A Divorciada

Chapter 6

Chapter 63,606 wordsPublic domain

--Podia ser minha, mas não é, acabou-se!... E desviava o pensamento para objectos communs, negocios que o interessassem, passeios que tinha destinado fazer; mas como um pendulo que se move em volta do mesmo centro, a ideia voltava tenaz ao mesmo assumpto, suppliciando-o, amargurando-lhe aquelles momentos, em que desejaria ter a mais santa tranquillidade.

Só a D. Clementina adivinhava talvez, no seu ciume de solteirona, o que se passava na alma do commendador.

--Ah, mas era bem feito, não estava ella ali que se morria por elle... e agora, que felicidade... ficaria só no campo... Ermelinda era d'outro.--

A ceremonia terminou finalmente. Todos tratavam de a abraçar, cumprimentando, com uma chuva de felicitações.

Depois do casamento os noivos iriam para Braga, passar a lua de mel no Bom-Jesus.

--Era moda--dizia-se--havia tom n'este voejar de pombos livres para a solidão tranquilla das florestas.

Ermelinda foi a casa mudar de vestido e o sequito esperando-a, acompanhou-os até Campanhã, enchendo a gare.

Muitos abraços trocados, mas a machina silvou, um grande silvo agudo, vibrante como um gemido soluçado. Ermelinda teve até um pequenino susto.

--Credo, não esperava agora por aquillo.--

Mas era tempo; entraram no wagon, a locomotiva arrastava-se lenta, com um vagar preguiçoso, de quem sabe ser uma boa locomotiva portugueza. Os adeuses cruzavam-se no ar, frementes de saudade, gloriosos, muito alegres. Os convidados retiraram-se.

O Luiz Serra, um poetastro noviço, dizia para o Dr. Roberto, em cujo trem regressava para a cidade:

--Gosto d'isto, tem poesia, Dr.--

--Escreva-lhe uns versos--respondeu ironicamente o joven medico.

--E vou escrever, a inspiração está ainda muito recente, muito viva! Um casal de pombos, que se unem, n'uma união mystica, recamada de perfumes, acompanhada dos canticos religiosos, e depois o esvoaçar livre, no grande espaço, até irem poisar na floresta densa, onde ensaiam a tentativa do primeiro ninho,--n'um idylio palpitante d'amor.

--Melhor o ensaiassem em casa.--

--Oh! Dr., isso é fossil!

--É por isso mesmo que na epocha de hoje deve ter um grande valor!

--Deve confessar que uma _lua de mel_ passada dentro de casa é a maior sensaboria, que os nossos bons burguezes podiam inventar; falta o amor, o idylio, a ventura, a felicidade dos primeiros dias de noivado! Eu cá por mim protesto contra esse erro de chronologia, de lesa-elegancia, de lesa-poesia.--

--Que de lesões ahi não vão, santo Deus,--ora oiça-me, Luiz Serra.--Tudo o que o Sr. pensa a proposito d'esse primeiro periodo de noivado, não passa d'um bolo coberto de assucar lyrico, deixe-me exprimir assim. Que vantagem póde ter essa iniciação mentirosa na felicidade do casal, não me dirá? E depois attenda; a lua de mel é um cyclo que devia deixar de existir no casamento; o bom senso e a boa educação protestam contra ella! Ou a lua de mel deve exprimir a synthese da felicidade e essa deve durar sempre, não póde limitar-se a uns bons dias apenas, ou ella exprime sómente uma convenção idylica entre os noivos e é isto o germen de futuras questões, de dissidencias graves, que terminam muitas vezes no adulterio, no divorcio.--Que faz o Alberto em ir com a Ermelinda pipillar idylios nas carvalheiras do Bom-Jesus?

--Mas amam-se, asseguram a sua felicidade.

--É exactamente o contrario do que o meu amigo pensa; por que não iriam antes sensatamente para sua casa perfumar com as primeiras alegrias de noivos o quarto, onde teem sempre de dormir, a saleta do trabalho, onde viverão juntos, o jardimsinho que os distrahirá nas horas de aborrecimento?

