Chapter 2
Pouco a pouco os convidados foram-se retirando. As senhoras sahiam muito embuçadas nas suas mantas de lã, aconchegando as capas sobre o pescoço, que o ar frio da rua espreitava com uma anciedade de bronchites.
Na atmosphera da sala um espesso ar condensado de gazes embaciava. As velas de stearina desciam ao nivel das aparadeiras e as heras tinham um verde pallido, que entristecia. O piano, como um grande monstro adormecido, mostrava os seus dentes de marfim, cançados de mastigar notas desafinadas.
O Mendes examinava todas as salas com um cuidado minucioso; sobretudo o quarto do Juca merecia-lhe dobrada attenção.
--Ás vezes, alguma ponta de charuto, um descuido qualquer, podia originar um incendio--dizia cheio de cautelosas prudencias.
A Adelaide no seu quarto despia os atavios da festa; o seu corpo alquebrado deixava-se lentamente cahir n'uma molleza do esgotamento.
Estava morta por tirar aquelle maldito penteado,--dizia--nunca mais se serviria d'uma tal cabelleireira; e o collete como a apertava!
Em baixo o Juca mettia-se na cama com um--Ah!--de satisfação, de quem termina uma tarefa; uma pontinha de alcool fazia-lhe pesar a cabeça; o somno veio logo n'uma caricia despotica, de obediencia cega, fazendo-lhe cahir das mãos um romance de Ponson, que elle tinha o habito de lêr, todas as noites, antes de adormecer.
O Mendes estava muito loquaz, desabotoava-se com uma sem-ceremonia deshonestamente familiar, passeando no quarto, olhando a Carola que se desfazia perante o toucador, mostrando os hombros nús, roliços, humedecidos por um suorsinho quente.
--Até que emfim!... respirava ruidoso, n'uma expiração forte, prolongada, dilatando as bochechas.
--Uma _soirée_ de truz, ein, Carola!
--Que sim--e atirava para o dorso a cabelleira farta, matisada de fios brancos, ennovelando-a na touca de noite, com uma elevação de braços esculpturaes, de axilas humidas, que punham desejos no cerebro um poucochinho quente do seu velho marido, do seu Mendes.
Entrava uma luz alvacenta pelos _stores_ da janella, e fóra ouvia-se o movimento murmurioso d'uma população que desperta. O canario começava a pipilar na gaiola, sentindo as livres aves gorgearem na frescura dos quintaes, e, na rua, os vendilhões ambulantes povoavam de sons estridentes o ar nebuloso da manhã primaveral.
II
Tinham decorrido quinze dias.
O namoro havia _pegado_, consolidara-se. Com uma certeza chronometrica o Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de Ermelinda.
Uma vidraça corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na cabeça, emmoldurando-se no fundo escuro do desvão da janella.
A visinhança reparara a principio.
--Havia _mouro_ na costa--diziam--mas pouco a pouco a tolerancia estabelecera-se, uma indifferença ordinaria, de coisa vulgar. A sua _badine_ que tanto prendera as attenções, pelas curvas hyperbolicas que traçava no ar, fazendo signaes, já não despertava interesse; o lenço branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das impressões amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria creado o bafio das secreções. O namoro tornara-se um facto consumado, ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.
A casa do Jorge tinha uma frontaria só; era como uma cellula engastada no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes vaporisações ammoniacaes. O Alberto, que não podia remediar esta inconveniente disposição, utilisava-a. Era d'ali, que elle, occulto pela sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.
A noite adiantava-se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha, n'uma locomoção arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos ruminantes na solidão dos campos. Clareações de gaz punham sombras indecisas, formando na rua projecções phantasticas. Uma faxa de ceu, limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.
Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam-se vozes disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria-se alguma janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma contravenção do codigo municipal.
O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu _pardessus_, a garganta agasalhada nas dobras quentes de um cache-nez; mansamente, como uma cobra que deslisa, elle introduzia-se no recanto proximo e accendia um charuto.
Era o signal.
