A Filha do Arcediago Terceira Edição

Chapter 1

Chapter 14,051 wordsPublic domain

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A FILHA DO ARCEDIAGO

FILHA DO ARCEDIAGO

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

TERCEIRA EDIÇÃO

PORTO EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR 18 E 20--CALDEIREIROS--18 E 20 1868

PORTO--TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO rua Ferreira Borges, 31

Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa--ainda bem--d'esse contra-senso.

A FILHA DO ARCEDIAGO

CAPITULO I

Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração, que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.

Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.

É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)

Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.

Como veio esta menina para a casa do negociante?

Da seguinte maneira:

Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago:

--Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!

--Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.

--Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...

--Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?

--Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talhar futuros por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...

--Diz, padre Leonardo...

--Que é filha de tal pae e de tal mãe... Eu tenho sido o que tu sabes...

--Isso lá é verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de contrabando...

--E a mãe, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita embocadura...

--Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados... Mas, emfim, está casada, e já não é a mesma.

--Caro me custou o casamento...

--Isso custou! O que tu déste ao francez p'ra montar a loja de livros, ainda que não rendesse senão a sete por cento, podia hoje montar a reis... deixa vêr... quatro vezes sete vinte e oito, vão dous, com cinco cifras, faz... faz...

--Aguas passadas... não fallemos n'isso. Agora o que me importa é a rapariga, já que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno, Silva! Lembra-me ás vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...

--Isso lá é verdade. Diz o dictado: «Onde se fazem, ahi se pagam.» Já vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. Não lhe dês tempo a namoricos. Janella fechada, e marido entre mãos, era o systema de minha mãe, que Deus haja, e minhas irmãs não deram desgosto á sua familia.

--Tens razão, Antonio; mas quando o diabo está atraz da porta, não vale nada fechar a janella... Olha lá... Queres tu casar com a minha Rosa?

--Homem, essa!... tu serás o espirito ruim que me appareces em corpo d'homem? Não vês que tenho cincoenta feitos, e que nunca me deu na cabeça a asneira de me casar?

--Alguma vez ha de ser a primeira...

--Isso lá é verdade; mas cada qual mede-se com as suas forças, e eu já não estou homem para tropelias. O que eu quero é comer bem, é beber-lhe melhor. Isto de creanças, casadas com velhos, não provam bem...

--Estás enganado com o mau exemplo da tua visinha Anna...

--Que pôz na cabeça do marido um chinó, porque elle era calvo... e eu não estou menos calvo que o pobre João Pereira, que deu com o negocio em pantana, por causa da mulher...

--Não meças tudo pela mesma rasa, Antonio. A pequena é docil, tem um genio de pomba, vai para onde a levam, e será uma boa esposa. Ponto é pilhal-a nos cueiros... Tu sabes melhor que eu o dote que ella tem...

--Não fallemos em dote, Leonardo... Eu, se casar com a tua filha, tanto se me dá que ella tenha um como dous... A cousa não é essa... O peor é o resto.

--Que resto?

--Eu te darei a resposta ámanhã.

Continuaram fallando largamente sobre o assumpto, em que o senhor Silva, tres vezes, citou o chinó do seu visinho João Pereira.

No dia seguinte, o arcediago de Barroso encontrou o seu amigo meditativo.

--Pensas ainda, Antonio?

--Estava pensando no nosso negocio. Isto de mulheres deve a gente suppôl-as sempre mercadoria avariada... Mas, diz-me cá, a tua filha só tem onze annos...

--Só, e d'aqui a dous tem treze...

--Se a cousa se arranjasse, não podia ser senão d'aqui a dous annos.

--De certo.

--Pois, então, fallaremos.

--Não que é preciso decidir-se a cousa já.

--Porquê?

--Se disseres que sim, a pequena ha de vir para tua casa já; quero que seja educada por tua irmã, e que se afaça comtigo, para te ganhar amizade, e o amor depois virá.

--Qual amor, nem qual carapuça! Ella póde lá ganhar-me amor!... Eu cá de mim, se casar, o que quero é uma herdeira, porque tenho para ahi uns sobrinhos, que se penteam muito, e que não querem estar ao mostrador a medir covados de panno. Ha de me custar se elles vierem metter a mão no que me custou a ganhar com honra e trabalho. Um d'elles metteu-se-lhe na cabeça ir a Coimbra estudar para doutor!... Que tal está o catavento! Meus paes foram lavradores, eu sou negociante, e quem houver de ficar com a minha casa ha de vir para aqui. Quando penso n'isto, Leonardo, parece-me que me fazia conta casar!... E, se eu tivesse um filho!... isso então, digo-te que era ouro sobre azul! Se não fosse o medo, que tenho ás bôcas do mundo, não engeitava aquelle rapagão da Thereza...

