A Divorciada

Chapter 11

Chapter 113,671 wordsPublic domain

--E é sim, já se vê, que é; ai agora, é que a senhora as vai penar com aquelle carrasco... mas olhe que para si eu sou sempre a mesma... casas não me hão-de faltar, ainda outro dia a D. Amelinha Bastos me fallou, quando ahi esteve por occasião da morte do Snr. Jorge... ai que grande falta elle fez n'esta casa...

--Mas então com isso nada se remedeia!...--

Foi arranjar a caixa, veio entregar-lhe a chave,--se a queria ver--

--Oh, Joaquina que até me offendes com isso.--

O Alberto pagou-lhe pontualmente, despediu-a com um ar secco,

--Que estimava que fosse feliz.--

E viu-a partir seguida d'um gallego, que levava a caixa, respirando emfim por se ter desfeito d'aquella testemunha das suas humilhações, d'aquella columna de apoio em que ainda se encostava affectuosamente a alma de sua mulher.

Mas a Joaquina fóra, o eixo sobre que girava a _menagerie_ das cousas domesticas, havia-se partido: criadas inculcadas por adelas principiaram a succeder-se, uma indifferença por tudo quanto pertencia á casa, reclamando a sua liberdade dos Domingos, roubando escandalosamente nas compras, namorando ás tardes com os criados visinhos.

Ermelinda enfastiava-se d'estas pequenas minudencias de casa, confiara sempre na Joaquina e nunca se importara em dirigir a sua actividade n'esse sentido; e depois, agora que o tentava, que o seu instincto de _menagerie_ se despertava, que tinha de pensar na educação da sua Rosina, um grande desgosto a minava surdamente, enchendo de tedio todos os seus actos.

O pae e a criada que quasi lhe fôra mãe, tinham-n'a abandonado, ficara entregue ao poder d'um marido, que principiava a detestar, a reconhecer como um tyranno insupportavel, a desmascarar d'aquella falsa douradura, com que até ahi encobrira todos os egoismos e todas as infamias; o caracter d'elle ia-se desenhando com uma nitidez de contornos assustadora e a cada revelação d'aquella alma tão vil o seu espirito recolhia-se como que dentro d'uma armadura crystallina, onde apenas se queria ver isolada com o sentimento da maternidade, o unico já agora que lhe restava.

Mas faltava-lhe a base d'uma educação solida; não sabia ter a tenacidade da lucta, um grande sentimento doentio a quebrantava, chorava como uma suppliciada diante das mais pequenas difficuldades que surgiam, orvalhava com lagrimas constantes o rosto assetinado da sua Rosina. O instincto da mulher levantava-se ás vezes como uma boa flôr que nasce por entre a aridez das urzes, mas o Alberto tinha sarcasmos crueis para aquelle rejuvenescer d'uma alma nova, murchava com o sopro das suas grosserias aquellas subtilezas perfumadas, em que o seu coração se desentranhava, todo cheio de esperanças e de risos limpidos.

Vivia por isso desgostosa, um aborrecimento por tudo o que a cercava, repoltreada na sua _chaise-longue_, entregue á leitura d'um romance, deixando quasi sempre a direcção da casa confiada a uma creada que a illudia.

Gastava-se demasiado, o Alberto principiava a ter injurias insultantes,

--que não queria litteratas em casa, que era preciso uma California para sustentar aquelles esbanjamentos, que olhasse pela sua vida,--o dinheiro não se roubava.--

Ella replicava logo

--que o não estragasse elle lá por fóra,--para que tinha despedido a Joaquina, uma criada em quem se podia confiar!... só se queria que fosse ella varrer e cosinhar, não lhe faltava mais nada.--

Uma saraivada de insultos se trocava entre os dous; o Alberto sahia de casa para só voltar altas horas da noite, ella estancava-se em chorar, desgostosa por não ter um coração amigo, onde podesse entornar aquellas lagrimas que escaldavam o seu.