--Florian dentro de casa, Dr.--

--Ou Florian nos bosques do Bom-Jesus! Ora diga-me; que recordação podem ligar os dous a esse leito de hospedaria, onde se tem deitado um casal de noivos por semana, convencionalmente e só para obedecer a uma imposição do _chic_? Com que alegrias podem elles revestir depois o seu quarto, a sua casa, quando se recolherem quebrados já da vertigem voluptuosa, com os primeiros defeitos mutuamente reconhecidos, murchas as flores santas da illusão? Pois não lhe parece que a lua de mel deve ser uma iniciação augusta, com que se cimente o bem estar do lar, longe de ser uma iniciação mentirosa, com que se encobrem os primeiros defeitos e se envenenam os pacificos dias do futuro?

N'este momento o trem parava em frente do escriptorio do medico. Luiz Serra despediu-se:

--Discutiremos ainda, doutor, a sua doutrina tem um realismo, capaz de estancar a mais copiosa fonte de lyrismo.--

--Se ella foi _secante_, deve confessar.

Riram-se; a esposa do medico apertou-lhe docemente a mão.

--Não auguro bem d'este casamento Roberto.

--Nem eu--concordou, encolhendo os hombros--deixal-os lá--educação, educação--e o Dr. aspirou tranquillamente o seu charuto, expellindo um fumo claro, que subiu em pequeninos rolos.

Mas o Luiz Serra precisava affirmar em publico a sua sympathia pelos noivos e as incorrecções do seu estylo, e por isso nos jornaes do dia immediato as iniciaes L. S. declaravam ao mundo:

--que se tinham unido pelos sagrados laços do matrimonio os Ex.mos Srs. Alberto de Sá, um dos cavalheiros mais distinctos da nossa sociedade elegante e D. Ermelinda Jorge a formosa filha do director do Banco Commercial,--que os noivos tinham sido acompanhados á _gare_ do Caminho de ferro por um numeroso sequito e arrastado na aza vertiginosa do comboyo, iriam passar a lua de mel na floresta do Bom-Jesus--

que elle lhes desejava o mais auspicioso futuro, uma lua de mel perenne, de que seriam fiadoras as qualidades distinctas dos nubentes--e terminava por

um parabem enthusiasta.--

* * * * *

A payzagem tinha as macias tintas melancholicas do Outono, arvores que se desfolhavam saudosas da sua côr esmeralda, olivaes escuros, enfileirados ao longe como soldados obedientes d'um batalhão em marcha; as casarias das aldeias, docemente esbatidas por uma luz crepuscular, desappareciam, deixando no espirito, sensações ternas de idylios perfumados. Os regatos, como cobras azuladas, enroscavam-se no verde das campinas, em beijos limpidos de fecundidade luminosa; os montes escalvados desfilavam ao longe n'uma fluctuação duvidosa de luz e os pinheiraes, como pelotões de gigantes, formados á beira da estrada, animavam-se, movendo-se n'uma illusão d'optica que se impõe quando marchamos n'um movimento rapido. O comboyo tinha umas oscillações cortantes, barulhosas, de ruidos de molas abafadas, e os _rails_, duas fitas indefinidas que se desenrolavam diante d'elle, desappareciam n'um recolher rapido, apressado, de _trou-trou_, incansavel.

Alberto e Ermelinda iam n'uma mesma janella, hombros chegados, mãos enlaçadas na cintura, embevecidos no pantheismo bucolico d'aquelle diorama que lhes fugia diante dos olhos.

--Como isto é lindo--dizia ella--eu gosto muito do campo.--

--É poetico...

--Olha aquella casinha, não vês... toda enfofada em verduras.--

--Havemos de arranjar uma assim; é bonito é _chic_ vir passar um mez na nossa casinha de campo.--

--Ah, como tu és bom!...--e recolhia-se um pouco para dentro, a imaginação debruada de phantasias coloristas, cofiando-lhe o queixo, muito de leve, mansa e insinuante, offerecendo-lhe o rosto, em que elle depunha um beijo amoravel, muito demorado. Sentaram-se um ao lado do outro, começaram a brincar, umas pancadinhas furtivas, d'uma graça infantil a que ella fazia uma _moue_ de ingenua, muito adoravel, de pequenina gata.

E depois enroscando-lhe o pescoço com um grande impeto d'amor agradecido:

--Ainda me parece um sonho, Alberto.--

--É verdade, ainda me parece um sonho.--

E estreitava-a, arqueando-lhe a cintura na curva dos seus braços, beijando-a doidamente, voluptuosamente, fustigando-a de excitações nervosas. Ermelinda deixava-se amollentar no avelludado quente d'aquellas caricias, que nunca conhecera.

