A Filha do Arcediago Terceira Edição
Chapter 11
Eu! murmuradeira!... Ó meu Menino Jesus! inda mais ouvirei! Ó Antonio, já viste uma cousa assim?
O SENHOR ANTONIO
Está bom... calem-se lá com essas questões. Cada qual vive como o seu genio lhe pede; mas olha cá, visinho, eu sempre fui teu amigo, e não tenho papas na lingua, quando é necessario. Cá a minha opinião é que não deves deixar vir tua mulher para a janella de noite...
O SENHOR FERNANDES
(_com ironia_)
Porque se póde constipar...
O SENHOR ANTONIO
Não é isso... é que das más linguas ninguem se livra... Se quer estudar a natureza, ou lá o sete-estrello, ou o que é como se chama, que o faça de dia.
O SENHOR PEREIRA
Tu és tôlo, Antonio! Pois os planetas apparecem lá de dia?! Já vejo que não te chama Deus para este caminho!...
O SENHOR FERNANDES
O senhor João Pereira tem razão. De dia não se descobrem planetas. O padre Theodoro d'Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu pae que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a natureza.
O SENHOR PEREIRA
Vmc.e é que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais d'isso, eu estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ella se entretenha com os planetas lá de cima, do que com certos planetas que andam por ahi a olhar para as janellas, e que não são das melhores cousas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu não tenho até hoje razão de queixa; oxalá que tua mulher te dê a boa vida que a minha me tem dado...
O SENHOR ANTONIO
(_enfurecido_)
Isso agora!... salvo tal logar!...
D. ANGELICA
Longe vá o agouro, e mais não diga a bôca que tal diz...
O SENHOR ANTONIO
(_para os circumstantes_)
Que lhes parece esta?! (_para elle_) Meu amigo, sabes que mais?... Vai muito de cá a lá...
D. ANGELICA
Ó menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos Remedios, não permittaes que tal aconteça...
O SENHOR PEREIRA
(_formalisado_)
Que diabo dizem ahi? Se eu os percebo, sêbo! Parece que já jantaram!--Pois minha mulher... sim, pergunto eu... minha mulher... se faz favor de me dizer... com que então a minha Marcellina... digam para ahi o que sabem, linguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser estas benzedellas da nossa sanctinha, e lá esses arrufos teus, Antonio!...
O SENHOR FERNANDES
Não se irrite, senhor Pereira, que não tem razão. Vmc.e entendeu mal os reparos da senhora D. Angelica e seu irmão. É porque o senhor Antonio não quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...
O SENHOR PEREIRA
Isso agora é outra cousa... Cada qual tem o seu genio; mas vir cá dizer-me que vai muito de cá a lá, isso tem que se lhe diga. Tanto é a minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem fôr mais rico, coma duas vezes, mas não desdenhe dos outros. O que eu queria dizer-te a respeito da conducta das mulheres é que sou teu amigo, e que oxalá a tua mulher seja como tem sido a minha.
O SENHOR ANTONIO
(_desesperado; com as belfas tremulas_)
Isso é que eu não quero!... já te disse que não quero e que não ha de ser!...
D. ANGELICA
E elle a dar-lhe! _má mez_ para elle!... Valha-o uma figa! Não faça caso, cunhada...
D. MARIA ELISA
Eu sinceramente lhes digo que não sei o motivo d'esta disputa! Se me não engano, a esposa do senhor Pereira tem vocação para a astronomia. É louvavel esse gosto da sciencia. São raras as senhoras que se dedicam ao trabalhoso estudo da natureza...
O SENHOR PEREIRA
(_interrompendo_)
É como diz, e viva quem sabe fallar!
D. MARIA ELISA
O senhor Antonio José da Silva diz que...
O SENHOR ANTONIO
Ó Mariquinhas, é melhor dizeres _meu marido_.
D. MARIA ELISA
Meu marido diz que não quer que eu imite a senhora D. Marcellina.
O SENHOR ANTONIO
Não quero, é tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.
D. MARIA ELISA
Pois bem, eu não a imitarei; não me levantarei de noite a observar a atmosphera, porque realmente não quero ser martyr da sciencia. D'este modo, está acabada a questão. O senhor Pereira consentirá, porque assim lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido usará do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os astros de noite.
O SENHOR PEREIRA
Fallou bem como quem é; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer cousas que é mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que cá quanto ao que eu quiz dizer, a minha birra é que se a senhora D. Mariquinhas fôr honrada como a minha Marcellina, não precisa ser mais.
