Chapter 12
--Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porém, que elle me fez, a de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D. Clementina, eu na presença d'ella não chorava, não lhe queria dar esse prazer; mas depois, quando estive só, as lagrimas eram como punhos, queimavam-me.
A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para suavisar-lhe aquellas dôres palavras dôces, d'uma ternura lacrimosa, chorando tambem.--
--Mas nem mais um dia com esse homem! é tratar da separação, e isto já, antes que elle te dê cabo do que é teu e da tua filha; ainda que não fosse senão por causa da pequena, que está a ser escandalosamente roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.--
Ermelinda tinha objecções fracas, adversativas hesitantes...
--mas que diria o mundo...
--o mundo, ora não faltava mais nada; estar uma victima ali debaixo do jugo do carrasco e ainda por cima havia de fallar! que lhe importava a ella! Com elle escusava tentar a felicidade, era remar contra a maré.--
--sabia isso, mas tão só, que vergonha!... e depois que posição a sua! Nem solteira, nem casada!... Uma cousa assim!--
Mas a D. Clementina tinha a coragem da reacção, communicava-lhe energia
--fosse ella homem e veria se a não fasia já assignar um requerimento ao juiz!... mas iria ella mesmo a um advogado! Não, que eu fui muito amiga de tua mãe, isto é,--considerou--ella era um pouco mais velha do que eu.--
--se eu tivesse pae, D. Clementina.--
--mas não tens, acabou-se, d'ahi não vem agora o remedio!... Descansa que eu ámanhã lá vou a tua casa; boa! eu te direi o que tens a fazer!...
Sentia-se contente do seu papel activo, uma solução rapida a todos os obstaculos, uma consciencia da sua imprescindibilidade, detalhando planos com uma volubilidade agitada, communicando-lhe uma excitação de energia, chicotando a sua mollesa hesitante e irresoluta.--
--Tu verás, tu verás como tudo ha-de correr bem! É preciso pôr termo a esse martyrio.--
E quando a Ermelinda sahiu, a D. Clementina sentou-se a uma escrivaninha, fez um pequeno bilhete n'uma calligraphia miuda e redondinha, e chamando a Pulcheria:
--Toma, vae levar isto ao hotel, ao Snr. commendador.
--Ao Snr. commendador!
--Sim, então, fica-te ahi pasmada se te parece!--
* * * * *
O commendador palitava os dentes, recostado n'uma cadeira de braços, muito satisfeito da sua digestão regular; o criado veiu:
--que a moça da D. Clementina tinha entregado aquillo.--
--Me não larga a carioca--pensou o brazileiro.
E abriu o bilhete; uma pallidez leve o invadiu, ficou immovel; e logo, levantando-se, uma resolução tomada...
--que dissesse á criada, que lá ia já.--
Veiu para o quarto, releu de novo; a D. Clementina dizia-lhe:
«Peço-lhe o obsequio de me vir fallar immediatamente; trata-se de arrancar a pobre Ermelinda a um martyrio cruel.»
--Mas que martyrio será este, ein?...--
--o marido talvez... me recordo agora que o Jorge ao morrer me disia que ella não era feliz... ha-de ser isto, ha-de... pois cumprirei a minha palavra... apesar de que a gente metter-se entre casados... veremos, veremos... a D. Clementina me explicará!... É mulher para revolver meio mundo.--
E apresentou-se em casa d'esta; atacou-o ex-abrupto.
--Contei comsigo e parece-me ter feito bem...
--Oh, minha senhora!...--
--Eu lhe digo, se eu fôra homem, trabalharia só, assim não me é possivel.--
--Mas estou inteiramente á sua disposição.
--Trata-se de obter o divorcio de Ermelinda.
--Mas isso é negocio tão grave--atalhou o commendador.--
--Por isso mesmo é que precisa ser resolvido e de prompto... desculpe-me, eu nem lhe roguei que se sentasse, mas tenho as ideias tão confusas...--
O commendador tomou logar no sophá; o Tótó rosnava roçando-lhe pelas pernas.
--Oiça, ella esteve aqui ha um instante; é uma martyr, a pobre creatura! se lhe visse o corpo... tudo são manchas de pancadas, nodoas negras que o senhor não imagina.--
--Mas isso é uma barbaridade!...
