A Divorciada

Chapter 4

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E depois a noute de insomnia que elle passara, affagando aquella imagem que fugia, esvaindo-se na penumbra pallida das suas ideias desfallecentes.

O seu coração tivera então umas pulsações mais desordenadas, alguma cousa de estranho, como a onda d'uma vida nova, que elle nunca tinha experimentado. Lembrava-se que só uma vez sentira uma impressão quasi analoga, a bordo d'um paquete, por uma _lady_ ingleza, de meigo olhar azul, que lia melancholicamente no tombadilho, á tarde, quando o sol cahia em irradiações douradas na linha do poente e se via a helice abrir um sulco nevado, de espumosa brancura, no dorso azul do grande mar dormente. Mas então, ao desembarcar no Lazareto, a ingleza seguira para Bordeaux e elle, na capital, fôra pouco e pouco esquecendo aquelle episodio romanesco da sua vida. Mas agora, lembrando-se que Ermelinda ia ser d'outro, que a veria todos os dias, sorrindo com a meiguice do seu olhar para o marido que lhe daria o braço, sentia um mal estar, um como desejo de ser mau, oppondo-se ao seu casamento, contrariando-lhe a felicidade,

--não por que aquillo lhe importasse... mas, não sabia explicar, sentia-se encommodado, a final de tudo.

E distrahido, cofiando com um automatismo inconsciente a suissa grisalha, esquecendo que estava á janella a conversar com a D. Clementina, que o requestava toda vaidosa da sua redondesa de formas, retirou-se bruscamente, sem se despedir. Mas lembrando-se da sua descortesia, voltou:

--que o chamavam de dentro, se era servida de seu almoço.--

Ouviu-se no ar um

--obrigado--e o descer d'uma vidraça que cahia chronometricamente no caixilho, para só se erguer no dia immediato.

--ainda era aproveitavel esta D. Clementina, mas uma mulher que elle aborrecia, lhe causava nojo... e então não era para comparar com a outra... e ahi estava elle a pensar n'ella, se encommodava com aquillo.--

--que era uma tolice--pensava--já não era creança e a Ermelinda era uma rapariga nova... o pae havia de querer dinheiro... o banco não estava muito seguro, elle sabia d'umas transações pouco felizes--e não faltavam mulheres--concluia alto.

Affrouxava-lhe a genese do novo ideal perante o conhecimento prático da vida

--ora, que se não ralaria.--

E sahindo do quarto encaminhou-se para a sala de jantar, onde o esperava a costelleta que elle humedeceu com suas pimentinhas, o escaldado de farinha de Serohy, os ovos quentes, e simultaneamente a conversação dos companheiros, muito animada, recordando os affanosos dias do Rio de Janeiro, as distracções das Xacaras de Bota-fogo, das Larangeiras.

A conversação estabelecia-se, de companheiro a companheiro. Reminiscencias se avivavam, cortando-se mutuamente, como bolhas de champagne, que effervescem n'uma confusão tumultuaria. O Lourenço Pereira á direita do commendador, tinha acabado de almoçar, recostava-se, accendendo um charuto, reclamando o _dessert_ do cavaco.

Fallou-se nas companhias de Bonds, que faziam percurso para o Bota-fogo.

--E a proposito, se recorda você, commendador, a partida que aconteceu lá ao Mendes, com aquella Francezita da rua do Ouvidor?--

--Pintou a manta aquelle estroina!

--Mas que o Juca Silveira não lhe ficava a dever nada, ein!--

--O Juca, é verdade!... e onde está elle agora, sabe você, Lourenço?

--Não é socio do Chico do Barbadinho?

--não, que não era! desmanchara de ha muito a sociedade

--elle, já me recorda elle! Pois esse rapaz tem agora commandita com o Pinto, aquelle que morava lá adiante na rua do Gonçalves Dias, á esquina.--

O commendador não se recordava; veio outra explicação do Lourenço subsidiar-lhe a memoria.

--O Pinto, que tem casa de molhados á rua da Alfandega, com o José Casimiro, que morreu da febre em 74.

--Já, já! Ora com quem foi parar o Juca! estava admirado!...

--E ia bem! A casa tinha muito credito do tempo de Cunha Almeida & C.ª

--Bom moço, o Juca!