Foi n'uma situação d'estas que a D. Clementina a veio encontrar, n'uma visita á tarde,

--tinha ido ao Palacio, mas estava tanto vento, lembrara-se de vir passar com ella um bocadinho.

--agradecia-lh'o, estava tão só ultimamente.--

--e teu marido, menina, e teu marido?

Encolheu os hombros, as lagrimas a pullularem irrequietas por entre as palpebras.

A possuidora do Tótó farejava um escandalo, um segredo de familia, um drama intimo de que ella ia ser a unica espectadora talvez.

--E até estás mais magra, menina, crédo! parece que não vives muito feliz.--

--As felicidades, D. Clementina, são boas para quem as merece a Deus.--

--Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui é um poço--e apontava para o coração--as amigas não se fizeram para outro fim! Não sei se te lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me contou e eu... bôa... calada como um pêto... isso assim é de te matar lentamente; desafoga, menina, não ha mal que não tenha remedio.--

Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.--

--Não, não a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fôra sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.--

Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro; sentia-se alliviada, uma oppressão que lhe deixava desafogado o peito, mais forte com as consolações affectuosas d'um carinho, que desde muito ninguem tinha para com ella.--

--Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua indifferença por ella e até pela pequena, as revelações em que se patenteava a vilesa d'aquelle caracter;--

A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com muita curiosidade.

--Oh, filha, eras digna de melhor sorte.

--então, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?

--Eu sei cá, menina, vai tendo resignação, vai tendo paciencia; os homens ás vezes teem d'estes _rompantes_, mas passa, passa, quem sabe até se andará por ahi mal _encaminhado_.--

--Oh, D. Clementina nem me diga...

--Pois olha que não é outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu verás como sae certo, isso são favas contadas...

Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel, fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.

--Não era o primeiro, e depois olha _quem_!... se não se recordava d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de o saber--protestava com empenho--e conversariam depois, viria agora visital-a mais a miudo, até lhe levava a mal que a não tivesse chamado ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasiões.--

Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministração d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao arrepio, como uma bafagem quente de verão, que respiramos mas que reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensação extranha germinava dentro de si, crescendo com um grande vigor luxuriante, assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria e lhe cantava.

Tudo lhe perdoaria menos isso--

A sua vaidade de mulher formosa crispava-se em revoltas instinctivas, e a lembrança de que uma outra possuia aquelle homem, que ella rodeara dos perfumes calcinantes da sua paixão, batia-lhe a alma como uma onda tempestuosa de ciume, pungia-lhe o orgulho em humilhações amarguradas.--

--Era talvez até a essa infame que ella devia o seu infortunio,--agora estava explicado tudo.--

As palavras da D. Clementina tinham sido uma revelação,--fizera-se a luz diante d'aquelle desvendar d'illusões--

--oh não havia que duvidar--

E relacionava todos os seus dissabores, todas as irascibilidades, todas as suas questões com Alberto n'aquelle principio de causalidade, attribuindo-lhe a origem dos seus males, do seu viver infortunado e amargo.

--mas vingar-se-hia! seria generosa e sublime, teria d'ora em diante para com elle todos os carinhos, todas as delicadezas, todas as submissões; seria uma lucta travada no desconhecido, sem que elle podesse penetrar a causa d'aquelle seu redobrar d'affectos; roubal-o-ia a essa mulher funesta, conquistando-o ainda com a sua belleza, com a força do seu ciume, com a energia de todos os seus direitos de esposa e de amante.--

E sentia-se agitada d'uma vida nova, o coração alvoroçado, a alma fortalecida para aquella peleja, elevando-se aos proprios olhos pelo seu papel de heroina e de martyr, o orgulho de se não deixar vencer, a vaidade propria espicaçada.--

A D. Clementina voltou alguns dias depois.

--Altas novidades, menina, altas novidades.--

--então, dissesse, estava anciosa por saber--

--que lhe dizia ella?... era verdade, doia-lhe dar aquelle golpe, as cousas porém só se remedeiavam depois de sabidas,--

--já estava resignada, era a sua sorte--

--mas não valia a pena affligir; era a Annita, uma creatura á _toa_, aquella que ás vezes apparecia no S. João, sósinha n'uma frisa...

