sobre cousas que me fazem lembrar mil outras, e tão tristes são ellas, que nem eu sei se era mais feliz não vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vêl-as, e esquecel-as para sempre... Forte puerilidade!... Se me não chamam para jantar, n'este momento, eu reduzia-me á situação piegas de verter uma lagrima... por quem?

Uma lagrima!...

Sabeis o que é uma lagrima d'um homem!... É a perdida essencia do sangue que nos alimentaria a existencia longos annos!....................

........................................................................

A mendiga, ouvindo abrir-se a janella, ergueu-se, voltou a face macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.

--Quer alguma cousa, mulher?

--Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.

--Então diga d'ahi.

--Eu bem queria dizer-lh'as de perto.

Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.

--Venho pedir-lhe uma esmola.

--E para isso era necessario subir? Dissesse-o da rua, que eu mandava-lh'a lá dar.

--Uma teima assim!...--atalhou a colerica criada--Eu já lhe tinha deitado á rua dez reis, e ella não levantou do chão a esmola... O que vossê merecia sei eu...

--Não se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se que não está livre de chegar ao estado em que me vê... Outras mais ricas, e com bem melhores principios que os seus, teem tido este fim...