Chapter 8
Apeiaram-se; burguezes espanejavam ao sol a sua obesidade preguiçosa, _dandys_ com camelias na botoeira, damas todas encolhidas no regalo quente das suas pelles, _cocottes_ com vestidos mirabolantes, estudantes de medicina pondo uma vaidade espectaculosa nas suas pastas amarellas, de fitas vermelhas fluctuando, militares alisando as fardas com luvas de camurça, todo um publico pacato, passeiando com um methodo ordeiro na grande alea, acotovellando os _mirones_ que paravam em frente do coreto, para não perderem o gesto largo da batuta do regente e as notas que se rebolavam com uma liberdade mal educada por sobre os ramos esguios do arvoredo, creanças saltando em redor do lago na admiração curiosa dos habitos dos cysnes, brazileiros aposentados que occupavam pachorrentamente as cadeiras do Asylo, um ou outro municipal em vadiagem destacando-se com o colorido escarlate dos vivos da farda e das chapas reluzentes do metal das agulhetas.
--Muita gente, hoje!
--Sim, muita gente.
Deram o braço, cadenceando o passo no rythmo da musica, cumprimentando pessoas conhecidas, umas cortezias elegantes, de affectação estudada.
A orchestra batia valentemente a grande marcha da Aida; a voz perdia-se na sonoridade dos instrumentos.
Caminhavam juntos, uma vaidade de se verem moços e admirados, Ermelinda arrojando aos olhos das outras, que passeavam, a sua _toilette_ formosa, o seu chapeu _modelo_ de finissimas flores; e elle a luva correctamente calçada, a guia do bigode n'uma curva de artista, atirando ao publico com a formosura da sua Lili; toda elegante com o seu vestido de _traine_ de velludo, invejada, seguida pelo olhar cubiçoso dos _dandys_ que o cumprimentavam, dos estudantes que ao vel-a passar prorompiam n'um cortejo de gulosas interjeições admiraveis.
Iam e vinham na grande alea povoada, encarando sempre em frente com a massa granitica do hospital da Misericordia, d'uma architectura pesada e d'um sumptuoso imponente, o trem esperando-os á porta do jardim.
--Estava já cansada--dizia--a bota do pé esquerdo apertava-a um pouco.--
O jardim despovoava-se; a musica cessara; tres horas nos Clerigos lembrando as necessidades physiologicas do estomago.
Chegaram a casa moidos, um pouco fatigados. A toilette incommodava-os, um desejo violento de se despirem, de se pôrem á larga.
E Ermelinda depoz o vestido sobre a cama, o chapeu n'uma cadeira, despenteou-se, os cabellos cahindo n'um desleixo emmaranhado, o corpo mettido n'um penteador um pouco surrado, os pés n'uns sapatinhos commodos.
--Estava á sua vontade, emfim--e subiu á sala de jantar, um grande appetite, palradeira, comendo gulosamente azeitonas antes de principiar o jantar.
O Jorge interveio:
--que lhe faziam mal, que era uma creancice.
--Antes isto do que o tal _lunch_ de Carreiros, ein, Alberto--gargalhou.
--Sim, antes isso--e comia devoradoramente, pouco expansivo, o pescoço curvo sobre o prato de sopa, bebendo de espaço a espaço, o guardanapo limpando os cantos da bocca.
--Então foram tambem a Carreiros?
--Fomos, podéra!
--E o Doutor, o sympathico Doutor?--interrogava.--
--Não estava lá!--
Ficou muda, um pensamento fugitivo, associando-se áquella adjectivação, com que o pae mimoseava Roberto, a imaginação alvoroçada, uma comparação desfavoravel para o seu marido, que agora sem os atavios da elegancia, um casaco usado, com a gola voltada, encobrindo a auzencia dos collarinhos,--muito comilão.--
--E se nós fossemos hoje ao S. João?--
--Vai a Lucia, creio eu.--
--Ai, a Lucia, quero ir então; e se houver enchente!... o melhor era o papá ir já comprar o camarote...
--Pois sim, eu vou,--e saboreava de vagar a ultima sobremeza, muito guloso, o créme esfiando-se pelos bordos da pequena colher.
--A Joaquina fez hoje isto bem--elogiou.
--O que succede raras vezes--acudiu o Alberto.
--Não, vamos lá, não estamos mal servidos.
--Réles, simplesmente; o _ram-ram_ sabido, nem um prato novo; não ha como a cosinha franceza!
