Chapter 5
--Trata-me d'essa tosse, pequena, isso é _fraqueira_, queres tu tomar um caldinho!
Os olhos d'Annita, uns vagos olhos negros, d'uma doçura quebrada, moveram-se como que a acceder áquelle offerecimento e depois baixaram-se, mudamente, deixando rolar umas lagrimas furtivas.
A tia Magdalena reparou:
--Tu por que choras, rapariga!
--Se soubesse!...--e Annita, deixando rolar as lagrimas, n'um soluçar comprimido, os olhos a avermelharem-se, prorompeu rapidamente, como uma confissão que se deseja fazer depressa:
--Ha uns doze dias que o Alberto não apparece; e sabe... a pequenita, está tão mal, seccou-me o leite, coitadinha, não faz senão chorar, aquillo é fome, percebe!...--
--Ora o grande maroto; eu bem te dizia que aquillo nunca te havia de dar bom pago! Uns tratantes todos, uma corja, é o que é!...--E a tia Magdalena, n'uma indignação honesta, brandindo a gordurosa faca de voltar as iscas, com a respiração ruidosa, vermelha do calor do lume, como uma clamyde vingadora, ameaçava os devassos da boa sociedade,
--uns pelintras, uns paninhos d'armar, e que não deitavam uma de x, se os virassem de cangalhas, que era o que elles mereciam... uma forca--concluiu toda offegante, limpando a certã ao avental e collocando-a sobre as trempes para proceder a uma nova fornada d'iscas.
--E agora sabes que mais, Annita, leve o diabo paixões e trata de te aproveitares em quanto é tempo.--
--E a pequenita, que lhe havia de fazer, não lhe diria? e depois, sem saber cousa nenhuma d'elle...
--D'elle, ora não está má essa! que esperas tu d'ali? A estas horas lembra-se bem de ti! sempre ainda és de bom tempo!...--
--Mas é que isto não póde ser assim entende, tia Magdalena! Não, que não faltava mais nada! Estar a gente bem collocada, ganhando a sua vida, senão com honra, por que a boa sorte não é para todas as creaturas, mas com decencia, com certas commodidades, e vem de lá um senhor todo palavrinhas doces, promette-nos mundos e fundos e para que... para nos deixar morrer de fome... ainda se fôra eu só, mas a minha pequerrucha, coitadinha do anjo... que culpa tem ella...--
E quebrando a violencia da palavra a esta lembrança, triste, soluçante, as lagrimas a soltarem-se outra vez, desolada, batida pela miseria e pelo infortunio, como uma pobre planta do mar, que tem o consolo de se agarrar a uma concha mais debil que ella, no meio das revoltas convulsas dos elementos, a Annita, com a voz fatigante, entrecortada na macia suavidade dos doentes, como se tivera pejo da revelação que ia fazer:
--E depois, sabe, tia Magdalena, não sei porque, depois que tenho a pequerrucha, parece-me que é um crime voltar á vida que levava.--
Magdalena olhou-a espantada, guardou um silencio curto; philosophava talvez sobre a desigualdade dos destinos, porque ao deitar do alto um fio d'azeite liquido na certã, que fumegava, n'uma chiadeira monotona, observou com um certo ar sentencioso:
--A sorte não pode ser a mesma para todos, Annita; cada qual vai-se sugeitando ao que Nosso Senhor lhe destinou.--
--Isso é verdade, tia Magdalena.--
--Pois então, filha, toma este caldinho e leve o diabo paixões; tu ainda não és assim nenhuma peste!
