A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta
Chapter 3
Accordei com um tiro dentro do quarto. O senhor Barbosa tendo aberto a janella dava tiros á queima roupa no bello ar da manhã emquanto gritava para a cama os maiores insultos premeditadamente hostis. Emfim, nem tive tempo de me vestir descançadamente nem sequer de fazer a _toillette_ e até perdi um maço por encetar de "La Deliciosa" com uma caixa de phosphoros de cêra de luxo com senha e tudo. Quando cheguei á rua tinham comparecido alli um sem numero de revolucionarios civis que em nome da lei me intimavam a entregar-me á prisão por ter incorrido no crime de ser germanophilo na pessôa de um funccionario do Estado e casado.
+IX+
N'esse dia de Agosto com toda a gente nas praias, Lisboa tinha o aspecto nú e vasio de um ascensor parado que já não funcciona. E eu que sentia isto do agosto de Lisboa, refrescava-me do calor e do tedio que ascendia por mim acima até á nitidez de ser a expressão exacta de estar desempregado de mim proprio. E concordava que isto de se existir pra provar que o tedio existe em Portugal, todos os mezes e todos os dias, continuava a ser tedio porque já estava provado desde a fundação da monarchia luzitana.
E quantas vezes sem se saber porquê a gente pensa na batalha de Alcacer-Kibir quando estamos á espera da resposta e do gallego! E tambem, como quasi sempre succede, chega sempre primeiro que o gallego um amigo que esteve na escola comnosco e apesar disto nunca esteve na escola comnosco.
E pergunta-nos como estamos quando nós apenas nos lembramos de termos tido bexigas brancas com calções e perna á vela. Todavia se erguemos os olhos pra elle reconhecemos n'aquella cara estupidamente alemtejana o primeiro classificado nas mathematicas do nosso curso. Justamente como o meu amigo Cunha que janta fóra por pandega, este antigo condiscipulo era a manifesta metamorphose d'aquella imbecilidade. O que é um facto é que se eu não tivesse resolvido graphicamente esta ligação não teria tambem explicado o ter pensado ha pouco na funesta batalha de Alcacer-Kibir. E de tal maneira eu cria n'esta transmissão de pensamento que fôsse pelo que fôsse o gallego não se poderia chamar senão Sebastião.
Elle, o condiscipulo, ainda estava deante de mim com todas as suas reminiscencias da escola tão alemtejanas como elle até que abriu muito os olhos n'uma falta de lembrança que era minha:
--Não te lembras do Sebastião?
--Qual? o gallego?
--Não!
--Ah! sim... o outro. O outro era elle com uma imbecillidade trigueira que teve o maximo na classificassão das mathematicas do meu curso e ainda que o gallego já podesse deixar de ser Sebastião, este Sebastião era gallego com certeza.
--Então o que fazes agora?
--Sou engenheiro. E esta _blague_ deu-me logo as vantagens de poder ter sido educado na Allemanha ainda que estava já resolvido a não dar gorgêta ao Sebastião pla demora tão demasiada que me parecia já um condiscipulo que eu não via desde a escola essa carta que eu esperava impertinente.
--Pois eu estou no Algarve... (tinha-me enganado, era o Algarve)... nas herdades de meu pae proximo de Olhão.
--A senhora manda dizer que o não póde attender porque chegou um primo d'ella do Algarve, que veiu de Olhão, disse o gallego n'um segredo que mettia x. em todas as palavras.
--Bom, quanto é? que não podia ser menos de dois tostões e se não fôsse o condiscipulo podia ter a certeza que ninguem lhe pagava o dobro do que pedia n'um gesto tão millionario.
--Então adeus! Vaes pra cima?... tenho pêna, eu vou pra baixo. Adeus.