--Eu cá por mim detesto-a,--obtemperou o Jorge--uns nomes pomposos, uma _homard à la russe_, uma _timbale d'ecrevisses_, um _foie aux champignons_, etc., etc., tudo uns bonitinhos e a final a barriga vasia.--
Alberto encolheu os hombros, um ar de superioridade, achando pulha aquella critica da cosinha franceza, feita pelo sogro.
Veio o café. Ermelinda bebia aos pequeninos sorvos, o corpo recostado na cadeira, a manga do penteador descia mostrando uma redondeza pennugenta de braço.
--Levantaram-se.
--Ia comprar o camarote; elle não voltaria, lá os esperava no átrio, ás oito e meia, não fossem tarde.--
--Para o anno havemos de ter assignatura, sim, Alberto?
--Certamente; não se póde viver no _hig-life_ sem isso; é mesmo indispensavel, chamar-nos-iam pelintras, uns sovinas.--
--Oh, havemos de ter, fica já combinado...
E passou-lhe o braço no hombro, amorosamente, um agradecimento áquella acquiescencia de bom tom, esquecendo as desharmonias que se tinham manifestado, os seus aborrecimentos, a comprehensão do ideal que o separava d'elle.
Entraram no quarto, estendeu-se languidamente na poltrona, a circulação quente do jantar, a imaginação antegosando o prazer da noite de theatro, as plateias curiosas assestando os binoculos para os camarotes, os penteados, as toilettes do _hig-life_ e tudo aquillo n'um ambiente callido, de luzes scintillantes, a musica e o canto espreguiçando-se na atmosphera quente.
--Então, menina, não tratas de te pentear, vão sendo horas...
--Já!... ainda tão cedo!... estou com uma preguiça... Vou mandar chamar a penteadeira.--Se eu soubesse, antes iamos ámanhã...
--Ora... que creancice...
Fazia esforços para se levantar, o corpo quebrado, n'uma mollesa flacida, a nudez dos braços retesando-se sobre a cadeira.
--Só se tu me tirares d'aqui...--
Elle veio, tomou-a pelas mãos, fez um esforço, pôl-a rapidamente de pé; o penteador desabotoou-se, deixando ver uma renda de camisa poisando sobre o assetinado do seio,
--Oh, que desastrado!--sorriu-se--e se eu cahir outra vez!--E atirou-se sobre a poltrona, o corpo n'uma curva provocante, contente da sua semi-nudez.
* * * * *
Muita gente no theatro. A illuminação ainda a meio gaz, um poucochinho cedo, mas logo os violinos principiaram em afinação, uns gemidos rapidos esfiando-se delgadamente no ambito livre, e a luz scintillou, como um leque aberto, avivando as cores mirabolantes dos vestidos, o polido dos penteados, a seda lustrada dos chapeus altos. Senhoras entravam para os camarotes, accomodando-se na frente, uma grande ostentação de _toilette_ para recompensar a incomprehensão da opera:
--Pouca gente conhecida;--e assestava o binoculo movendo-o em differentes direcções, a manga do vestido descobrindo o canhão da luva _gris-perle_ de sete botões.
--Ai o commendador, o padrinho!--
--Aonde?
--Ali, na superior, olha...
Lá estava realmente, recostado, uma grande abstracção do meio, a suissa recortando a brancura do collarinho, os oculos d'ouro reflectindo scintillações irisadas de luz.--
--Não entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.--
Ermelinda inclinava o corpo, uma agitação inquieta, um desejo de ser notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os _dandys_ que estacionavam pela superior.
O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel, luminosas facetações de brilhantes no peitilho da camisa.
Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre ella as saudações dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de popularidade, no seio do _hig-life_.
Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de mocidade, o assetinado do _poudre de riz_, amaciando a côr trigueira das faces. Vinha só; um vestido elegante, de _faille preto_, guarnições de setim, o decote aberto n'um impudor provocante, o cabello negro frisado, uma risca rosada separando dous bandós reluzentes. Brilhantes nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doçura amortecida d'uns cilios negros, tendo ás vezes umas ironias relampejantes, d'um cynismo deshonesto.
Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canhão comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitação lenta.
--Quem é aquella, Alberto?
Olhou na direcção indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial apanhado em flagrante, e para disfarçar:
--Não sei, não conheço! Ora deixa ver o binoculo.--
O pano subia, a attenção de Ermelinda desviou-se para a scena; appareciam umas arvores seculares, o _baixo_ cantando uma canção monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas que a plateia recebeu com murmurios de censura.
