A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 10

Chapter 104,020 wordsPublic domain

Faz ella muito bem. Está na flôr da sua idade, e Deus não lhe deu os talentos para escondel-os na terra. O seu coração anceia um confidente; o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma não veio tão cheia de luz para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras são as mulheres que não obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a muitos outros, é porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da creatura, dissera: «A carne do homem é fraca.» Ora, eu, pelos vastos conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher não é mais forte.

E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:

--Vmc.e faz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes aquelle gentil moço, que me parece um genio?

--Embalsame-o, minha senhora; perfume-o á sua vontade (lhe responderia eu), e quando não tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta dos tres reis, que a historia do tempo pôz em primeiro logar...

CAPITULO XVIII

Se eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.

A indignação contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas sensações. A litterata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho aqui alguma cousa nova!»

E parece que tinha!

Lembrava-se de cinco situações, em varios romances, similhantes á sua. Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava aquelle encontro, lançando ás largas costas da Providencia a predestinação de se verem creanças, e encontrarem-se na idade em que os corações não resistem ao superior destino da sua união. Não ha nada como a mulher espirituosa!

O futuro bacharel da sua parte não era tão metaphysico. Quando procurou Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro dromedarios em prosa villã. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito arrobas de carne, terão o seu digno tio Antonio José da Silva.

Na manhã immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva, acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do arcediago. O academico depôz respeitoso a offerta nas mãos (que não chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.

As mil cousas da conversação, particularmente ácerca de Elisa, resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no jardim a sós com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito, folheava os romances da poetisa.

--Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza, quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que imaginar-se póde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso, quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.

--E se eu deparasse um homem como seu marido?

--Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens, e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a côr na face... Estou certa que v. s.ª, conhecendo a fundo as virtudes de meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circumstancias a privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?! Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua mãe?... desculpe-me, que eu não cuidei que a magoava...

--Não me magôa... Isto são reminiscencias da infancia...

--Conheceu a mãesinha?

--Mal me lembro... vi-a, sendo eu creança de seis ou sete annos...

--Ella já morreu?

--Penso... que sim...

--Que prazer não teria ella em conhecel-a tão linda, tão esperta...

--Talvez me odiasse, como me odiou...

--Pois ella...

--Não vê que me abandonou?

--Talvez violentada por circumstancias...

--Muito por sua livre vontade...

--Sim?! então era uma indigna mãe... e desculpe-me...

--De certo era... uma indigna mãe... meu pae nunca me fallou d'ella...

--Tal era a differença que elle conhecera entre mãe e filha... Ora, pois; não soffra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua mãe?...

--De certo... queria.

--Eu estou-me a rir... Esta pergunta não devia fazer-lh'a, sem que a menina tivesse do caracter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso ha de vir com o tempo; e, se o coração lhe não repugnar, acceite-o como marido... Não é rico; mas o seu patrimonio é o amor que elle tem ao trabalho, e o seu talento que lhe promette creditos similhantes aos de seu pae, que tratava pouco dos seus interesses. De pae a filho vai grande differença. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, não é verdade?

--Pelo contrario, deleita-me a sua conversação, e captivo-me dos carinhosos desvelos que emprega na minha ventura... Oxalá que eu nunca desmereça no conceito da minha amiga...

--Espero que assim seja... Diz-me o coração que teremos de ser muito, muito amigas, que viveremos unidas muitos annos, e que fallaremos com prazer do bello dia que temos passado... Ahi vem o Augusto!... sempre com os livros de volta...

--São as _Cartas a Sophia_ por Mirabeau... Não pensei que a senhora D. Rosa conheceria esta obra...

--Porquê?

--Não é muito propria para leitura de meninas.

--Que tem? Se eu entendo as ideias d'esses livros, é que elles não me dizem nada novo; e se as não entendo, nada perco da minha innocencia.

--Acaba v. s.ª de apresentar uma ideia que opéra uma completa revolução na minha maneira de encarar as novellas! Tem razão!... Vejo que é não só sublime, mas até rasoavel no seu systema!

--Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei docil...

--Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião. Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinario...

--Não o creia, minha senhora.

--Não preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso afoutamente dizer que o não fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa Guilhermina é um portento. Ninguem dirá o que aqui está, sem se lhe importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem acclamações de espertas.

--Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o meu espirito precisa d'este alimento.

--E o seu coração?--perguntou Augusto.

Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, côr de cereja, fez-se mais linda.

--São horas de nos retirarmos--atalhou a irmã do negociante, que resumia em si a finura que a natureza caprichosa não quiz regularmente distribuir na sua numerosa e estupida familia.--Menina, dê-me um abraço.

Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante as _Cartas a Sophia_... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e feitiços, de parte a parte.

Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegilda acompanhava sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinião publica.) A estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia. A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da visinha, batendo-lhe á porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital, declarando, á hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum em casa de Rosa, e que fôra a estanqueira que a mettera n'aquella alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma, traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós tambem.

As mulheres dos meus romances quasi todas são honestas pessoas, que se casam. Só quando de todo em todo não posso falsificar a tradição em honra das minhas heroinas é que as sacrifico ao nariz-torto das mães de familia, que, quasi sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignação contra os romances em que os amantes não casam por fim.

Benignas senhoras, exultai, que a moral triumpha em todas as minhas obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na fórma do sagrado concilio tridentino e constituição d'este bispado com o senhor Augusto Leite. O juiz dos orphãos concedeu a licença, e o senhor Antonio José da Silva, embriagado da ventura propria, estimou que seu sobrinho arranjasse mulher com dinheiro, unica esperança, que elle negociante tinha de evitar as mendicantes perseguições de sua irmã.

Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas phrases, enganam-se. Namoraram-se pelas novellas, e liam ambos a pergunta e a resposta dos dialogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a estas leituras, e lagrimejava de ternura.

A constante presença d'esta senhora ao lado d'elles, authorisa-me a dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram occasião de adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu não sei que se tenha feito um namoro mais honesto que aquelle! É um gosto a gente encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao genero humano! A intelligencia gosa, o coração consola-se, a virtude dança a polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seu _cache-nez_!

Oh! Bemaventurados, em duplicado, aquelles que me lerem! O futuro fará justiça á candura das minhas intenções!

CAPITULO XIX

O NOIVADO

DRAMA EM UM ACTO

PERSONAGENS

_D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide._

_Antonio José da Silva._

_D. Angelica Athanasia da Silva._

_João Alves Rodrigues_ }

_Manoel José Fernandes_} Convidados.

_Joaquim João Baptista_}

_O snr. João Pereira_, o do chinó.

_Um encapotado._

A scena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de sala decorada, segundo a época.

D. Maria Elisa, e seu marido estão sentados no canapé. Á esquerda do senhor Antonio está sua irmã. Os convidados estão em frente do canapé, com as costas voltadas para nós.

O relogio de S. Domingos dá meio dia. Ouvem-se as regateiras que apregoam robalinhos na rua.

SCENA I

O SENHOR ANTONIO

(_batendo na respectiva perna_)

Meus amigos, mal diriam vmc.es que eu viesse por fim de contas a casar! Ninguem diga d'esta agua não beberei! Um homem, emquanto anda n'este mundo, não sabe para que veio...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Ella t'o dirá...

O SENHOR ANTONIO

Eu não tinha, até ha pouco, na cabeça... (_sensação nos espectadores emquanto o orador se assôa_) não tinha na cabeça a ideia de me casar, porque, emfim, os tempos não vão muito bons para alguns maridos que eu conheço... O nosso visinho João Pereira, do chinó, que o diga...

D. MARIA ELISA

Que historia é essa do João Pereira, em que o senhor Silva já me fallou de passagem duas vezes?

D. ANGELICA

Ora o que ha de ser? Os nossos peccados, cunhada... É uma mulher que o demonio tentou, Deus me perdôe, se pecco... Não gosto de murmurar... É mesmo uma vergonha... Está vestida e calçada no inferno...

D. MARIA ELISA

Quem? Não comprehendo...

D. ANGELICA

Quem ha de ser? Ella, a birbantona, que deu a mão de esposa a um, e anda por ahi sempre... como se diz, Antonio?

O SENHOR ANTONIO

Como se diz o quê?

D. ANGELICA

Como é que dizem os prégadores d'esse peccado?

