Chapter 7
Os primeiros aborrecimentos iam-se accentuando, mais repetidos, mais duradouros. Ermelinda conhecia que o Alberto lhe fugia, a imaginação fatigada, farto á saciedade do seu papel romantico de Antony; sentia um grande desconsolo, uma melancholia enervante, vendo esfolhar-se a flor azul das suas illusões, e recolhendo-se no fundo da propria phantasia, como n'uma cella monastica, deixando-se voar ao encontro do extasi mysterioso, que tantas vezes sonhara quando via nos livros a paixão descripta com traços patheticos, d'um mysticismo ideal.
--Ah, como são infelizes as pobres mulheres--dizia--que decepção as espera!
e recostava-se na sua poltrona, um romance aberto, a imaginação voejando com o romancista no caminho de fogo, onde appareciam em sulcos luminosos os grandes heroes do amor, os martyres, os eternos namorados, os divinisadores da paixão.
E a sua phantasia vendo apenas o drama, engolphava-se n'este sonhar d'uma morbidez debilisadora, esquecendo que para aquem d'esse ideal mentiroso, existia bem perto d'ella, um outro ideal menos allucinante, mas mais casto, cheio das austéras doçuras intimas, dos affectos suaves, das virtudes ignoradas mas nem por isso menos formosas, um ideal, que toda a mulher deveria ter como a columna de luz que lhe guiasse os passos atravez do caminho da existencia.
E n'essa abstracção, em que lhe andava erradamente o espirito, Ermelinda tinha descuidos imperdoaveis de toilette, um desleixo que a amollentava, ficando ás vezes um dia inteiro com o penteador da manhã, o cabello cahido, simplesmente preso na nuca, deixando uma humidade oleosa na brancura da bretanha.
--Ora, que lhe importava; já não perdia casamento!--
E depois via o Alberto tambem, um descuidado, atirando o fato para cima das cadeiras, escovando-se e penteando-se apenas quando tinha de sahir, desarranjando uma gaveta para procurar um lenço, calçando as luvas já no meio da rua, tendo deixado no quarto uma desordem de moveis, de roupa, de calçado. Sentia uma vontade de repôr tudo no seu lugar, minuciosamente, com um grande geito femenil,
--mas ora, a Joaquina que se arranjasse!... não estava para lhe poupar trabalho--e desviava os olhos, repoltreando-se na cadeira, ávida da continuação da leitura.
O Alberto vinha encontral-a assim:
--Então, ainda n'esse estado!...
--que me importa.
--se vier por ahi alguem,
--se vier, veio; não te afflijas que eu depressa me arranjo,--
Deixava-a, trauteava uma aria, dando um passeio no quarto, indifferente áquelle desarranjo d'ella. E depois, muito amoravel, batendo-lhe uma palmadinha na face:
--Então a Lili sabe quem eu encontrei?
--Que me importa quem tu encontraste!...
--Foi a...
--A Amelinha Bastos, a estas horas!
--Adivinhou!...
--E d'ahi?
--Perguntou-me por ti, quando lhe ias fazer uma visita.
--Ora, que tenha juizo.
--Não, mas agora fallando sério, olha que é preciso fazermos as nossas visitas de casamento...
--Já pensei n'isso, mas... é uma massada...
--Em fim teem de fazer-se; é um dever da boa sociedade...
--Has-de comprar-me umas luvas, sim, quero-as de sete botões...--
--Certamente; de menos é _chinfrim_...--concordava, muito convencido. E brincando, n'um momento de _humour_, arrancou-lhe o livro.
--Ora que brincadeira tola!--disse estendendo os braços para o rehaver.--
--Ah, é tola, pois toma, vai buscal-o!... e n'um arremeço o livro voou pelo quarto, indo parar proximo da cama.
Ermelinda levantou-se pallida, muito séria, a sua vaidade ferida. Uma lagrima rolou-lhe por entre as pestanas.