+X+
Talvez que o leitor não saiba mas eu tambem sou conhecido como caricaturista. Outros dizem que eu tenho maus costumes, mas isso é para me arreliar, Ora tendo-se dado o caso extraordinario de no dia 7 de Abril de 1800 e tantos ter havido uma trovoada sobre o paquête e o commandante logo essa manhã ter mais um passageiro a bordo quando todos eram unanimes que tinha caído uma faisca na sala de jantar, o resto da viagem fez-se em sobresalto continuo. Todas as noites os phenómenos phosphoricos se intensificavam perturbantemente apesar do dr. allemão ter revelado a existencia de animalculos onde predominava essencialmente o iodo. Os companheiros de viagem conheciam-me lá entre elles por o recem-nascido. Depois d'esta a maior trovoada a que eu assisti foi em Campolide quando estava fechado á chave de castigo na retrete dos professores. Eu era tido como elemento indisciplinavel e perturbador até ao dia em que um frasco de tinta verde se entornou por cima do livro de missa quando eu estava a copiar um Christo gravado que eu achava muito bonito. N'esse mesmo dia fui expulso por causa d'um amigo meu que foi esconder as bolas de bilhar que ainda se não tinham estreiado dentro das bolas de bilhar que já estavam muito velhas. P'la noite, infelizmente, amnistiaram-me.
Recentemente, tendo-me encontrado em Barcelona com o doutor allemão que tinha umas barbas encaracoladas em iodo cortámos as relações por causa de uma acirrada discussão sobre Niewtch apesar de elle ter ficado encantado co'o meu bello jôgo de combinação no desafio de "foot-ball" contra o Racing de Madrid. Hoje, porém, tive uma alegria que eu não tinha desde a ultima trovoada--a engommadeira, que se tem ido civilisando pouco a pouco com o estar comigo, ao almoço veiu lindamente arranjada e beijei-lhe a bocca deante dos outros hospedes só por ella ter trazido os labios pintados de verde esmeralda!
Que bello! Achei-lhe mesmo um ar casto de Samaritana que apertou bem a cinta sobre o ventre--Ah! e que lindos são os limos do poço de Jerusalem!
A velhota que era dona da pensão veiu dizer-me com o chocolate esta manhã que estava cá um hospede que era muito meu amigo e que tambem lhe tinha dito que eu era o poeta de mais valor que andava por ahi. Jantámos juntos e entre coisas que recordámos foi um passeio que demos ao sitio do Calvario n'uma tarde de verão justamente á hora do raio-verde. Elle tambem se lembrava de umas tourinhas que houve nas eiras dos Serrões e que até o Virgilio quando ia a marrar no Cunha tinha ido, coitado, contra a trincheira e tinha escangalhado a cara toda que nem se lhe viam olhos, nem bocca, nem nariz, nem nada... um horror! Fazia soffrer. Preguntou se eu ainda tinha boa voz e se não tinha penna d'aquellas serenatas ao luar p'lo rio todos muito apertados com as primas da Eira de Pedra no bóte do tio d'elle. Elle achava que se calhar eu já tinha esquecido todos aquelles fadinhos tão catitas e ficou com um O maiusculo na cara toda quando eu lhe disse que já não namorava a Alice. Tambem queria saber o que eu tinha feito do cavallo que era tão airoso que um domingo até deixára de ouvir missa por ter ficado a vêr-me a dar gallopes no adro e a saltar uma oliveira que tinham tirado por causa da barraca da "kermesse". A proposito perguntou-me se eu tambem não achava que a Alice se parecia immenso com a minha amante e ai que os olhos então eram tal e qual. Pra elle era um exercicio que elle tinha que fazer pra ámanhã de manhã o eu ter deixado a Alice e com tanta cortiça! Teve immensa curiosidade em saber se eu ainda era muito distincto em mathematica mas além d'isso todos nós os tres achámos boa ideia irmos tomar o café fóra, á Brazileira. Pouco depois ouvimos grosso tiroteio no Largo do Directorio e elle nem sequer ainda tinha deitado assucar na chavena e já estavamos outra vez na pensão com apparencias pallidas de cardiacos com uma escada bestial até a um quarto andar. Eram umas duas horas da madrugada ainda elle estava a dizer que eu, quando foi a festa da Senhora da Saudade, talvez que eu me não lembrasse mas elle ainda estava a vêr uma Nossa Senhora que eu tinha pintado com anilina em dois metros de patente e que tinha ficado mais bonita que uma estampa e que até o prior me tinha feito um elogio rasgado no sermão da Paixão dizendo que era uma pena se eu não continuasse os estudos; mas o que elle achava mais extraordinario é que tendo sido expulso de Campolide a unica medalha que eu tivesse ganha fôsse justamente de catecismo. A dizer a verdade eu já tinha saudades de ter sido caricaturista mas como ella se tivesse ido deitar porque já não podia mais com somno elle disse-me que ainda bem porque trazia uma carta da Alice que era pra mim com a condição de eu dar resposta. A carta em questão affirmava sem preambulos que quando chegasse até elle já a tua Alice nem comia, nem bebia, nem via, nem cheirava, o que queria dizer que estava morta.
