A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

Chapter 2

Chapter 24,176 wordsPublic domain

Começou de pôr carmins nos labios exageradamente e depois ouvindo a voz da peixeira que era a d'ella veiu debruçar-se no parapeito a gritar pra baixo a como era a sardinha. Como estava toda núa puxou um lençol da cama embrulhou-se descuidadamente e foi ella propria abrir-lhe a porta e que entrasse que não estava mais ninguem. Que até podia vir pró quarto d'ella e que talvez fosse melhor. A principio achou muito caro a sete vintens a duzia e como reparasse no retrata do senhor Barbosa caréca e com tinta rôxa despregou-o dos pregos e deitou-o pra debaixo do sofá. Continuou a achar muito caro a sete vintens a duzia e olhando fixamente os olhos da varina deixou cair o lençol que até parecia sem querer e offereceu-lhe a dois tostões a duzia com a condição de comprar o peixe todo e ainda a de almoçar com ella. A varina mexeu as ancas n'uma arrelia de que já não era a primeira vez que lhe succedia aquella chatice mas ella correu prá varina e beijou-a na bôcca que até lh'a deixou magoada. N'um ápice correu a fechar a porta á chave por dentro e a cerrar de nôvo as janellas sobre as obras ao sol. Quando o sol d'ahi a pouco bateu do lado de cá e entrou plo quarto até á cama já se não sabia bem qual das duas era a varina--eram só pernas núas e seios a reluzir na saliva. Só se ouviam gemidos de cançadas até que o gato entrou fortemente convulsionado nas agonias de uma indigestão de sardinha.

Quando o senhor Barbosa metteu a chave á porta e achou o silencio abafado d'aquelle quarto meio-illuminado teve a impressão que ella tinha posto um espêlho muito grande ao comprido sobre a cama e que depois se tinha deitado toda núa com o ventre pra baixo. Achou estroinice mas não quiz bulir o silencio; sentou-se junto da porta a observar. Esteve assim perto de meia-hora a gosar aquelle _Paris-salon_ mas não se poude conter e foi pé-ante-pé e de chapeu na cabeça depositar-lhe um beijo mesmo no meio da espinha vertebral. Depois o senhor Barbosa teve um estremeção que sentiu em todo o envolucro do coração como se fosse um murro atirado de dentro pra fóra; começou a chorar visivelmente e tirando o chapeu sahiu violentamente desgostoso tendo tropeçado na canastra vasia.

Como já fossem duas horas da tarde e álem d'isso houvesse já muita gente no Rocio pra uma imponente manifestação ás nações alliadas, não quiz perder o _rendez-vous_ quotidiano e decidi-me a ir ter com ella. A porta estava encostada e estava escuro lá dentro. Olhei. Tive a impressão que ella tinha posto um espêlho grande ao comprido sobre a cama e que depois se tinha deitado toda núa com o ventre pra baixo. Achei estroinice mas não quiz bulir o silencio; sentei-me junto da porta a observar. Havia assim disperso pela meia-luz como que um cheiro a porto de mar e que fazia frio no peito lá em cima no tombadilho; desci de novo os olhos sobre a cama e senti-me melhor confortado na cabine mas tive um sobresalto como se eu me tivesse enganado e tivesse entrado na cabine da sueca que eu namorava. Foi um escandalo a bordo e o proprio marido da sueca chegou a partir o cachimbo no hombro do commandante. Depois nunca mais vieram jantar com a sinêta, era sempre antes ou depois. Um dia o sueco estava mesmo á borda a vêr os golfinhos a saltarem dentro do binoculo veiu a mulher d'elle e deu-lhe um empurrãosinho que foi logo uma tragedia por afogamento. Passados tempos voltou o senhor Barbosa de chapeu na mão, e os seus olhos tristes tambem tinham o chapeu na mão. Havia n'elle uma tragedia submarina que dava a perceber alli qualquer empurrãosinho fatal. Havia mesmo até um descorajamento que poderia (quem sabe) ter analogias com o incendio do Deposito de fardamentos. Advinhava-se-lhe na gravata negra e despreoccupada uma indifferença pla gloria de vir a fallar nas camaras, um despeito p'la sorte de ser presidente da Propaganda de Portugal e socio das commissões de vigilancia.