--Grosseiro--murmurou sem que elle ouvisse, e foi buscar o livro, sentando-se de novo, as costas voltadas, a vista divagando sobre a mesma pagina.
Mas a Joaquina chamara para o jantar, e os dous sahiram do quarto, a physionomia contrahida, carrancudos, intransigentes na sua seriedade. O jantar correu rapidamente, friamente, sem trocarem uma palavra; o Jorge sentia um desconforto glacial penetral-o, abafando a necessidade de palestras expansivas, coarctando-o, pesando sobre elle como uma atmosphera de chumbo.
Ermelinda apenas tocava nos pratos; comia pouco, um phrenesi colerico, atirando as travessas, servindo-se ella mesmo antes que o Alberto tivesse o constrangimento de servil-a.
A Joaquina pensava:
--Estão de trombas, os pombinhos!...
O Alberto bebia mais que o costume; umas libações longas, demoradas, esvasiando o copo d'uma só vez, e no fim um contrahir de face, um morder incisivo do labio, a mão tocando mecanicamente as guias do bigode, e um relancear de olhos para Ermelinda, furtivo, instantaneo, com uma scintillação de colera concentrada.
O Jorge não podia mais.
--Parece que estamos na semana santa, credo, fallem para ahi...--e experimentava uma conversa, um caso do dia, uma anedocta, que morria logo, amortecendo-se aos monossylabos d'Alberto, o unico que ainda lhe respondia.
Ermelinda sentia-se contrariada, indisposta, uma raivasinha secreta, amargurando-a, com engulhos de lagrimas; levantou-se, uma grande necessidade de chorar, de estar só, de se julgar infeliz. E ao passar pela Joaquina, o lenço enxugava-lhe os olhos, que se avermelhavam, n'uma côr injectada de desesperos, humedecendo-se.
--Oh, menina, pois vale lá a pena chorar, quem é que não tem os seus arrufos; isso d'aqui a pouco já não é nada--consolou-a, muito ternamente, uma caricia de velha criada, que a trouxera ao collo.--
Mas ella aspera, cortante:
--Sabe que mais, metta-se com a sua vida--e desceu a escada, dirigindo-se para o quarto.
A Joaquina ficou de pé, assombrada, uma estupidez idiota na physionomia, entalada, como se sentisse um spasmo no esophago; e depois, com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos:
--É bem feito, grandissima burra, não lhe ganhasses tanta amizade.--
No seu quarto, Ermelinda desatou n'um largo choro.
--Era uma infeliz, uma desilludida... ah, quanto mais não valia o ter ficado solteira--
e assombreava com negro colorido o quadro da sua existencia, n'um appello á desgraça, ao infortunio; mas depois procurava consolar-se, desentranhava-se em affagos para comsigo mesmo, procurando esquecer, não fazer caso; e as palavras da Joaquina soavam-lhe ainda aos ouvidos, tornando-a reflexiva.
--Sim, era crueldade, quem é que não tinha os seus arrufos.--
Esta palavra sensibilisava-a, dando-lhe ainda um perfume gentil de namorada, imaginando-se requestada por elle, muito estremecida.
--Foi o melhor tempo--suspirou.--
E a reminiscencia recordava-lhe essas horas do passado, aquelles enthusiasmos apaixonados d'elle, a _verve_ cheia de fogo, a calcinação ardente da palavra.
--Oh, quanto a realidade era differente!... E o noivado, ah! o seu noivado!...
Uma recordação doce se lhe entornava na alma, perfumando-a, n'uma ébriedade feliz. Via o Alberto a seus pés, timido, como uma creança, segredando-lhe pedidos d'uma volupia embriagante, muito submisso, dizendo-lhe baixinho:--Adoro-te--; e a esta evocação tão acariciadora, quente como um arfar da atmosphera no estio, deixava cerrar os olhos, esquecendo o motivo de toda a sua colera e transportando-se com elle ao ceu da sua idealidade; assim disposta achava encantador--que elle viesse muito humilde, pedir-lhe o beijo do perdão, affagal-a n'uma reconciliação harmoniosa.