--São as peiores, D. Clementina, são funestas essas mulheres.

--e demais tinham-lhe dito que estava por conta d'um brazileiro, ainda lhe não sabia o nome, mas não descançaria em quanto o não soubesse.--

Expunha com muita verbosidade casos identicos, aconselhando pequeninos tramas, muito contente do seu papel confidencial, creando uns fóros de indispensabilidade no decorrer d'aquelle drama domestico.

--Fosse com ella o caso e veria.--

XIV

Por um d'esses phenomenos emotivos, de que só o capricho parece poder dar razão, quando se trata d'uma mulher, Annita, regalada na sua vida feliz, as ambições saciadas pela profusão aurea do commendador, principiou a sentir em si um grande tédio nostalgico, desde aquella noute, em que no S. João tinha visto o Alberto, o binoculo fito na sua frisa, curvando-se depois para segredar com Ermelinda.

Vinham-lhe as recordações alegres do seu passado, buliçosas de vida e de enthusiasmo, dominando na fluencia da sua luz as manchas escuras, que lhe tinham feito conhecer o travor de tantas lagrimas.

Ao ver o Alberto com aquella mulher, que lhe chamava seu, experimentava um pequeno ciume, uma como que irritação da sua vaidade, um obstaculo que se levantava á exigencia d'um seu capricho.

--Quizesse eu e veriamos--dizia para se consolar, uma grande confiança no seu poder de seducção, os labios contorcendo-se desdenhosamente.

--mas não, não queria--argumentava, buscando na sonoridade das negativas um ponto de apoio em que firmasse a sua vontade, que se ia quebrantando..--

--era o que lhe faltava! agora que estava como n'agua!...

Scismava um pouco,

--mas tambem o commendador era tão aborrecido!... Ás vezes dava-lhe vontade de o enviar ao diabo para que o aturasse--... e era galante, uma pequena perfidiasinha...,--

O Alberto principiou a perseguil-a; offerecia-se com um grande cynismo indigno, apparecia-lhe em toda a parte, passava vagarosamente recostado n'uma _victoria_ de praça por debaixo da sua janella.

Resistira-lhe muito tempo, mas--elle era teimoso, ella não o ignorava--e pouco a pouco amollecia n'aquella resistencia de vingança.

--Alem d'isso escrevia-lhe, protestava-lhe que não era feliz, que nunca mais tivera um momento de santa alegria desde que rompera as relações com ella...

--já o tinha desesperado bastante, o pobre rapaz,

sentia uma necessidade d'aquellas convivencias estroinas, que o commendador condemnava, com o seu ar pacato, o bom conselho d'uma prudencia moderada,--de que os excessos prejudicavam a saude--e além d'isso mordia-a a curiosidade de saber d'Alberto as intimidades da sua vida, das suas relações com aquella outra, por quem elle a havia trocado, que lhe chamava seu com tanta segurança.--

E quando á tarde o Alberto passou recostado nas almofadas da _victoria_ um sorriso lhe escapou dos labios, fugitivo como uma promessa de perdão, suave como uma esperança de paz.

Tiveram em seguida todas as palpitações quentes do romance; o Alberto vinha quando o commendador não estava, sahiam disfarçados para o campo, tinham as suas ceias no gabinete azul de mobilia estofada, quando a _criada_ despedia o brazileiro sob o pretexto d'um grande encommodo de cabeça, de que a menina fôra acommettida.

Annita achava tudo aquillo muito natural; partilhava o seu corpo entre os dous com uma rectidão segura de consciencia, como quem cumpre um dever de mercenaria e uma imposição do coração, espreguiçando a alma n'esta bonhomia deleitosa, contente por se ver rodeada d'um conforto, que tanto desejara.