Successivas recordações se evocavam, generalisando-se. O almoço tinha concluido; os estomagos digeriam na tranquillidade feliz d'um bem estar ocioso, e os charutos ardendo deixavam cahir a cinza esbranquiçada sobre a toalha da meza, d'onde o criado retirava os serviços n'uma attitude diligente e curva.

A luz suavemente cortada pelos _stores_, estendia um rastro alegre por sobre as aparadeiras, dando um brilho metallico ás louças que pousavam sobre o marmore, ás fructeiras, ao centro da mesa coberto de flores, aos crystaes dispersos ainda com restos de vinho, que não tinham sido levantados; em quanto as moscas n'um zumbir monotono, volteando em redor do grande candelabro de dous ramos, cahiam sobre as chavenas aproveitando os restos d'assucar.

Lá fóra, nas cruas irradiações do sol que batia n'um predio fronteiro, presentia-se um dia de calor, das fortes temperaturas tropicaes; mas os brazileiros, oppunham-lhe a sua calça branca, rija de gomma, e os seus Chilis, leves d'uma frescura hygienica. Iam-se pouco a pouco levantando, sahindo da sala, aos grupos, como os mansos animaes emigradores, trauteando pequenas canções, chacaras Brazileiras,--a _Mulatinha do caroço_, o _Nhonhó_, e já na rua dirigiam-se aos estabelecimentos conhecidos, aos Bancos, á Associação commercial, ou vinham parar na Praça Nova,

--o _palheiro_--como elles o denominam--em casa do Pimenta, do Guimarães, do Prata.

Um ruido de cidade, como um latejo palpitante de vida, se concentrava na praça. A intervallos os americanos passavam, pachydermes gigantes, de movimentos vagarosos, n'um trote miudo de muares; o povo esfervilhava, trajes variegados das lavradeiras dos arrabaldes, d'uma vivesa crua de colorido, os da cidade com seus fatos claros, caminhando depressa, na sombra dos edificios, evitando aquelle dardejar de irradiação que batia cruamente na calçada. Os trens infileiravam-se a um dos lados, os cavallos pacificos, de cabeça baixa, quebrados pela ardencia do calor, em quanto ao centro o Rei-Soldado, golpeado pelo sol, com uma grande intrepidez de estatua, empoado, mostrava do alto do seu cavallo a carta constitucional ao Rainha, cuja taboleta annunciava tripas aos sabbados e ás quintas-feiras.

Na Baviera, no Camanho, no Suisso, homens entravam, pedindo gelo, refrescos, sorvetes de morango; quem passava via o loiro da cerveja nos copos estreitos, e individuos recostados, abanando-se com os chapeus; na Moré os janotas, estoirando as luvas, cumprimentavam, bocejando, na grande nostalgia de cerebros vasios e quando succedia que alguma senhora ao subir dos passeios mostrava a levesa elegante do pé, olhares esgaseados, d'uma sensualidade sorna as procuravam, mordendo-as com o desejo surdo de calcinações febris; e logo os brazileiros em casa do Guimarães, sentados nos mochos do estabelecimento, bamboleando-se, se acotovellavam cochichando:

--Bom bocado! ein!... se não tinham reparado.--

--Viu-se o Jorge passar com Ermelinda; o commendador estava lá no seu mocho, lendo o «Commercio do Porto» com uma grande attenção minuciosa; mas os outros noticiaram logo:

--que lá ia o Jorge com a filha.

--sempre se casava ella, ein?

--Levava boa rez, não tinha duvida--disse de dentro o negociante--

--e a rapariga estava de appetecer--accrescentaram--mas ao verem que os dous tomavam um trem,

--Ora para onde irão elles a esta hora! sempre o desejava saber--observou o Juca, curiosamente, batendo com a badine no balcão.--E sahiu rapido, borboletando como um colibri, desejoso de saber.