--Não lhe resistiria, não; mas tambem não queria ser a primeira a quebrar--dizia, ainda com resaibos da offensa recebida, entumecendo-se n'um grande orgulho de si propria.
O Alberto desceu; viu-a sentada na cadeira, a mão sustentando o queixo redondinho. Escovou ligeiramente o fato, poz o chapeu na cabeça, principiou a calçar as luvas. Ermelinda teve um pensamento de ciume.
--E se elle fosse procurar outra! oh, não, que ideia.
N'este momento o Alberto preparava-se para sahir; mas não veiu como de costume poisar-lhe um beijo na testa.
--Até logo--disse bruscamente.
Levantou-se, embargou-lhe a passagem.
--Tu onde vais?
--A ti que te importa?
--Que me importa!... Vamos, não sejas mau--disse timidamente, confusa por ser ella a primeira a pedir, envergonhada de si, mas o pensamento queimado ainda por aquella ideia ultima que a assaltava; e tirando-lhe o chapeu, n'uma _moue_ engraçada, o corpo quebrando-se n'uma gentileza voluptuosa, a sorrir-se:
--Não te deixo ir, tira as luvas, sim, vais logo...
--Creancices--volveu, encolhendo os hombros, e tirou as luvas, sentando-se.
--Aqui me tens!--bruscamente.
Sentou-se-lhe nos joelhos, balouçando-se, fingindo que cahia, forçando-o a amparal-a nos seus braços, provocante, roçando-lhe ao de leve o rosto pelos seus labios.
O Alberto cedeu; deu-lhe o primeiro beijo, e logo outros, o sangue excitado, uma pontinha d'alcool na circulação.
N'aquella tarde não sahiu de casa.
X
A modista trouxera-lhe o chapeu, um modelo de Pariz, d'uma plumagem finissima, poisando maciamente na côr granada do velludo; collocara-se em frente do espelho, experimentando-o, vendo-o se lhe ficava bem, meneando-se, apanhando a maior porção da lamina.
--Era um primor, realmente, mas tinha que elevar um pouco mais o penteado, assentaria melhor--
e voltava-o de vagar, com uma admiração insaciada, tocando delicadamente nas petalas assetinadas da flor, antegosando a inveja que aquillo causaria ás suas amigas.
--É já de senhora cazada--dizia, n'uma distincção frivola de _toilette_, applaudindo-se por este conhecimento, por esta grande noção de differenciação de estados, baseada no vestido--que muitas não tinham, umas ignorantes, trazendo os _myosotis_ por exemplo, que só são dados ás meninas solteiras, e outras cousas mais,--umas minuciosidades futeis, que a enchiam de vaidade,
--E depois dizia muito bem com o vestido, oh, muito bem!
Era um vestido de _faille_ plumbagineo, a _traine_ de velludo, umas rendas caras, que M.me Sellier's mandara de proposito vir de Pariz, um talhe elegante, que lhe devia realçar a formosura. Abriu o guarda-vestidos, admirando-o ainda uma vez em toda a extensão fluctuante das suas rugas, pendente do cabide, na macia suavidade da côr, no matiz nevado das preciosas rendas.
--E agora que já tinha o chapeu, não era possivel adiar mais tempo; iriam fazer as suas visitas de casamento.
Alugaram um trem, um _coupé_ do Marques, de molas doces, acolchoado, elegante, confortavel, d'um estofo assetinado.
--Ah, como seria bom ter um trem--pensava--reclinar-se languidamente nas suas almofadas, correr nas brancas fitas do mac-adam ao som estrepitoso dos grandes cavallos normandos, os lacaios flamantes, de compridos casacões, com largos botões chapeados.
--Como eram felizes os ricos--e revoltava-se contra essa desigualdade de fortunas, n'um impeto socialista, figurando-se-lhe uma injustiça a falta d'aquelles sumptuosos contactos do luxo.