O Alberto porém indignava-o aquella sociedade ignobil com o ouro do commendador; parecia-lhe pouco decente servir-se d'uma mulher que outrem sustentava, não porque elle achasse o facto indigno como um attentado contra um principio de honra, mas porque era realmente reles não poder sósinho sustentar todo aquelle luxo d'uma amante, ter de privar-se de certas liberdades, occultar-se timidamente como um estudante de dezoito annos.--

Meditava por isso um golpe de mestre; mordia-o a vileza das ambições de fortuna, e desejava ser rico dentro de pouco tempo, custasse o que custasse.--

Achava-se abjecto diante d'aquella secretaria, onde escrevia, quando no gabinete da thesouraria do Banco negociantes entravam e sahiam, ouvindo-se dentro o tilintar sonoro do ouro, os algarismos precipitando-se em accumulações estonteadoras.

--Tentou as falsificações d'umas lettras de cambio; a fortuna protegeu-o, ninguem deu por tal; a felicidade deu-lhe azas á audacia, procurou fazer a imitação d'uma firma que assignava uma lettra no valor d'alguns contos de reis.

Mas a direcção apercebeu-se a tempo; chamou-o ao gabinete.

--Estava despedido e não o mettiam n'uma cadeia por consideração para com a pobre senhora filha d'um collega.--

Empallideu. Nem podia dizer se era de raiva, se era de dor;--aquella despedida desbaratava todos os seus castellos doirados, sentia-se pusillanime diante da perspectiva da vida de tribulações que se abria na sua frente.

E quando chegou a casa, um forte abatimento o prostrava, quebrando-lhe toda a energia; annunciou a sua despedida ainda com um ar de ironia...

--Sabes, Lili, aquelles senhores do Banco, uns figurões _honrados_, despediram-me.--

--A ti!... perguntou surprehendida,--

--Sim, a mim, não lhes fazia lá conta; achavam-me demasiado tolo para comprehender as suas gentilezas...--

Ermelinda teve a boa coragem consoladora das mulheres dignas; parecia-lhe até que d'ora em diante o amaria mais, achar-se-ia com mais força para se sacrificar por elle e levantava-o na ara do seu coração por ter sido um homem honrado, que não quizera compartilhar as indignidades d'uns ladrões engravatados.

--Ora não te afflijas, seremos um pouco mais economicos, emquanto te não empregares de novo,--

Um enternecimento brando lhe dilatava a alma, acarinhando-o muito, beijando-o affectuosamente na fronte, a sua mão cofiando-lhe o cabello negro como que a excital-o corajosamente para as novas luctas, a palavra derramando-se untuosa como um balsamo por sobre aquelle golpe da adversidade.

Adormentava-o na dor, communicando-lhe a grande força da sua fé, conscia de que praticava formosamente um dever, o coração sentindo-se transbordar de sentimentos meigos e carinhosos, com que desejaria n'aquelle momento alastrar o chão da sua existencia, tornando-lh'a suave como um velludo.

Mas o Alberto achava-se ridiculo n'aquella posição; mordia-o cada vez mais a inveja de fortuna, tinha sêde d'uma vingança estrondosa, em que podesse abater o orgulho dos ricos que agora se affastavam d'elle; queria sobre tudo humilhar--aquelles pulhas do Banco.

Quasi o importunavam os extremos de carinho que sua mulher lhe dispensava, e na sua imaginação excitada por aquelle insuccesso levantavam-se novos castellos de Hespanha, jogaria forte, o ouro viria como uma grande torrente que o innundasse:

--faria um partida valente aos honrados burguezes, o commendador seria a primeira victima, tirar-lhe-ia definitivamente a Annita, installando-a n'um luxo de bom gosto, pompeando com a formosura d'ella por sobre a gula concupiscente dos pelintras, que adornavam a porta do Suisso.--

