A Divorciada

Chapter 13

Chapter 133,613 wordsPublic domain

--pois é arranjar uma casinha, olhe, eu já agora não a deixarei; não me dou muito bem com a Amelinha, ella não é má, mas aquillo é um desgoverno, é uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um pucha para seu lado.--

Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,

--uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, não tivesse medo--confortava a boa da criada.--

D. Clementina viu-a sahir com certa satisfação mal disfarçada.

--que não sabia para que ella fasia aquillo, mas emfim não a impedia, estava mais á sua vontade; e se precisasse d'ella, bem sabia;--

--nunca esqueceria as finesas que lhe devia, tinha sido uma boa amiga, mas não deveria abusar, não;--

--bem conhecia que lhe estava sendo um pouco pesada.--

--se eu fosse muito rica, menina--

--mas não se despedia dos seus favores, ia trabalhar, precisava de o fazer, e a D. Clementina tinha relações, valer-lhe-ia de muito, uns bordados, obras de cabello.--

--lá isso, podendo ella, estivesse descançada.--

Abraçaram-se, uns beijos lacrimosos,

--que se visitariam a miudo:--

Mas as visitas da D. Clementina rarearam; quando lhe perguntavam por Ermelinda, disfarçava mal o seu ciume outomniço, uns desabafos contra a ingratidão,--que a via agora poucas vezes--, realmente sahira-lhe uma rôlha.--

E a filha do Jorge ia pouco a pouco cahindo no esquecimento; nem a Mendes, nem a Bastinhos, nem as Gomes, nem as amigas do _hig-life_ a procuravam já. Alguma que o fasia era por curiosidade, uma vontadesinha de a humilhar, encommendando-lhe uns trabalhos futeis,--

--realmente era pouco decoroso conservar relações com uma senhora n'aquelle estado; a sociedade não via bem essas relações, sempre era uma mulher sem posição! E depois, o escandalo d'um divorcio!--

Retesavam-se n'uma honestidade pruriginosa, muito meticulosas na escolha das pessoas amigas, um grande respeito pela moralidade da opinião,

--não dava honra em verdade conviver com uma mulher divorciada.--

Apagavam-lhe com desculpas banaes a aureola de martyr, que n'um momento lhes dera o syncretismo do sentimento por ella e achavam que:

--deveria ter tido mais paciencia, não fôra tão mimalho, não se apanhavam moscas com vinagre--

O commendador mesmo, obrigado a partir repentinamente para o Brazil a fim de obviar a uma crise commercial, que o ameaçara, teve de cortar as suas vizitas, em face d'esta força maior.

E era assim que Ermelinda se via gradualmente rechaçada das suas relações, accommodando-se no seu isolamento humilhante, um desejo de ver as outras cahir tambem, azedando-se n'uma fermentação acre de vinganças miudinhas, uma aspiração malquerente para com a sociedade, que a repellia injustamente, a energia quebrantada, amollecendo n'uma lassidão vadia de temperamento, um grande desmazelo de si, a vida figurando-se-lhe um fardo pesado, que tinha de arrastar no caminho ingreme da fatalidade.--

A filha sómente lograva purificar um pouco aquella alma que se corrompia; esquecia-se de si, como os pantanos se esquecem das suas aguas perniciosas, para alimentar a flôr luminosa de mocidade e candura, que se levantava como um lyrio, seivando-se no lodo d'um paul.

O trabalho rendia pouco, comia-se uma parte do pequeno capital, a Joaquina mesmo adoecera com a fadiga, e isto sobrecarregara o estado financeiro da casa; a miseria pairava, como um corvo, que se banqueteia n'um cadaver e Ermelinda sahia raras vezes, receiosa de encontrar uma antiga conhecida que lhe attentasse no vestido surrado, fóra da moda.

Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio, de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.

Perdia a energia para o trabalho e quedava-se ás vezes em longas contemplações scismaticas, um confronto do seu presente com o seu passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa d'então, maldisendo o seu destino, sem resignações corajosas para aquelle infortunio, que tinha de devorar ella só.