--É, é, e para evitarmos que um dia qualquer aquelle monstro a mate, é que a auxiliaremos na separação; é capaz de tudo o maldito!... E depois se fôra só isso!...
--Então ainda ha mais?
--Olhe, vai bebado para casa, altas horas da noite, insulta-a, injuria-a, tem-lhe dado cabo das joias, aquella casa está pela agua abaixo.
--Me espanta tudo isso que diz; não haverá exagero?!
--Exagero, exagero! Nós as mulheres só nos revoltamos, quando mais não podemos soffrer; se a visse ha pouco, como eu a vi, está mirrada a pobre da rapariga; não tem feito senão chorar!
--Me commove o seu estado, creia, D. Clementina!--
--Podera não, só se o commendador não tivesse coração!... E ás vezes parece não o ter--disse n'uma queixa d'amor não correspondido.--
--Oh, minha senhora.
--E sabe o resto, o que lhe fez aquelle infame!
--Pois mais!...
--Ouça e verá! Outro dia, elle anda para ahi a trote com uma mulher á tôa, uma Annita, a quem chamam a _Gatinha parda_!--
O commendador compoz os oculos com uma certa precipitação, ruborisou-se-lhe o rosto n'um carminado subito; abaixou-se para fazer uma festa ao Tótó, a primeira que lhe fasia em sua vida.
A D. Clementina continuou:
--Pois outro dia teve o descaro de entrar com ella em casa, de lhe dar de jantar, de faser com que Ermelinda servisse a tal grande senhora.
--Oh, é de mais, é de mais--rompeu o commendador pondo-se em pé...
--Já vê que a pobre martyr não póde continuar a viver com aquelle verdugo.
--Não, não póde continuar, fez bem em me chamar; auxilial-a-hei em tudo o que possa; cumpro mesmo com um dever; o Jorge tinha-me dito que ella não era feliz, mas a morte veiu, não teve tempo de se explicar.--
--Pois ahi está tudo explicado.
--Infelizmente!... Mas ainda hoje eu irei fallar a um advogado, ein, e lhe protesto que ella se libertará d'aquelle despota.
O espirito do commendador nunca se sentira tão agitado, como desde aquella revelação da D. Clementina; por um lado, no seu coração uma chamma d'amor relampejava, inflammando na sua labareda todas aquellas recordações semi-extinctas que o tinham feito pensar em Ermelinda, como um ideal que se não attinge,
--o baile da casa do Mendes, as noites da sueca, o debruçar do seu corpo gentil nos braços d'elle, quando o Jorge fallecera, esta scena sobre tudo, perpassavam-lhe na imaginação com um colorido quente e vivo, como se ali refervessem ondas tumultuosas de vapor, que não tivessem por onde se escapar.
E depois a revelação de que a Annita o trahia escandalosamente,
--ella, a quem elle tinha levantado da miseria, a quem dera sêdas e brilhantes, a quem montara uma casa com todas as commodidades do luxo,--para outro gozar, afinal--
--ah, era de mais!--protestava--e vingar-se-ia, vingar-se-ia estrondosamente, despedil-a-ia como quem despede uma escrava, sentindo apenas que não podesse cortar-lhe as carnes com um bom chicote, como no Brazil se fazia aos negros! e a elle então tirar-lhe-ia a mulher como uma boa desforra, desmascarar-lhe-ia aquella refalsada hypocrisia, daria uma publicidade grande á sua infamia, exhaltando a martyr, e depois quem sabia--talvez que no coração d'ella brotasse um perfume de gratidão e amor!... apesar de que a lei condemnava-a brutalmente a um celibatario perpetuo, uma lei estupida, que a collocava n'uma posição violenta e falsa, fechando-lhe a felicidade como um pomo vedado,--mas veriamos, veriamos.--
Foi d'ali ter com um advogado.
--Ella que requeresse, que requeresse, allegasse as violencias, os maus tratos, as infamias do marido, paragrapho 4.º do art. 1204 do codigo, elle dava-lhe já a norma, e não arrefecessem, conhecia bem aquelle patife, um vadio que todos despresavam; se sabia a historia do banco,
--Não, não, ignorava...