Mas o trem havia parado á porta do Mendes. Era a primeira visita. O cocheiro desceu, tocando violentamente a campainha.
Uns beijos cantadinhos se trocaram,--muitos parabens, estava até mais bonita, um poucochinho gorda; ah, agora é que era gozar.--
--Certamente, D. Carola, em quanto a gente é moça.--
--Pois não, Snr. Alberto, depois se vem os filhos e isso é sempre o mais certo.--E voltando-se para Ermelinda:
--Onde mandaste fazer o vestido, menina?
--Na Sellier's; um poucochito caro...--regosijava-se por ter sido notada, quebrando-as de inveja.
--Eu bem digo á mamã, que se tire de costureiras baratas, é mesmo uma zanga, nunca as cousas ficam em termos; o que se ha-de dar ao rato...
--Devagar, menina, devagar, a economia...
--Ora, grandes economias!...--atalhava.
O Alberto afastara-se um pouco; olhava o jardim, esperando, com um ar passivo, de marido obediente.
Palraram muito.
Fallaram das modistas, dos chapeus, do theatro. A conversação cahiu no baile que o Bernardo ia dar para festejar os annos do cazamento.
--Melhor, tivesse juizo, aqui para nós, olha agora a doida! Elle!... sempre ha homens que se varreram de juizo!--
A Ermelinda sentiu-se um pouco afogueada; sabia vagamente d'uma aventura com o Alberto, que a Amelinha Bastos lhe tinha narrado.
--Mas emfim, era ainda solteiro, adeus! a tola fôra ella--desculpava-o--e criticavam o Bernardo.
--Bom estomago! havia de ser o Mendes.
--E o Alberto, não lhe digo nada, ciumento ali chegou!
Mas o Alberto interveiu:
--que era tarde, ainda tinham de ir a outras partes; sentia ter de cortar tão deliciosos momentos.--
--Tão poucochinho tempo.--
--Para outra vez seria mais: era uma via-sacra a percorrer.--
--Então venham jantar um dia.
--Desde já agradeciam, e viriam, viriam, era-lhes muito agradavel a companhia da _madrinha_ e da D. Adelaidinha.--
--E depois--recordou Ermelinda um pouco afogueada--a gente lembra-se com saudade d'esta sala...
--Ai, é verdade, fôra ali que principiara o namoro; pois viessem, viessem, era mais uma razão...
Despediram-se; novos beijos, um _shake-hands_ ceremonioso do Alberto, os seus respeitos ao amigo Mendes.
Mãe e filha acompanharam; ficaram-os olhando do alto da escada, umas mezuras com a cabeça, uns adeusinhos agitados.
--Que luxo ein, onde iria aquillo parar.
--Só o chapeu, mamã.
--Bem diz o teu papá; ai, banco, banco!
Sentia-se o _coupé_ rodar na calçada.
Visitaram a Amelinha Bastos, a D. Gabriella. Chegou a vez á D. Clementina.
Encontraram-a a acariciar o seu Tótó, o seu amor felpudinho, que principiou a grunir, n'uma revolta sorna, por ver que os estranhos lhe vinham roubar as caricias da sua amiga. Chegou até a accommeter o Alberto, n'uma grande indignação ciumenta. Mas ella amansou-o explicando:
--que o Tótó tinha realmente ciumes, era um verdadeiro tigre.--
E batendo umas palmadinhas amigaveis em Ermelinda:
--Então como se dá a minha menina com o seu novo estado?
--Bem, D. Clementina, muito bem.--
--Podera não; elle ha lá melhor vidinha!--suspirava--e depois quando se tem um marido novo, elegante...
--Oh, D. Clementina, eu passo a ter ciumes...
--Ai, filha, não, isso não...--riram ambas, um cascalhar timbrado, a brancura dos dentes a desfiar pelo carmezim dos labios.
--E muito linda, muito linda!...
O Alberto interveiu, uma graça de galanteria...