A Patria mesmo, n'este instante, era lhe desinteresse quaternario. Quanto mais se vive mais se aprende, pensava, e tambem pensava que felizmente estava armado porque sentia a _browning_ no bolso de traz entre a hombreira da porta e a nadega direita. Só tinha penna de deixar o seu logar de alferes miliciano talvez a algum incompetente. Sentia que afinal a sua vida tinha ficado caréca ao mesmo tempo que elle-proprio mas morreria com o orgulho de ter sido um dos maiores apologistas dos _Sinos de Corneville_. Na cama houve um minusculo movimento e ella disse pra mim e prá varina n'um contamento de sorte-grande: Ainda bem que o estupido do Barbosa não se lembrou de vir. Depois uma senhora de avental de dona de casa veiu trazer um molho de chaves e que muito obrigada mas que tambem não serviram. Immediatamente se ouviu um berreiro na escada que dizia que dois ainda se admittia, agora, tres que era demais. E a senhora de avental de dona de casa fechou a porta.

+VI+

Estar em Sintra é agradavel não pelo facto de se estar em Sintra mas pelo facto de se poder dizer que se está em Sintra. E tambem porque é um incidente tão provisorio como a propria vida; o definitivo é que desconsola ainda que é surprehendente saber-se que o definitivismo absoluto não existe ou que é dispensavel como o artigo de fundo do jornal que se compra porque se não lêem os jornaes ha muito tempo. E verdade tinha Santo Agostinho em affirmar que tudo se paga n'este mundo--um jornal de vintem tem p'lo menos uma torre de marfim e os de dez réis depois da quarta pagina ainda teem mais duas de annuncios.

--O senhor tem bilhête? voltei­me e percebi uma figura de fato escuro que por um signal que trazia perto do bigode era com certeza o revisor; e eu que já ia nas ultimas linhas das ultimas noticias com canhoneio em Verdun, desloquei-me de repente pra muito mais perto de mim--na unica linha pra Sintra com uma folha solta de diccionario onde o revisor queria dizer individuo que revê os bilhetes dos comboios e que usa fumos no bonet de pala e um signal de cabêllos no queixo.

Ao lado fallavam inglez-sem-mestre e eu pra escutar melhor fingia lêr a "chronica do bem" quando de repente li no jornal não sei onde o meu nome inteiro justamente quando o comboio parava na Amadora. Outra vez o meu nome mas d'esta vez era uma senhora chic e loira que ia deante de mim e que lia em voz alta o nome de uma cautella de prego que tinha encontrado no chão.

--Perdão, minha senhora! fiz eu com certos acanhamentos de sangue frio propositado, esse nome é de meu irmão; e foi elle quem pagou os extraordinarios juros d'aquelle emprestimo. Desde então a senhora chic e loira começou de olhar pra mim como eu queria que ella me olhasse antes de me ter notado a cautella de prego e deixou cair o lenço e a malinha, e o leque e a sombrinha, e não deixou cair mais nada porque em Bellas apeou-se o magote do inglez-sem-mestre. Infelizmente d'ahi a Sintra foi um instante e nem houve tempo pra vêr a paysagem bonita ao pé do Cacem; apenas posso garantir que quasi me chegaram as lagrimas á raiva por o tunel do Rocio illuminado e grande não ser no tunel de Sintra pequeno mas ás escuras Que em Sintra não lhe fallasse porque era casada na Estephania todos os verões com um titular de dinheiro mas que fôsse plos Pisões todas as noites ou aos Seteaes se fossem de luar.