Mas elle, não desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:
--Mas é a Annita, não tem que ver!... que luxo!... onde iria ella apanhar o _pato_! E mais bonita, sim, mais bonita! Até mais gorda; eu bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!--
E recordava as suas convivencias passadas, a atmosphera quente de bordel onde a conhecera, a sua _inclinação_, aquellas ceias em que bebiam _champagne_ e adormeciam ébrios nos braços um do outro, os requintes de lubricidade, em que se juravam amor
--e a pequena, que faria ella da pequena?--
Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginação engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima, sobretudo--aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para sempre.--
--Mas o _pato_, o _pato_, quem seria!--havia de sabel-o e d'ahi quem adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicação.--
O pano cahiu. Uma pateada á ultima area do tenor.--
--Ia fumar um pouco, vinha já, se ella queria tomar alguma cousa--
--não, não, pódes ir,--e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro
--Então conheceste-a?
--Nada, não--e sahiu rapidamente, o espirito alvoroçado, intrigado por colher informações exactas, que o illucidassem, muitos pormenores.
Fumava-se nos corredores, apertos de mão, criticas á empreza, á opera, aos artistas.
--Uma pepineira--dizia o Luiz Serra no seu calão de botequim.--
--É para a frente, rapazes, pateada a valer, ha-de ficar a noite memoranda.
--Não vale tudo os quatro contos do subsidio.--
--E querem publico as senhoras emprezas, pois não! para apresentarem esta chinfrinada.
O Alberto entrou no grupo.
--Então, rapazes!
--Homem, caes da lua...
--Mas já não é da lua de mel, que elle cae, aposto!
--Explica-te.
--Vejo a Annita n'um luxo asiatico, aquillo é teu, ein, Alberto?
--Não, jurava que não, e até gostava de saber quem era o _pato_.--
--Pois pensavamos que fosses tu.--
--Eu sim, descartei-me a tempo d'aquillo--respondeu com um certo desdem.
--Pois está magnifica e de mais a mais pouco accessivel.--
--Conta lá, menino!
--Um tigre, um monstro; passou outro dia no Suisso e voltou-nos as costas como quem despreza os antigos conhecimentos.--
Grande risada.
--tinha graça, a final.--
A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.
--Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.--
Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua, caminhando de lado.
Os córos desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitação febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo sahia das torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.
--Vai ahi haver um chinfrim medonho--disse o Alberto no camarote.
--Se nós nos retirassemos!...
--Ora deixa-te de tolices, tinha graça perder o melhor do espectaculo!--e voltou-lhe as costas, a vista medindo a força numerica dos pateantes, e a sua força qualitativa.
Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita; tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por meio d'aquella illusão d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de Procusta do seu passado.
--Só... mas hei-de sabel-o,--murmurava--o Juca sabe tudo, elle ha-de saber isto; é impossivel que o não saiba.--
Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.
--Mas não, estava vingada; dava-o ao desprezo--e amollecia as suas iras na comparação do seu bem estar actual, a vida facil correndo como um rio de leite, os seus caprichos satisfeitos, um luxo que nunca conhecera, brilhantes, toilettes caras.
E olhava de soslaio a mulher de Alberto, n'uma analyse curiosa e miuda, averiguando da riqueza do seu vestido, comparando, desdenhando da sua inferioridade em joias.
--E o Alberto seria feliz?--interrogava-se, sentindo a piedade dos afortunados, um ar compassivo para desditas phantasiadas.
--Sempre era o pae de sua filha!... felizmente que a pequenita tinha morrido--e uma nuvem de tristeza poisava sobre a sua imaginação, escurecendo-lhe a claridade, como um cirrhus a um raio de luar. A recordação porém era fugitiva, cedia á efflorescencia de novos pensamentos que a occupavam.
--Parece que se não dão lá muito bem--observava--quasi sempre de costas para ella!...
E quando via o binoculo de Alberto assestado para o seu camarote.
--Pois não meu lindo amor, ha-de ganhar muito com isso--e voltava-se mais, o rosto desviado para o palco, a attenção obrigada a prender-se na scena que se estava representando, o tenor pedindo perdão, com as suas notas desafinadas, á prima-dona que tinha offendido com as suas infedelidades.
--Ora, tanto entendo eu d'aquillo como de lagar d'azeite--e meneou o corpo n'um coquetismo estudado, um sorriso levemente franzido nos seus labios vermelhos, fazendo-o voar imperceptivelmente, como uma fina essencia, para a plateia, a encontrar o commendador, que lhe correspondia n'uma irradiação d'olhar entre satisfeita e ciumenta.
A pateada rebentou furiosa, uma grande tempestade; cadeiras rangiam e viam-se _dandys_ n'uma tarefa ingloria, tentando quebrar os bancos, assobiando, gesticulando com vehemencia. Fallava-se alto, disputas, questões com os visinhos, uma balburdia, panno descido.
