Chapter 3
E no seu rosto adormecido divisava-se um limpido sorrir, de doce voluptuosidade, como se a alma lhe irradiara nas sensações tépidas d'aquelle sonhar delicioso. Mas logo após esta serenidade tranquilla e suave, em que talvez a sua imaginação voasse para esse periodo ditoso e perfumado da lua de mel, em que teria sempre junto de si o seu maridinho, muito carinhoso e muito meigo, o periodo dos jantarzinhos frugaes e delicados, com flores na meza e alegrias no espirito, as linhas da physionomia contrahiram-se-lhe n'uma crispação dolorosa, e o sonho revestia uma feição diversa, em que a amargura vinha como uma flor envenenada, empeçonhar os dias de ventura;
--era ainda aquelle o Alberto que ella amava, mas desleixado, vadio, ébrio; tinha grosserias insupportaveis, ferocidades de despota--
--e via-se triste, chorando muito, sem um consolo, sem um carinho que a alentasse...--era horroroso--estava diante de si uma galeria subterranea, escura, um abysmo de sombras...
--não, não queria caminhar, tinha medo...--mas elle, rindo, dera-lhe um impulso brutal, fizera-a entrar; um caminho escabroso, cheio de asperesas, silvados rodeando-a por todos os lados... cada passo custava-lhe muitas lagrimas... e o Alberto ria, ria, estupidamente, como um idiota embriagado... Um anjo se approximou d'ella; tinha o perfil do commendador Faria, com os seus oculos d'ouro, e as mãos a despedirem luz como as dos illuminados celestes; mas a luz sahia-lhe da base dos dedos, do logar dos anneis; e tomou-a nos braços, sentia-se voar, muito cheia de doce gratidão, quasi esquecida, quando uma creança se lhe prendeu aos vestidos, parecendo reprehendel-a d'aquelle vôo egoista, olhando-a com a limpidez casta d'uns grandes olhos pretos;... mas o anjo--commendador dominava-a, arrastando-a sempre, perguntando-lhe n'um adociado brazileiro:
--se a sinhasinha não voava,--que morreria se parasse, lá estava o snr. Alberto a rir-se d'ella--
e--sim, lá estava!--olhou para traz, uma enorme cadeia a prendia a elle, e uns policias passavam então, empurrando-a, batendo-lhe brutalmente.
--Queria fugir, fugir: era horroroso!»
Despertou então. Um suor frio lhe humedecia a testa; a cabeça doia-lhe um pouco, sentia-se fatigada. A luz da lampada esbatia-se moribunda nos primeiros alvores da manhã que vinham entrando pelas fendas da janella; ouviu o gallo cantar no quintal e logo depois uma voz arrastada, n'uma melopeia monotona, bradando do fundo da escala:
--Leiteira!--
A Joaquina desceu; ouvia-se um murmurio indistincto de vozes feminis, e em seguida o estrondear da porta que se fechava.
N'aquelle dia andou toda alvoroçada, nervosa, muito inquieta. Olhava muitas vezes o relogio, uma pesada machina de nogueira, a que o Jorge todos os sabbados dava corda, com a phrase rythmica:
--Tens de comer para oito dias.--
Parecia-lhe que os seus largos ponteiros de metal se moviam com uma lentidão desesperadora. Teve vontade de o adiantar--mas era uma tolice--pensou.
Sentou-se a trabalhar para ver se distrahia. Descobriu no bastidor um bordado delicado, a matiz, um ramo de rosas, sobre que vinha poisar uma borboleta. A mão porém não lhe assentava, as sedas sahiam frequentemente da agulha, o desenho errava.
--Ora! não estava para aquillo.--
Levantou-se, principiou a ler; era «Agulha em palheiro» de Camillo Castello Branco; interessava-se muito por aquelle sympathico filho do sapateiro, o heroe do romance, e sentiu deslisar umas lagrimas furtivas ao ver a formosa Paulina, uma doce creação do romancista, tão soffredora e tão amante.
Tocaram a campainha.
--Quem seria?--disse pousando rapidamente o livro e pondo-se diante do espelho, para anediar o penteado.
--Se fosse visita de ceremonia! que massada.--
Mas a Joaquina veio dizer:--que estava ali a snr.ª D. Amelinha Bastos, aquella que tinha casado.--
--E vem só?--
--Vem, minha senhora.--
--Ah! que mandasse entrar para a sala de visitas, que se aviasse.--
--Não te encommodes, não te encommodes, menina, eu não sou de ceremonias, venho mesmo para a tua sala de trabalho,--disse a Bastinhos entrando estouvadinhamente, chilreando como um passaro alegre.