--É verdade, que fizestes á Thereza?

--Puz-lhe um estabelecimento de castanhas assadas na Ribeira. O diabo da moça piscava o ôlho ao caixeiro, e pul-a fóra de casa. Eu cá poucas vergonhas de portas a dentro não as quero.

--Tens razão; mas isso do filho é cousa muito natural...

--Ah! é verdade; isto do filho acho eu que é cousa muita natural; mas dizias tu que á Rosinha...

--Viria para a tua companhia, e aos treze annos, ou mais cedo, com licença do bispo, casas com ella...

--Homem... isto é uma carta tirada da baralha... Está dito, se a cousa não dér de si, caso com a tua filha.

--Se a cousa não dér de si... dizes tu; que quer isso dizer?

--Sim, se não houver entrementes cousa que desarranje a minha saúde ou a d'ella...

--Está visto, não é preciso tirar isso como condição.

Rosa Guilhermina veio para casa do senhor Antonio José da Silva.

O noivo predestinado affeiçoou-se á pequena com toda a effusão paterna. Prodigalisava-lhe carinhos, que a menina recebia com indifferente innocencia, mas com certo aborrecimento intimo, e até nojo da sua grande cara, cujas belfas eram vermelhas como duas folhas de parra de moscatel, no outono.

Feitos os treze annos de Rosa, o negociante sentiu abrirem-se-lhe as valvulas do coração para lhe verterem nas veias um sangue mais quente. Não era um fino amor o seu; mas era um amor que lhe afinava a voz melodiosa de meiguices, que a pequena recebia sempre com tregeitos de enfastiada.

A affeição não correspondida reagiu.

O coração, atufado pelos tecidos cellulares, do obeso amante, esperneou nas cavidades do peito respectivo, e veio á superfície dos acontecimentos com o ideal d'um Antony, com os ciumes d'um Othello, e com a paixão escandecida d'um Mamfredo de cuecas, como tivemos o dissabor de vêl-o no principio d'este capitulo.

CAPITULO II

Na tão indecente como attribulada situação, em que deixamos o senhor Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar vesperas no côro da Cathedral.

O cálido negociante resfollegava como um tubarão, e improvisava uma ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos Deus, leitores, que muito amargo é o dizer a verdade inteira! Ha momentos em que o escriptor publico se vê forçado a córar. Se me visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.

O arcediago, porém, não se mostrou surprendido da attitude tragicamente afflictiva do seu amigo. Cálido tambem, despiu a loba, arremessou o cabeção, descalçou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos pés vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.

--Fostes a minha desgraça!-regougou o senhor Antonio, abanando o ventilador com a mão esquerda, e enxugando com a toalha de mãos os humidos torcicollos do pescoço.

--Fui a tua desgraça! Pois que é?-replicou o beneficiado, tapando com o indicador da mão direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma solemne pitada.

--Que é? ainda m'o perguntas? É a tua filha que me faz de fel e vinagre! É uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe faço meiguices!

--Ora deixa estar, que o remedio não está em Roma. Eu já te disse que sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou não queres casar com ella, Antonio?

--Perguntas-m'o agora que já não sei por onde me anda a cabeça!... Dava trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto parece que foi inguiço, que me fizeram!...

--Eu te quebrarei o inguiço...

--Não sei como. A pequena, seja lá pelo que fôr, não me póde vêr, ha um anno para cá. Aqui anda dente de coelho... Não sei, mas desconfio que ella namora o filho do João Retrozeiro, que me está sempre a lêr por detraz dos vidros.

--Devéras?

--Parece-me que sim. A minha Angelica já o desconfiou, e ralhou-lhe. A senhora Rosinha levantou a cabeça, e disse que não dava satisfações a ninguem.

--Ah! ella disse isso? Ora deixa-me com ella...

--Ouviste, Leonardo? não quero que lhe ralhes. É muito creança, e póde ser que minha irmã se enganasse. Serão escrupulos de Angelica, que me defumou com herva sancta e trevo nove vezes para me quebrar o feitiço em que me tinha a criada Thereza. É uma pateta mulher. Não lhe digas nada por ora a tal respeito. Aconselha-a que case comigo, e que me tenha amor, que eu prometto dar-lhe todo o ouro e vestidos que ella quizer. Hei de até leval-a ás comedias italianas, e não haverá fidalga que lhe bote a barra adiante em aceios.

