A felicidade

Chapter 2

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Nessa tarde preparou-se o nosso homem para ir à casa de Branca: novas esperanças lhe enchiam o coração. Já se amaldiçoava a si mesmo de ter sido tão fraco e irresoluto.

Tudo isto porém foi enquanto não chegou à rua em que morava a misteriosa moça.

Apenas viu de longe a casa, Mendonça hesitou e parou.

— Que triste ambição me leva ali? perguntou ele a si mesmo; que espero eu mais para saber que aquela moça é uma infeliz doida?

Outras perguntas fez iguais a esta. Passou pela porta dez vezes sem ousar entrar. O padeiro e o carvoeiro puseram-se à porta para ver se ele lá entrava; correram assim longos minutos até que Mendonça desistiu da empresa e voltou para casa.

Não recebeu nenhum recado mais. Percorria todos os dias o Jornal do Commercio a ver se encontrava algum anúncio convidando outro marido visto que ele renunciara tacitamente.

Nada achou.

No fim de oito dias estava ele em casa preparando-se para sair, quando sentiu baterem-lhe à porta.

— Quem é? disse ele.

— Abra, respondeu uma voz doce.

Mendonça foi abrir a porta e recuou espantado.

Era ela.

Trajava de preto: estava solenemente bela.

Entrou placidamente sem o menor sintoma de perturbação moral; todavia Mendonça receou uma cena desagradável, e o ato da moça o autorizava a crer nisso.

Preparou-se para acalmar os furores da pobre desprezada que, provavelmente, iam rebentar daí a alguns segundos.

Ofereceu-lhe cadeira, ela recusou.

— Minha demora é pouca, disse ela; venho despedir-me do senhor.

— Eu desejava explicar-lhe...

— Não tem que explicar, atalhou ela com voz melíflua. Eu compreendi que o senhor é um homem fraco, e incapaz de ser coisa nenhuma nesta vida.

— Mas...

— Assustava-o o mistério, continuou Branca impassível. Tinha medo do desconhecido. Nasceu para ser amanuense; recusou a mão que eu lhe dava; nunca sairá do que é hoje.

Mendonça estava aturdido; as palavras da moça entravam-lhe no peito como punhais.

Branca deu um passo para a porta.

— Adeus, disse ela.

Mendonça foi até à porta.

— Mas quem é a senhora que assim me traz atribulado há quinze dias?

— Eu sou a felicidade. Adeus.

E saiu sem olhar para trás.

Mendonça caiu prostrado em uma cadeira.

Meia hora depois saiu de casa apressadamente e foi à casa de Branca. Estava fechada.

Indagou da vizinhança. Todos lhe disseram que a misteriosa habitante mudara-se na véspera. Quando ouviu esta mesma resposta do padeiro da esquina, Mendonça deu uma risada, e perguntou se era possível ver estrelas ao meio-dia, e quantos palmos tinha o nariz do carvoeiro. Em seguida prometeu que mudaria o ministério e convidou o padeiro a dançar o miudinho na rua. Não consentindo o padeiro nesta distração coreográfica, Mendonça propôs-se a transformar o dito padeiro em gaturamo ou macaco. Nessa ocasião chegou o inspetor, que um caixeiro fora chamar; Mendonça seguiu dali para a polícia e da polícia para a Praia Vermelha, onde faleceu há um ano.

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