E com uns modos brandos, um largo sorriso corrupto, a tia Magdalena insinuava-se, contava casos identicos, uns casos de que tinham resultado boas fortunas e muitas raparigas que ella conhecia e que hoje--accrescentava orgulhosa--andavam ahi no galarim! oh, se andavam! e algumas a ella lh'o deviam!--
E depois capciosamente, com uma insinuação que se enrosca, a tia Magdalena promettia-lhe auxilial-a, occorreria ás primeiras despezas,--o vestido era tudo--dizia--e depois tu m'o pagarás quando poderes.--
--Lá isso, creia, não serei ingrata.--
E mais confortada, com uma resignação de vida nova, pensando um pouco na miragem que lhe fulgia diante dos olhos, a Annita, saciada a fome, na plenitude feliz d'um estomago satisfeito, arremeçava a phantasia ao encontro d'um brazileiro endinheirado, d'um negociante, d'um burguez honesto que a sustentasse, n'um trem de luxo, casa montada, uns vestidos espalhafatões e uns brilhantes,--oh, desejava muito uns brilhantes,--e sahiria com a sua creadinha, muito invejada, golosamente desejada pelos _dandys_ que estacionavam ás portas dos cafés, das tabacarias, nas aleas do Palacio--
--mas nunca, havia de se vingar, estava farta de peraltas.--
E um pouco mais positiva, com a licção pratica do infortunio em que ia resvalando, pensava em aproveitar-se um pouco da flor da sua mocidade, e depois,--a filhinha era preciso aconchegal-a n'um agasalho de confortos--d'um collegio, onde a pequena estivesse decentemente collocada, e que a não importunasse muito a final--concluia.--
Vinham-lhe todos estes pensamentos n'uma confusão adoravel, com uma effervescencia de cerebro docemente embriagado, sonhando-os ella só, com uma doce voluptuosidade intima, em quanto a tia Magdalena curvada sobre o lume espalmava com a faca as iscas amarellas que chiavam n'uma compressão rugidora e com a outra mão esfregava os olhos blepharaticos, lacrimejantes com o calor do lume. Lembrou-se da pequerrucha, despediu-se
--havia de voltar, tinham muito em que conversar
--cá te espero, minha brazileira, e olha, vem á tardinha, tenho mais uma _aquella_ de vagar.--
A Annita sahiu da tasca. Ficava em frente a alameda das Fontainhas, com as suas sombras frescas, a relva cylindrada, um doce murmurio d'aguas que cahiam no tanque. A tarde descia lentamente com uma grande preguiça de creoula, arrastando a sua cauda de luz por sobre a cumiada dos altos de Villa Nova, dando um tom melancholico de ruina ao velho convento da Serra do Pilar. O Douro lá em baixo, n'uma mansidão lassida, quasi parado, deixava-se cortar em espadanas de crystal pelos remos curvos dos barcos _rabellos_, um tanto primitivos, que iam navegando lentamente.
Mirones melancholicos, com um ar romantico, se encostavam ao paredão contemplando a paisagem n'uma grande mudez admirativa e ociosa, em quanto em baixo as lavadeiras batendo a roupa, cantavam alegremente, amenisando o trabalho.
A Annita sentia-se possuida d'aquella beatitude pantheista; o seu espirito resfolegava alegrias, o corpo sentia-se leve, como que impregnado d'um ether ligeiro, que a estonteasse de felicidade, fazendo-a voar na mansidão do azul, como as aves brancas que atravessam o espaço. Toda ella delineava bellos sonhos aereos, phantasias gentis, castellos d'Hespanha rendilhados de luz, que nada parecia poder destruir.
--Seria rica e feliz! A sua filhinha teria sempre vestidos brancos, a cinta enlaçada por uma larga fita côr de rosa, e um chapeu pequenino de palha d'arroz, feito na melhor modista. E sahiriam juntas, ella toda cingida n'um vestido de velludo côr granada, a côr da moda, o sapatinho aberto a desvelar as meias de seda, um chapeu modelo, toda perfumada, com o bello aroma d'essencias caras--havia de ser do Jockey-Club, que o Alberto tanto gostava--
--mas ao recordar este nome uma sombra escura perpassava ennevoando aquelle sorrir intimo, como uma nuvem que empana o sol, ou um signal negro que poisa no branco setim d'uma pelle avelludada.
--Ora, que lhe importava! Era um canalha, estava dito.--E evolando-se outra vez ao ceu das suas phantasias, pensava então em como havia de ter a sua casa, um primeiro andar com mobilia de pau setim, tapetado de modo que ella não sentisse o ruido dos seus passos, e uma ottomana toda macia, com boas molas doces, onde podesse recostar-se languidamente a pensar em coisa nenhuma. Ficára-lhe a voluptuosidade preguiçosa dos divans, do seu tempo de _cocotte_;--e teria um piano, sim, era decente, ella não sabia tocar, mas a pequerrucha aprenderia!--além d'isso ella gostava de musica, sensibilisava-a, dava-lhe um poucochinho a doce voluptuosidade dos enervamentos molles e--lembrava-se sobretudo dos fadinhos chorados na guitarra, que tanto a enterneciam.--
Mas dous brazileiros vinham do outro lado da alameda; um d'elles, usando oculos, pareceu olhal-a com attenção; questionavam em grandes gestos largos. A Annita pensou em que elles seriam muito ricos.