--Ah, como era bom ser assim amada--dizia, toda offegante, a respiração curta; muito quebrada por sensações incoherentes, d'uma delicia indefinida; e ameigando-o, muito carinhosa:

--Tu és o meu maridinho, ora não és?--

--Se sou!--e segurava-a com vigor, apertando-a muito contra o peito, n'uma sollicitação sedenta de namorado, communicando-lhe um tremor convulso, entre voluptuoso e dolorido, que a perturbava de fortes commoções.

Anoitecia; tinha-se passado Nine; principiava a lucillação do luar, n'um tremulo vago, a palpitar amorosamente por sobre as cumieiras da serra, que escureciam na grande paz dormente; as arvores tornavam-se indistinctas massas confusas, fluctuantes, n'aquelle arfar constante do comboyo; umas bafagens quentes penetrando pelas janellas, passavam de quando em quando indo affagal-os n'um enlanguescimento morno.

Os beijos d'Alberto tinham um calor penetrante e Ermelinda, entre os seus joelhos, o cerebro atordoado, deixando-se cahir n'um affrouxamento languido, a voz ciciando um queixume:

--Alberto!...--

A locomotiva silvou; avistava-se Braga, com as suas luzes encravadas como pequenos pyrilampos na massa vultuosa da cidade.

Um quarto de hora depois estavam no hotel.

--Ainda n'aquella noite iriam para o Bom-Jesus; que lindo! subir a montanha á luz candida da lua, elles, agora tão felizes, tão amiguinhos um do outro--dizia Ermelinda.

--E se nós fossemos ámanhã?--ponderou Alberto.

--Ámanhã, ora, que tolice!--replicou enfastiada.

--Tolice, não; ia-se mais descançado.--

--Olha a grande fadiga,--respondeu com uma nevoasinha de colera--que semsaboria ficar em Braga!...--e amimando-o, a mãosinha no rosto,

--Havemos de ir hoje, sim?--

--Vamos la, és uma feiticeira!...

--E depois, que lindeza ámanhã, quando acordarmos, ouvirmos o gorgear dos rouxinoes na sombra fresca das carvalheiras!

--Romantica!

--E tu não o és tambem! Não amas como eu esses espectaculos da natureza!... e depois quando se é noivo!...

--Tens razão; seria uma tolice ficar em Braga.--

Mas no fundo, bem no fundo do pensamento de cada um, a desillusão entre-abria-se, como uma flor venenosa que tem nas finas particulas aromaticas a corrupção futura do ar que embalsama. Na imaginação d'Ermelinda, Alberto cahira no prosaismo das commodidades triviaes,--um materialão, ora vejam lá, e eu que o julgava uma alma apaixonada, radiosa de luz, de poesia d'amor... e fiava que o futuro lhe descobriria ainda mais em relevo esses defeitos,--que elle não saberia ter as delicadezas subtis, de que toda a mulher se quer vêr rodeada, como n'uma onda de finissimo arminho,--que seria talvez grosseiro, conhecera-o na ruga animada da sobrancelha, quando lhe contrariou o seu desejo de irem n'aquella mesma noite para o Bom-Jesus.--

Mas olhava para elle, era o seu Alberto, o seu maridinho;--ora, que lhe importava tudo isso agora, era noiva, estava na sua lua de mel... e rodeava-o d'uma caricia longa, na ebriedade do seu novo estado.

A seu turno o Alberto pensava:

--Uma romantica, ein!... gostava da mulher que não fosse prosaica, mas parecia-lhe que a sua tinha essas qualidades exageradas, e depois um vidrinho de cheiro, tinha genio, conhecia-se; mas havia de amansar, que remedio!... mas, com os demonios, não era agora occasião de pensar n'isso.--

E beijava-a, no aquecimento febril da sua paixão sensual, ébrio de gozo, como um rapaz estroina que saboreia uma garrafa de champagne, sem se lembrar que tem de pagar depois.

Alugaram um carro, e partiram. A cidade perseguiu-os durante algum tempo com a illuminação dos seus candieiros, as suas casas interiormente illuminadas, as suas tascas, as suas egrejas succedendo-se a curtos espaços, os seus ruidos; mas para logo uma aragem fresca de campo lhes beijou as faces, e o luar, na silenciosa tranquillidade da noite, escorrendo como um banho de neve por sobre a fluctuação indistincta da payzagem, envolvia-os suavemente, como n'um manto opalino, tecido por mãos feericas.