Quando cheguei á villa tive a triste noticia de que tinham assassinado o barbeiro por questões de altas finanças do estado em que elle como revolucionario civil estava envolvido com destaque; porém, a noticia não foi tão desoladôra que eu não soubesse quasi immediatamente e sem perguntar nada a ninguem que o infeliz barbeiro era nem mais nem menos que o titular de dinheiro casado na Estephania com uma senhora chic e loira. Até adeantei os meus pezames ao jantar e fui pessoalmente garanti-los á desolada viuva que andava p'las diagonaes da sala de visitas a fazer figas e a dar vivas á republica com lagrimas e sapateados de irremediavel. A minha presença deu-lhe duas coisas bem nitidas e proporcionaes n'estas occasiões afflictas--alento e alarido. E avançando pra mim toda erguida prá frente co'os braços rigidos no ar veiu repousar a cabeça sobre o meu peito que até me desbotou a gravata azul pró collête branco. Todos os seus solavancos de desesperada iam desfallecendo lentamente n'uma alegria intima que data de antes de Affonso Henriques: rei morto, rei posto. Se fôssemos tão independentes como o nosso estomago não teria eu tido a necessidade de me despedir com tanto apetite de me vêr livre d'aquelle sentimentalismo (áliás tão humano) pra ir jantar sósinho á meza extrangeira do Laurence's Hotel; mas a verdade é que quanto mais não fôsse isto já era uma razão de ter vindo pra Sintra.

O creado disse-me o _menu_ com muita pena do barbeiro e que considerava o assassinato um vandalismo mas que se eu não quizesse _potage à la valencienne_ tambem tinha _puré de legumes à la mexicaine_. Pobre barbeiro!

E eu já tinha remorsos de que talvez o tivessem assassinado no momento preciso em que ella lia o meu nome na cautella de prego que me caira do bolso. Mas fôsse pelo que fôsse a sôpa vinha a escaldar e não se sabia ainda quem foram os assassinos e agora vá se lá saber... E verdade é que seria tão difficil dar com o paradeiro dos malfeitores que a elle já se lhe affigurava um facies tão criminoso como o do revisor da linha de Sintra de quem eu seria testemunha da sua innocencia tão evidente como os fumos no bonet de pala ou o signal de cabêllos no queixo. E até ao arroz tive tempo de meditar na fallibilidade da justiça atravez dos tempos até ao assassinato do barbeiro em Sintra no Castello dos Mouros cá em baixo ao lado da cisterna. A prova que tudo tem razão de ser n'este mundo é que eu já estava observando que effectivamente o Castello dos Mouros este verão tinha a barba por fazer.

Depois veiu galantine de perdiz e um enveloppe fechado na outra mão e era pra mim. Era a senhora chic e loira que me mandava dizer que n'aquelle lance fatal tinha mêdo de ficar sosinha de noite na cama e portanto que me demorasse a jantar que ella viria ainda prós dôces. Estas coisas pra uma sensibilidade como a minha que só sabe resolver as coisas depois de resolvidas fizeram-me pensar profundamente emquanto pasmava os olhos n'uma reproducção lythographica do Imperador da Allemanha tão embaraçado como eu n'este assumpto diplomatico. Immediatamente tive uma boa ideia que nunca mais me lembrou por ter entornado sobre a toalha branca meia garrafa de vinho verde que ficou a alastrar-se como o azar a denunciar-me de estar pensando em dormir com uma viuva sem saber se sim ou se não. Ainda não eram os dôces e ella entrou com a salada. Trajava rigorosamente de luto mas o apetite do seu sorriso e o cinzento das olheiras pintadas trajavam rigorosamente de adultera. Não quiz café--o seu estado de espirito apoquentado e triste preferia uma garrafa de champagne. Começou a declarar-se-me absolutamente desilludida sobre a morte do marido e de tal maneira que as lagrimas rebentaram-lhe espontaneamente por eu ainda não ter acabado de jantar.

Contou por alto a historia do seu infeliz marido que era estabelecido com loja de barbeiro na Praça da Alegria, loja muito conhecida e estimada de todos por servir de sala de espera quando os electricos não andavam e que ainda por cima tocava no gramophone os _Sinos de Corneville_ e de graça. Disse-me tambem uma historia de uma filha que tinha em Lisboa e que um malandrão qualquer tinha tirado da engommadoria onde trabalhava pra viver á custa d'ella e ainda por cima obriga-la a fazer indecencias com as mulheres do peixe. E demais, seguia, tendo tido um bom conselheiro como era um sujeito careca que eu havia de conhecer de vista com toda a certeza e por signal até se chamava senhor Barbosa e ainda por cima era primo do primo d'ella que era ministro do fomento do Terreiro do Paço. O creado fez estalar a rôlha do champagne n'um arrepio meu que parecia o ultimo suspiro do barbeiro ou o estalo da corda partida do gramophone dos _Sinos de Corneville_. A historia era muito triste e ainda mais extensa que a garrafa de champagne mas emquanto o creado me aconselhava o puding de cosinha que estava delicioso, que até tinha sido feito pelo Augusto, ella prometteu beber outra garrafa de champagne não só para acompanhar com o puding como para esquecer aquella infelicidade que lhe cortava o coração ás tiras de salame com uma navalha de barba com trinta annos de serviço.