Comtudo a resposta era pra ella porque em _post-scriptum_ affiançava que estava disposta a esquecer aquella infame caricatura que eu tinha dito que era o retrato d'ella pra reatarmos outra vez aquella paixão intensa com passeios aos pinheiros e merendas no bosque e pescas ao candeio e, emfim, aquella pouca vergonha toda que é inevitavel p'las ferias com a barraca dos banhos mesmo ao lado da d'ella. No mesmo _post-scriptum_ pedia-me o obsequio de lhe ir comprar um chapeu da moda que não fôsse além de dois mil réis que era pra estreiar na feira por causa das Delgados que faziam troça d'ella por eu a ter deixado e que quando eu fôsse pra lá em Agosto que iria pedir ao tio Pedro dois mil réis emprestados. O mesmo _post-scriptum_ ainda dizia e com c cedilhado que não pensasse mais n'ella caso eu não lhe quizesse responder; porém, incitava-me á indisciplina com mais passeios aos pinheiros e merendas no bosque e pescas ao candeio, emfim aquella pouca vergonha toda que tinha custado um tiro de arma caçadeira no ouvido do primo d'ella que recitava monólogos de João de Deus e glosava todos os pensamentos com a condição do faroleiro o acompanhar á guitarra. No fim do _post-scriptum_ dizia-me que não tivesse duvidas absolutamente nenhumas que ella ainda era a mesma Alice que eu tinha deixado no club sem par pra dançar e que tambem não tinha duvidas absolutamente nenhumas que o tio Pedro lhe emprestaria p'la certa os dois mil réis. Cá no canto do papel dizia muito baixinho em hypothenusa de triangulo rectangulo--volte. Eu voltei e ella perguntou-me lá em cima do outro lado se eu achava que ella devia tomar as pilulas pink ou comprar um vigesimo da loteria do Natal com esse dinheiro e que gostava da minha opinião. Depois contava laconicamente uma excursão que um tio d'ella tinha feito á Torre do Pombal que tem vinte e cinco metros a pino e que, coitado, caira e logo por infelicidade quebrara uma perna que tinha ficado ao contrario. Pedia tambem desculpa de me não escrever em papel de luto mas que por desgraça das desgraças o pae d'ella tinha desapparecido quando n'um passeio p'la estrada vinha a correr pra cá uma manada de bois bravos. Emfim, a infelicidade era tanta, tanta que a propria mãe até já tinha abandonado a sua carreira de prostituta em Beja e até já lhe propuzera pra se amancebar com um senhor Barbosa que era de Lisboa e que me conhecia muito bem e que já não tinha muito cabello. Comtudo tinha preferido montar uma engommadoria com o dinheiro que um grumête do "S. Raphael" que era o unico amante que felizmente a mãe d'ella tinha agora e podia ir pagando aos poucochinhos. Mas não! preferia continuar aquella vida com elle. Aquella vida séria que não se póde voltar atraz, é ir... é não lhe dizer nada e deixar. E o relogio deu horas que eu contei mas não eram quatro nem cinco era um algarismo que eu nunca vi escripto e que só agora é que eu reparei que existe realmente entre o quatro e o cinco. Mais ninguem tinha ouvido senão eu. Felizmente que o relogio era de repetição e eu pedi a attenção de todos e estavam todos attentos e só eu é que ouvi. De repente partiu-se a fita e lá adeante começaram a dar pateada. Depois comecei a sentir muito frio só no hombro direito, tinham-se esquecido de fechar a janella. Vinha muita gente a fugir p'lo Chiado a baixo e o Chiado parecia n'aquella noite sem arcos voltaicos uma ponte levadiça sobre uma barbacã descommunal. Do outro lado