O carro ia devagar, subindo sempre, n'um zig-zag monotono; as grandes arvores velavam-lhe por vezes a lua, que logo reapparecia n'um vacillar tremulo, d'uma limpidez crystallina. Chegaram ao hotel. O criado appareceu, e logo o cocheiro, um poucochinho confidencial:

--Trata-me bem d'esses dous pombinhos.--

IX

Em casa o Jorge principiava a sentir a nostalgia do isolamento; encerrava-se no seu gabinete e procurava interessar-se no trabalho, que trazia entre mãos, o relatorio do Banco; mas a penna suspendia-se sobre a brancura do papel, morosa, sem poder fixar uma ideia clara; e para encobrir essa carencia de actividade demorava-se pacientemente, minuciosamente, nas perfeições caligraphicas d'uma palavra qualquer como que receiando achar o vacuo para além do ultimo traço.

E descontente de si atirava com a penna para o lado, levantava-se, punha-se a passeiar, accumulando factos, reminiscencias, que podessem dar-lhe em resultado uma associação d'ideias precisas, methodicamente definidas; mas apesar de tudo o trabalho não progredia, o papel lá estava branco, com as suas linhas azues parallelamente dispostas, como o zig-zag d'uma estrada que era preciso caminhar.

--Não estava com disposição--concluia e arrumava tudo na sua pasta envernizada, com um grande vagar minucioso, entretendo-se, matando o tempo, que a elle o matava com o seu aborrecimento feroz.

A Joaquina vinha chamal-o para tomar o chá.

Sentava-se, lançava o liquido fervente sobre a sua fina chavena de porcellana; mas tinha abstracções, deixava-a transbordar, enchendo o pires. A Joaquina do lado, a mão apoiada sobre as costas da cadeira, avisava-o, com certa familiaridade de criada antiga:

--Que está fazendo, Sr. Jorge!... Ou elle credo! nem que ella fosse para o fim do mundo!... Olhe que a estas horas lembram-se lá bem de si...

--Dizes bem, dizes bem, Joaquina--e esquecia-se de deitar o assucar

--está azedo, o chá...

--Podera não, se o senhor o não adoçou!... ora, ora até dá vontade de rir.

--Joaquina, então.

--Isto foi graça, o senhor desculpe;--e impertigando-se toda na sua seriedade--não que elle uma cousa assim...--

O Jorge comia pouco, um biscoito apenas; o appetite faltava, o seu bello appetite burguez, tão sadio e tão prompto.

--Não, assim até é desnecessario fazer comida--ponderava a Joaquina,--ao jantar fica tudo, ao chá é isto que se vê.

--Não tenho vontade, mulher...

--Vontade? faz-se!... o senhor não está doente, Deus louvado...--

--Então que queres?

--Quero que coma, boa pergunta!...

E a Joaquina retirava o serviço da meza, curvando-se, arredondando os seus largos quadris, e deixando ver a brancura da meia, que se descobria atraz, n'uma provocação macia.

Abriram-se um pouco mais em intimidades, unindo-se no seu isolamento; o Jorge confiava-lhe pequenos planos e ella approvava ou reprovava com uma capacidade intelligente, que elle até ali sempre lhe desconhecera. Começou então a considerar a Joaquina uma mulher, um sêr quasi egual, capaz de faculdades affectivas, de intelligencia.

--parecia-lhe menos criada, superiorisava-a e experimentava uma certa satisfação egoista n'aquella descoberta.

A noite adiantava-se; a Joaquina dentro tinha feito a arrumação da louça e viera perguntar.

--Se não queria mais nada...

--Não, podia-se deitar.

Viu-a retirar com um vagar pachorrento, seguindo-a instinctivamente com os olhos, surprehendendo-se de que nunca tal fizera e pareceu-lhe uma mulher fresca, lembrou-se da brancura da meia que ha pouco se lhe havia entremostrado e um desejo quente mordicou-o, esfervilhando-lhe no sangue. E para affugentar uma ideia fugaz, que lhe perpassou no pensamento, como se fôra uma mosca luminosa, levantou-se, resolveu ir deitar-se.

Tinha de passar pelo quarto d'ella; fel-o tremulamente como um collegial; ouviu um rangido de leito, pareceu-lhe mesmo ter surprehendido um suspiro vago.

Mas caminhou rapido, entre descontente e satisfeito, respirando emfim quando chegou ao seu quarto; sentou-se a lêr o «Commercio» entranhando-se no labyrintho dos cambios, que o acalmaram, como uma poção anodina.