Uma vidraça rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda, muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabeça de fóra da janella, investigando no espaço os raros vultos que passavam, como se receiasse compromissos.
Cumprimentavam-se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeçava para o alto umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.
--Que não acreditava, que era uma impostura.
--E porque não?
--Os homens! quem podia fiar-se n'elles! havia por ventura nada mais falso?--dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda, em coisas de namoro.
--Ah! que elle não era assim!--protestava--que sentia por ella um immenso amor, infinito, como só uma vez se conhece na vida.
--E mais quem!--sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a vaidadesinha de conquistador.
--Podia jurar-lh'o--affirmava--por tudo o que houvesse de mais sagrado aos seus olhos, pelo seu coração, pela sua sorte, pelo proprio Deus!
Ermelinda calava-se. N'estes momentos parecia-lhe que, se fallasse, profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor; concentrava-se sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adoração mystica e sentia-se invadir d'umas sensações deliciosas, que a enterneciam.
--Não! elle não podia mentir--pensava--como era feliz em ser assim amada!
Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho tépido d'essencias perfumadas. Se interrogasse então a voz occulta do seu espirito, não poderia dar uma definição de si propria.
--Ah! se podesse voar com elle para um ceu distante, para o desconhecido!... que felizes que seriam!...
Deixava-se fluctuar na atmosphera quente da _rêverie_, como as grandes aves serenas e mansas, que dilatam as azas, pairando, sobre as alturas do azul. Mas elle em baixo, quebrando a cinza branca do charuto, interrompia:
--Em que pensava?
--Ah! nem ella poderia dizer-lh'o.
--Que era talvez em outro; notava n'ella certa distracção, bem se via, uns modos... tão poucas palavras!...
--Que era só n'elle--protestava convencida.
--Ah! era então muito feliz.
--Muito, muito?--perguntava sorrindo com uma certeza de que havia melhor.
--Muito, muito, não! para isso só uma união eterna, indissoluvel, que os tivesse sempre juntos, unidinhos, como um casal de pombos enamorados.
Ermelinda sentia um rubor honesto, de felicidades nubentes, invadir-lhe a face.
--Ah! que a Amelinha Bastos essa é que fôra feliz! Um bello casamento! E então só o vestido do noivado, que dinheirão!... Mas nem por isso estava bonita, não lhe parecia?
--Que sim--respondia desdenhoso.
--E sempre teve um dia mais desagradavel: chuva, sempre chuva! era insopportavel; apesar do trem, tinha-se toda salpicado de lama! O seu casamento havia de ser n'um dia alegre de sol, muito sol; não achava melhor?--
--De certo! elle todavia julgava indifferentes essas cousas! qualquer dia era bom!
Calavam-se; um novo silencio cahia, como as pausas lentas d'um trecho de musica.
A patrulha voltava do seu gyro; e ao ver ainda os namorados, observações baixas, eivadas de um philosophismo de caserna se suscitavam.
Que o _gajo_ ainda estava de sentinella, não tardava em apanhar uma queixa de peito.
--Deixasse lá--respondia o camarada--comiam-lhe bem e bebiam-lhe! não eram como a gente, uns desgraçados! um rancho sem _sustancia_, e mortos de serviço.
Ermelinda fallava; mas um carreiro, em articulações gutturaes, d'uma linguagem primitiva e grosseira, praguejando contra os bois, não deixava ouvir. O carro affastava-se produzindo sons estridentes nos parallelipipedos.
--Para isto não olhava a policia--murmurava o Alberto, indignado, agitando a _badine._
--Que o tempo parecia querer mudar--dizia ella--estava-se a pôr frio, nuvens caminhavam escurecendo o céo; uma estação tão inconstante!
--Exactamente, como as mulheres!--arguciava.
--Não, isso, não! Elles sim! não havia hoje quem encontrasse um coração leal, todo occupado na imagem d'uma só mulher!
--Nem o meu?
--Eu sei! Os homens são tão voluveis!