a Alice tinha chegado tarde. O _post-scriptum_ tinha na ultima pagina escripto em lettra romana 33. Depois ia a andar, a andar pela margem fóra e começou a vêr uma bola muita sumida que ía crescendo, crescendo em tamanho mas que ficava sempre sumida; tornava a começar cá debaixo e já não crescia, subia toda deitada prá esquerda a diminuir a velocidade, a diminuir pra azul, pra azul até começar a ser devagarinho um boneco mal desenhado a dançar uma imitação do fantoche. Depois a cabeça do fantoche começou a inchar mollemente sem firmeza nenhuma e quando já era um balão muito grande que vinha cair ao pé de mim tocou n'um bico de alfinete que estava no tecto e entornou-se um balde de sangue que nunca acabava de se entornar mesmo no meio das merendas no bosque. De repente os andaimes começaram a desabar sobre mim. Os garôtos apregoavam nas ruas _A Capital_... muito longe, sem chão, alargava-se apressadamente uma cova de luz com as arvores nas nuvens de pernas pró ar, e a cova furou tudo pró lado de lá e ía-se abrindo mais depressa, muito mais depressa do que eu lhe fugia. D'esta vez bati mesmo com a cabeça na esquina da meza e o meu amigo deante de mim dizia-me que eu devia por todas as razões fazer as pazes com a Alice.
Eu é que já não podia mais; pedi-lhe immensas desculpas mas que estava era com um d'estes somnos de subir a escada ás escuras com o sol a nascer nos mercados. Quando cheguei ao quarto estavam todas as lampadas accesas e a engommadeira dormia a respirações baloiçadas tendo aberto entre os dedos na gravura do Christo um livro de missa todo ensopado em tinta verde e que era a unica recordação que eu trouxera de Campolide. Os labios d'ella estavam fortemente pintados de vêrdeesmeralda!
+XI+
Era muito pra lá do cemiterio mesmo na volta das furnas. Os carros da estrada quando passavam por ali iam mais depressa e de noite não passavam. De noite a volta das furnas ficava sósinha. Um dia appareceu uma cruz negra muito mal-feita e ainda ha muita gente no logar que diz que viu com os proprios olhos a cruz negra do moinho velho toda accesa de noite. Uma noite foi tão grande o clarão que até houve sinos a rebate julgando ser fogo. D'outras vezes é tão grande a gritaria que vem de lá do moinho que as mulheres, coitadas, pôem-se a chorar baixinho com medo de fazer barulho. Até o senhor prior que não acreditava foi lá sósinho pra desencantar o bruxedo com agua-benta porque as mulheres gritavam pra não deixar ir os maridos... e fizeram bem porque o senhor prior, não se sabe d'elle! Uma velhinha que voltou tarde da feira e não se lembrou e passou por lá prendeu-se-lhe uma rã nas voltas das saias e appareceu morta na estrada só sobre um pé. Depois é que nasceu o castanheiro que lá está no sitio. A gritaria que vem de lá do moinho é como o coaxar das rãs com o regato a correr filtrado. E cabra que paste por alli só dá peçônha. Um dia uma escola de repetição quiz-se fazer teza e os canhões foram fumados pelo commandante que se tinha esquecido de comprar charutos. Quando rompeu a manhã os batalhões já eram rãs que se tinham calado. Por isto mesmo, e é bastante, já não ha aldeia nenhuma n'este sitio de que estou fallando. Apenas existe um poço de cimento armado com balde e agua salôbra onde eu e a minha desditosa amante iamos gastar as tardes longe da cidade consoante a recommendação do meu medico que por deferencia que nunca esquecerei foi n'este caso o medico d'ella.