Beijaram-se muito,--que não havia quem a visse, devia estar muito zangada, se era cousa que se fizesse.--
--Ai, filha, tenho tido tanto que fazer.--
--Tira o chapéu; espera, eu o tiro,--
e com um geito feminil, delicado, levantou-lh'o de sobre o penteado, emquanto a Amelinha, quieta como uma creança que se enfeita, esperava n'uma attitude passiva.
A Bastinhos principiou logo a fallar, tinha uma grande verbosidade, muita volubilidade nos pensamentos, de quem tem muito a descrever, mas que o faz sem methodo.
--A modista, os passeios, o theatro, se não sabia do ultimo escandalo da mulher do commendador Bernardo, que fôra uma vergonha, que o marido ia requerer o divorcio.--
--Estou admirada!--dizia-lhe Ermelinda.
--É o que te digo, menina, e então com quem, vê se adivinhas?--
--Não, que não adivinhava.--
--Com o Alberto, filha, com o Alberto!--e desatou n'uma gargalhada crystalina, debruçando-se sobre o bordado a matiz, muito curiosa.
Ermelinda sentiu as pernas tremerem-lhe; a sua physionomia invadiu-se rapida d'uma pallidez pronunciada; o seu desejo seria ter n'aquelle momento uma explosão de colera, de lagrimas; mas a Amelinha Bastos estava ali e a sua presença suffocava-a, como uma mascara que nos affogueia o rosto.
--Se queria tomar alguma cousa--perguntou-lhe--tinha-se esquecido.--
--Nada, nada!--
--Vê lá, menina?--
--Tens tu por ahi Xerez? é do vinho que mais gosto, meu marido aprecia-o muito!--
--Que ia buscar-lh'o n'um instante, que a desculpasse por ter de ficar só.--
--Á vontade, filha, á vontade--e pegou no romance que Ermelinda estava lendo, em quanto esta se retirava a buscar-lhe o Xerez.
D'ali por momentos Ermelinda entrou com uma pequena salva de prata, onde vinha uma garrafa de crystal e dous calices; a Amelinha muito prompta, com grande espalhafato, foi ajudal-a. Ella mesma encheu os calices e tomando um, disse com modo desenvolto:
--Á tua felicidade, Ermelinda.--
--Obrigada, menina.--
Mas os seus olhos turvaram-se d'umas lagrimas, depressa occultas n'um lenço em que fingiu assoar-se; dentro mesmo ella tinha chorado, agradecendo no seu intimo á Amelinha aquelle desejo do Xerez, que lhe dera uns instantes de isolamento.
A Amelinha, sentada na _chaise-longue_, saboreava o vinho em pequenos sorvos, fazendo covinhas nas faces. Depois, como tomada d'uma lembrança repentina:
--E o teu namoro, como vai, menina?--
--Oh, filha, se queres que te diga...--
--Dize lá, dize lá, estou muito curiosa de saber--e curvou-se um pouco, n'uma _pose_ confidencial, de quem escutaria com ávido interesse.
--Andamos assim, meios cá, meios lá--respondeu Ermelinda encolhendo os hombros, franzindo o labio,--se queres que te diga, menina, já me importei com elle, aquillo foi uma _phantasia_, uma brincadeira que pouco durou! Para mim já não ha _illusões_.--
--Pois tinham-me asseverado que te casavas.--
--Credo, nem se pensou em tal!--Mas como desejasse evitar a continuação da conversa:
--E tu, como te dás com o Guilherme?--
--Bem, filha, magnificamente!--
--Tu é que foste feliz--disse Ermelinda tomando a mão, que a Amelinha abandonou, n'uma _nonchalance_ de bébé, gosando com aquelle aperto que lhe lembrava uma caricia do seu maridinho.
--Por emquanto não tenho rasão de queixa; o Guilherme não vê outra cousa diante dos olhos; até, se queres que te diga, ás vezes chega-me a aborrecer com tantas pieguices.--
--Ingrata...--
--Ingrata, não! Mas tu o sabes... sou assim um poucochinho estroina... não gosto de homens tão serios e tão pêccos.--
--Olha, menina, é n'essas pequenas coisas que consiste a felicidade.--
--Boa! ahi queres tu prégar-me um sermão de moral! oh, menina, enche-me este calice; mas ainda agora reparo que tens lagrimas nos olhos!