--Ah, que ella o não amava! do contrario não fallaria assim!--dizia todo offendido, n'uma voz rapida, d'um tremulo nervoso.
--Se o não amava! nem dissesse tal! era uma blasphemia, daria por elle a sua felicidade, a sua vida.
E quasi se sentia arrependida de lhe ter chamado voluvel; uma grande tristesa subia ao seu espirito, fazendo-lhe experimentar alguma coisa de commovente, que lhe marejava d'agua os olhos limpidos e bellos. N'aquelle instante desejaria cortar por todas as conveniencias, saltar d'aquella janella, aproximar dos seus labios a fronte pallida do seu amante e dizer-lhe n'um impeto d'amor:
--Amo-te, Alberto, amo-te muito.
Depois ajoelhar-se n'uma supplica muda, para que elle a levantasse, doido d'amor, muito carinhoso e meigo, como já tinha visto fazer no theatro ao actor Santos, quando se representava o Antony.
Mas quando ella se arroubava n'estes pensamentos languidos, enternecida e melancolica, um vulto apparecia ao fundo da rua, fazendo estalar uns passinhos miudos, rapidos, de quem tem pressa de chegar.
--O pae, o pae, adeus!--despedia-se atrapalhadamente, fechando a janella com o menor barulho possivel.
--Que raio!--regougava o Alberto n'um plebeismo grosseiro de indignação irada, como se desejasse fulminar com a vehemencia da sua apostrophe o cidadão honesto, que recolhia tranquillamente do seu whist, do Club. E desalojando-se da posição, seguia rapido na direcção opposta, embuçando-se mais, com as mãos nos bolsos, repuchando o casaco sobre os rins, com arrepios de frio. Voltava-se obliquamente para ver entrar o Jorge e depois retrocedia, lentamente, devagar, como um vadio incorrigivel.
Olhava; vultos perpassavam no fundo luminoso da vidraça descida.
--Devem ir tomar o chá--pensava--emquanto elle, exposto ao relento da noite, á neblina, á intemperie, tinha de atravessar quasi meia cidade, um _estirão_, para se metter n'uma pocilga nojenta, miseravel, que o revoltava.
Caminhava lentamente, com mau humor; as linhas do seu rosto vincavam-se n'uma irritabilidade surda, espelhando o lodo da sua alma.
Atravessou ruas desertas, praças onde apenas as grandes arvores se levantavam, como espectros collossaes; ás vezes uma guitarrada apparecia, cantando trovas fadistas, acanalhadas; mulheres que estendiam a mão e a honra á philantropia que voltava das ceias, occultavam-se na sombra, como vermes que se arrastam.
Alberto desceu os Clerigos, atravessou a praça de D. Pedro, subiu a rua de Santo Antonio.
Morava em S. Victor.
Ao chegar á Batalha parou para accender um charuto. Dous vultos que vinham na sua direcção gesticulavam, fallando alto.
--Com que então _depennado_!
--De todo!... se me emprestasses uma libra mais, uma _coroa_ que fosse!... estou com palpite! Era no rei de espadas, acredita-me.
--Deixa-te d'asneiras; não basta o que lá te ficou! outra vez tirarás a tua desforra!
Affastavam-se; palavras indistinctas, confusas, fluctuavam no espaço sonoro.
O Alberto pareceu meditar; as suas mãos revolviam com avidez os bolsos.
--Cinco tostões, que miseria, posso lá fazer figura!--disse com desalento.--Deu alguns passos mais, parou de novo, indeciso. A ideia do jogo, symbolisada n'aquelle _rei de espadas_, aferroava-lhe o cerebro, como uma vespa opportuna que se enxota debalde.
--Tambem pouco perco, vamos lá.
Resolveu-se.
Retrocedeu e entrou no Gremio. Jogadores infelizes sahiam; em cima ouvia-se um _brou-ha-ha_ ruidoso e tosses convulsas provocadas pelo fumo do tabaco.
A atmosphera espessa podia partir-se, asphixiava; no soalho os escarros collavam-se ás pontas de cigarros.