Já vêem, pela energia da expressão, que dôr tão sublime não devia ser a que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquencia! O senhor Antonio José da Silva, superior á sua classe, sentia-se arrojadamente grande pela angustia d'uma repulsa. Trinta mil cruzados déra elle pelo amor de Rosa Guilhermina! Promettia leval-a ás comedias! Galardoava o seu amor com vestidos que fizessem morder de inveja as fidalgas do Porto! Eu quizera que Rosa lhe exigisse uma carruagem. Se o senhor Antonio accedesse ao extravagante pedido, então, leitores seria eu o primeiro a pedir uma data gloriosa, um cantinho, na historia da civilisação da rua das Flores, para o senhor Antonio José.

A nada, porém, se movera a esquiva donzella.

O arcediago, commovido pela exclamação do seu futuro genro, subiu ao segundo andar, e procurou, meio-colerico, a filha rebelde, que ensinava o papagaio a dizer: _é o rei que vai á caça_.

--Á caça andava eu de ti...--disse affavelmente o pae, chegando uma cadeira para junto de sua filha tambem risonha, que lhe beijava a mão.

--Ah! eu não sabia... Tenho estado aqui toda a tarde a trabalhar, sósinha.

--A senhora Angelica não tem estado ao pé de ti?

--Não, meu pae. Creio que foi visitar o SS. Sacramento.

--Mas ella ainda é tua amiga como sempre foi...

--Eu sei cá... parece-me que não.

--Algum motivo lhe déste, Rosa...

--Eu? nenhum.

--Que disseste hoje ao senhor Antonio?

--Não me lembro... A que respeito?

--A respeito do teu casamento.

--Não fallemos n'isso, meu pae... Sou muito nova, não quero casar.

--_Não quero!_ isso é cousa que se diga a um pae?

--Vmc.e não ha de querer a minha desgraça... Eu não posso ser feliz casando com o senhor Antonio... Antes quero ser criada de servir, ou trabalhar para viver...

--Rosa, não sejas creança. Olha que tu, casada com este homem, és muito rica, satisfazes todas as tuas vontades.

--Antes quero ser pobre... Tenho repugnancia em chamar meu marido a um homem que eu poderia estimar como avô... Não posso, é impossivel, meu pae. Mais facil me será morrer, que casar com elle.

--Visto isso, resistes á vontade de teu pae!

--Bem me custa; mas o pae ha de ter pena de mim; não ha de querer que eu seja desgraçada toda a minha vida.

--Não quero, não; e por isso mesmo é que te mando casar com o senhor Antonio José da Silva.

--Mate-me, se quizer; mas obrigar-me a casar, isso não.

--Das duas uma: ou casar, ou entrar já no recolhimento das orphãs em S. Lazaro.

--Entrarei no recolhimento, vou para onde o pae quizer que eu vá, até serei carmelita, se fôr da sua vontade.

Esta pertinaz resolução espantou o arcediago, e convenceu-o de que sua filha estava innocente das suspeitas de Angelica, beata crendeira em encantamentos, inguiços, e lobishomens. Se a pequena tivesse namoro com o filho do João Retrozeiro, de certo não acceitaria com tanta presença de espirito a condicional do recolhimento. Assim o pensava o licenciado, que tinha muita experiencia do mundo, e essa muito cara, a julgar pelas cifras que accumulou o negociante, orçando as despezas do casamento da mãe de Rosa.

Teimoso, e esperançado nas boas maneiras, entrou em negociações amigaveis com a menina. Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viuva rica, e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo. Repetiu a seducção dos vestidos, e dos diamantes; encareceu as delicias do theatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; emfim, por não fechar o discurso sem uma immoralidade, com palavras equivocas, dissertou pouco christãmente ácerca dos deveres da mulher casada.

Rosa insistiu na recusa. O padre irou-se outra vez; deixou cahir a caixa, no excesso da indignação; verteu no peito da camisa quatro pingas de rapé; escumou pelos cantos da bôca; pizou uma perna ao papagaio; entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda; e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem mais delongas, seria fechada no recolhimento de S. Lazaro, para não vêr sol nem lua.

O senhor Silva ouvira os ultimos berros, e zangou-se contra o padre. O seu amor não lhe consentia um ultraje a Rosa, apesar de ingrata. Em cuecas, e com a camisa em ventilador subia a escada; mas, a meio caminho, olhou para si, e viu, na sua consciencia, que não estava decente. Tornou atraz a enfiar as pantalonas de linho, quando o arcediago descia com a cara côr de lagosta, e os olhos turgidos e encarniçados como dois medronhos bravos.

--Não fazes senão asneiras, Leonardo--disse o negociante, impando com a difficuldade de enfiar a côxa roliça nas pantalonas, que queria vestir ás avessas, no auge da atrapalhação.

--Eu não faço asneiras. Sou pae, e quero ser obedecido.