--Si lh'o digo eu, homem! se casa ella! esta manhã o Juca contou na loja do Guimarães, que tinham já assignado as escripturas.--
--Mas se elle não tem aonde cahir morto! olha quem, o Alberto!
--Herdou d'uma tia da provincia, você sabe?
--Historias, aquelle passaro não entra em gaiola minha, não, essa lhe digo eu! Conheço de ha muito o Alberto de Sá!
A Annita sentiu-se intrigada, alguma cousa de occulto que se revelava, estonteando-a.
--Ah, pois era possivel! Aquelle canalha ia casar-se! E ella, e a filha!... que pulha, que miseravel!--
E desejava ouvir, interrogar os brazileiros; saber se era d'elle, que realmente se tratava. Approximou-se, tinha uma grande agudeza d'ouvido, precisava não perder um som. O brazileiro dos oculos não deixava de a fitar de vez em quando.--Se podesse fallar-lhe.--
--pois é verdade, é!... concluiu o brazileiro, bamboleando o guarda-sol, e abrindo os braços, n'um gesto largo, de quem não duvida.--E depois um pouco artista:--
--Bonito panorama, commendador!...
--Ah, nada qui chegue ás vistas di Petropolis! e o morro do pão d'Assucar, ao entrar a barra, não gosta você?
--Admiravel, lhe digo então!
O homem dos oculos continuava a fitar a Annita, que um pouco mais longe, o corpo gracioso, curvando-se um pouco sobre o paredão, fingia olhar o Douro. O companheiro notou-lhe uma certa distracção.
--Qui tem você, commendador?
--Não reparou o amigo Lourenço n'aquella moça que está além!...
--Maganão!--disse, batendo-lhe uma palmadinha no hombro.
--Não, mas repare, se parece ella muito com a Ermelinda, do Jorge!
--É verdade! Ah, ah, quem ella é!... desatou o Lourenço n'uma reminiscencia subita.
--Você conhece ella?
--Se conheço! É a Annita, uma moça que já esteve ahi por certas casas, ein, e depois sahiu, creio que para a companhia d'alguem, o commendador comprehende?--
--Ah, ah, pois se parecia ella muito com a Ermelinda, ia jurar que eram irmãs as duas, ora já viu...
--O diabo o jurasse.--E riram muito, dobrando os grossos ventres em contracções diaphragmaticas, as bochechas dilatadas, no espapamento obscuro de alegrias alvares.
O Lourenço despediu-se, tinha que fallar com o Mendes, ficara de estar com elle no café Suisso, e instava para que o commendador o acompanhasse
--ficava mais um poucochinho, lhe agradava muito aquelle panorama.
--Oh, era sublime!
--Até logo!
--Até logo, no hotel, ein, para a partida do sólo.
O commendador viu o Lourenço subir a rua de S. Lazaro e continuou a passear na alameda, abstracto, um pouco descuidoso de si, como se caminhara embalado na serenidade doce d'aquella natureza que se lhe desenrolava diante! Havia um pensamento latente, que phosphorecia lá dentro, na solidão do seu espirito, e ora se apagava, ora reapparecia, para tornar a fugir, alguma cousa de errante, que elle não podia condensar n'um raciocinio logico, e bem seguro, como fazia a uma somma de cifras dispersas. Escapavam-lhe phrases soltas, entrecortadas:
--Mas é isto feitiçária, de certo, eu tenho ouvido fallar n'essas coisas!
E reconcentrava-se, recolhendo a si a ideação que se evolava, como as creanças recolhem os papagaios de papel fluctuantes e moveis, que se alam no espaço.
A Annita passou por elle, toda gracil e acariciadora, um bom sorriso a colorir-lhe os labios veludineos, o corpo meneando-se n'um movimento furtivo, de corça domesticada. O commendador reparou n'ella e exclamou:
--Muito se parece o demonio da moça!
E, seguiu-a com o olhar, n'uma attracção inconsciente, pensando talvez em Ermelinda, que via reproduzir-se no corpo esbelto e delgado d'Annita, uma attitude de _gaucherie_, um pouco trocista, que lhe recordava o baile de casa do Mendes. E naturalmente foi-a seguindo, com uma docilidade de idiota, irreflectida, de desejo que se abre fustigando o instincto, e avassalando, n'um despotismo intransigente, todas as ideias sãs, que poderiam nascer. A Annita percebeu isto mesmo, e mais provocante, um poucochinho _cocotte_, tomando um ar garrido, de honestidade duvidosa, caminhava lentamente, á _se laisser prendre_, fingindo-se embevecida na grande obra d'arte, a ponte Maria Pia, que se estendia, como um arco de madresilvas, de montanha a montanha, esbatendo-se então, na doce luz crepuscular. E o brazileiro, ouvindo-lhe já a respiração, o _frou-frou_ do vestido, quasi a par:
--Me dá uma palavra, sinhásinha.