Á falta d'uma occupação que lhe gastasse o tempo pavoneava-se pelas mezas dos cafés, pelas esquinas das tabacarias, n'uma grande ociosidade vadia, commentando as pequenas intrigas de theatro, o escandalo ultimo, a marcha politica dos acontecimentos. E á noute a baeta verde chamava-o com fascinações irresistiveis; recolhia tarde, quasi sempre de madrugada, quando os lampeões principiavam a apagar-se, e que o movimento dos operarios começava ruidoso, o silvo agudo das fabricas vibrando atravez da neblina esfumada da manhã.--

Ermelinda esperava-o com mansa resignação,

--que lhe faziam mal aquellas noitadas, se não tinha pena d'ella que ficava tão sósinha,--que a Rosina tinha despertado duas vezes e perguntado pelo papá.--

Respondia-lhe com azedume, uma nortada rija,

--que o deixasse, não estava para a aturar.--

Cahiam-lhe no espirito aquellas palavras mansas e cordatas, queimando-o como um cauterio de dever, preferindo que ella tivesse aquellas resistencias asperas, aquelle tom acrimonioso das questões d'outr'ora. Julgava esta mansidão uma hypocrisia, um egoismo refalsado:

--Como não tinha o paesinho que lhe aquecesse as costas, era aquillo, tudo palavrinhas doces.--

E deitava-se brutamente fatigado, indifferente áquellas caricias que o provocavam, aos affagos da pequerrucha que vinha muitas vezes beijal-o com a alegria infantil das creanças, que despertam cedo.

Mas o jogo ia levando as economias de Ermelinda, o dinheiro escasseava, recorria-se um pouco ao credito; o Alberto protestava ressarcil-a de todas as perdas da occasião e pedia-lhe as joias com uma suavidade lamuriosa,--

--que tinha entrado n'umas transacções que lhe dariam um lucro certo, esperava obter um emprego com aquelle dinheirito--fazia muitos planos, um futuro delicioso em que ella e a filha tomavam a maior parte.

--Levasse-as, levasse-as, oxalá déssem o resultado que elle desejava.--

Mas as joias entravam logo n'uma caixa penhorista; o Alberto jogava o dinheiro, pagava ceias, levava vida folgada emquanto durava o producto da venda.

Uma madrugada em que de vespera tinha empenhado uma d'essas joias, entrou em casa ébrio, cambaleando, uma phraseologia de bordel cumprimentando Ermelinda.

Foi preciso que a creada, juntamente com ella, o viessem auxiliar ao subir da escada. Mas elle protestava--

--que não estava bebedo, apenas um poucochinho entrado--e pedia um beijo á criada, uma trigueira que parecia descender directamente do chimpanzé, de feições largas, rindo maliciosamente d'aquelle pittoresco Noemico.

E já no quarto, a palavra balbuciante, pedia a Ermelinda:

--que se lhe sentasse nos joelhos, haviam de fazer uma pirraça ao commendador, os dois estariam abraçados quando elle chegasse. Uma grande risada, estendia os braços tremulamente para a alcançar, fallando-lhe com uma alegria inconsciente.

--Sempre o mesmo demonio, esta _gatinha parda_, que viesse!... então... e a nossa filhinha, coitadinha da pequerrucha... que morreu--

e desatou a chorar, a embriaguez cahindo rapidamente n'um periodo comatoso, a palavra rareando, as phrases tartamudeadas.

Ermelinda sentiu uma pallidez branca invadir-lhe a face; revoltava-se de nojo perante aquelle homem, que via ébrio, patenteando na sua inconsciencia a alma lodacenta, que ella porfiava em regenerar, em attrahir para si.

--Oh, não, não era possivel, tudo estava acabado para ella.--

Mas ao mesmo tempo que se revoltava, sentia uma grande commiseração por aquelle desgraçado, uma vontade de se sacrificar para poder salval-o, um desejo sincero de perdoar, amando-o muito.

--Quem sabe, ás vezes qualquer cousa lhe podia fazer mal. Esgotemos o calix até ás fézes, tratemol-o bem, tem-se visto tantos exemplos...--

Armava-se com raciocinios pacientes, encadeando-os logicamente, tirando do seu coração de mulher energias com que resistir e vencer aquelle estado, que se lhe affigurava anormalmente transitorio.