O commendador desviara os olhos do jornal; parecia-lhe que d'aquella mulher, que estava uns vinte passos distante, irradiava alguma cousa de subtil e quente, como um veneno oriental que lhe corresse nas veias; fitava-a insistentemente, atravez dos seus oculos d'ouro, como desejando attrahil-a para si, n'aquelle mutismo de obediencia passiva, com que os magnetisadores recebiam as suas allucinadas. E ao ver Ermelinda saltar para o trem, descubrindo brancuras de vestidos n'um movimento rapido, sentiu-se como que estonteado, uma aura que lhe ennevoava a visão, alguma cousa de terrivel e doce, que escachoava confusamente no seu cerebro, e pondo-se a pé, um pouco pallido, disse para o caixeiro do estabelecimento

--Me dás um copo d'agua, Manoel?--

E bebeu-a d'uma assentada, um pouco apressadamente, como se confiasse em que a acção fresca do liquido lhe acalmaria aquella agitação intima, que bem a seu pesar, lhe sacudia os nervos tão pacificos.

Mas n'este momento o Juca, entrava todo offegante, vaidoso de si, dando um giro mais largo á sua _badine_.

--Já sabia...--

Rodearam-n'o; uma grande curiosidade patenteada em todas as physionomias.

--Então, dize lá, menino?...

--Ao tabellião, meus lyrios, ao tabellião; vão assignar as escripturas.--

Os commentarios choveram; o commendador tinha-se retirado, apenas soubera da informação do Juca.

--Me incommoda, isto, ein, não sei porquê--ia elle a rumurejar quando passava á esquina de S. Bento.

VI

Alberto conseguira effectivamente insinuar-se no espirito de Jorge; as relações iam-se estreitando, tornando-se mais intimas; principiou a frequentar a casa, á noite, á hora do chá. O commendador apparecia uma vez ou outra; e quasi sempre a D. Clementina vinha tambem, o seu pequenino cão felpudo, de que narrava com uma grande prolixidade enfadonha as travessuras, as caricias.

--Querem saber o que elle fez outro dia... o meu Totósinho...--e affagava-o correndo-lhe a mão pelo dorso, n'uma boa caricia amoravel--estava eu já deitada, elle dorme no meu quarto o Totó e ouço-o gemer, gemer, parecia mesmo um christão, fóra a alma, chamo por elle, vem muito candongueiro...--

Mas já ninguem lhe prestava attenção; o Jorge tinha proposto uma pequena partida de sueca, e acceitara-se com vontade,

--era preferivel á historia do fraldiqueiro--dissera baixo o commendador.--

A D. Clementina cortou a narrativa,

--gostava da sueca, era o seu jogo, seremos parceiros, commendador?

--Com muito gosto, minha senhora.--

A Ermelinda e o Alberto é que achavam massador,

--ir agora jogar a sueca, que estopada--

--ainda se viesse por ahi a D. Gabriella, a viuva do Brandão--cochichavam.

Ouviu-se uma campainhada. Exultaram.

--Havia de ser a D. Gabriella!... vai abrir, Joaquina.--

Era effectivamente a viuva; um ar ressequido, de rata velha, arrastando os ss, com um silvo prolongado em todos os vv, ainda pretenciosa, com uma paixão occulta pelo Jorge, que tinha a felicidade de a não perceber.

Disposeram a meza. Ermelinda e Alberto, um pouco affastados folheavam os albuns, distrahidamente embevecendo-se em phantasias coloridas, muitos projectos--que haviam de effectuar, um dia, logo que fossem um do outro, para todo o sempre.--

O Jorge questionava.

--Pois se o trunfo era copas, minha senhora, era copas...

--Julguei que podia embarcar a bisca ali no valete do commendador.--

--Qual historia! Ahi tem o resultado, perdemos por sua culpa...

E voltando-se para Ermelinda:

--Toca alguma coisa, menina; não sei para que te serve a habilidade!...

--Já vou, papá...

E sentou-se ao piano, o Alberto ao lado, voltando-lhe a musica. Era um motivo da _Traviata_, d'um sentimentalismo enervante, que punha no espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a «walsa da sombra»; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu perfil na lucillação casta do luar.

Havia commoções ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume apaixonado, sentimentalista; a alma deixava-se voejar na photosphera quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar, e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas; amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de pé, absorvendo na languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda, experimentava um desejo incoherente de se apossar de toda aquella mocidade, arrebatando-a, como um cavalheiro medieval, no corcel vertiginoso da sua phantasia.

Mas o Jorge irritado:

--Oh, D. Gabriella, pois isso faz-se, ir metter a sua bisca debaixo do az.--

--Mas, sr. Jorge...