* * * * *
Depois de deixar o brazileiro, Annita dirigiu-se lestamente para casa, cantarolando uma musica em voga, um fragmento d'opereta; chilreava-lhe a alma a umas esperanças fagueiras, que desciam envolvendo-a, n'uns sonhos embriagantes de felicidade. Preparava o seu plano de ataque para a primeira entrevista com o commendador; estudava todas as seducções, que o estonteassem, todas as _ficelles_ que podessem prendel-o; adivinhava que precisava andar differentemente com elle, cortar pelos espalhaphatos pelintras de _cocotte_, e fazer-se honesta, um poucochinho séria, mostrando ainda assim a garra de _diable_ por debaixo da apparencia avelludada das caricias affectuosas.
N'estas disposições subiu a escada; um gemido debil, de creança exhaurida de chorar, cortou-lhe os vôos á aza da phantasia, e vendo no berço aquelle rosto branco, muito chupadinho, com os olhos pretos docemente embutidos na côr lactea da pelle, tomou-a carinhosamente, aconchegou-a ao peito, que a pequena procurou com ávida anciedade, mas que largou logo, chorando, n'um vagido de fome.
--Deixa que tambem ha-de chegar a tua vez, meu querido amorsinho,--e depôl-a no berço, principiando a embalal-a, n'uma melopeia monotona, que a adormentasse.
Um luar doce, d'uma voluptuosidade estival, entrava pela janella, clareando o quarto; e a Annita, sentada junto ao berço, ao ruido cadenciado d'aquellas oscillações, mergulhava o seu espirito n'essa photosphera de saudade, que vive na alma de cada um de nós e que ella uma vez soubera possuir com o eleito do seu coração, um bom rapaz da provincia, o seu primeiro amor, ambos cheios d'uma mocidade fresca e alegre, pobres os dois, mas unidos contra a adversidade, mãos dadas no caminho aspero da vida!
--Oh, que fatal ideia a sua em querer vir para a cidade, ser rico, trabalhar muito!
Morrera, victima da grande lucta, da immensa peleja e ella, só, bonita talvez, requestada, adquirindo habitos de luxo, um pouco preguiçosa, adormecida na saudade d'aquelle primeiro golpe, deixara-se resvalar, cahira... e... dentro em pouco via-se adorada por muitos homens, chamavam-lhe a Annoca, a _gatinha parda_, sabia ter graça, e era a mais procurada d'entre as suas irmãs de infortunio... E depois o Alberto insinuara-se no seu coração, queria ter um _amante_ tambem, um janota, um dandy, estava farta d'aquelles imbecis que a procuravam a preço d'ouro, por instantes curtos.
--elle fôra a sua desgraça!... E confrontava, achava miseravel aquella pocilga aonde elle a mettera, promettendo-lhe cada dia cousa melhor e isto havia um anno e depois--a filhinha viera... para cumulo das suas desventuras.--
--Ah, seria bom ser mãe, quando se era rica!... mas assim, que miseria!...--
Despontava então a imagem da sua nova conquista, o brazileiro, e ella, affagando uns sonhos de ventura, curvava-se sobre o berço, segredando com a filha, como se ella a podesse entender!
Bateram á porta n'este instante. A Annita levantou-se, foi abrir, e um raio de luar, apanhando a entrada n'um espaço vedado, illuminou a figura elegante de Alberto. Sentiu-se afogueada, alguma cousa como o despontar d'uma revolta, que a sacudia. E muito ironica:
--Bravo, sim senhor, a boas horas!--
--Ás horas que me apraz--respondeu seccamente, atirando comsigo para uma cadeira e accendendo tranquillamente um charuto.
A Annita ficou a olhal-o, de braços cruzados, o cerebro paralysado por aquella entrada brusca, indecisa; mas depois recobrando-se d'aquelle silencio, sempre ironica:
--Dou os parabéns a V. Ex.ª--
O Alberto relanceou sobre ella o seu olhar, conheceu que a Annita sabia das suas novas resoluções!--Ah, isso evitava-lhe trabalho, estimava-o--e alto:
--Obrigado! e ainda bem que o sabes! Isto assim como assim tinha de acabar; não era possivel!