O SENHOR ANTONIO

Não são os prégadores, é o nono mandamento.

D. ANGELICA

Pois sim; mas os prégadores chamam a essas mulheres... _indultas_... _adultas_, ou não sei que...

O SENHOR FERNANDES

Adulteras?

D. ANGELICA

Isso mesmo... Eu uma cousa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Sancto... Assim que vê um homem na rua a olhar para ella, ás duas por tres, faz-lhe gaifonas com a gata...

D. MARIA ELISA

Com a gata?

D. ANGELICA

(_remedando com a manga do capote de castorina amellada_)

Põe-se assim com a gata no collo a bulir-lhe na cabeça...

D. MARIA ELISA

E isso que quer dizer?

D. ANGELICA

Eu sei cá? é o peccado... Acho que a gata lá tem cousa de feitiçaria, porque os homens ficam de bôca aberta para ella!

O SENHOR FERNANDES

Acho que não é para a gata...

O SENHOR BAPTISTA

Eu tambem sou da mesma opinião... A gata não é má...

O SENHOR RODRIGUES

O peor é o gato, que a gata boa é, que caça ratos...

D. MARIA ELISA

(_á parte_)

Que cacafonias! _que a gata! que caça!_... Apre, que são muito alarves!

O SENHOR ANTONIO

Deixemos lá isso... ella lá sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua cabeça do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lh'o disse a elle... «Olha que essa mulher não te serve... tem má pinta, e não sei, mas ha de te dar que fazer...»

SCENA II

OS MESMOS E O SENHOR JOÃO PEREIRA

O SENHOR PEREIRA

(_entrando, sem pedir licença_)

Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...

D. ANGELICA

(_á parte_)

Olha o inimigo!... quem o chamou cá?!

O SENHOR ANTONIO

Ora viva o meu amigo e visinho! Esteja bom, passasse muito bem, é o que eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem ceremonia.

O SENHOR PEREIRA

A bôda e a baptisado, diz lá o outro, não vás sem ser convidado. Eu não estive pelas contas. Somos visinhos ha cincoenta e dous annos, e rapazes da mesma creação. Cá entre nós não ha ceremonias. Vim dar os parabens ao meu amigo e senhor Antonio, e vêr-lhe a sua noiva, que emquanto a mim é esta menina...

D. MARIA ELISA

Uma sua criada.

O SENHOR PEREIRA

Criada dos anjos. Pois, minha visinha, a minha casa é logo adiante d'esta; mettem-se duas portas de permeio; se precisar d'alguma cousa, de mim ou da minha companheira, não tem mais que mandar.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.

O SENHOR PEREIRA

Estou bem assim: farto de estar sentado estou eu atraz do mostrador. Com que sim, senhor Antonio, está vmc.e cá no rol dos homens de bem...

O SENHOR ANTONIO

(_com intenção_)

É verdade... cá estou no rol dos homens de bem...

O SENHOR PEREIRA

Fez vmc.e o que devia. Não ha vida melhor que a de casado. Eu cá de mim não tenho razão de queixa. Estou casado ha dez annos, tres mezes, e vinte e quatro dias, e, graças a Deus, não tive ainda um desgosto!

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Este é dos taes que o sabem no fim.

O SENHOR PEREIRA

A minha sancta companheira é propriamente uma mulher de casa, e minha amiga, que é mesmo uma cousa! Lá por eu ter mais vinte annos que ella, isso não tira, nem põe. Não é como algumas cá da nossa rua... nós bem sabemos quem ellas são...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Eu só conheço a d'elle...

O SENHOR PEREIRA

Lá porque os maridos não andam espartilhados a dar, com licença... nas canellas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...

Arreda com ellas! Eu, se tivesse assim uma, eu não seja João, se lhe não arrebentasse a propria barriga!... A minha Marcellina é uma rapariga, que, se me vir afflicto, vem prantar-se ao pé de mim, e não sahe d'alli sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me cahiu o cabello foi ella que me pôz este chinó na cabeça, e por ahi os tratantes metteram-me sonetos ao chinó por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...

D. ANGELICA

Credo! Anjo bento! vmc.e falla tantas vezes no inimigo! Não diga essa palavra que faz arripios no costado!