O Alberto entrou, sem se incommodar, como velho conhecimento.
O banqueiro apresentava n'aquella occasião um rei d'espadas.
--Jogo--disse rapido.
A sorte foi-lhe favoravel. Duas horas depois um monte d'ouro estava na sua frente. Os olhos irradiavam-lhe alegrias febris; nas faces tinha o calor rubro das congestões. Os amigos rodeiavam-o como a um semi-deus olympico.
Jogou a ultima parada, levantou-se; convidou os rapazes para uma ceia. Felicitações choviam e sorrisos felinos, de invejas abafadas, procuravam-o de todos os lados.
O sol banhava de luz a cidade, quando o Alberto, com os olhos baços, cambaleando, se mettia n'um trem e mandava bater para o _Central_.
III
A hora ia passando, Ermelinda começava a manifestar uma impacienciasinha.
--Já se vai demorando--pensava--e investigava com o olhar contrahido, os vultos que ao longe apresentavam com Alberto uma semelhança na estatura, no andar. Mudava de posição frequentemente, aconchegava-se para o canto da janella com o fim de apanhar uma porção de horisonte mais extensa.
A noite cahia e os empregados do gaz, n'um passo rapido, de tarefa imposta, accendiam os candieiros, que atiravam projecções luminosas sobre a calçada, e sobre as frontarias dos predios.
Começava a ser frequentado o armazem, lá ao fundo da rua; os transeuntes iam diminuindo, e os vendilhões, n'um grito rouco, fatigado, apregoavam ainda os ultimos productos do seu commercio. Um rodar surdo d'americanos serpenteava, e as luzes vermelhas, como olhos injectados, passavam rapidas, oscillando. Uma sombra caminhava n'um movimento circular, desapparecendo, á medida que o vulto se approximava da luz.
--Ah! d'esta vez era elle, conhecia-o no andar--e escondia-se, maliciosa, para o surprehender.
--Mas não--o sugeito continuava a caminhar indifferentemente, não attentando n'ella sequer.
--E esta!--dizia, n'uma voz tremente, nervosa, de desillusão provada.
Mas depois, reflectindo:
--Não ha que ver, não vem!--e possuia-se d'uma irritação surda contra tudo e contra todos; um _ferro_ que não podia bem explicar.--Parecia-lhe que os seus nervos tinham uma sensibilidade electrica; que era toda outra, inteiramente diversa.--
--Mas não tem explicação possivel!--murmurava.
Pensava em acalmar, em socegar; olhava distrahidamente as estrellas que fulguravam nas alturas, procurando n'uma _rêverie_ indolente e malandra, uma especie de quietação scismadora e contemplativa que a absorvesse.
--Mas não podia,--irritava-se mais, contrahiam-se-lhe n'uma crispação nervosa as linhas da physionomia e a sua vontade, o seu desejo, seria n'aquelle momento converter-se n'um vendaval violento, que assolasse, que devastasse tudo na sua passagem. Tinha intermittencias de paciencia, acalmava; o rosto espelhava resignações como a superficie d'um lago, onde não sopram ventos; mas lá dentro uma agitação surda roía, como um verme das madeiras no silencio dos quartos de dormir das velhas estalagens. Cançada de esperar, fechou a janella, com estrondo rapidamente.
--Canalha--murmurou enraivecida.
E passando pela Joaquina disse-lhe exaltada:
--Diga ao papá que hoje não esperei, doía-me a cabeça.
--Se queria um chá de cidreira.
--Tome-o Você--respondeu com asperesa, como uma nortada rija.
--Vai com a telha!--
Entrou no seu quarto, fechou a porta bruscamente.
A Joaquina ainda philosophava:
--bem o dizia ella, estava com a telha--e continuou a correr o ferro de brunir sobre uma camisa de homem.
Uma lampada de vidro fosco, suspensa n'um tripede de metal bronzeado, punha uma meia luz suave sobre o recinto, onde entrara Ermelinda.