E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um clarão amigo, quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que lá ficava ainda uma sombra, um vacuo que o amor de mãe não podia preencher, alguma cousa de desconsolador, que deixava no seu coração um arrepio gelado, como a corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um vidro partido. Uma aspiração se elevava d'uma precisão mal definida, fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio--

--Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse força n'aquelle peregrinar atravez d'espinhos;--

--Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adoração fanatica; havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma benção, e ás tardes, quando elle largava o serviço, via os dous no quintal, á sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de vinho, os pequenos a faserem _hortinhas_, uma bonhomia suave, que fasia lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se preguiçosamente sobre um banco de pinho, a cabeça no regaço da mulher, que o catava muito de manso, baixando-se a espaços para o beijar carinhosamente na testa.--

Não tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mão, a imaginação a pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina traquinando com as suas bonecas a um canto do jardim.

--Como fôra infeliz!... e era preciso tão pouco para se ter a felicidade--suspirava.--

Quasi tinha inveja áquella mulher honrada e áquelle operario honesto; affigurava-se-lhe uma injustiça aquelle contraste de paz em frente da sua vida de amarguras, e ás vezes, ao vêr que os dous sahiam do quintal, braços enlaçados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos labios varonis, a reminiscencia avivando lembranças felizes d'outros tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um esfusiar esteril e impotente.

Vinha-lhe porém adjunta a recordação do Alberto, e uma onda tumultuosa de odios represados a dilatava toda.--

--Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que não quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a felicidade!--

--quando se lembrava que a sua filha era filha d'elle, quasi a olhava com desamor,!... mas não tinha culpa, a pobre creança.--

E ficava n'uma exaltação nervosa, um atropellamento de pensamentos chocando-se violentamente, frenetica, incoherente, passarinhando muito pela casa, respondendo asperamente á Joaquina, repellindo as meiguices da pequena, arremeçando com aborrecimento a costura, tomando um livro para logo o deixar, até que se ia quebrantando este nervosismo, a excitação cahindo n'uma prostração apathica, que terminava sempre por um largo choro copioso, muito mansa e abatida, deitada de bruços sobre o leito, e fechada sósinha no seu quarto.

Foi n'uma occasião d'estas que o commendador, de volta do Rio de Janeiro, a veiu encontrar--

--tinha-lhe custado saber onde moravam agora, ein, mas afinal se tinha informado bem; e como iam, como iam, a Rosina estava uma senhora--

--coitada! tinha uma infancia bem desgraçada--

--n'aquellas idades o que se queria era brincar; mas ella, ella, que a achava muito transformada, se estava doente?--perguntava carinhoso--

--doente, não, iria morrendo lentamente, o mundo já para ella não tinha alegrias,--

--que deixasse lá, era nova! e depois a minina!--

Mas a Joaquina interveio.

--que não era verdade, não, que ella queria encobrir, que a D. Ermelindinha andava muito doente, nem comia, era mesmo um passarinho de magresa! e depois aquelle desgosto que a matava.--

--A gente se distrahe.--

--vão lá fallar-lhe nisso!...

--oh, Joaquina, cala-te por Deus,--

--eu cá não tenho papas na lingua; sabe Vossa senhoria, pois é como lhe digo, não que eu tenho-lhe amisade, isso é que ella não póde negar; não sou como essas visitas que _alvoraram_ todas, ninguem procura gente pobre!... E vai-se vivendo, Deus sabe como!--

--Joaquina... então...

--deixe ella dizer, deixe ella dizer.--

--e digo, sim senhor; se Vossa senhoria cá tivesse estado, veria como as cousas tem corrido!... Agora nem a D. Clementina por cá pisa, boa... tem medo que lhe peçam alguma cousa; pois se Deus quizer, emquanto eu tiver dous braços, não se ha-de occupar aquella _sastrona_!...

--Joaquina--interveiu n'um tom reprehensivo.

Mas o commendador pedia-lhe:

--que deixasse fallar, que deixasse fallar--a sua indole harmonisava-se com aquelles desabafos expansivos da Joaquina,--queria as cousas assim, não era homem do rodeios, pão pão, queijo queijo--e commovia-se d'uma compassividade altruista por aquelle infortunio, em que as via,

--Mas estava elle agora alli, não havia de ser assim--protestava--

--a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a não abandonara--dizia depois Ermelinda ao commendador.--

--boa criada, não as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.

--sempre, só se ella quizesse deixal-a; era quasi sua mãe.--

O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condições do seu viver.

--mas que diria o mundo? não, não acceitava, em tudo se lançava veneno--

--mas não podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na hora da morte, e depois, elle não tinha familia, dotaria a Rosina, já ella não tinha de que ter escrupulos.--

E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta aberta na modista, uma submissão de escravo em todas as suas acções, alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada já, engordando até, a nutrição sadia agradecendo os bons alimentos delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.