--Qual mas, nem qual carapuça; a senhora está hoje d'uma abstracção imperdoavel...

Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando-se tinham uma meiga expressão indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os houvera mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram a sentar-se junto da _jardinière_, um pouco recolhidos na sombra, apertando-se occultamente as mãos, com uma doce pressão dolorida, que os fazia estremecer de gozo.

--É muito sentimental aquella walsa da Dinorah!

--Tu gostas?

--Immenso; mal sabes como me sinto apaixonado quando a oiço tocar.

--Hei-de tocal-a então muitas vezes... depois...

--Pois... sim...

--Mas com uma condição; has-de me dar um beijo de cada vez...

--Um só! dou-te mil... meu amor...

--Ah, ah, mil... eram muitos...--e abriu um sorriso gracioso, desenhando-lhe no carmezim dos labios um estojo assetinado, guardando uma dentadura egualmente branca, que um poeta noviço denominaria perolas.

A Joaquina entrou com o chá; poseram-se as cartas de lado, rodearam todos a meza; o Alberto tinha sempre o cuidado de servir as senhoras.

--Então, D. Clementina, um bolinho mais.

--Nada, não queria, estava servida...

--E Vocêssencia, D. Gabriella, não se serve de mais uma torrada.

--Faz favôr, sr. Alberto!--e sentia-se logo na mó coriacea das suas gengivas desdentadas um ruido aspero de trituração, que ella humedecia com pequenos golos de chá, muito saboreados.

O Jorge conversava com o commendador sobre negocios economicos

--que estava já muito bom o cambio e se assim continuasse viria de lá muito dinheiro.--

--era preciso; se não se dava em crise!--approvava o commendador--

--que as acções da Companhia Carris tinham baixado, e as do Gaz, e as da Viação, e muitas mais...

--uma miseria, tudo!...

--elle, que estava de dentro é que sabia o que por lá ia, tudo pôdre, affiançava-o.--

As torradas, os bolos, os biscoutos iam desapparecendo, as chavenas fumegavam na desconsolação vasia de porcellana quente.

--Se tomavam mais chá--perguntava Ermelinda.

--nada, nada--dizia a D. Clementina--agora cada mocho a seu souto; vão sendo horinhas...

O commendador puchava pelo seu chronometro de setenta libras

--onze horas, minha senhora...

--credo, muito nos demoramos hoje.

E cobriam os agasalhos, n'um conforto macio, dizendo-se adeus. A D. Clementina e o commendador eram os primeiros a sahir, depois o Alberto despedia-se ceremonioso para com o Jorge, volvendo o olhar d'uma tristeza saudosa para Ermelinda, que promettia, por leves signaes trocados, fallar da janella na noite seguinte, emquanto o pae estivesse no Club. A D. Gabriella era a ultima, e dava sempre um beijo na Ermelinda, chamando-lhe--a sua filha--e um _shake-hands_ ao pae, d'uma expressão significativa, forte como uma velha esperança. Depois a Ermelinda dava as--boas noutes ao papá--que ficava ainda a lêr o «Commercio» n'uma tranquilidade pacata, de chinellas bordadas a tapete.

Mas não eram essas as noites em que mais se expandia, em candido voejar, a imaginação ardente dos namorados. A companhia era sempre um obstaculo, um _non plus ultra_ á sua phantasia sonhadora, á idealidade rutilante das suas imagens de prazer.

--Que aborrecimento ter de aturar a velha historia do Totó, contada pela D. Clementina, e a phonetica de sabiá do commendador e os vv, silvados da D. Gabriella.--

--Ah, como era bom estarem elles sós os tres em volta da _jardinière_, o Jorge lendo o Commercio, interrompendo-se apenas para narrar um caso--que podia ser fatal--e o Alberto folheando os albuns, sentindo descer sobre si a respiração suave de Ermelinda, occulta na meia sombra do _abat-jour_, trabalhando silenciosamente no seu bordado.

--ou então, quando Ermelinda se sentava ao piano, tocando uma musica triste, entornando umas melodias melancholicas por sobre a sua alma de _crevè_, dando-lhe umas sensações deliciosas que o amorneciam--

--e depois que momentos felizes quando o Jorge por um motivo qualquer tinha de se ausentar da sala, ficando sós, os dous, na plenitude livre do seu amor, que irrompia, como um riso torrentuoso, n'uma caudal indomita de beijos...

