Part 19
Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que aquelle era o dia da sua segunda viuvez.
Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da terra!
Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella, por ventura, uma criminosa?
Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a uma extranha.
Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe!
Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella tambem aos olhos d'elle?
Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita, em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella amava tanto! Amava ainda. Ainda!
Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria.
Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda: Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?!
Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som, com um poder de infinita pacificação.
Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem, pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir...
Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor!
Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos. Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera.
Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho. Olharam-na com espanto.
--Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?!
--Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova!
--Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.
Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:
--Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome... Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou?
--Vae, respondeu Camilla muito excitada: mas olha, não offendas a baroneza. Basta dizer ... que eu não tenho nada no mundo senão as minhas filhas!
--Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive quasi...
--Basta de palavriado, Noca! interrompeu Nina; e accrescentou:
--Vá descançada, eu acabarei de burrifar a roupa. E depois, para a tia:
--Faz bem, tia Milla. O trabalho distrae.
XXV
Depois de dois annos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lepido, despido do seu ar de ingenua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens.
Catharina notou-lhe logo a differença, ao conduzil-o alegremente por entre os gyrasóes do seu jardim. Comprehendeu a serenidade do irmão. Vinha salvo.
Na manhã seguinte elle lia alto um jornal, quando esbarrou com um annuncio para um concerto de Ruth.
Parou; elle soubera de tudo pelas cartas de Catharina, e, voltando-se, fixou nella os seus olhos claros. Houve uma troca de confidencias entre os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a moça perguntou em voz baixa:
--Vaes visital-a agora?
Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com outra pergunta:
--Para que?...
FIM