O SENHOR PEREIRA

Ahi está a nossa beata com as suas _escrupulisações_. A gente não sabe como ha de fallar diante de vmc.e A minha Marcellina, ás duas por tres, é diabo para aqui, diabo para acolá; e, se eu lhe digo que não é bom chamar quem está manso e quedo, ella diz que o diabo se chama diabo!...

D. ANGELICA

(_persignando-se_)

Sancto breve da marca! Cale-se lá com essas blasphemias! Sua mulher, se tivesse juizo, não dizia isso!... Se vmc.e lhe désse com o covado pela rabada, ella se calaria...

D. MARIA ELISA

(_á parte_)

São indecentes!... Se algum futuro author de novellas quizesse descrever fielmente esta scena, teria de ser indecente como elles! Tomára-me eu sósinha!

O SENHOR ANTONIO

Em que pensas tu, Mariquinhas?

D. MARIA ELISA

Ah!... eu?... não pensava em nada...

O SENHOR ANTONIO

A modo que estás triste! Aposto que estás a pensar lá n'essas cousas dos astros?

D. MARIA ELISA

Dos astros? não... pensava... na minha sorte... (_com ironia_) que é realmente invejavel. Estou satisfeitissima da deleitosa conversação d'estes senhores, que são sobremaneira recreativos.

OS SENHORES BAPTISTA E RODRIGUES

Pela parte que me toca... muito obrigado...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Pobre mulher!... e pobre homem!...

O SENHOR ANTONIO

Então, Fernandes, estás ahi tão calado!...

O SENHOR FERNANDES

Que quer que eu lhe diga?

O SENHOR ANTONIO

Quando te casas?

O SENHOR FERNANDES

Quando tiver mulher. Ainda não é tarde.

O SENHOR ANTONIO

Isso não; mas o casamento faz arranjo... Ella tem cincoenta e quatro, mas olha que é um anno para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis, mas cá, segundo os meus calculos, por morte de teu pae não tens nem trinta e seis moedas, porque elle é um gastador, e deixa-te viver lá mettido no quarto a lêr o Carlos Magno, sem te importares do negocio... Teu pae parece-me que não virá... vai-se demorando.

O SENHOR FERNANDES

Já lhe disse que o meu pae pede desculpa de não vir, porque se sente incommodado da gôta... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antonio os parabens, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como elle, largos annos de felicidade.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida! (_á parte_) Este falla melhor que os outros...

O SENHOR ANTONIO

Tu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre é bom a gente lêr o Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta passagem da formosa Floripes a Roldão: «Senhor par de França! Os vossos olhos são dous sóes que derramam raios que matam como os lampejos da vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso affecto é mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentes _fragas_.»

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.

D. MARIA ELISA

(_sorrindo_)

De certo...

O SENHOR ANTONIO

E outras muitas cousas que me não lembram agora.

O SENHOR FERNANDES

(_com ar sarcastico_)

É pena que vmc.e se esqueça dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!

O SENHOR ANTONIO

Ora diz lá tu algumas passagens...

O SENHOR FERNANDES

É impossivel, porque nunca li o Carlos Magno; mas, á falta d'essa preciosidade litteraria, posso dizer outra qualquer passagem bonita.

O SENHOR ANTONIO

A apostar que tu não sabes orthographia?

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Nada, não sei.

O SENHOR ANTONIO

Pois então diz alli a minha mulher que t'a ensine...

O SENHOR FERNANDES

Far-me-ia muito particular favor.

D. MARIA ELISA

Eu?!

O SENHOR ANTONIO

Sim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquellas cousas que fazem com que a gente não caia quando a terra anda de redor.

O SENHOR FERNANDES

E é isso que se chama orthographia?

O SENHOR ANTONIO

(_meio irritado_)

É, sim, senhor. Olha lá se queres saber mais d'essas cousas que minha mulher!

O SENHOR FERNANDES

Deus me livre d'isso... (_sorrindo a Maria Elisa que abaixa, envergonhada, o rosto_) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como hei de saber essas leis com que se regem os astros!...

O SENHOR ANTONIO

Chama-se _lei d'attrição_... Não te rias... é o que te digo, e, senão, ouve: ó Maricas, como se chama isto que nos faz estar de pé, assim direitos? (_erguendo-se._)

D. MARIA ELISA

Salvo erro, creio que são as pernas.