--Oh, Alberto, Alberto, que fazes!...

--perdoa-me, é uma loucura, mas eu amo-te, e soffro... soffro d'este amor--e ajoelhava-se, n'uma supplica humilde, urgente, que a dominava, tornando-a tremula...

Mas o Jorge vinha, e a sua presença, como um _douche_ gelado por cima d'aquelle incendio, acalmava-os, fazendo-os retomar atrapalhadamente os objectos em que se entretinham antes d'elle sahir.

Sob estas fustigações incitantes a força psychica accumulava-se, polarisando-se reciprocamente n'um magnetismo mysterioso, que os attrahia um para o outro.

--Só a morte nos separará--diziam dominados ainda pela excitação recebida, sob a impressão candente d'um beijo d'amor, d'uma emoção fortemente sentida. Essa força latente, que se accumulava, podendo explosir com uma violencia vulcanica, reclamava o casamento, a união reciproca, como uma valvula de segurança, por onde podesse respirar a paixão, amortecendo-se na atmosphera pacifica da vida vulgar, em commum.

Conheciam-se pouco, mas... que importava!... amar-se-hiam muito... o conhecimento viria depois... havia apenas um mez que Alberto tinha entrada em casa; mas

--havia seis mezes que o namorava--dizia Ermelinda--e o coração não a podia illudir... não... era o seu verdadeiro amor aquelle...--

E fluctuavam-lhe vagamente, n'uma indecisão esvahecida, as reminiscencias dos seus outros namorados;

--Uns pulhas, a final!... E depois eu era creança! tolices...--

E tratou-se do casamento. O Alberto tinha sobre tudo um grande interesse em apressar esse enlace. Dizia ao Jorge:

--que estava só, que desejava conhecer a verdadeira felicidade...

--a que se encontra unicamente no lar domestico--ponderava o director do Banco.--

--justamente, aquella que só póde vir dos carinhos affectuosos da familia--concordava...

E lá de si para si pensava:

--que era preciso effectuar a cousa, emquanto durava o dinheiro da _batota_, emquanto elle estava com a _leiteira_, a sorte que o protegia nas noites do Porto, e nos dias de roleta, na Povoa... podia vir o azar e lá ia tudo, com os diabos...--

E de vez em quando affectando alguma difficuldade em collocar algum capital, aconselhava-se com o Jorge, interrogando-o

--de como se desfaria d'umas propriedadesitas na provincia, se seria melhor conserval-as--e entregava-lhe algumas notas de cem, duzentos mil réis, que dizia provirem d'uns pagamentos de fóros, havia pouco recebidos.--

O Jorge sentia vontade de o abraçar.

--Um genro magnifico--pensava--e diziam por ahi que era um estroina, um jogador, um bebado; a gente quebra, rapaziadas!...--

E foi elle o primeiro a ceder ás instantes solicitações de Alberto, preparando tudo, aplanando todos os pequenos obstaculos, comprando uma mobilia nova para o quarto dos noivos, e outra para a sala de visitas.

--Agradecia-lhe ainda a delicadeza de o não quererem affastar, de viverem juntos; a separação, a deslocação brusca dos seus habitos matal-o-ia, tinha d'isso a convicção.--

Havia apenas em casa uma pessoa que não sympathisava com o Alberto; era a Joaquina. Um instincto puramente animal a revoltava contra aquella peralta,--que viria pôr a casa n'uma roda viva; e depois embirrava-lhe com o _focinho_,

--seria muito bom, seria, mas á missa d'ella é que elle não ia...--

E ás vezes, das suas meditações, ao engommar as brancas saias de Ermelinda, resaltava uma queixa, um repellão de revolta contra tudo aquillo.

--Boa, não que se a cousa não fosse direita ella _raspava-se_, por ali era o caminho--

e dilatava as bochechas, n'um movimento de folle, soprando ao ferro de brunir

--amizade á menina, como o outro que diz, tinha, lá isso tinha, a gente a viver com ella ha quinze annos, erro fôra... mas adeus, que se aguentem... e hão-de-me sentir a falta, não que outra Joaquina não lhes vem cá tão cedo...--

Enchia-se d'uma vaidade esbofada, do amor proprio da sua utilidade affirmada todos os instantes, na cosinha, no engommar, no arranjo e limpeza dos moveis.