--Pois tinha-se querido abotoar a creança, uma falsificação de firma, a coisa abafara-se em attenção á pobre senhora...
--Ainda mais essa!... se admirava de tanta audacia!...
--É como lhe digo, e não descanse, não descanse. E o melhor será tambem que ella requeira o deposito, o patife é capaz de acabar com ella.--
Sahindo do escriptorio do advogado o commendador começou a delinear o melhor plano de se desfaser da Annita; lembrou-se primeiro d'um lance dramatico
--elle iria, surprehendel-a-ia em flagrante, despedil-a-ia com violencia, seria inexhoravel, impetuoso como um tufão.--
Mas a prudencia aconselhava:
--que a cousa podia tornar-se escandalosa, com aquellas mulheres tudo era de esperar, depois um conflicto com elle, nada, nada, o melhor era dar ao diabo tudo aquillo, despedir-se por uma carta, não querer saber d'ella para mais cousa nenhuma; faria de conta que tinha perdido aquelles cobres, não lhe fasiam falta, graças a Deus! e livrava o seu nome de compromettimentos, era melhor, muito melhor...--
* * * * *
Onze horas da noite, a Annita recostada n'um sophá, o Alberto com a cabeça poisada nos seus joelhos, o fumo d'um charuto a espreguiçar-se voluptuosamente, como um thuribulo que a perfumasse, sentiu a criada bater uma pancadinha na porta do gabinete.
--Que é?--perguntou contrariada.
--uma carta com toda a urgencia.
Levantou-se, o Alberto ficou a vel-a caminhar, um movimento gracil na linha dos quadris, os braços nús sahindo provocadoramente das mangas rendilhadas da camisa.--
--Então cartinhas a esta hora e urgentes, ah!... trahe o seu Albertinho, ora deixe estar.--
--Oh, filho, não me bacoreja coisa boa.
Annita abriu a porta; viu-se a criada a estender uma carta, e fechou logo, um saltinho de _travesti_ indo poisar n'uma banqueta que estava aos pés do Alberto.
--Lê tu, filho.--
O Alberto tomou a carta.
--Eu conheço esta lettra com toda a certesa... vejamos a assignatura, ah, é de S. Ex.ª o commendador--disse ironicamente,
--que não pôde cá vir, oh, que pandega, dormes cá, está dito; vou dizer á Emilia que traga _sandwichs_ e champagne.--
--Espera lá, espera lá.--E o Alberto ao lêr, sentia-se tomar d'uma pallidez desesperadora.--
--então!
--ouve:--«Minha Senhora»
--Ora essa, nunca me tratou assim.--
--não me interrompas, com todos os diabos!
--credo, que cara a tua!
--ouve lá:--«Sabendo do seu comportamento indigno a meu respeito, envio esta carta como uma despedida formal na occasião talvez em que o seu amante a possa lêr.
Faria.»
--Bonito, sim, senhor!... Eu sempre esperei isto d'aquelle carioca! Não diz mais nada?
--Um post-scriptum.
--Ah, que diz?
--«P. S.--Tudo o que existe n'essa casa lhe fica pertencendo; não mais desejo que me procure.»
--Tó rola, eu procural-o depois d'uma d'estas!--
E enlaçando o pescoço do Alberto:
--Oh, filho, agora sim, que somos livres.--
XV
O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.
O Mendes ainda lembrava:
--a conciliação... seria bom concilial-os... aquillo ás vezes era o diabo.--
--Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creança com aquelles exemplos! não lhe diria!--
--visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.--
O Doutor concordava tambem:
--era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria n'uma posição falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer? o indispensavel era poupal-a ao menos ás violencias d'um infame.--
Poucos dias depois ás onze horas da manhã uma carruagem parou á porta do Alberto...
Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.
Eram o juiz e um escrivão.
N'aquella manhã o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes espancado brutalmente sua mulher.
O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras inchadas.
O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando teve de dirigir-se a Ermelinda,
--Se ella quer...
Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a mãe, e nos seus olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma cousa de grave se estava passando.
Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremeça precipitadamente na praia:
--Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou, acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!