--E não tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle é que se considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente um dever, andava contente, não precisava de mais.--

Ermelinda porém enchia-se por elle d'uma suave gratidão; o sangue novo que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente, como uma rainha, com a adoração respeitosa e fervente d'um fanatico.

--Como teria sido feliz, se o houvera desposado--pensava--que desgraça a sua, em ter conhecido o _outro_!--

--e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posição a sua--como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle _voto_ que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separação!--

--porque não havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o seu coração tão cheio de boa gratidão, principiar com elle uma vida nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta e honrada!--

--que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei infame!... e não havia justiça na terra!--

Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando, diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem resposta.

E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um nevoeiro, o ia invadindo;

--aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas não abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a liberdade áquella mulher... e porquê, não lhe diriam?... porque ella se tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a espancava,--era um absurdo, realmente.--

--e entretanto, conhecia-o, não bastavam á sua natureza forte, aquelles idealismos cavalheirescos de Magriço, que o faziam sacrificar por ella; um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoção não satisfazia a anciedade exigente do seu espirito.--

--E talvez que ella o não repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si n'uma quietação contemplativa e muda--

--era preciso affastar-se, vel-a menos vezes, fazer-lhe todo o bem que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.--

Ermelinda vendo que o commendador distanceava as suas vizitas, sentia-se intrigada, descontente de si, accusava-se de não ter sido mais accessivel, o ar um pouco severo de quem obstinadamente se recusa.--

--E não, não era por isso--uma gratidão por elle a envolvia, como uma nuvem de perfumes, e sentia-se bem, quando pensava que d'ella dependia a sua felicidade.--

A sua saude revigorando-se, energias de temperamento se despertavam; habitos adquiridos se reaccendiam em desejos brutaes, instigando a carne, n'uma provocação petulante. E na incoherencia d'estas ideias, que ainda não se vasavam n'uma fórma nitida, a imagem d'Alberto extinguia-se, esvaecendo-se n'uma penumbra indistincta, sacrificando-se á imagem do commendador, que se destacava luminosa, em toda a pujança d'uma vehemencia indomita,--

E Ermelinda, costurando silenciosamente, o espirito a divagar em sonhos incoerciveis, via no quintal visinho a mulher do ensamblador, debaixo da ramada, a beijar carinhosamente o marido, e depois, quando vinham de dentro, ella a cantar, como um passaro alegre, umas trovas cheias de fogosa paixão peninsular, muito satisfeita de si, a voz crystalina revoando, como um trinado sonoro, no azul d'aquelle ar, onde volitavam as andorinhas que regressavam a saudar a primavera.

XVI

Tinham passado mezes.

Uma lucta titanica, surdamente ferida, no mysterio concavo psychico das almas de Ermelinda e do commendador. Uma attração incoercivel os chamava, uma vontade de revolta contra o convencionalismo social, contra aquella tyrannia da lei que os expulsava da felicidade, como o archanjo expulsara do Eden, ferozmente, com uma brutalidade inquebrantavel, o primeiro par humano.

Vinham-lhes desejos de peccar, de bater de face aquella prohibição medonha, que os separava, de arrojar para longe o manto pudico d'uma honestidade eterna, a que a lei os comdemnara fatalmente.

Ermelinda estava mais gorda, o sangue vivo das alimentações fortes, o temperamento flammejante de exigencias, uma lassa morbidez quebrando-a na incoherencia insaciada e vaga de desejos, que se formulavam em pensamentos languidos.

Mudava muito de roupa, narcisando-se a miudo, horas esquecidas na sua _chaise-longue_, o jornal do dia cahindo sobre o roupão claro, que a desenhava toda nas suas formas appetitosas, o pésinho bamboleando no sapato bronzeado, com as fitas enroscadas como uma cobra nas columnas assetinadas da meia côr de cinza.

Percorria os olhos pelo jornal; gostava muito do folhetim e do noticiario.

Um dia claro, de sol doirado, palpitava lá fóra, coando-se impertinente atravez dos _stores_ de madeira; espreguiçou-se lentamente, bocejou, o jornal cahiu no chão, deslisando suave. Fez um grande esforço para o apanhar, o braço movendo-se lento, o corpo requebrado n'uma attitude madorrenta; mas de repente empallideceu; atirou o periodico com arremeço--

--Que nojo!...--e poz-se em pé, passeando para o lado contrario, como não querendo vel-o.--

Uma carruagem parou á porta.