--Lagrimas, eu! estás doida!--
--Coitadinha da pequerrucha, que quer illudir uma mulher casada--disse arrastando a voz n'um chilrear cantadinho--e batendo-lhe na face palmadinhas amigaveis, animando-a, pedindo-lhe a confidencia d'aquelle chôro.
--Que não era nada; ás vezes ficava assim nervosa, tinha d'aquellas extravagancias.--
--Nervosa, tambem ella era muito! o dr. Arnaldo Braga dizia que era todo o seu mal--e a Amelinha principiou a explicar, com grande volubilidade, as impressões que sentia ouvindo musica, ao ver no theatro um drama triste, ou então quando o seu gato preto, em certos dias, se lhe atravessava no caminho e ella, sem querer, lhe pisava a cauda e ouvia o miar queixoso do animal.
--Muito nervosa, muito! este anno vou até para a Foz e tomo um grande numero de banhos; já combinei com o Guilherme.--
--És feliz, menina, és feliz!--
--Assim!...--fez Amelinha contrahindo o labio com certo desdem! e curvando-se disse-lhe ao ouvido uns segredinhos quentes, que fizeram enrubescer Ermelinda.
--Ora!--respondeu esta--póde lá ser isso!--
--É o que te digo, filha!--e a Amelinha, pondo-se em pé, principiou a passear, cantarolando a canção do Rigolleto:
«La donna é mobile»
N'este momento o velho relogio de Jorge bateu as duas horas.
--Ai! tão tarde! Credo! Adeus, menina, vou-me embora!--
--Já?--
--Já; ainda tenho de ir ao Pinheiro, a Cedofeita. Preciso umas guarnições para o meu vestido d'estação.--
--N'esse caso não te demoro!--e Ermelinda, collocando-lhe de novo o chapeu, fazia-a prometter que viria mais vezes, para passarem um bocadinho juntas.
--Estou ás vezes tão só!--
--Pois hei-de vir, filha, hei-de vir! e pondo-lhe na face uns beijos sonoramente cantados, a Amelinha, affogueada pelas irradiações do Xerez, muito alegre como um passaro na Primavera, desceu o véo de tulle branco sobre o rosto e sahiu, batendo com grande estrondo a porta da campainha.
--Sempre está uma douda!--disse Ermelinda vendo-a sahir!--e após um silencio de reflexão:
--E adeus, são estas as que são mais felizes!
IV
Ainda n'aquella noute o Alberto deixára de apparecer. No dia immediato era Domingo.
Os moveis quietos, n'uma ordem respeitavel, com uma seriedade burocratica, esperavam as _visitas_; tudo arrumado, polido, com grandes vaidades de limpesa. Tinham-se renovado as flores das jarras, de vidro fosco, com uns ramos de rosas pintadas no seu ventre bojudo; nem uma cadeira fóra do seu logar, nem um jornal sobre a _jardiniere_, toda aceiada com o seu panno de largas bordaduras, nem uma musica aberta sobre o piano, nem uma planta que se não houvesse regado, nem um album que não estivesse cuidadosamente fechado; uma falta emfim d'essa desordem adoravel, immensamente artistica, que prende o espirito ao ambiente salutar e alegre da sala de trabalho.
Dentro, nos quartos, a contrastar com essa monotonia aceiada para os que vem de fóra, sem descalçar as luvas, analysar os nossos albuns e criticar os nossos moveis, uma desordem perturbadora, preguiçosa, reles, cortada pelo cheiro ammoniacal de roupa suja, espalhada no chão, sobre as cadeiras, n'um monte desordenado. A commoda d'Ermelinda, com as suas gavetas abertas, ostentava brancuras de saias, de penteadores, de camisinhas, e umas pequenas caixas de cartão, com estampas lithografadas, d'onde sahiam perfumes e folhas seccas, aromaticas. O cofresinho das joias abria-se indiscreto patenteando objectos d'ouro com finas perolas, brilhantes miudos, como olhares luminosos que pareciam espreitar da mollesa macia do setim azul.
Ermelinda toda opprimida no seu vestido de _foulard_ cinzento, a manga um pouco larga, tomou uma manilha estreita e com um vagar indolente, embevecendo-se na penugem negra do seu braço, enrolou-a, correndo-a por sobre a carne, ao arrepio, até onde pôde seguir o arco da pulseira. Depois, ao calçar as luvas, ais abafados lhe sahiam do peito, suspirosos, como se reflectissem ainda as vibrações d'aquella crise nervosa, porque a sua alma houvera passado nos dias ultimos.