O SENHOR ANTONIO
És teimoso como um jumento! Já te disse que a minha mulher tem outros brios, e que sabe as obrigações de mulher casada!
D. ANGELICA
E não ha de dar que fallar como algumas... emfim... cada qual metta a mão na sua consciencia...
O SENHOR PEREIRA
(_solemne_)
Que quer dizer isso? Então vmc.e acha que minha mulher... Ora tenha juizo, que já é bem tempo de perder o sestro da má lingua... D'estas beatas... Deus me livre d'ellas...
D. ANGELICA
(_aguçando o queixo inferior_)
Vmc.e está mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... não me puxe pela lingua, que eu não sou boa...
O SENHOR PEREIRA
Isso sei eu... que vmc.e é levadinha de todos os diabos... diga-m'o a mim...
D. ANGELICA
(_enfurecida_)
Sabe que mais? ninguem o cá chamou... Deixe-nos em paz...
O SENHOR PEREIRA
Vmc.e é muito mal creada... O que merecia... sei eu...
O SENHOR ANTONIO
Está bom, Angelica! cala-te, João Pereira!... Se não estás bem, vai-te embora; eu não te chamei cá...
O SENHOR PEREIRA
O asno sou eu em vir cá fazer de homem que sabe a cortezia quando é preciso. Olha, meu amigo, emquanto tiveres cá em casa esta senhora Angelica, não has de ter amigo nenhum...
D. ANGELICA
Vá importar-se lá com a que tem em casa, que não tem pouco que guardar.
O SENHOR PEREIRA
A que eu lá tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc.e na cara. O que vmc.e queria era que eu casasse comsigo, quando casei com ella. Como eu não estive para isso, vinga-se a fallar mal de minha mulher.
D. ANGELICA
Olha o bezuntão!... Eu quiz lá nunca casar com elle!...
O SENHOR ANTONIO
Accommodem-se!
D. ANGELICA
Sevandija! Más maleitas te colham!
O SENHOR ANTONIO
Angelica, tapa a bôca.
D. ANGELICA
Não quero!... Pois este desavergonhado não diz que eu quiz casar com elle! Mariola! Sempre é bem _coitadinho_!...
O SENHOR PEREIRA
D'uma pandorca assim não ha nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua truquilheira, quando não havia dizer aqui quem vmc.e é...
O SENHOR ANTONIO
Quem manda aqui sou eu! Já d'aqui para fóra, João Pereira!
(_João Pereira, irritado como Ajax, leva as mãos indignadas á cabeça e maquinalmente desloca o chinó. Ouvem-se fungadellas de sorrisos, que exacerbam a cólera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo n'uma attitude perfurante. O senhor Antonio transpira na abundancia do costume. Á lucta succede um profundo silencio, quebrado apenas pelos gemidos convulsos da beata offendida na sua isempção de setenta annos._)
SCENA ULTIMA
OS MESMOS E UM ENCAPOTADO
ENCAPOTADO
(_no limiar da porta que communica para o interior_)
Senhora Angelica!
D. ANGELICA
Que queres tu, rapaz?
O SENHOR ANTONIO
Pois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (_para Maria Elisa_) Aquelle é o rapaz da loja que tem maleitas.
D. ANGELICA
Que queres tu?
O ENCAPOTADO
Eu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da cama.
D. ANGELICA
Credo! que seria?
O ENCAPOTADO
Resei o credo em cruz, e fui vêr o que era...
D. ANGELICA
E que viste?!
O ENCAPOTADO
Era a gata que comia uma gallinha assada, que trago aqui, menos o pescoço que lh'o tinha ella já comido.
(_O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a gallinha effectivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a victima da gata, e pede a seu irmão poderes discricionarios para vingar a affronta._)
UMA VOZ
Está o jantar na mesa.
CAPITULO XX
Está, portanto, casada a senhora D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Temol-a na rua das Flores, e deixal-a lá estar. Que se embriague dos carinhos do nosso bom amigo Antonio José. Se a riqueza satisfaz plenamente as suas ambições, é muito rica, póde cortar por largo, tem á sua disposição um homem capaz de tudo, menos de resignar-se com a felicidade do seu visinho João Pereira, que Deus tenha na bemaventurança dos pobres de espirito, que são quasi sempre os ricos de materia.