--Não era, não!
--Vamos, não te zangues; sê boa rapariga!--E levantando-se, approximou-se d'Annita, tomando-lhe as mãos, aconchegando-a a si. Mas ella fez um movimento rapido, desprendeu-se, e, torrentuosa, quebrando a transparencia das ironias,
--Seu pulha, seu miseravel! pensava que era só roubar-me a tranquilidade e o bem-estar, trazendo-me para esta pocilga, vendendo as poucas joias que eu tinha, mentindo-me sempre, arranjando-me uma filha e agora, por aqui é o caminho! Não que elle não é senão casar com a sr.ª D. Ermelinda! Ora até o diabo se ria! Ahi tem a sua filha, leve-a, faça presente d'ella á sua noiva e para cá as minhas jóias, ouviu!--
O Alberto recebeu esta saraivada, com um ar pallido, d'um sorriso sarcastico, trauteando a sr.ª Angot, e pondo o chapeu na cabeça:
--Até mais ver, _gatinha parda_!
VIII
Trens de praça, os cocheiros com librés de luxo, iam-se pouco a pouco enfileirando na rua onde morava o Jorge. O povinho ia parando, mulheres sobretudo, desejosas de ver sahir o cortejo. Os convidados ainda com os sobretudos e já de luva _gris-perle_, as senhoras de vestidos de sêda, entravam e logo o director do banco com um sorriso amavel, d'uma cortezia palaciana, sahia a recebel-os, um bello ar festivo, a barba escanhoada, a gravata branca sobre um peitilho folheado, todo grave na sua casaca preta.
Tinha sempre uma phrase nova para receber os cumprimentos.
--Meus parabens, sr. Jorge.
--Obrigado, amigo Mendes, sei que são sinceros!
Rodava mais uma carruagem e logo outro, entoando:
--Parabens, parabens!
--Recebo-os, como a mais amavel das felicitações--e sorria.
As senhoras todas subiam, queriam ajudar a vestir a noiva. Tinham o fetichismo das grandes occasiões. A Adelaide Mendes dizia que havia de ser ella quem pregaria o ultimo alfinete!--e todas queriam fazer o mesmo, as solteironas afim de serem as primeiras a seguir na via lactea do matrimonio.
No seu quarto a Ermelinda estava já vestida, o rosto afogueado n'uma vermelhidão casta; um largo espelho a reflectia com o seu vestido de _faille_ nevado, d'uma scintillação velludinea guarnecido a flores de larangeira; iam pôr-lhe o véo, um largo véo de fino tulle branco!--Mas em antes as amigas rodeando-a, notavam uma préga que era necessario desfazer, encobrir... com um ramo, e uma elevação no penteado, que urgia modificar.
Davam-lhe os parabens com sorrisinhos maliciosos e ditos agudos, d'uma levesa picante, capazes de crestar o avelludado d'aquellas flores virgineas, que a engrinaldavam,--e a corôa, que a repartisse pelas amigas, não se esquecesse, para o noivo bastava a... outra--
A Adelaide Mendes disse que preferia a sua parte do _bouquet_;--
--ah! tambem, tambem!--
--vai mais chegadinho ao coração--
E uns dedos rosados vinham logo ageitar o _bouquet_, um pequeno ramo gracioso, de flores de larangeira, que fechava o decóte do vestido, poisando sobre a curva do seio, com uma castidade toda timida, narcisando com a sua fina essencia a carne assetinada, d'uma alvura de camelia, onde poisava um formoso signal escuro, cheio de pequeninas provocações.
Estava prompta em fim. Nunca o seu espelho lhe parecera tão lisongeiro, como n'aquelle momento;
--Ah, era assim que ella se tinha sonhado nos seus devaneios incoherentes de mulher nova e moça!
--mas sentia-se nervosa, muito agitada; tinha sobretudo uma grande sêde!--
A Amelinha, disse-lhe:
--que tambem ella estivera assim, mas passava, não tinha duvida--e preparou-lhe um copo d'agua com assucar, que a Ermelinda tomou, curvando-se para não deixar cahir alguma gotta sobre a sua toilette de noiva.