Mas o Jorge, que passeava lentamente na sala, ainda com o palito ao canto da boca, esquecido, com a meditação suspensa de calculos financeiros, de cotações da Bolsa, o fato endomingado, a camisa branca sobre que assentava a gravata preta de setim, um pouco impaciente já:
--Então vens d'ahi hoje, menina?
--Já vou, papá, já vou.--
E mais apressada, olhando-se ao espelho uma vez ainda, pregando um novo alfinete no collo do vestido, Ermelinda fechou a porta do quarto, e voltando-se para dentro:
--Prompta.
--Já não era sem tempo! isto de mulheres!--
No portal Ermelinda fazia o apanhado, que rangia n'um _frou-frou_ de fazenda nova; emquanto a Joaquina de cima espreitava para os ver sahir, elles combinavam o passeio, consultavam-se sobre o caminho a seguir.
--Que era melhor ir primeiro á missa--dizia Ermelinda--e depois voltariam pelo jardim, ou iriam ao Palacio.
--Seria como ella dizia--concordava o Jorge.
E os dous, na plenitude vaidosa do luxo de Domingo, tomando apenas os passeios da rua, reverenciando as pessoas conhecidas, com um ar todo festival, de superioridade engrandecida, e de roupa lustrosa, seguiam para a Trindade, para a missa das onze. Homens á porta accumulavam-se vedando o caminho, e em frente, no atrio da Assembleia os dandys do Porto, fallando de cavallos e de jogo, ou contando anedoctas indecentes, estalavam grandes risadas que os faziam contorcer em posições ridiculas, funambulescas, dobrando-se, dando palmadinhas sobre as coxas.
O Alberto estava entre elles, e ao ver passar Ermelinda, toda comprimida no seu vestido, o seu bello olhar profundamente negro, a epiderme morena um pouco empallidecida, exhalando frescura, sentiu um desejo mordente de entrevistas nocturnas, de _têtes-à-têtes_ amorosos, chegados um do outro, a cintura enlaçada, as respirações confundindo-se.
E quando o Jorge passou, cortejando palacianamente os seus amigos, elle notou que Ermelinda, ao havel-o reconhecido, voltara o rosto desdenhosamente, sem que denotasse no olhar sequer uma interrogação, uma queixa, um desespero.
Os outros, que sabiam do namoro, perguntaram curiosamente:
--O que tinha havido, se as relações estavam cortadas?--e ao verem que o Alberto balbuciava, riram estrondosamente, beliscando-lhe o amor proprio.
Um mais intimo acercou-se d'elle:
--Se tinha cahido--perguntou.
--Deixa-me--respondeu bruscamente e partiu na direcção da Egreja, a badine agitada, n'uma convulsão de phrenesi.
--Bravissimo! Romeu feito Tartufo!...--e batiam as palmas, rindo da pilheria, muito contentes da sua imbecilidade enfatuada.
O padre sahia n'este momento da sachristia; um murmurio rumoroso se levantava entre a multidão que ajoelhava; as damas abriam os livros de missa, fazendo rugir estrepitosamente as saias engommadas, os _failles_ novos, emquanto os homens, na seriedade dos seus casacos pretos, amontoando-se a um lado, estendiam lenços brancos, como genuflexorios. Uma luz suave cahia das janellas do côro derramando tons sanguineos, de damascos vermelhos, sobre as senhoras que ficavam n'aquella direcção, emquanto uma penumbra doce envolvia todo o resto. Destacavam dos corredores familias retardatarias; as meninas estouvadinhas, adiante, acommodando-se em passos miudos, como as aves que poisam, fitavam os homens com uma curiosidade muito feminil e cochichavam, reconhecendo alguem.
Houve um prurido devoto quando principiou a missa; os labios moveram-se silenciosamente; os olhos cravaram-se nos livros; as beatas faziam deslisar com avidez as contas untuosas; mas pouco a pouco o narcotismo das coisas monotonas ia-se derramando, causando tedios; bocejos disfarçados escondiam-se por detraz dos lenços brancos e os homens, com uma obstinação sensual, de namoradores vadios, apreciavam os melhores bocados, faziam _vistas_. _Crevés_ de risca ao meio, muito aromatisados de _patchouli_, as luvas a estalar, cofiavam os pequeninos bigodes, fazendo _signaes_; e no fundo escuro das copas dos chapeus, cartas de namoro destacavam, impondo-se ás burguesinhas sentimentaes, que esperavam o aperto da sahida, no portico.