Não sei positivamente a razão d'aquella mudança tão repentina no espirito irrequieto da minha amante que quasi já nem sabia fallar e quando fallava era pra me pedir amendoas sentadas ou prá levar a pessear onde caem os balões. A saude physica antes de a perder, pelo contrario, desenvolvera-se-lhe extraordinariamente sem uma constipação apesar de preferir andar por toda a parte sempre núa. Uma manhã quando accordei no chalet que eu alugara sósinho n'aquelle monte longe de toda a gente reparei que ella não estava na minha cama!
A prêta, a cosinheira, tambem não sabia nada. De todas as janellas que eu espreitasse ella só poderia estar das que eu não espreitasse. Se descia ao rez-do-chão ouvia passos no outro andar mas se estivesse no outro andar ouvia passos no rez-do-chão. Tambem, se por acaso, eu dava uma volta pela quinta prá procurar quando voltasse era certo que ella ainda não tinha accordado. Ás vezes a luz tambem faltava de repente com o frio de uma janella que se abria mas quando a luz voltava as portas de dentro das janellas tambem estavam fechadas. Uma noite eu estava a escrever um conto realista e o aparo da canêta era uma vêspa. Pensei toda a noite na vêspa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com lettra da minha amante que, mais extraordinario é, nunca aprendeu a lêr. A cosinheira prêta chegou-se um dia junto de mim a chorar como doze cosinheiras prêtas e disse-me que tinha medo de dormir no sotão porque as têlhas de noite punham-se todas em braza e que depois quando se derretiam cahiam em picadellas de alfinetes. Tambem contou que uma madrugada tendo-se sentido mal que se tinha ido vêr ao espêlho e que vira com os dois olhos da cara a agua do contador a cahir pra cima. No dia seguinte o carteiro trouxe uma carta registada que quando eu a abri foi logo um estôjo de barba com sabonete e tudo, e quando eu fui pra mostrar este presente á minha amante encontrei-a sentada sobre uma vela accesa a cortar reflexos com uma thesoura das unhas que já faltava no meu estojo da barba quando eu o abri. Quando a vela ardeu toda começaram a apparecer pelas parede ás escuras immensos t t que vinham uns depois dos outros e cortados por estrellas cadentes que eram uma nota de musica quando acabavam. Immediatamente entrou a cosinheira e vinha com um castiçal de cobre acceso mas trazia a cabeça ás avessas; vinha preguntar-me se eu sabia, por acaso, onde é que eu tinha lido aquella frase que ella já se não lembrava se era i ou de chumbo. Mas peor do que nunca, foi quando n'aquella manhã de Maio eu accordei no meio de um sônho em que vira a minha amante como sendo cosinheira preta da cintura pra cima e sendo apenas a minha amante da cintura pra baixo. Quiz certificar-me. Sentei-me na cama e tive um grande prazer em verificar que tinha sido apenas um sonho aquelle horror. Porém, quando ella se ergueu era effectivamente, ainda que ao contrario do meu sonho, a minha amante da cintura pra cima e a cosinheira preta da cintura pra baixo.
Desci preoccupado as escadas, tive a noção exacta da profundidade até onde estavam pregados os pregos dos degraus; comprehendi como um degrau póde ser um mundo se nós quizermos e é um mundo real mesmo que nós o não queiramos. Achei mesmo dois mundos differentes dentro de um mesmo prego--um era a cabeça do prego, o resto era o outro. O que me interessou mais foi justamente o que era apenas a cabeça do prego. E logo havia outro mundo n'outra cabeça de prego... e outro n'uma cabeça de prego maior... e outro n'outra cabeça de prego ainda maior, e outro n'uma cabeça de prego da altura da Torre Eiffel e um prego cuja cabeça fôsse a Terra e apesar d'isso ainda houvesse outros pregos muitissimo maiores.
Tive mesmo dentro do meu cerebro as dimensões de um prego em que a Terra fôsse o atomo minimo do ferro que pezasse em toneladas a capacidade do mundo astral com todas as suas distancias.