Depois do café fômos distrahir prá kermesse. A mim a kermesse pareceu-me uma kermesse e a ella pareceu-lhe um pião. Confessou-me que aquella boneca de vestidinho azul tinha um ar muito engraçado; um ar que era muito peculiar ao marido todos os sabbados á meia-noite quando fechava mais tarde. Depois affastámo-nos da kermesse, sem dar por isso e ella ia-se-me confessando sugestionada pela ideia da morte; que sempre tivera uma enorme sympathia pela obra do Dumas pae e a do filho e perguntou-me se o Dumas gravador era da mesma familia. Gabriel Dannunzio não conhecia mas havia outro poeta que a fazia chorar e por quem daria a propria honestidade de viuva desolada talvez condemnada a ter que procurar outro barbeiro mas que não tivesse politica partidaria. Esse outro poeta, dizia ella n'uma contorsão de tragica cinematographica ao mesmo tempo que me pisava um callo, era eu, era eu e mais ninguem. Só eu--o preferido das viuvas dos barbeiros! O poeta maior que os Dumas todos, mesmo superior ao Dantas e ao Noivado do Sepulcro. Mas por fim estreitando-me n'um abraço declarou que realmente o que ella estava era bebeda e sem mais nada começou a correr pela escuridão e pum... um tiro! Fui vêr. A tresloucada creatura n'uma dôr cruciante e fatal tinha acertado no umbigo, n'um instante de revolta, uma bala que a puzera repentinamente horizontal com a cabeça sobre uma bosta de boi.

+VII+

Ultimamente inquietava-me por vêr que o porteiro fazia má cara quando sahiam da quarto d'ella magótes de varinas que vinham afogueadas. Apoquentei-me mais quando uma tarde em que eu entrava no quarto d'ella esbarrei com um anão sebento que ia a sahir. De feito, ella já nem se queria levantar da cama--gostava de almoçar, jantar e fazer tudo alli sem ter que se vestir. As contas da pharmacia só tinham ampôlas de morphina. Um dia o senhorio mandou-me chamar e tendo-me dito que tinha immensa consideração por mim estava, porém, absolutamente disposto a não consentir n'aquella indecencia de varinas e senhoras casadas e meninas de labios pintados é até pra cumulo ás vezes casais de garôtos de pés descalços. Effectivamente ella transformara em absoluto o quarto independente com porta prá escada: Bons tapêtes de côres escuras, lampadas electricas de todas as côres, gravuras de nymphas perseguidas por faunos, apologias da inversão a côres e em todas as posições, e as gavêtas da _toilette_ em vez de vestidos e roupas só tinham batons de _maquillage_ e frascos de todos os tamanhos com apparencias de mais de cinco mil réis. Uma vez riu-se muito e como grande novidade levantou a camisa e mostrou-me no ventre um contorno de sexo masculino que ella, propria tinha desenhado a encarnado e enchido de verde esmeralda. Quando eu voltei de Sintra a senhora de avental de dona de casa veiu contar-me que isso tinha sido um grande desgosto para ella que nem sequer nunca mais recebera varinas nem mesmo até o guarda-portão. E dizia-me que ella, coitada, via-se bem que era minha amiga porque era vêr que apenas eu chegasse era certo ella receber outra vez as varinas, os pinocas e a filha da senhora Baroneza. Um dia fiz-lhe vêr que ella já estava na cama havia perto de anno e meio e que portanto tomasse cautella. Ella foi até á janella e logo a primeira impressão foi de que o Alecrim que d'antes subia prá quelle lado agora era ao contrario subia pró outro lado. E depois n'uma festa gentil pediu-me encarecidamente pra eu lhe ir arranjar aquella pretinha das cautellas que tinha mulêtas, e foi de tal maneira gentil o seu pedido que eu não tive outro remedio que o de ir ajudar a pretinha a subir a escada pra descançar um pouco no quarto independente com porta prá escada.