A Ermelinda estava proxima da Adelaide Mendes; o Alberto ficou em frente com o Juca, o sobrinho do brazileiro. Confidenciavam.
--E então a mulher do commendador, conta-me essa historia, menino?--
--Nem lhe falasse em tal! Ridiculo... simplesmente!
--Ah, ah! E o marido?
--Que era o mais santo dos maridos! Uma pomba!... tinha ido com ella para o Bussaco esconder as maguas na verdura dos cedros!...
--Mas apanhou-te!...
--Shoking!... respondeu encolhendo os hombros.
E em quanto o Juca o asseteava de perguntas, muito minucioso, querendo saber tudo, o Alberto olhava devoradoramente Ermelinda, torcendo o bigode, mordendo-o, franzindo o sobre-olho, n'uma attitude de irritação concentrada. Mas ella, muito seria, muito devota, poisando os bellos olhos no livro de missa, fingia não vel-o, entregando-se toda ao amor divino, e gosando com uma beatitude recompensada, a impaciencia que percebia manifestar-se n'elle.
A Adelaide Mendes segredou-lhe ao ouvido:
--Que o Alberto estava com o Juca, se já o tinha visto...
--Que sim, era-lhe indifferente.
--Então andaes _arrufados_?
--Não, mas... tinham-lhe passado os enthusiasmos.
--E está de luto! quem lhe morreu? sabes?
--Não, que não sabia!--e vesgamente, no estrabismo de quem quer ver sem que os outros dêem por isso, a filha do Jorge observava o Alberto, pondo-se a si mesma o ponto de interrogação d'aquelle vestir lutuoso.
--Se seria algum parente da provincia--pensava--e que elle tivesse de partir sem a poder avisar!... ah, sempre era então desculpavel--e enternecia, amollecendo a asperesa do olhar, quebrando-a no vago fluido dos olhos d'elle, que sentia poisar sobre todo o seu corpo, absorvendo-a.
Mas a campainha do coadjutor principiava a vibrar; corpos se curvaram n'um mysticismo reverente e ouviam-se os peitos echoar no tympanismo das contricções. O padre elevava serenamente a hostia, devagar com uma grande lentidão ceremoniosa! E depois, um silencio demorado, até que a campainha vibrou de novo mais forte, com sonoridade, como que dispensando as attenções; lenços se recolhiam no escuro das algibeiras e os homens tomavam uma _pose_ mais elegante, o tronco direito. A benção desceu e todos, recurvando-se um pouco, se persignaram rapidamente, com desdem, voltando-se, comprimentando ceremoniosos, com a cabeça. O povo começava a evacuar a egreja, n'um ruido de tropel, confusamente, de quem quer sahir primeiro. E as senhoras mais atraz, sorrindo, beijavam-se, fechando os livros. Os conhecidos vinham, comprimentavam.
--Suffocava-se um pouco,--
e lá fóra um sol alegre, primaveral, que brincava atravez do reposteiro, penetrando no templo, na instantaneidade da luz, quando alguem sahia. Grupos se formavam. A Adelaide Mendes, a Ermelinda, a D. Carola, e envolvendo-as como n'uma circumferencia de respeito, o Juca de chapeu na mão abanando-se, com a desenvoltura d'um frequentador do Circo, o Jorge todo grave, um sorriso a escoar-se dos labios escanhoados para as suissas grisalhas, nitidamente penteadas, e o Alberto, n'uma _pose_ melancholica, o chapeu sobre o quadril, todo de preto, com uns grandes ares romanticos e tristes.
O Jorge por uma polidez excessiva perguntou:
--Se fôra alguem de sua familia, que havia fallecido?--
--sua tia, D. Joanna de Atayde, lá na provincia, uma boa velha que quasi lhe fôra mãe e que até na morte o considera filho!
--deixando-te herdeiro, ein?--interveio o Juca:--
--que sim, que deixara, mas que sobre tudo lhe sentia a falta, um coração de santa!...
--os meus sentimentos--comprimentou gravemente o Jorge.
--pois olha menino, eu dou-te os meus parabens; e de mais a mais sendo ella velha!...--
Poz nos labios um sorriso amargurado como unica resposta. As senhoras tinham ouvido, e ellas tambem davam os seus pezames, tomavam parte na sua dôr;
--que eram consolações amigas, suaves como um balsamo--respondeu.