Vamos encontrar Rosa Guilhermina tambem casada com Augusto Leite. Sou o primeiro a confessar que o meu romance está cahindo muito! Um casamento ainda póde aturar-se no fim do romance. A gente gosta de vêr recompensados os tormentos de dous amantes com o prosaico destino de todos os tôlos e espertos. Ha casos, porém em que o casamento, em vez de ser o ultimo, deve ser o primeiro martyrio das personagens de uma novella. Quantas vezes eu leio uma, em que se me arrancam lagrimas de compaixão por dous entes que se adoram, a despeito de mil estorvos que lhes diluem em lagrimas os bellos olhos! Consterno-me; anceio a ultima pagina em que vão ser coroadas por um gôso duradouro as suas agonias... E essa ultima pagina diz-me que se casaram! «Faltava-lhes esta!» digo eu então, arremessando com piedosa indignação o livro!
Ainda um casamento... passe! Mas dous casamentos!... É abusar dos dons da igreja, ou romantisar o facto mais prosaico d'esta vida! Isto em mim creio que é falta de imaginação, ou demasiado servilismo á verdade!
Se Deus me chamasse para este caminho, como dizia, a respeito do estudo da natureza, o senhor João Pereira ao seu visinho, de certo não casava estas mulheres, tão depressa. Acho que o melhor era trazel-as por ahi um pouco de tempo a dar escandalos. Rosa deveria apaixonar-se por um major de cavallaria que lhe faria o favor de a inscrever no productivo catálogo das mães de familia. Depois o major era promovido a tenente coronel, e ia commandar dragões de Chaves, do que resultava (que palpitante não seria isto!) a boa da rapariga tomar duas onças de verdete n'um copo d'agua, e morrer amaldiçoando o perfido! Que cousa tão bonita! Hei de aproveital-a no primeiro romance que escrever, e que desde já se assigna nas lojas do costume.
Ora, Maria Elisa, essa... que havia de ser essa?... Eu entendo que Maria Elisa devia namorar-se d'um marquez. E vai depois este marquez tinha casado clandestinamente com Joanna Fagundes, criada da casa. E vai depois, constando á dita Fagundes que seu marido namorava Maria Elisa, a espadauda moçoila n'uma bella tarde, procura-a em casa, e mette-lhe os tampos dentro com uma cadeira. Elisa expira nos braços d'um sargento de policia, e Joanna Fagundes deixa cahir a mantilha, exclamando:
«Eu sou a marqueza de tal!»
O leitor ficava maravilhado do successo, e contava á familia a passagem com as lagrimas nos olhos.
Espero tambem não perder esta ideia, e o leitor terá occasião de avaliar duas obras primas. Por emquanto, peço ao respeitavel publico que suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.
Já agora, porém, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.
O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou conta da administração da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.
Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as horas em deliciosas palestras sobre a _Experiencia amorosa_, e _Sophia ou o Consorcio violentado_, romances muito lidos n'aquelle tempo.
Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite não era certo á hora da leitura, e vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.
Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lêr as _Viagens de Gulliver_ a sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos, que lhe empatavam o tempo até ás 11 horas da noite.
Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher lhe perguntava a razão da demora, encarregava sua mãe de responder suavemente, porque a paciencia já lhe não dava azo para tantas satisfações.
Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua formatura, e convenceu sua mulher de que não era costume as mulheres acompanharem seus maridos ao fóco da immoralidade. Rosa ficou, portanto, na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas, pedindo-lhe que lêsse a _Joaninha, ou a Engeitada generosa_. Seu marido escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras galanterias a que o academico, diga-se a verdade, não dava a maior importancia.
E vejamos porquê:
Augusto Leite tinha uma paixão unica: era o jogo; mas o jogo fôra o seu inferno, obrigára-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro não lhe era mais propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixão com mais ardor.
Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle, desde o primeiro anno, e que viera ao Porto durante as ferias grandes, em que se realisára o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordão de ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares de chinelas, umas côr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afóra um capote de castorina côr de mel. De mais a mais, obrigára-se elle a tel-a em sua companhia, com tanto que ella não fizesse barulho.
As condições estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e conseguira, além dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos de cordovão com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que são as mulheres mais feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.
Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve muito beijo, muita saudade, foram á missa do gallo á Sé, comeram muitos confeitos de chocolate, e não tiveram tempo de lêr romances. Os outros dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa revelação a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e sentiu a innocente vaidade de ser pae.
O academico partiu, e d'aqui até aos Carvalhos foi imaginando o systema de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis, perdidos até ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que não duvidou contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de sua mulher eram só propriedades.
O imaginado systema falhou, ou pelo menos não tinha vingado ainda, quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.
Revoltado contra o traiçoeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu tambem. As meditações incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra, onde dissipára seis mil cruzados, e ficára devendo dous.