--Que vaes tu fazer?

--Ámanhã ha de entrar no recolhimento por força.

--Deixa-te d'isso; não afflijas a rapariga por minha causa. Eu não consinto...

--Não preciso do teu consentimento. O caso agora é comigo, não é comtigo. Veremos quem vence.

--Então não ha outro remedio, Leonardo?

--Nenhum. Está de pedra e cal. Não quer casar por bem nem por mal. Diz que tem repugnancia em ser tua mulher.

--Sim?!-atalhou o senhor Silva atrozmente ferido na sua vaidade--pois, n'esse caso, faz o que quizeres, e tira-m'a quanto antes de casa.

--Olha cá, Antonio... Eu parece-me que a pequena, em se vendo fechada no recolhimento, onde não conhece ninguem, nem tem janella para a rua, mudará de vontade, e quererá casar...

--Comigo? Isso nunca! Deus me livre! _Má mez_ para ella! Lembras-te do chinó do meu visinho?

--Ora deixa-te d'isso, meu amigo. Nem todos os maridos são calvos... nem todas as mulheres fazem marrafas. Dá tempo ao tempo. Quem lida com mulheres, lida com o diabo. É preciso atural-as. Sabes lá o que eu tenho soffrido com ellas?

--Eu é que não estou para brincadeiras... Estava muito socegado, ha tres annos; para que vieste tu inquietar-me com o negocio, que me propozeste em Campanhã? Guarda a tua filha, que eu morrerei solteiro.

O senhor Antonio José da Silva, dizendo isto, melhor avisado, bebia uma limonada, e o arcediago de Barroso calçava os sapatos de fivela.

N'este momento entrava a senhora Angelica, de mantilha, e camandulas de pau preto pendentes nas mãos, que trazia sobre o seio em postura beatifica.

--D'onde vens, Angelica?-perguntou o irmão.

A beata resmungou, e subiu para o segundo andar.

Espionemos d'onde vinha a senhora Angelica.

CAPITULO III

Que Rosa Guilhermina estava, mais ou menos, possessa de feitiços, era um evangelho para a senhora Angelica. Que a filha do peccado, como a beata lhe chamava, seduzida pelo demonio, namorasse o filho do retrozeiro, isso é que não era liquido.

Para os feitiços deixára Deus na terra pessoas virtuosas, mulheres sabias, que os desmanchavam; e para adivinhar o coração da pequena bem sabia a irmã do senhor Antonio que o remedio não estava longe.

A senhora Angelica ouvira a conversação do seu Antonio com Rosa Guilhermina, na manhã do dia em que se passaram as scenas ridiculamente funebres do capitulo anterior. Cousas ouviu ella que a obrigaram a benzer-se tres vezes, e queimar arruda no seu quarto, e no da pequena. Parece que a timida sexagenaria receava que o espirito mau, que vexava Rosa, viesse, por variar, entreter-se com o seu corpo immaculado.

Feitas as abluções, e comido o jantar, que benzeu tres vezes, e devorou com as pernas em cruz, receosa d'um ataque subterraneo do demonio, compoz a coca da mantilha, armou-se do rosario abençoado por Gregorio XVI, prendeu duas figas e um chispo de veado na alça do collête, e sahiu.

Da rua das Flores a Miragaya dava saltinhos como uma franga com as azas cortadas. Ao pé da antiga casa da Companhia, n'uma porta baixa de casa terrea, bateu a senhora Angelica. A porta foi aberta por uma velha inqualificavel, indefinivel, mistura de todos os animaes repulsivos desde a santopeia até á cegonha. Era a senhora Escolastica, benzedeira, adivinha, mulher sabia, que praticava com o invisivel por meio da peneira e das cartas.

--Venha com Deus, devota de Nosso Senhor. Já sei ao que vem.

--Já? Louvado seja Deus!

--A Rosinha não quer casar.

--Nem á mão de Deus padre... Aqui anda feitiço. Queria que vmc.e me dissesse se o filho do retrozeiro, que se chama José, será o manfarrico que faz doudejar a cabeça da rapariga.

--Vamos a isso--disse a senhora Escolastica, carregando duas vezes de simonte a venta esquerda, que parecia um mexilhão aberto, e folheando um surrado baralho de cartas.

A senhora Escolastica benzeu-se, e pronunciou a seguinte oração, pondo as cartas em quatro montes, benzidas tambem:

«_S. Cypriano, bispo e arcebispo fostes, sete annos no mar andastes, na vossa divina graça vos sustentastes, sete sortes pela vossa divina esposa botastes, no fim vos declarastes. Declarai-me aqui se a Rosinha anda de namoro com o José, filho do retrozeiro._»