--Prepare-se então, minha senhora, a sua filha irá com V. Ex.ª, a lei authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em casa da D. Clementina.--
O Alberto perdeu a serenidade.
--Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.--
--Lembro ao cavalheiro que está diante d'um magistrado,--observou-lhe severamente o juiz.
Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um véo descido, as lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mão,
--Então nós vamos embora?--perguntou a Rosina.
--vamos, filha, para nunca mais voltar.--
--quero levar então as minhas bonecas.
O juiz affagou-a:
--A mamã dará outras depois--
e voltando-se para Ermelinda:
--V. Ex.ª não quer mais nada d'esta casa?
--não, senhor juiz, estou prompta.
--n'esse caso partamos.--
A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a mão e ao ver que a mamã continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.
O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.
Ermelinda fez um esforço; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mão.
--Adeus, Alberto, sê feliz e perdoa-me!--
--adeus, senhora--respondeu seccamente.
A Rosina perguntou espantada:
--O papá não vem?
--não, filha, dá-lhe um beijo.--
O Alberto levantou a creança, beijou-a nervosamente, uma lagrima de emoção rolou precipitadamente sobre a sua face.
--Adeus, filhinha!...
O juiz interveio:
--Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.
Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a filha, depois o juiz, atraz o escrivão.
Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.
--Coragem, menina, estás livre d'esse monstro!--
Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de calçada.
Passada a emoção de momento, o Alberto passeava phreneticamente no gabinete.
--Então, ein, não fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil diabos!...
Pensamentos de vingança, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu cerebro escandecido; acalmava porém, reflectia:
--E agora era tirar de tudo o melhor proveito! que a levasse o demonio! lá á pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso passava.--
Ideias se encadeiavam n'uma associação tumultuosa, e a sua reminescencia avivava as lembranças do passado, o namoro com ella, o casamento, que--tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava--
a sua lua de mel, as primeiras questões, o seu emprego no Banco, a morte do Jorge, a reconciliação com a Annita.
--eu fui um bocado violento, devemos confessar,--mas com um raio, não era para me fazer isto!--comparava-a com a Annita, que o tinha aturado um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus caprichos,
--e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...--
Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante da figura arrebicada e _travessa_ da Annita,--que riria muito, e pediria champagne para festejar a sua liberdade d'elle.--
--Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.--
Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de fóra,--aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e embriagante.
Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns habitos preguiçosos de _cocotte_, deshonrando-se, se tinha de por-se a pé antes da uma hora.
Sentou-se na margem do leito.
--Sabes Annoca, estou sem mulher!...
--sem mulher, conta lá isso--e sentou-se, o corpo recostado na almofada, a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.--
Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se n'uma provocação concupiscente.
--Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara não havias tu de ficar, e dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu tambem estou sem homem!--
Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro áquelle caso tão serio, comparando a situação dos dous,
--nem de proposito, só a nós!...
--mas que graça lhe encontras tu!
--graça, pois não tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem ciumes, ouviste!...
beijou-o no pescoço, mordendo-o sensualmente, uma provocação excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.
--E estamos livres outra vez, é como d'antes!... agora sim que me agrada isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?
--Valeu, com mil demonios--e enlaçou-a nos braços, queimando-se na quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.
* * * * *
Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o julgamento da acção, que separava definitivamente de pessoa e bens os conjugues Alberto de Sá e Ermelinda Jorge.
Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivão, o delegado do ministerio publico, os advogados.
Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares contristados d'uma gravidade composta.
Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de conciliação, d'uma severidade amiga e triste.
Mas o Alberto protestou logo,--
--não, que pela parte d'elle não desejava tal conciliação, seria uma indignidade, quando fôra ella que requerera o divorcio.--
Ermelinda por sua vez dizia:
--que bastava de martyrio, que esgotara o calix, não desejava de novo unir-se a elle; uma vez dado aquelle passo não voltaria atraz.--
As testemunhas então vieram depôr; a D. Clementina e a Joaquina especialmente foram eloquentes, d'uma convicção odiosa contra _aquelle senhor_, que era peior que um selvagem--dizia a ex-criada vingando-se d'aquelles bofetões, que a tinham despedido.