O SENHOR ANTONIO

(_sériamente_)

Isso é verdade; mas, se a terra andasse á roda, a gente cahia para o lado...

O SENHOR FERNANDES

Não é forçoso que caia para o lado; póde cahir para traz, ou para diante. (_Maria Elisa ri-se._)

O SENHOR ANTONIO

Tambem não vou contra isso; mas minha mulher sabe d'uma cousa que faz com que a gente não caia, porque todos os corpos sahem do centro da terra... Olha ella a rir-se! Então enganavas-me, cachorra?... Ah ruimzinha!... (_puxando-lhe uma orelha._)

O SENHOR FERNANDES

Sua senhora tem razão... Os corpos, não digo que saiam do centro da terra, mas tendem para lá; e esta tendencia faz que não possam, embora a terra se mova, cahir no espaço.

O SENHOR ANTONIO

Tu não sabes d'essas cousas...

O SENHOR PEREIRA, _do chinó_

Os diabos me levem se eu sei o que vossês estão a dizer!

D. ANGELICA

S. Bento! Elle ahi torna com o berzabum do inimigo ás voltas! Não se póde estar ao pé de vmc.e !... Credo!

O SENHOR PEREIRA

Ó mulher! deixe fallar a gente!... Eu queria saber como é lá isso de andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre diz cousas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! Já a minha Marcellina se mette tambem a fallar d'essas cousas lá dos livros com o doutor Miranda, e, pelos modos, a rapariga não é tôla de todo. Agora anda ella a congeminar nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem á janella...

O SENHOR FERNANDES

Observar os astros?

O SNR. PEREIRA

Acho que sim! A mulher lá tem aquella pancada na mola, e eu deixo-a estudar a natureza, como ella diz...

O SENHOR FERNANDES

Isso é justo. Não me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?

O SENHOR PEREIRA

Acho que é o sete-estrello.

O SENHOR FERNANDES

Ah! sim? E que diz ella a respeito d'esse «planeta?»

O SENHOR PEREIRA

Eu sei cá o que ella diz? Está alli á janella duas horas a olhar lá para cima, e quando se deita está fria de neve. Eu já lhe disse: ó mulher! deixa lá essas cousas celestes aos homens que sabem da póda! Tanto faz como nada; ella diz-me não sei que da abobada, e das _mariadas_ de estrellas... Apostar que o senhor Fernandes não sabe que ha uma estrella chamada _vespa_, e outra _saturnea_?

O SENHOR FERNANDES

Nada, não sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora é que lhe ensina essas cousas?

O SENHOR PEREIRA

E muitas outras, que me esquecem, porque não tenho as memorias affeitas a esses nomes inglezes e gregos. Se vmc.e quizer vêr o que é uma cabecinha ha de fallar com minha mulher...

O SENHOR FERNANDES

Estou convencido... não é preciso mais nada... Vejo que sua senhora estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de neve, quando a intelligencia vai quente do fogo da sciencia. Não concorda, senhora D. Elisa?

D. MARIA ELISA

Eu?!... não sei se...

O SENHOR FERNANDES

Pois não é da minha opinião?

D. ANGELICA

(_rabugenta_)

Não é, não, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher não se deve metter lá n'essas trampolinices! Do que ella deve tratar é de governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de encommendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a propria mãe de Deus, e não sabia lá das sciencias, nem dos planetas! Uma mulher honrada não vai de noite vêr á janella o sete-estrello, nem a vespa, ou o bisouro... mau bisouro é o demonio... Deus me perdoe...

O SENHOR PEREIRA

(_pundonoroso_)

Com que vmc.e , lá porque não tem cabeça para estas cousas, quer que as outras sejam tapadas como vmc.e ? Não é má esta! Cada qual trata de si, e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc.e gosta de resar novenas. Quem vai contra isso?

D. ANGELICA

E ella porque não resa novenas? Acha que lhe não são precisas? Pois olhe que... eu já vi quem precisasse de resar menos... Melhor lhe fôra governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e não deixar ir tudo como vai de portas a dentro...

O SENHOR PEREIRA

Sabe que mais? trate cá do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc.e é muito murmuradeira...

D. ANGELICA