--Boa--continuava--é vêr as criadas que ha hoje por ahi; cada qual faz o seu serviço e disse... eu sou aqui uma moura de trabalho... adeus, tambem... o trabalho não custa, quando a gente tem saude, graças a Deus... e depois se eu quizer sahir... uih!... casas não me faltam... são assim...--e aprumava os dedos, n'uma accumulação collectiva, que indicava uma forte abundancia numerica...

--mas, lá, o tal senhor, não lhe engraçava com os bigodes... ainda se fôra o commendador... aquillo sim, que era um regalo de homem e pezava, bem se via nos brilhantes que elle trazia na camisa... mas estas meninas de hoje só querem bonifrates... e elle então que andava babadinho por ella, isso conhecia-o ella... oh, se conhecia...--

E a Joaquina, evocando umas cantigas do seu Minho, cantarolava, continuando a pôr nas saias uma brancura luzente de stearina.

Tinha então os seus trinta e cinco annos talvez; viera para casa do Jorge com doze annos apenas para ser a criada da menina e fôra crescendo, tornando-se prestavel, amorosa para com todos, muito serviçal; tinha sobre tudo uma amizade animal por Ermelinda, a sua menina, que tantas vezes trouxera ao collo, com quem tantas vezes brincara... A familia do Jorge era a sua familia, e principalmente, depois que a senhora morrera, a Joaquina tomara um certo predominio na casa, o predominio da utilidade, do prestimo positivo, da sciencia pratica das cousas. E foram-lhe assim passando, n'aquelle deslisar monotonamente suave, os dias formosos da sua mocidade; chegara a ter um namoro, dous até, o primeiro com um rapaz marceneiro, que morrera no hospital, o segundo com um policia, que representava o papel de Falstaff, no céo da sua innocencia de bicho de cosinha... Mas tudo isso acabara, esvaecera-se lentamente, como um arroyo de verão que sécca, deixando umas areias fulvas na sua passagem; e a Joaquina um poucochinho gorda, aceiada, d'um loiro branco dos temperamentos lymphaticos, espapava-se agora n'aquella tranquilidade da familia, contente com a sua sorte, sem as revoltas instinctivas do servo. A molleza apathica do seu temperamento adormentara-lhe as imposições estimulantes da carne; e laboriosa como uma formiga, entregue sempre á tarefa assidua do trabalho, esquecia-se que resvalava pouco a pouco n'esse plano inclinado da vida da mulher, em que as brancas matizam a cabeça e as rugas se aninham na face, desfeiando-a, com as garatujas d'uma tatuagem a carvão. Mas aos Domingos, nos dias de ocio, em que o corpo se sentia resfolegado das canceiras do trabalho, e o jantar era um poucochinho mais copioso, com uns estimulos de acepipes apimentados, a Joaquina experimentava umas mordicações acirrantes do instincto e deitava-se na cama, extasiando-se na brancura polposa dos seus seios e suspirando, n'uma recordação entre odiosa e doce pelo seu segundo namoro, o bravo agente da ordem, o policia 45.

Mas aquillo passava, como uma ligeira effervescencia e o trabalho adormentava de novo o tumulto provocado d'aquella natureza apathica, que continuava tranquillamente na curva suave da sua existencia.

VII

Na rua de Welesley, a tia Magdalena acabava de frigir a terceira certã de iscas de bacalhau, uma massa d'um amarello canario, com fragmentos retalhados de ovo batido,--que ninguem sabia preparar com tanta limpeza e com tanto _paladar_--dizia ella. O seu corpo baleiforme, d'uma gordura toucinhosa, curvando-se para pôr o avental, enodoado de manchas lusidias, levantou-se de subito, quando a Annita lhe entrou na cosinha, um aspecto pallido, enfermiço, d'umas rosetas carmezim ao meio da face, e uma tossesinha secca, muito frequente.

--Dá licença, tia Magdalena.

--entra rapariga, já não ha quem te veja.

A Annita ia a responder, mas a tosse interrompeu-a, um accesso brusco, que ella procurava abafar, collocando um lenço sobre a bocca.