E quando Ermelinda lhe apertou a mão, foi já com uma compassividade meiga no olhar,--perdoando, sabendo em fim o motivo.--
Foram sahindo. Iam todos para a Cordoaria ouvir musica,--era a banda do dezoito que tocava, tinha visto isso no «Commercio»--dizia o Jorge--
--e o snr. Alberto se recolhia á provincia,--perguntava.--
--que não, ou talvez o fizesse temporariamente!... Venderia as propriedades e metteria o dinheiro em qualquer banco; além d'isso era preciso pagar as dividas de rapaz, tornar-se em fim homem sério!
--Tu!--desatou a rir o Juca.
--E porque não--observou o Jorge n'um tom amigavel de reprehensão--ainda está verde este diabrete--indicou sorrindo, apontando-o ao Alberto, com o grosso pollegar da sua luva escura--que fazia muito bem, denotava muito nobres sentimentos, todos tinham tido as suas rapaziadas, mas lá vinha um dia... em que se tomava juizo--aconselhava.--
--faria por tomal-o elle tambem!--respondeu sério, n'um tom accentuado, de novas resoluções emprehendidas.
E emquanto o Jorge se enchia por elle d'uma sympathia calculada, vendo-o, regenerado, vivendo na boa sociedade, elegante e fidalgo, e de resto, namorando a sua Ermelinda, que poderia vir a ser sua esposa, o Alberto, num sorriso intimo, de bom comediante, acariciando o bigode:
--Estás cahido--meditava.
V
O commendador Faria vestia-se no seu gabinete do _Hotel_; tinha um grande apuro de si proprio, muito escanhoado, o cabello lusidio de pomada, a risca ao lado, as barbas muito penteadas, a camisa d'uma brancura anilada com ricos botões de brilhantes. Tirou do bolso um chronometro inglez, de setenta libras--dez horas ein, e se esquecia de almoçar!--
e vestindo o casaco, dando o nó da gravata, ageitando os oculos em frente do espelho, foi abrir a janella do quarto; mas recuou, teve um movimento instinctivo de retirada,
--que caiporismo de mulher, não largava um homem, parecia _Mineira_, ella, que grande massada--
alto, porém, sorrindo, comprimentou a D. Clementina do Rosario, fez oscillar a sua grossa cabeça com um bello ar de amabilidade, teve mesmo uma phrase galante para com a visinha, que todos os dias, n'um rigor chronometrico de vinte e quatro horas, o asseteava com a sua carnação copiosa e fresca, o collo alvo da brancura lactea das camellias, e um sulco escuro, que descia, n'uma curva insinuante, attrahindo o brazileiro, cuja janella um pouco superior lhe offerecia as vantagens d'uma contemplação a _vol d'oiseau_.
--Uma manhã muito fresca--dizia--appetecia um passeio pelo campo--
--elle então que precisava tomar seus banhos em Vizella.
--e quem o impedia, ella talvez para lá fosse tambem aquelle anno--
--mas tinha seus negocios, que não havia outro motivo, não...
--na idade d'elle...
--quarenta e cinco, D. Clementina, já cá estatavam quarenta e cinco--
--que era isso! e ninguem o dizia, tão bem conservado.--
Sorria-se.
Um trem passava levando as palavras no ruidoso estremecer dos seus movimentos; vendilhões apregoavam, e a D. Clementina, na impossibilidade de atirar amabilidades para a janella do commendador, enviava uns sorrisos pudicos, d'uma honestidade quarentona, como ainda sabiam fazel-os os seus labios de purpura desbotada. E depois, quando voltou uma intermittencia de silencio, que permittia a transmissão da voz, erguendo-se um pouco, n'uma flexão tetanica de collo, muito novedadeira:
--Então sabe que Ermelinda casa!
--não, não sabia, boatos talvez--
--qual historia; era verdade, podia ella affiançal-o; estivera lá em casa ainda hontem; o commendador é que apparecia poucas vezes agora..., e não fazia mau casamento... o Alberto herdara d'uma tia--
--pois não sabia, não sabia!...
e o commendador deixando cahir mollemente a sua affirmativa, sentia passar na sua memoria avivada, como n'um kaleidoscopo, em que as imagens se succedem, aquella _soirée_ de casa do Mendes, a sua infelicidade ao _sólo_, e seu enleio a dansar os Lanceiros, quando a Ermelinda um tanto _coquette_, envolvendo-o na doçura quente do seu olhar, exhalando aromas subtis, que embriagavam, lhe sorria acariciadora, mostrando a brancura dos seus dentes eguaes, e um collo decotado, suavemente trigueiro, onde poisava um formoso signal escuro.