Depois já na cama suscitava razões especiosas que o absolvessem, minorando-lhe o extraordinario do caso, reduzindo-o ás proporções limitadas d'um facto vulgar--que todos os dias se está vendo;--e calculou que a Joaquina devia ter para cima dos seus trinta e cinco, não era nenhuma creança e lembrava-se da sua viuvez propria, inconsolada agora que o unico affecto, a filha, lhe fugia, amando mais o marido, o outro.--Sentiu-se encher d'um certo ciume para aquelle que o tinha deslocado, uma revolta intransigente, impetuosa.

--Mas é lei do mundo, acabou-se; já o Evangelho dizia «Por elle deixarás pae e mãe»--

e foi cahindo n'um dormitar resignado, as palpebras cerrando-se, uma respiração doce, que lhe conciliou definitivamente o somno.

Dormiu mal, um sonhar agitado, o sangue effervescente e de manhã quando a poeira luminosa se coava atravez do _store_ da janella teve um sorriso largo, muito significativo para a Joaquina, a boa Joaquina que vinha trazer-lhe o chocolate.

* * * * *

Os noivos chegaram á tarde; vinham moidos, o corpo quebrado, n'uma lassidão relaxada, as roupas brancas sujas do fino carvão da locomotiva, anciosos de banho, um banho fresco, que os estimulasse, dando-lhe tom aos nervos fatigados; deitaram-se cedo, pouco loquazes para com o Jorge, que, os interrogava ácerca dos monumentos de Braga, a velha sé, onde se mostram os altos sapatos d'um bispo pequenino, e o Bom-Jesus, a Cintra do Porto, um bello panorama, um dos primeiros do paiz, segundo diziam pessoas authorisadas.--

--Tudo na mesma--respondiam um pouco aborrecidos. E para a Joaquina--ámanhã agua para o banho, não te esqueças.--

--Podiam dormir descançados.--

Deram as boas noites; foram para o seu quarto. O Jorge ficou um poucochinho ressentido d'aquelle acolhimento ás suas perguntas; isolava-o aquella friesa, e instinctivamente voltava-se para a Joaquina,--um sorriso franco, sempre alegre, uma grande palradeira, que o escutava com muita attenção e respeito.--

--Isto agora é outro modo de vida, não tem que ver.--

--Mas então, que dizes tu a isto, Joaquina?--

--Boa!... olhe, se quer que lhe falle com franqueza, eu com a cara d'elle não engraço.--

--Lá isso tambem não, é bom rapaz, o Alberto.

--As obras é que o hão-de dizer; olhe que as apparencias tambem enganam.

Os primeiros dias iam passando; uma nevoasinha de tédio descia, envolvendo-os, fazendo descer o nivel elevado da emotividade.

Ermelinda achava a sua casa pouco romantica para aninhar, n'um aconchego tépidamente voluptuoso, a pomba ideal da sua paixão;

--Oh, quanto mais lindo não era o Bom-Jesus, com as suas arvores de copas obumbradas, as suas fontes de crystalina agua, o lago com o barcosinho, o azul esbatido da luz, cortando-se nas irregularidades da payzagem.

Comparava com a sua casa, uma monotonia, sempre aquelle barulho ruidoso de cidade amortecendo-se pelos corredores, a sala forrada a papel, com aquelle monstro do piano a um canto, umas bugigangas de _biscuit_ eternamente postas sobre as _consoles_; o seu quarto um pouco pesado, com a grande cama á franceza, de mogno, occupando o centro, sem uma recordação boa, que o povoasse de saudade, a lamina do espelho, reflectindo-a, como um confidente silencioso, que parecia adivinhar-lhe os mais occultos pensamentos, e depois a Joaquina, uma criada sem a elegancia moderna, sem aquella submissão respeitosa do criado encasacado, que passa nobremente nos tapetes offerecendo-nos um copo d'agua, com uma ceremonia de diplomata.

--Ai, o Bom-Jesus!...--suspirava--e estendia-se lassidamente na sua _chaise-longue_, preguiçosa, sem vontade de trabalho, quebrada pelos excessos d'aquelles dias voluptuosos, os melhores da sua vida, a imaginação revoando ao encontro desses momentos de febre, os braços inteiriçando-se n'um espreguiçar de creoula, bocejando frequentemente.