A _claque_ aventurou algumas palmas, mas logo a pateada recomeçou e gritos tumultuosos de
--Fóra, fóra--a policia interveio, desmaios nos camarotes, as familias burguezas retiraram-se.
--Um grande horror áquelles malcreados, que não deixavam gosar,--apesar de que era bem cabida uma manifestação de desagrado--nunca se vira no Porto uma companhia tão réles.--
O Alberto tivera de ceder ás instancias de Ermelinda; sahira, ia para casa contra vontade,
--uma imbecil aquella sua mulher--mas emfim era preciso contemporisar um pouco! o pae parecia já não andar muito satisfeito!--
--Que miseria, com os diabos! Antes a Annita, mil vezes a Annita--
e affagava o desejo de a encontrar, volver com ella áquella vida aventureira do passado, gosar, saciar-se brutalmente n'um desmando de jejunalidade imposta e depennar, n'uma boa camaradagem, o _pato_ que ella só depennava agora, despojando-o das suas pennas para se cobrir de velludos e brilhantes.--
XI
O Jorge queixava-se, principiava a sentir um desequilibrio nas finanças da casa; Ermelinda e Alberto tinham exigencias imprudentes.
--Um luxo por ahi além--dizia a Joaquina--nem que fossem uns principes--e depois cá estão as costas largas! que poupe, que poupe; d'aqui por diante nem carne se ha-de ver na panella, t'arrenego!--
Os noivos levavam uma vida ociosa, d'uma tranquilidade aerea. Ermelinda queria vestidos caros, luxuosos,
--que podessem apparecer diante da baroneza de Lindoso, da mulher do commendador Bernardo, das Castrinhos, das Cardosas, as suas novas amigas do _hig-life_, com quem se encontrava no Palacio, no S. João.--
E eram despezas superfluas de trem, de presentes generosos, de noites seguidas de theatro, de passeios, uma vertigem doce, um rodar inexperiente no plano inclinado da economia.
O Alberto secundava-a; tinha da sua individualidade uma ideia balofa, um desprezo das mediocridades, das coisas reles
--não podia realmente viver d'outra fórma, ali, onde todos o conheciam, onde elle tratava por tu toda a rapaziada elegante! não se tinha casado para ser um burguez amarrado á bisca sueca, ou ao loto com as senhoras visinhas! não faltava mais nada que agora o casamento o viesse privar da liberdade dos seus gozos.--
O Jorge começava a comprehender que fôra talvez um erro aquelle casamento; de dia para dia Alberto revelava-se irascivel, grosseiro, indelicado para com Ermelinda, quando lhe não satisfaziam exigencias de dinheiro.
Mandava a mulher ter com o pae
--que se arranjasse, não haviam de ficar em casa a morrer de aborrecimento.
Ermelinda procurava ser o laço de conciliação entre os dous; animava o pae, nunca depois de casada tivera para com elle carícias tão meigas.--
--Pois sim, filha, mas é necessario deitar contas á nossa vida; os negocios vão mal, mesmo mal.--
--De hora em hora Deus melhora, papá.--
--Fia-te na virgem e não andes! Isto assim não tem geito, e olha, se queres que te diga, se tivesse tanto de santo como tenho de arrependido...
--Mas agora que se lhe ha-de fazer, papá; em verdade tambem, está mesmo um usurario, quer que a gente morra de tédio em casa!--
E convencia-o, subjugava-o com razões futeis, ditas graciosamente, a promessa d'um beijo e perguntando-lhe a sorrir com uma candura de ingenua--
--Se tambem havia de ser assim mau para o seu netinho.--
Este ultimo argumento quebrava-lhe todas as energias, cedia logo
--que remedio! não havia de contrarial-a n'aquelle estado, podia prejudicar a sua saude; não, coitadinha, ella não tinha culpa; mas depois havia de pôr cobro a isto, oh! se havia--
--mas a elle mesmo--considerava--não convinha cortar radicalmente por todo aquelle superfluo de exteriorisações; que diriam os outros, os seus collegas, a praça, o commercio que o julgava com boas garantias de capital... não, não se podia fazer a cousa assim de vez, era preciso ir de vagar.--
e traçava combinações, adoptava um plano, um bom plano que o livrasse d'aquelles apertos sérios--tinha em vista uma grande especulação de fundos, a cousa era certa, o capital do Banco figuraria e se houvesse algum revez, soffresse quem soffresse.--
Estas ideias chamavam-o á realidade das suas occupações; fôra distribuido o relatorio, propunha-se um bom dividendo, mas
--francamente a coisa não estava muito sólida,--já até se rosnava um pouco, mas emfim os accionistas pertenciam áquella das bem-aventuranças, que premeia com o reino do ceu,--o que elles queriam era bons dividendos, e esses davam-se, a cousa havia de caminhar; a questão era resolver aquelles embaraços da crise e depois ficava mais desaffogado.--
Associava-se-lhe a este ultimo pensamento o encargo das despezas do genro,
--um vadio afinal, nem mesmo confio já na tal herança; uma mystificação!... mas agora é aguentar por honra da firma... podéra,--e lembrava-se de que seria talvez conveniente empregal-o, um lugar no banco não podendo ser n'outra parte, tinha boa lettra, ajudante do guarda-livros, uma pechincha; havia de lhe fallar.--
E quando estavam ao _dessert_ insinuou a ideia:
--que era preciso entreter-se, aquella vida enfastiava, o trabalho era pouco, e depois murmurava-se, era mesmo conveniente...--
O Alberto ficou silencioso, partia a marmelada aos pequeninos retalhos, uma distracção inconsciente de movimentos.