Deixou-se cahir n'uma _chaise-longue_; os seus joelhos sobrepondo-se, n'um habito de quem costura, deixavam sahir da linha desordenada do vestido alvuras de saias e um pé elegante, n'um sapatinho de bico, enleado, que deixava vêr a fórma nervosa um pouco secca, da perna calçada em meia côr de rosa.
Apoiou a face sobre a mão esquerda, e os seus dedos, n'uma mechanica inconsciente, beliscavam inquietos o rosado lobulo da orelha. Os olhos extacticos e mudos como dois lagos de luz, poisavam, n'uma absorpção humida e contemplativa, sobre os moveis d'aquelle ninho tão povoado das suas ideias, dos seus sonhos, das emanações perfumadas da sua alma.
Tudo porém n'aquelle momento se lhe affigurava estupido, inerte, sem uma recordação, sem uma saudade. O espelho do toucador reflectia-lhe sombras indecisas e vagas; os pequenos frascos de crystal, cheios d'essencias que ella tanto amava, pareciam-lhe agora comparsas imbecis que rodeiam o genio d'um grande artista. A sua commoda pequena, com embutidos de madreperola, onde guardava os seus bellos vestidos, tinha as apparencias informes d'uma tartaruga collossal, empalhada, nos ocios de museu.
Como nos lagos tranquillos, ao avisinhar das tempestades, saltam ao lume d'agua peixes prateados, assim tambem do intimo do seu peito respirações suspiradas sahiam de quando em quando, agitando-a na quietação muda das suas meditações concentradas.
--Porque não teria elle vindo?--
Era a pergunta que o seu espirito não cessara ainda de formular, sem que sahisse do circulo vicioso, d'uma resposta negativa. Acudiam-lhe muitos motivos, muitos pretextos, para o desculpar, para o censurar.
--Assim! sem mais, nem mais!--pensava--é ter-me em muito pouca estima--e cheia d'um phrenesi nervoso apertava com mais força o lobulo da orelha, respirava frequente, agitando o seu sapatinho n'umas flexões rapidas, que indicavam necessidade de movimentos expansivos.
Os olhos marejavam-se-lhe d'uma humidade turva, lagrimas segregadas no reflexo de coleras occultas.
--Mas se estivesse doente! Ah, como era infeliz! Que maldita duvida--e deixava-se cahir n'uma suavidade de sentimentos, esquecia todas as recriminações, todas as queixas, tudo o que podesse recordar-lhe uma falta d'elle. Lembrava-se apenas que estaria talvez só, desamparado, entregue á indifferença egoista de criados de hotel, sem um amigo, sem uma irmã carinhosa, desvelada, que o affagasse como a uma creança, que lhe tomasse a cabeça entre as mãos, que depozesse um beijo animador na sua testa aquecida pela febre.
Via-o sorrindo, se ella lhe podesse apparecer, com aquelle sorriso meigo dos febricitantes e o olhar prostrado, d'uma languidez doentia--que lhe devia ficar tão bem!--
Chorava então. A sua alma de mulher, apesar de educada na sentimentalidade vadia das pieguices de collegio, dos namoros de janella, das missas ao Domingo, dos luxos baratos, das leituras romanescas, dos sorrisos de _soirées_, irradiava uma sensibilidade pura, honesta, como um sol, que empanado pelo escuro das nuvens, se entremostra uma vez ou outra no fundo luminoso e transparente do azul sereno e indefinido.
--Ah, como desejaria ser sua esposa, sua irmã, sua amiga! como ella o amaria assim doente, como seria desvelada, solicita, carinhosa.--
Calava-se; as lagrimas deslisavam sobre as suas faces, abundantemente, como um rio que se solta. Pouco a pouco diminuiam, estancavam-se n'uma sensação ardente, de febre nervosa que a invadia. Sentiu frio, lembrou-se que já era talvez muito tarde. N'este instante o Jorge voltava do Club. A Joaquina fazia tilintar dentro as chavenas do chá.
Poz-se em pé e principiou a despir-se; a sua cama á franceza, estreita, de colcha branca, esperava-a n'uma attitude virginal e passiva, como um ninho abandonado, ás quentes irradiações de corpos vivos.