--Quem seria?--e foi á janella muito curiosa, levantando um poucochinho o _store_, o pescoço curvando-se para ver melhor.

--Ah, o commendador!... e então que estava só, tinha de ir abrir-lhe a porta, a Joaquina fôra buscar a Rosina ao collegio... valesse-lhe Deus.--

A campainha vibrou; demorou-se um instantesinho em frente do espelho, anediou o cabello.

--E nem tempo tinha do se vestir! Jesus! recebel-o-ia mesmo assim de roupão, elle não era de cerimonia!--

E foi abrir a porta; o commendador entrou, trasia um bello ramo de rosas, e um embrulhosinho,

--uma lembrança para a Rosina--

--tinha ido para o collegio estava só em casa, mas subisse, ella ficaria contente ao vel-o, já não apparecia ha tanto tempo!...

As escadas terminavam; entravam no gabinete, ella tomava o ramo de rosas, d'um perfume vivo, muito aromaticas, um avelludado formoso de petalas sanguineas.

--Que lindas rosas! É muito galanteador, na verdade!...

--Oh, D. Ermelinda!...

--Aposto que as trouxe do Palacio.

--Justamente, tinha adivinhado!--e sentou-se, o corpo cahindo pesadamente n'uma cadeira pequena, situada junto da meza de costura. Ermelinda dispoz as rosas n'um vaso com agua; collocou-as ao centro,

--gostava muito de flores! ella!...--e então que era feito d'elle, porque não apparecia,--disia n'um tom reprehensivo.--

Curvava-se para affagar as rosas, uma voluptuosidade em sorver aquelle perfume intenso, o corpo desenhando-se na justesa clara do roupão.

O commendador estava embaraçado; não sabia que responder; desejava ter n'aquelle momento a Rosina, que com as suas travessuras o tornasse menos timido, dando-lhe um tom alegre de creança.

--Viu o jornal no chão, apanhou-o; mas Ermelinda fez-se corada, teve mesmo um movimento brusco, disse-lhe zangada:

--Deixe o jornal; então não prefere conversar? se soubesse o que ahi vem!...

--Aqui?

--Ahi, sim, veja,--e apontou uma local do noticiario, a mão nervosa affagando as flores, emquanto o commendador lia baixo:

--CHRONICA POLICIAL--Foi encontrado em estado de embriaguez Alberto de Sá, sendo conduzido para o Carmo, onde teve de passar a noute.--

--E então, que diz a isso?--perguntou com meiguice.--

--Coisas d'este mundo!... Uma desgraça!...

--Uma desgraça, sim, uma desgraça!--e principiou a choramingar.

--Então, vale a pena affligir; aguas passadas não moem moinho! o que lá vai, lá vai!...

--Diz bem, porque é livre! commendador!... mas eu n'esta posição falsa e condemnada.

--Livre, antes o não fôra!... Se soubesse o que me compunge o seu estado, se estivesse na minha mão fazel-a feliz...

--Oh, obrigada, obrigada--e tomou-lhe a mão com eternecimento, um tremor nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um entorpecimento lasso quebrantando-a.

--Como seriamos felizes--balbuciou o commendador--e vendo que Ermelinda se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens colorindo-se n'um fogo calcinante de paixão, que se libertava, a allucinação dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado, supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginação atordoada diante da formosura d'aquella mulher, que fôra o seu sonho, apertando-lhe as mãos, beijando-as com soffreguidão estonteadora. Ermelinda levantou-se.

--Oh, não, não, é impossivel!

Uma risada christallina de creança explosiu á porta da rua. Era Rosina que voltava do collegio.

--Está zangada commigo?--perguntou o commendador entre confuso e meigo.

Calou-se um pouco.

--Olhe, somos dous infelizes--disse apertando-lhe a mão,--que devo eu agora á dignidade d'um ébrio, que a policia levanta por caridade?... Se podessemos casar!...

--Mas é impossivel, bem vê, a lei tem d'estes absurdos, d'estas tyrannias inqualificaveis. É uma fatalidade!

--Sim, é uma fatalidade--e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa, Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que deslumbra, a alma larga não cabendo na estreiteza da palavra, que se paralysa.