--Não m'a encha de vaidade; Vocencia deve saber por experiencia propria, que a formosura das mulheres é o inferno dos homens...--
--Ora, nem diga isso! é o paraizo, o paraizo d'elles! Os senhores são uns mal agradecidos.--
Mirava-lhe o chapeu, o vestido; calculava o preço da fazenda, das guarnições, da pluma, das flores.
--Um dinheirão--pensava--isto assim hão-de dal-as frescas--e regosijava-se já d'um mal futuro, elogiando-se as proprias qualidades economicas, n'uma ferocidade ciumenta de solteirona.
--Trazes um chapeu _chic_; é modelo, menina?
--que sim, que era--e não fôra caro.--
--Então?
--Quatro libras!...
--Ah, quatro libras, não era caro, não!--e pensava que por aquelle preço se podiam ter dous chapeus bons, uma desgovernada--não, não tinha duvida, por aquelle andar a herança da tal tia em breve se lhe havia de ver o fim.
Despediram-se.
--Ainda tinham de ir a casa do Dr. Roberto, morava longe, na Foz, em Carreiros, uma boa hora.--
--Isso decerto, menina; e depois só para aturarem aquelle _carapau_ inglez--chacoteou.--
--Oh, D. Clementina, é do meu parecer--acudiu Ermelinda--o Alberto que não, que não, mas eu embirro com aquella cara, um ar seraphico, de mestra de meninas.--
--Mas não tens razão, Lili--é uma boa creatura, um pouco excentrica talvez, ingleza, isso comprehendia-se.--
--Ai, deixe lá, Snr. Alberto, gente que se não entende, que falla uma algaravia...--
--É a sua lingua, o seu idioma.--
--Pois sim, não digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, não engraço com a tal ingleza, que chama á gente _senhorra... senhorra!_ ora que desconchavo!...
--Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...--
--Pois vivem muito bem, um casal modelo...--
Ermelinda replicou:
--bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham--
E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que tão frequentemente se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia, distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento indifferentista.
Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mão. O Tótó impacientava-se, um rosnar regougado, até que sentiu em baixo bater a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no sophá, saltitando então, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.
Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se das emanações iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.
Appareceu-lhes Bertha,
--vinha da cosinha, tinha ido ella mesmo preparar o _plum-pudding_, o seu Roberto gostava muito, era doudo por aquillo.--
--E o Doutor, bom, de saude?...
--Ainda na cidade; olhe, vem ás quatro horas, trabalha muito, coitado; por ora vivemos aqui, é longe, mas é mais economico; e talvez vivamos sempre, é tão saudavel este ar...--
--Mas devia ser insipido n'aquella quadra,--ella, Ermelinda, só gostava da Foz no tempo de banhos, havia convivencia, bailes; as manhãs da praia, as tardes de musica no Passeio Alegre...
O Alberto apoiava:
--Sim, devia ser realmente insipido.--
--Pois, olhe, não nos aborrecemos; até gostamos mais d'esta quadra, vivemos mais um para o outro; á tarde o Roberto vem cançado, fatigado, janta bem, e vamos passeiar, duas creanças ás vezes, a liberdade solitaria da praia... era muito lindo, deveria gostar...--
--Não, não, Deus a livrasse de tal; e como passava as noites, aquellas noites longas de inverno, sem theatros, sem partidas...
--Temos as nossas partidas--volveu sorrindo Bertha,--fazemos musica os dous; o meu Roberto é um artista, toca violino, eu acompanho-o ao piano, a musica é uma boa distracção, não deixa a gente aborrecer-se; são uns bons companheiros, Mendelssohn, Mozart, Meyerbeer,...
--Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, ás vezes aborreço-me; a gente nem sempre está com disposição.
--Tem razão, é verdade, mas olhe, então variamos; lemos juntos, eu gosto muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dichens, que é o romancista da minha patria; e ás vezes quando a leitura nos não distrahe, e que a nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de sociabilidade, vamos ao theatro tambem, não nos julgue mysantropos; o Roberto ás vezes não quer ir, diz-me que não; mas eu conheço-o, nós as mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; não é depois que appareça o tédio que eu devo distrahil-o, é em antes, que eu devo fazer com que não haja tempo de formar-se; e não se fórma, assim, tenha a certeza!--
A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma religião; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a gracil agilidade das _miss_, uma insinuação que attrahia, que fazia estar bem junto d'ella.