Era aquella tambem a hora a que costumava despedir-se d'Alberto; por isso a crise ia diminuindo, cahia n'um desalento molle, de prostração fatigante. Metteu-se no leito, despenteada, com um vagar preguiçoso, de habitos indolentes, alisando o travesseiro. Uma sensação de frescura do linho a penetrou até á medulla; teve um calefrio rapido, um ah! de satisfação; ennovellou-se, como as creanças debeis e ficou assim, muito tempo, sem se mover, com os vagos olhos absortos, pregados na lampada, que ardia.
Lembrou-se que não tinha resado; descobriu o braço e fez o signal da cruz; os labios balbuciavam umas orações banaes, narcotisadoras, que lhe fizeram pesar as palpebras.
Tinha adormecido. Nas linhas do seu rosto divisava-se ora um sorriso alegre, de satisfação saciada, ora uma contracção spasmodica, revelando amarguras, desesperos intimos, que a commoviam. Sonhava com Alberto.
--«Via-se noiva, de vestido de faille branco, muito _chic_, feito nas Ferin, tendo ao peito um ramo de flôr de laranjeira e na cabeça um penteado elegante, coroado por uma grinalda identica, onde prendia um véo de tulle, amplo, magestoso, que a velava pudicamente; nunca lhe parecera tão pequenino o seu pé, como calçado n'aquelle sapato branco, de setim, dando um realce artistico á sua perna gentilmente vestida em meia de seda.
--Ah! como o Alberto gostaria d'ella assim!--sorria vaidosa--
--E a elle, via-o tambem, muito frisado, de gravata branca, a camisa com abotoadura de brilhantes, de casaca, muito attencioso, muito reverente, cheio de elegancia, invejado por todas, por ellas, pelas suas amigas, que a felicitavam com sorrisinhos traiçoeiros, compromettedores, que faziam córar.
E de sobre a elegancia da sua _toilette_ de noiva, ella, para se vingar, deixava cahir sorrisos, animadores, de consolação, para a Adelaide Mendes, para as Gomes, para a filha do Bastos, e outras que ainda estavam solteiras.
Via o aspecto dos trens, enfileirados, ao sahir da egreja, e a sua carruagem de noiva, com os cavallos brancos, e cocheiros de fardas vistosas. O commendador Faria, muito cheio de brilhantes, pesado, enchendo elle só um trem, seria o padrinho.
Ao sahir, quando já vinha pelo braço d'Alberto, as mulheres do povo, cobrindo-a de santas aspirações, de bençãos:
--que Deus a fizesse feliz, que fosse em boa hora--
--Apesar de que não promettia muito a cara do noivo--observara uma aldeleira ambulante, de grosso ventre levantado, e roupas velhas penduradas no braço de côres arreliosas.
Que vontade teve de a esganar, o diacho da velha... dizer que o seu Alberto, tão lindo, tão sympathico, não tinha boa cara: forte bruta!--
Mas esqueceu-a breve; o cortejo dos convidados, um sequito apparatoso que a rodeava como a um astro, fazia-lhe vaidade, tornava-a feliz, parecia-lhe que a dilatava de superioridade.
Depois os convidados, n'uma civilidade ironica, iam-se despedindo. As senhoras abraçavam-a, segredando-lhe ao ouvido e pondo beijos miudinhos nas suas faces aquecidas. A final ficaram sós, ella e o seu amado, o seu marido! Havia uma lampada de crystal no quarto e os cortinados, como as vélas d'uma gondola, agitavam-se trementes, como se o leito fôra na realidade um barcosinho, onde ambos tivessem de navegar para um paiz distante, desconhecido, estranhamente novo. Elle tomara-a um pouco arrebatadamente, sentando-a nos joelhos, affagando-a com beijos e sorrindo, ao tirar-lhe o véo de noiva, que a fazia reflectir no espelho do toucador, toda branca, d'uma brancura eburnea, de camelia nevada.