Os advogados fallaram, uma rhetorica eloquente, sobretudo o advogado d'Ermelinda, a quem o commendador promettera uma boa recompensa; e em seguida o juiz, os vogaes do conselho de familia, o ministerio publico, o escrivão recolheram-se a uma sala de conferencias, votaram a separação.
Depois, por um accordo reciproco, convencionou-se que a filha ficasse com a mãe, podendo ir visitar o pae todas as vezes que este o exigisse. A questão de bens tinha pouco litigio; o Alberto fôra desbaratando as pequenas economias do Jorge e alguma cousa que restava concordou-se, que ficasse como subsidio de alimentos e como dote para a pequena.
Vestida de preto, a Rosina pela mão, os olhos cubrindo-se de lagrimas, vexada no seu novo estado, cedendo ao peso da vergonha d'aquelle processo judicial, Ermelinda entrou em casa da D. Clementina, muito commovida, branca de marmore, a voz soluçante.
--Tudo, tudo acabou!
--ou elle credo, nem que tivesse morrido alguem.--
--antes morrera eu, D. Clementina, teria sido mais feliz!...
--e a tua filha, sim, não me dirás? o egoismo não te deixa ver o que seria d'essa creança sem pae, nem mãe?...
--Tem razão, tem, é preciso viver para ella; ha-de ter mãe, já que não tem pae--protestou.
As lagrimas foram rareando; a commoção esbatia-se na vulgaridade dos accidentes chãos, como nuvem que se esfarrapa, aclareando-se, em pedaços do azul; o tempo ia derramando um balsamo doce sobre aquella ferida, cicatrisando-a, n'uma suavidade lenta.
O commendador visitava-a de quando em quando, sempre muito attencioso, um pequeno _bijou_ para a Rosina.
--E porque não vinha mais vezes?--dizia a D. Clementina, entre suspirosa e affogueada.--
--seus negocios, seus negocios, mas não as esquecia, tudo que precisassem d'elle, era só dizer; não era homem de palavras, mas nas occasiões alli estava prompto.--
Ermelinda confirmava--
--que lhe era muito grata, se não fôra elle e a D. Clementina, quem sabe, talvez já não existisse.--
--e sabe noticias d'elle?--perguntou a D. Clementina.--
--mas seria melhor que não fallassem n'isso,--observava--fôra viajar, segundo lhe tinham dito, creio que com uma mulher á tôa.--
O rosto d'Ermelinda rosou-se levemente; um rubor de ciume,--e os seus olhos quasi supplicaram ao commendador que a poupasse áquellas narrativas,--
--mas não fallemos n'isso, nem vale a pena,--obedeceu o brazileiro.--
Ia intrigado d'aquellas visitas, commovia-o o estado triste d'aquella mulher; uma onda de commiseração, que não estava longe do amor, principiava a enternecer-lhe fortemente a alma, com desejos impetuosos d'uma tyrannia cruel. Rareava por isso as visitas.
--não queria que ella perdesse por sua causa, e depois, apesar de não ter marido, tambem não podia casar com ella, uma estupidez da lei--
mas enviava á Rosina lindas _corbeilles_ de flôres, _bouquets_ de violetas, umas prendasinhas graciosas, que pareciam levar intenções significativas.--
--O commendador, realmente,--disia a D. Clementina--muito amigo é da tua pequena; nunca lhe conheci este affecto pelas creanças.--
--é d'uma bondade grande, lá isso é, e delicado, tem uma alma generosa debaixo d'aquella apparencia--disia Ermelinda--e ficava calada, um pensamento volteando na sua imaginação ociosa, de romantismo desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de velha arvore, o Alberto elegante e esbelto como um jasmineiro perfumado,--
--como as apparencias enganavam--suspirou.--
Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha ás vezes respostas enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem está na sua casa, fazendo um favor e recebendo uma ingratidão em troca, isolando-se um pouco nos seus aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda sósinha, dando-lhe a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como entendia que ella a picava no seu amor.
Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsiderações que a magoavam,
--sim, que havia ella de fazer n'uma casa sósinha com a filha?... e depois as despezas! ali não pagava aluguer de casa, nem criada, isto já não era pouco!--
Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o motivo e ella então contou-lhe:
--as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o pão tambem,