A seu turno o Alberto dava ao diabo ja o convencionalismo da lua de mel, sentia-se aborrecido, o _spleen_ d'um lord; lembrava-se ruidosamente dos cafés áquella hora povoados, uma atmosphera quente, ditos scintillantes, anedoctas escandalosas que se entornavam por sobre as reputações como os calices de cognac por sobre as bandejas, os choques entrecortados das bolas de marfim na baeta verde dos bilhares, os artistas que appareciam contando a novidade de bastidores, e os theatros com o seu latejar de luzes na via-lactea dos collos das burguezas, a rapaziada fina nas plateias assestando intemeratamente os binoculos, o Juca, o Luiz Serra, o Carvalhinho, uns estroinas, capazes de bater uma _claque_ e armar um chinfrim, e depois irem tranquillamente comer ao Gomes, ás duas da manhã, ostras cruas com vinho de Bordeaux.

E todo este mundo tão seu conhecido, tão seu intimo, se movia no seu pensamento parecendo escapar-lhe, n'uma aspiração vaga, como aquelles rolos esbranquiçados do fumo do seu charuto, que se desfaziam, em largas ondulações, no ambiente estreito do seu quarto. A phrase rhetorica, afinada pelo diapasão do sentimentalismo, cahia lentamente nos monosylabos chãos, muito simples, d'uma chatesa trivial, que não póde mais fingir, sem os arremeços vehementes e lancinantes da paixão.

Ermelinda notara-o, com a tristeza d'uma pétala nevada que se vê cahir da corolla das illusões; mas

--confiava em si--dizia--e procurava dominal-o com as excitações nervosas do prazer, prostrando-o a seus pés, n'um ciciar timido, ardentemente enamorado, que a enlevava toda no ceu indefinido das idealidades.

E os dous ainda, n'um consumir rapido das phospherencias da paixão, supportavam-se mutuamente as pequeninas discussões, as nevoasinhas de tédio, a descoberta reciproca dos defeitos que atiravam, para de fóra do velludo das caricias, _la greffe du diable_, que mais tarde lhe rasgaria a solidariedade do seu bem-estar.

Sentiam-se ainda felizes, muito amiguinhos e promettiam sêl-o:

--para sempre, para todo o sempre--

Mas cada um, no escaninho mysterioso do seu espirito, via bem descer no rutilante ceu da sentimentalidade, a branca lua do seu noivado que ia desapparecendo n'uma curva rapida, deixando um rastro luminoso, que se apagava já, na orla occidental d'esse horisonte ideado.

E no egoismo do seu gozo esqueciam o Jorge, affastando-se, como que evitando-lhe a presença, tornando o menos possivel demorados os momentos em que tinham de estar juntos, sendo os primeiros a levantar-se da meza, os primeiros a dar as boas noutes depois do chá.

--Isto custa, Joaquina.

--Boa, até parece mais triste esta casa!

E approximavam-se n'uma necessidade imperiosa de convivencia, consolando-se mutuamente, recordando os dias tranquillos do passado em que todos os corações tinham a suave claridade da paz; iam-se prendendo, ensilvando, n'uma attracção baseada na mesma força, revelando-se reciprocamente, contentes por se comprehenderem, por se verem reunidos no mesmo caminho de solidão. E eram já mais amigos, permittindo-se pequenos gracejos, umas familiaridades demoradas, em que se espancava o convencionalismo do respeito. O molle temperamento lymphatico da Joaquina accendia-se, como uma phosphorencia errante; e quando á noite o seu corpo cahia no macio nevado dos lençoes, a imagem do Jorge, substituindo a do policia 45, desenhava-se nitida, d'uma perfeição correcta na sua imaginação de mulher viuva de materialidades sensuaes.

Quanto a elle sentia o sangue inflammar-se, uma desfaçatez de desejo apresentando-se intransigente á sua moralidade, com uma causticidade irrequieta, penetrando-o, atravessando-o com o impeto d'uma amazona de circo atravez da fragilidade d'um arco de papel. Quebrava as hesitações com argumentos especiosos, como um britador teimoso as pedras que lhe resistem; mas era cauteloso, prudente, tivera sempre medo do escandalo; e por isso evitava as occasiões de tentação, com um puritanismo timido, balbuciante, não se querendo aventurar sem a certeza da acquiescencia, gostando muito de jogar pelo seguro,

--esperar o ensejo, sobretudo--dizia.