* * * * *

Alberto e Annita tinham dissipado a mãos cheias o que lhe restara de tempos de maior conforto; liquidado o dinheiro dos moveis de cada um partiram para Hespanha e só quando a exhaurição da bolsa lhes annunciou a hora ultima d'aquella folia, é que então se resolveram a regressar a Portugal, delineando fortes planos de combate, resolvidos a luctar no meio que os conhecia, muito corajosos de vontade artificiosa. Mas a desillusão veiu depressa; os habitos da ociosidade haviam-lhe tirado a energia do trabalho, e os dous, recriminando-se mutuamente a causualidade do infortunio proprio, principiavam a aborrecer-se, supportando-se uma intimidade que se enraisara no vicio do passado, mas praticando cada um a sua independencia. Alberto passando a noute na batota e nos cafés, Annita passarinhando pelas praças, e pelas lojas, acenando com os restos da sua belleza physica áquelles que um dia a tinham cubiçado.

A degradação veio pouco a pouco, uma decadencia embrutecedora, que embaciava as ultimas vibrações da dignidade, as roupas encardidas, a consciencia derreada, as nodoas das ultimas camadas alastrando-se por sobre os restos d'aquella fina elegancia.

Alberto embriagava-se frequentemente; o alcool era o seu amigo, a sua consolação, depois das noutes caliginosas do jogo, em que o azar o perseguia, com uma tenacidade medonha.

Embrutecia-se horrivelmente, a policia tomara-o já como incorrigivel, houvera mesmo umas pequenas historias pouco dignas, que o tinham compromettido com o codigo penal.

Resolveu ir com a Annita para Lisboa.

--Outra cousa, a capital!... batotas a cada esquina, aquelles inglezes a cahirem como patos...--

--E depois lá quasi não somos conhecidos--concordava a Annita--mas o peior era o dinheiro...

--Com os diabos, a sorte nem sempre havia de falhar.--

Effectivamente uma bafagem de felicidade o favoreceu. Vestiram-se melhor, partiram. Mas o dinheiro esgotou-se depressa; as desillusões vieram, foram cahindo, dissolvendo-se no grande meio, incapazes para a lucta, uma degradação rapida e miseravel.

O Alberto fes-se cocheiro.

--gostava d'aquillo!... guiaria os cavallos dos outros já que não podia guiar os seus!...--

e quando as effervescencias do alcool lhe produziam visões extravagantes, um sorriso se abria na sua imaginação, sonhando-se n'um _tylbury_ elegante, uma formosa parelha d'egoas normandas, a pelle de tigre cobrindo-lhe os joelhos, o pingalim traçando uma curva no ar tremente das vibrações da carruagem.

--Eh, lá, eh, eh!--gritava no sonho, uma incitação animada, parecendo-lhe ouvir um rodar vertiginoso de trem. Mas o entorpecimento da embriaguez passava, os olhos abriam-se a custo, e atravez das pupillas ainda esfumadas e baças do alcool, elle entrevia a enxerga do catre policial, ou as taboas cobertas de palha da cavallariça, os cavallos ruminando silenciosamente na manjadora.

--era bem estupido aquillo--disia levantando-se--e estava frio, precisava um golo de _geribita_, um copinho que matasse o bicho, que desse calor.--

De vez em quando uma recordação do doce conforto do passado, lhe atravessava a memoria já muito gasta; mas não eram as imagens de Ermelinda ou da filha, que elle entrevia; essas fluctuavam vagamente, n'uma indecisão de contornos apagados.

--bem se importava!... o que elle desejava era a boa cama, a boa meza, a _chelpa_ sempre ás ordens para gastar! e a ellas que as levasse o diabo.--

O alcool ia fazendo estragos, a memoria esquecida, a intelligencia apagando-se nas rudezas bestialisadoras da sua nova vida, do contacto dos vadios e das cavallariças; a Annita mesmo abandonava-o um pouco, fizera-se corista d'um theatro barato, e por isso cuidava-o menos, deixava-lhe encardir a roupa branca, aborrecia-se d'aquellas vaidades de o trazer limpo.

--que se arranjasse, o theatro tomava-lhe o tempo... e depois um brazileiro andava para cahir na rêde, quem sabe... talvez ainda podesse casar... era agora a sua ideia, bastava já de privações, e depois com elle nunca poderia fazel-o, era um homem casado... afinal.--

* * * * *

Uma commoção extraordinaria agitava os espiritos; alguma cousa de gigante, como o despertar de um povo, fazia palpitar o coração da patria; Portugal preparava-se para o tricentenario de Camões.