No Porto eram geralmente sabidas as dissipações de Augusto Leite. Sua mulher fôra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphãos é que não era tão sublime; e, instigado por o senhor Antonio José da Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto Leite quiz provar que tinha muito juizo, mas parece que provou de mais, e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphãos, o mais que fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo dissipador. Tenho á vista os autos d'este processo, e sou obrigado a confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e Pereira de Mello.
Era um magistrado probo. Permittam este _entre-parenthesis_, porque o meu fraco é chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas, porque os ordenados não chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo já deu esta razão em pleno parlamento, e desde esse dia todos os magistrados são probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e as meias de seda, a rectidão e os bofes da camisa ficam sendo insignias de todos os magistrados.
Que é o que eu vinha dizendo? Não ha nada que me incommode tanto como ter de lêr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois é verdade: nasceu a tal menina, e foi baptisada com o nome de _Assucena_, da qual se ha de fazer larga e pungentissima chronica.[4] Era uma linda creancinha, que a mãe offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto não eram as creanças. Apenas a tomava dos braços de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braços da avó, que, por força, queria que a pequena se parecesse com ella.
Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher não bastavam a desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre senhora. Passeava sósinho no quintal, e, quando a timida mulher se aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.
--Eu desconheço-te!...--dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mão insensivel--Que tens tu, Augusto?... já me não adoras com aquelles extremos de ha um anno? Que te fiz? Não tenho eu sido tão igual para ti?
--Tens, Rosa... Não repares na minha tristeza... Isto é organisação...
--Pois assim variam as organisações!... Grande mudança transfigurou o teu genio!...
--Que queres!... Eu não me fiz...
--Pois sim; mas porque soffres?!
--Porque não sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administração d'uma casa...
--Mas tenho eu culpa de tal infamia!... Não fui eu propria fallar com o juiz?! Não empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer governar o que é nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...
--Não és... eu não te accuso... mas deixa-me, se não pódes remediar esta punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas trevas, á sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vós, ou a minha dignidade nunca mais erguerá a fronte diante dos homens! (_Reminiscencias d'um romance intitulado: EMILIA DE TOURVILLE, OU OS MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIÇÃO._) Feriram-me na corda mais sensivel da minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheço, profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das operações do intellecto são! (_Ideias pilhadas a dente na SCIENCIA DOS COSTUMES._) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha fortuna, por que jogo!... Quem póde privar-me de abrir com uma alavanca de ouro a minha propria sepultura! (_Pensamento soffrivel, roubado ao JOGADOR, comedia de Regnard._)
--E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?
--Acho... preciso d'esta distracção; fóra do jogo não vivo...
--Pois joga...
--E o dinheiro?... que é do dinheiro? Não vês que nos dão para a nossa subsistencia quarenta mil reis cada mez?
--Mas temos outros recursos...
--Quaes?!
--A nossa prata, que está avaliada em cinco mil cruzados... vende-a.
--Não te zangas por isso?
--Não, filho!... Eu dera a vida pela tua tranquillidade... Não é ella tua? Se o desejavas fazer, porque o não tens feito?...
........................................................................
Dias depois, Augusto Leite vendia a prata, que tinha sido o thesouro mais querido do arcediago de Barroso, e partira para Coimbra, combinando as fórmas d'um novo systema de jogo.
No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata, e este bilhete:
_«Não desdenhes uma lembrança da tua velha amiga. Comprei essa prata, e quiz presentear tua filha com ella._
«_Maria Elisa._»
A prata fôra comprada pelo senhor Antonio José da Silva.
CAPITULO XXI
Já não viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.
O senhor Antonio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja de pannos e algodões, traspassando-a. Fôra esta a primeira exigencia de sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco ás razões frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de João Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua visinha, que lhe não dava tréla.
Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da Rainha, que n'esse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de lhe roer a unha d'um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de commemorar todas as lagrimas d'este desventurado enredo.
O senhor Antonio José da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade custou muitos _padre-nossos_ a sua irmã, que esperava todos os dias um raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram n'esse tempo um pouco melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisação não tinha ainda inventado o cascalho.
O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem, e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram taes os solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas flagellaram os seus rofêgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeição do costume.
Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas de seu marido não comportavam a agitação febril do seu espirito. Ia, portanto sósinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas forças musculares.
A Providencia nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça! Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha exterior do repolho; emquanto o bom cidadão classificava methodicamente a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia; emquanto, finalmente, o negociante retirado legava á humanidade um prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo cousas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vão comprar tarlatanas, e rendas.
O leitor, se tem attendido á melhor historia que se tem escripto n'estes ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu ás bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.