Tinha uma actividade de _spinster_, pondo em tudo um conforto macio, um aconchego carinhoso, alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias mãos o prato favorito de Roberto, que vinha ás tardes, do Porto, o espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera, apesar de todos os esforços,--mas que ao vel-a toda branca no seu roupão claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiçava-se na sua indolencia de senhor e até
--nem tinha vontade de sahir de casa--dizia,
Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade sã e boa, e as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido. Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem ser uma mentira, uma falsidade..
Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam levantar-se na sua simplicidade de coordenação e bom gosto. Os moveis, os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as begonias opulentas nos seus vasos de dez tostões, o chão encerado das escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um gosto de aceio, uma alegria de suaves expansões, uma intelligencia curiosa e activa,
--que ella não podia deixar de reconhecer a final--
--Mas não era ella, não, aquella magra loirinha, que fazia aquelle milagre; oh, é por que tinha um bom marido, isso sim!--e comparava-o Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico--
--oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos--e o seu espirito divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de não ter a fina comprehensão dos sentimentos delicados do coração feminil.
Isto enchia-a d'uma certa inveja para com Bertha, amesquinhava-lhe a belleza physica, chamava-lhe uma
--cotovia magra, um carapau de Inglaterra.--
--Ai, a D. Clementina é que a definira bem.--
Bertha offereceu-lhes um calice do Porto, um pequeno _lunch_; estavam na praia, não fossem ceremoniosos.--
--Não, não acceitavam; tirava-lhes a vontade de jantar; e eram horas, desculpasse a massada.--
--Nenhuma, absolutamente nenhuma: gosto de os vêr felizes; tão felizes como ella o era com o seu Roberto--
Abria-lhe um sorriso jovial, d'uma cordealidade doce, e
--offerecia-lhe a sua casa, viessem uma vez ou outra, nos dias santos, quando a cidade os enfastiasse; seriam sempre bem vindos; o Roberto lamentaria não lhes ter fallado.--
Ermelinda sentiu um calor mordente, quando Bertha lhe poz um beijo na face, despedindo-se, e roçou ao de leve, muito ao de leve, os seus labios no rosto branco da ingleza.
E já no carro, quando a Foz ia desapparecendo com o silencio das casas inhabitadas e o sussurro eterno do seu mar,
--Estará ali a felicidade realmente?--perguntava-se, a imaginação mergulhando como n'um crepusculo côr de rosa e ouro, e vendo-se querida do eleito do seu coração, uma existencia suave e tranquilla, a claridade intima no espirito, o sorriso bom nos labios, dous companheiros leaes caminhando na montanha da vida, um ao lado do outro, elle protegendo-a com a sua força, ella renovando-o com a sua graça, indifferentes para o mundo, para esse mundo egoista, que os envenenava com as suas seducções e os despresava com os seus escarneos.
Ia calada, a phantasia acariciada n'este bello sonho, os olhos acompanhando vagamente a corrente esverdeada do Douro, que descia, banhando as casarias brancas da Aforada, espelhando o cotovello saliente da montanha, as fabricas do Andersen, a verdura matizada de Santo Antonio de Val-Piedade, e depois toda Villa Nova cortando a luz com as irregularidades dos seus edificios, a linha escura dos pinheiraes ao longe, orlando o horisonte vasto.
O trem subia vagarosamente a _Restauração_; harmonias de banda regimental cahiam lentamente, ondas apagadas d'uma sonoridade distante.
--Musica na Cordoaria! E se fossemos para lá um bocadito, Lili!--
--Como quizeres!
--São duas e meia; é cedo ainda para o jantar!...
--Vamos lá, sim, manda parar então.