+VIII+

Cada vez creio mais que a vida obedece a um principio quadrado que se resolve dentro d'esse proprio quadrado e fóra d'elle em xadrez. Por isto que o quadrado é sempre o mesmo e inconstante de posição as transparencias lucidam-se em diagonaes galgando. Theoricamente é irrealizavel de planos que apenas praticamente existem moveis na phantasia. O quê d'isto é a incomprehensão em todos. Eu quero explicar: Todos os sentimentos são conscientes e inconscientes e simultaneamente! Assim, eu posso ter immediatamente a consciencia de um sentimento que accordou na minha inconsciencia e logo essa consciencia póde vir a definir-se tão nitidamente que se resolva em absoluta inconsciencia.

Nada, absolutamente nada, em todos os tempos é commum ainda que se restringa a uma unica sociedade e definida. Esta coisa de haver uma lei que tenha a vaidade de se impôr a todos é tão irritantemente estupida como a de haver uma só medida pra todos os chapeus.

Tudo o que eu estou dizendo é de tal maneira a expressão da verdade que o proprio leitor ha-de ter certamente reparado que não percebe nada do que eu venho expondo.

Pois foi hontem mesmo que o senhor Barbosa me deu a honra de me apresentar sua Ex.^ma esposa. E de tal maneira eu não quiz crêr que foi esta a primeira vez que tive consideração p'lo meu amigo senhor Barbosa.

Começámos p'la rebellião da Irlanda depois derrotámos os turcos da Asia-Menor mas quanto aos destinos das nossas baterias Canet, a Ex.^ma esposa do meu amigo apenas sabia que o sol de Lisbôa fazia-lhe apetecer um duche de sorvêtes. Entretanto como a conversa do senhor Barbosa não tivesse geitos de recuar em Verdun coube-me a sorte de convidar sua Ex.^ma esposa pró que quizesse tomar cá mais perto de nós, no "Martinho". A gréve dos carroceiros era pró senhor Barbosa tão infame como a violação da Belgica e sempre que por azar havia de fechar um periodo dava um viva á França sem pestanejar. A Hespanha tambem se tinha portado mal, não sei como, com o meu amigo senhor Barbosa e, em verdade, já era com uma certa razão que apetecia outra salsa com syphão á sua Ex.^ma esposa. E talvez porque em Hespanha haja muitos germanophilos (a maioria!), coube-me ainda á minha pessôa o convite prá segunda salsa.

--E depois, dizia-me o senhor Barbosa, não sei se sabe que os allemães não são nada decentes. Ora esta phrase que a principio me pareceu descabida tinha afinal razão de sêr porque sua Ex.^ma esposa retirou suavemente o pé de cima da minha bota. Como exemplo de mulheres honestas apontava co'os braços erguidos o meu amigo as russas, as de Vizeu e as alliadas.--Estas, sim, fanatizava-se o meu amigo, estas sabem sêr mães quando mandam os filhos prás fronteiras pra defender a Patria! e dizia esta ultima palavra com um A tão sonoro que pareceu-me terem os carroceiros grévistas apedrejado as vitrines do café. Os allemães, segundo o senhor Barbosa, tinham de fugir ás mães pra irem pra debaixo das patas do Kaiser, e entornou meia salsa com syphão co'uma palmada bem aberta sobre o marmore cheio de cinza.

--Veja o meu amigo as francezas que mesmo quando são _cócóttes_ sabem de cór a Marselheza! O senhor Barbosa fallava tão gesticuladamente que um senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-proprio chegou-se á meza e disse baixinho ao ouvido do meu amigo:

--O gajo é germanophilo?

Então o senhor Barbosa entezou-se n'um d'estes nãos que querem dizer--'tás doido! e eu juro que nunca mais esquecerei este meu amigo que me salvou da morte. Entretanto sua Ex.^ma esposa retirava p'la segunda vez e mais suavemente ainda o seu pé pequenino de cima da minha bota.