E mais ainda: eu sentia que cada póro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada mundo mesmo os das ultimas subdivisões tivessem um mappa e leis e onde cada sêr fôsse tão complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu. Não era sómente este segrêdo que já fazia parte da minha riqueza, havia outro. Era eu ter conduzido a minha sensibilidade (educada exclusivamente pelos que me educaram na psicologia humana) pelos timbres dos metaes... Ah! os mundos interessantissimos que são aos milhares nos timbres dos metaes, e nas côres dos metaes e na ferrugem e na duracidade e em todas as partes do corpo mineral e em todas as sensações da alma mineral muito mais independente que a psycologia humana pela unica razão de aquella ser independente. E que exercitos tão mais gloriosos e que Alexandres e Napoleões bem mais deuses desfilam n'esta historia immensa, muito mais antiga que a nossa, e com historiadores que sendo poetas vivem n'um mundo inteiramente mais perfeito, apesar de existirem talvez apenas no bico do alfinete que o senhor Barbosa traz espetado na gravata encarnada e verde. Isto vem a proposito do senhor Barbosa ter communicado n'um bilhete postal á minha amante que ia escrever um livro sobre... sobre quê!? O senhor Barbosa que por ser senhor Barbosa é toda a gente, quer seja senhor Barbosa na Arte, quer o seja na Politica ou na Individualidade ou em tudo é n'este mundo o mesmo que um remedio que nunca haverá de livrar as pessoas da morte. Digo nunca haverá porque não creio em absoluto na intelligencia humana por isto que o homem só vive exclusivamente a vida nitidamente animal ou a mysteriosamente espiritual porque nem esta mesmo na sua metaphysica soube definir quanto mais a vida mineral, a vegetal, a fluida, a do orvalho, a da phosphorescencia, todas as infinitas vidas synthetisadas na côr verde e em todas as outras côres e em todos os tons provaveis e impossiveis de todas essas côres e de todos os seus contrastes simultaneos... etc., etc. Ora como quer o senhor Barbosa escrever um livro se nem mesmo como transeunte o senhor Barbosa é completo ou competente. Ou como póde o Papa ser infallivel em materia de Deus se o meu Deus é differente do d'elle e do de todos os seus catholicos e até differente do Deus de todos os atheus. Deus ha tantos quantos os instantes de todas as vidas de todos os mundos e esse ninguem póde adora-lo porque o não póde conceber. Só esse proprio Deus é que o póde conceber, e mesmo Este não admitte a sua propria concepção porque se a Terra por destino tiver fim os outros mundos subsistem e se o fim fôr uma logica das determinantes d'aqui a um milhão de annos os mundos serão todos outros com as metamorphoses de outros mundos ainda.
Mas nem é preciso ir tão longe, vamos á vida, restrinjamo-nos. Eu se dou a minha opinião republicana a um republicano acha elle que sou talassa. Se é um monarchico que me ouve as theorias conservadoras desliga-se de mim por causa de eu ser revolucionario. Se é um artista que discute apressa-se em dizer-me que a arte d'elle é differente da minha como se houvesse duas artes, como se Deus fôsse dois como as approximações da loteria. O que esse artista não sabe é que essa tal arte d'elle é tão pouca coisa como o mercurio fechado dentro de um thermometro centigrado e que só póde subir até cem assim como se cem fôsse o limite do vacuo e onde começa justamente uma formação de mundos onde a atmosphera é rigida com relação á nossa impenetrabilidade.
Ora o senhor Barbosa vae escrever um livro sobre quê?! O senhor Barbosa aprendeu no catecismo ou na educação civica que o homem tem cinco sentidos e foi no bote como qualquer ministro quer seja de Deus ou da Republica. Ora foi justamente o senhor Barbosa um dos primeiros que me veiu dar os parabens por causa de um Christo por mim publicado n'uma revista de rapazes a _Ideia Nacional_ cuja unica particularidade para os outros foi ser verde e não ter cabeça.
Justamente como se eu tivesse tido a ideia de fazer uma cabeça de Christo e não um Christo inteiro. Não me dirá o senhbr Barbosa o que terá percebido do meu Christo? Julgou que fôsse partida aos catholicos? Julgou que era a minha adhesão á Republica? Julgarão tambem os catholicos que me merece alguma consideração essa sua archaica restricção religiosa? Julgarão acaso os catholicos que eu pretendi cantar-lhes a devoção? Julgarão os monarchicos tambem alguma coisa em seu favor?