--A coisa não lhe desagradava realmente, chegava para charutos, o resto viria,--e acariciava a ideia de especulações estranhas, d'um arrojo funambulesco que o fizessem rapidamente rico, que lhe dessem um trem magnifico, cavallos de raça, um palacio luxuoso, de vastas escadarias de marmore; o Banco seria o meio, o caminho de lá chegar; sempre affagara o pensamento de se introduzir n'uma d'aquellas machinas de numerario, onde se rolam as cifras volumosas, como na roleta as moedas baratas; mas era estupido estar ali preso, amarrado como um macaco; o trabalho causava-lhe um tédio mortal.--E para o sogro:
--que havia de pensar n'isso, fallariam depois--e desceu para o seu quarto.
Ermelinda teve um bom impulso de o aconselhar,--
--faz-lhe a vontade, filho, faze; e depois é até mesmo bom, e tu distrahes, o trabalho tambem entretem; e é uma garantia de futuro... tu pensa...--disse-lhe baixo, o rosto affogueando-se n'um rubor honesto de confissão custosa.
--Ahi vens tu com a tua télha! ora adeus, d'aqui a lá não nos dôa a cabeça; n'este mundo todos se arranjam.
--Mas as cousas levam-se de longe, menino...
--Vae prégar moral a outra freguezia; que tem que vêr uma cousa com outra? o que vier veio, acabou-se, á fome não hade morrer e se morrer... era uma vez um anginho que voou ao ceu, pedirei ao Luiz Serra que lhe faça um necrologio em verso.--
Ermelinda revoltava-se no seu sentimento de maternidade contra estas rajadas que a feriam no ser que ella ainda desconhecia, mas que amava já; achava pouco delicado o proceder d'Alberto para com ella, tinha mesmo uma certa dôr por vêr que elle se não enchia de jubiloso alvoroço, sabendo que ella em breve o faria pae; mas desculpava-o, tomava como gracejo as suas palavras, e abrigava-se, como uma creança, na aza do seu carinho, a imaginação a sonhar um futuro de delicias para o entesinho que ia dever-lhe a vida, tendo exquisitices incoherentes, uma grande volubilidade caprichosa.--
Alberto passeiava no quarto, passos largos, o pensamento concentrado na proposta do Jorge.
--Era o unico meio de se salvar, não via outro; o dinheiro do jogo ia dasapparecendo e depois... além d'isso o arranjo não era de todo mau; nem o deslustrava, lá estava o Visconde da Ribeira no Mercantil... e quem sabe; podia mesmo vir a ser o gerente do Banco; o sogro andava acabrunhado, aquillo não ia longe...--
e sentando-se junto d'Ermelinda, uma caricia affectada para a sua mulhersinha, batendo-lhe uma leve palmadinha nos joelhos:
--Acho que aceito, Lili; que dizes tu?
--Oh, filho, faze o que tu quizeres; mas eu digo-te que sim... olha, até depois o papá não nos receberá de tão mau humor, quando quizermos alguma cousa; vê lá tu, mas eu fazia-lhe a vontade, coitado, elle é tão nosso amigo...
--Hum! hum!... ha a distinguir!--
--Não, Alberto, não, tu és injusto.--
--Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, faço-te a vontade; vá lá, é preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens razão, minha Lili...
--Obrigada--e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como um agradecimento evolado do intimo.
Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuação luminosa palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave; tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser o fóco de irradiação fecunda para os dous, que se confundiam n'um só, ser o carinho affectuoso, a consolação, a ambrozia que os ungisse na mesma embrocação de felicidade.
--Porque não havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...--