Depois houve um silencio extactico co'o creado a perguntar se o tinham chamado e o meu amigo senhor Barbosa virando-se repentinamente prá porta chamou muito alto: ó Marcos! e preveniu como quem não quer ter remorsos e com o braço o mais alto que podia: não penses n'isto, hein!? Era a minha innocencia. Ainda houve um segundo silencio extactico, sem o creado a perguntar se o tinham chamado, mas não contente o meu amigo foi a correr e ainda agarrou á esquina do Rugeroni o tal senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-proprio. Eu queria seguir todos os seus gestos pra perceber d'ali de dentro do café aquella segunda confissão do meu dedicado amigo senhor Barbosa mas sua Ex.^ma esposa começou a observar mexendo o meu relogio de pulseira e sem olhar pra mim disse que eu tinha uns olhos muito bonitos. Ainda julguei que fôsse outra salsa que ella quizesse mas não, d'esta vez era café com leite. Perguntou quem me tinha dado aquella pulseira tão gentil e quando eu lhe disse que foi uma allemã ella escondeu um lacinho preto, amarello e vermelho que tinha pregado no lado direito com uma andorinha azul de esmalte.

--Então o senhor é germanophilo?

--Tambem tenho um pijama de sêda que me deu uma senhora franceza.

De repente o senhor Barbosa entrava no café e sua Ex.^ma esposa virando-se pra mim disse-me apressadamente como se fôsse o final de uma conversa que tivesse forçosamente de ser acabada: Então appareça hoje á meia noite em ponto que o Barbosa está nas commissões de vigilancia. E o senhor Barbosa com ares de ter tido uma lucta movimentada mais do que permittia a força humana sentou-se limpando o suor da testa n'um allivio: Felizmente está tudo resolvido! e voltando-se pra mim declarou-me que á meia-noite ia jurar a um sitio secreto que eu não era germanophilo.

As avenidas alli n'aquelles sitios mal iliuminados faziam-me, não sei porquê, lembrar dos apaches de Paris. As linhas dos electricos brilhavam vasias e o guarda-nocturno co'as mãos nas costas, pensando talvez no almoço de depois de amanhã, fitava vagamente o zimborio mais perto da praça de touros que lhe parecia uma cabaça de dois litros e meio de tinto. Eu só tinha frio na cara onde acabava o côco e começava a gola levantada do casaco e pensando se por acaso teria as meias rôtas, cada esquina que eu dobrava me parecia que eu ía do escuro pra um quarto illuminado onde estivesse uma mulher em camisa a pôr o despertador prás horas em que acabassem os serões das commissões de vigilancia. Como sentisse mais frio em cheio nas faces lembrei-me com mais frio ainda que aquelle muro cinzento com as ameias quadradas já tinha sido jardim zoologico com leões que comem carne sem ser cosida. Afinal nem era da Nordisk, era da Cines aquella fita da domadora que era assassinada plo proprio marido dentro da jaula dos tigres. Do lado das tabernas veiu uma brisa sumida e morna de fadinho de melênas com questões revolucionarias; o proprio ramo de loureiro pregado na porta tinha um movimento indeciso de se querer raspar. Mais adeante é que eram as lettras F. G. H. tão enigmaticas como mane, tessel e fare... tão atarracadas e luzidias como o meu amigo e careca senhor Barbosa. Um patamar, dois degraus, mais outros dois degraus, tres lanços pra traz e pra deante sempre a subir, a porta da rua encostada... um candieiro de petroleo em cima de um môxo de cosinha lá onde acabava a passadeira verde do corredor e muitos cheiros a pó de arroz, á esquerda, depois de uma canelada n'um caixote lacrado com Vizeu em cima e cautela em baixo. Depois muita luz, muitos biombos, muitos retratos a carvão assignados Fonseca, muitos espêlhos, muitos lacinhos frisados e ella na cama quadrada a fingir que dormitava n'uma gracinha travêssa de camisa curta pelas vrilhas e peugas de rapaz muito justas no côr de rosa duro. Antes de chegar á cama havia um papel no meio do chão e escripto a lapis--era a conta da engommadeira... sete collarinhos 37, dois 39 e um 40, marca Wagner. No fim da conta em ar confidencial dizia sublinhado: conta particular de madame Barbosa. Apaguei de repente a luz e comecei a atirar pró lado o casaco, o collarinho, a camisa e talvez porque tivesse atirado um pouco mais alto as calças tive o desprazer de ouvir um acorde de piano em dó maior e fuga do gato assustado.