A D. Carola, a esposa do Mendes entrou, um sorriso largo, a pronuncia brazileira:
--Vamos, meninas, são horas de conduzir minha afilhada--
--E elogiou-a,--que estava muito bonita realmente, era o mais formoso dia da sua vida--
--Eu sei, D. Carola! talvez o mais infeliz!--e abriu as palpebras a umas lagrimasinhas brancas, d'uma humidade crystallina, que rolaram como pequenas perolas sobre os olhos negros, avelludados.
--Ora já viram, a menina a chorar--rompeu a Amelinha Bastos!--eu cá até me ri, podera não! se eu ia por minha vontade--
Mas a D. Carola reflectiu:
--que poucas deixavam de chorar, realmente a cousa bem pensada, não era para menos! mas que não havia nada mais lindo, dando-se bem...
Em baixo os convidados cercavam o Jorge, perguntando pelo Alberto, o noivo. Elle explicava:
--O casamento effectuar-se-hia em Cedofeita, era um pouco do tom, e o Alberto iria dar á Egreja com os seus amigos.
--E os padrinhos, os padrinhos quem eram?
--Da sua Ermelinda era o Mendes e a D. Carola.
--E do Alberto?
--Do Alberto, ah, do Alberto, era o commendador Faria e a senhora do Dr. Roberto Jocy, um amigo d'elle, muito intimos, uma senhora de esmerada educação, pertencente a uma familia ingleza.
A noiva desceu emfim.
Os homens olhavam-a com uma grande sensualidade hypocrita; trocavam-se sorrisos velhacos e ditos apimentados, que Paulo de Koch não despresaria. Tomaram logar nos trens. A D. Carola foi com Ermelinda, o Jorge ia com o Mendes. O cortejo principiou a desfilar em direcção a Cedofeita.
Lá estava o Alberto, o commendador Faria, um pouco pallido talvez e o Dr. Roberto Jocy, um rapaz moreno, de physionomia insinuante e sympatica, a senhora, um typo esguio, de ingleza magra, com uma pronuncia incorrecta; e o Juca Mendes, o Alfredo Costa, o Luiz Serra, o Carvalhinho e outros ainda, companheiros da _pandega_, uns _crevés_ perfumados; de penteados divididos em dous hemispherios, muito luzentes, os pequenos bigodes retorcidos. Conversavam nos claustros.
--Um poucochito magra, ein,--rapazes.
--Havia de engordar com as delicias do matrimonio--
--Respeito á moral da burguezia, meus caros D. Juans.
--Que estupida asneira fez o Alberto!
Foram entrando no templo; alinhando-se; o sachristão, com a sua batinha vermelha, d'um tom sanguineo, de carrasco, ia distribuindo brandões accesos, aos homens, ás senhoras, como se os preparasse para um sacrificio murtuario, de festas funebres. O povo entrava, collocando-se ao fundo, na penumbra escura do guardavento. Um cheiro de cera derretida se espalhava no ar e vozes ciciavam em commentarios de má lingua, de sensualidade rutilante. Por fim os padrinhos e noivos sahiram da sachristia, e os dous proximos um do outro, com um sorriso promettedor de felicidades nubentes, caminharam entre as alas dos convidados, até ao arco-cruzeiro, onde o padre, paramentado, com um livro d'orações na mão, os esperava, com um latim já velho auctorisador de caricias para mysticamente os unir n'um laço eterno, indissoluvel, que nunca mais podesse desatar-se.
O padre enlaçou-lhes as mãos e ao pronunciar o «Ego vos conjugo» Ermelinda sentiu a face orvalhada, as lagrimas convencionaes da noiva romantica, que o Alberto recebeu com um sorriso leve, finamente desenhado nos seus labios vermelhos. O commendador Faria, sentia-se mal; bagas de suor frio lhe porejavam a fronte e o seu lenço de fina bretanha roçava-se sobre a pelle humida, absorvente, como uma esponja; um pensamento importuno, que se não sacode facilmente, penetrava-o com grande desespero seu.
--Mas que me importa ella a mim?--perguntava a si proprio--e insensivelmente os seus olhos cravavam-se em Ermelinda, toda formosa no seu vestido branco, um bello ar de virgindade pudica, como as esposas do Senhor nos dias de noviciado.
--mas, que raiva esta!... Ora, ora!...
E desviava os olhos, terminando em fitar um S. Miguel doirado, domando bellicosamente o velho Lucifer, d'uma cara angulosa, que o olhava, o pescoço torto, com um grande ar sarcastico.