O Alberto porém ia perdendo o respeito pela casa; repetia a miudo aquellas scenas de embriaguez, principiava a ser grosseiro, d'uma grosseria enodoada de taberna.

A sua paciencia de mulher esgotou-se, recalcitrou fortemente, impugnou-o com azedume.

--Até que emfim a _santinha_ arremessava a capa--respondeu-lhe com ironia.

--que não era santa, estava bem longe de o ser, mas que a paciencia tinha limites, um grosseiro, isto fazia desesperar,--

--que repetisse, que repetisse,--e crescia para ella, a face affogueada na congestão do alcool.

--Não era elle que fallava, tinha desculpa.--

--Ah, não, não era elle, pois tomasse lá--e esbofeteou-a precipitadamente, arremessando-a contra um movel, animalmente feroz, a colera faiscando no seu olhar injectado, toda a serenidade perdida.

--Era um inferno aquelle viver assim, infame!--

--Não o irritasse mais, se queria os ossos direitos.

--Não, aquillo assim não podia continuar.

--Quando quizesse, até lhe fazia um grande favor.

--Se o meu papá fosse vivo!...

--Assobia-lhe agora, dize-lhe que te venha ca valer.--

Ermelinda empallideceu; e logo uma onda de sangue a escaldou, uma indignação que a suffocava.--

--Demais a mais cobarde, a insultar um morto que lhe tinha feito bem; era revoltante!--os seus pensamentos atropellavam-se, como creanças inscientes de um perigo, que se acotovellam sobre a aresta d'um precipicio. Debruçava-se sobre a sua dôr intima e uma grande escuridão sombria, onde apenas lucillava humilde a estrella do seu amor de mãe, se estendia diante dos seus olhos.

--Era preferivel matar-se!--dizia.

Mas a imagem de Rosina levantava-se, como uma margarida branca a indicar-lhe a grande lucta da vida; e foi d'ali abraçar-se n'ella demoradamente, os olhos copiosos de lagrimas:

--Minha filha, minha pobre filha.--

* * * * *

Estas scenas continuavam; viviam mal, o Alberto, perdido uma vez o respeito por ella, usava d'uma violencia brutal pela mais leve questiuncula. Não queria que lhe exprobrassem o seu procedimento, e Ermelinda tinha muitas vezes de fechar-se no quarto com a filha para escapar á irritação da sua colera, do seu _mau vinho_. Um dia porém levou o insulto mais longe; foi o cumulo dos opprobrios para ella; trouxe-lhe a Annita, offereceu-lhe de jantar, fez com que Ermelinda a servisse, obrigando-a pela ameaça da força.

--Oh, era de mais, era de mais tambem--dizia amargurando-se, imbelle para romper com elle, para fazer valer os seus direitos, para se fazer ao menos respeitar dignamente.

--que lhe batésse, perdoava-lh'o já, mas apresentar-lhe aquella mulher em casa, obrigal-a a ser sua escrava, ver sobre o pescoço d'ella uma joia que fôra de sua mãe,--não, não podia resistir--

mas quebrava nas lagrimas a sua reacção corajosa, não sabia mesmo o que havia de fazer, causava-lhe medo o ver-se depois isolada, sem forças para luctar, sentindo-se fraca e impotente diante do mundo que ainda talvez a condemnasse.--

Emmagrecia rapidamente, a sua formosura emmurchecida pelos dissabores e soffrimentos physicos, umas olheiras roxas occupando metade da face.

--Sahiria, iria tomar conselho com alguem, queria desabafar, não podia mais!--

E procurou a D. Clementina; encontrou-a a brincar com o Tótó, muito folgada na sua vida de solteirona, as carnes cada vez mais dilatadas n'um contentamento de nutrição feliz.

--Oh, mulher, tu parece que vens do Repouso!

--Antes lá estivera, que não seria tão infeliz!

--Desabafa, menina, desabafa.--

--Oh, Pulcheria--chamou para a criada--leve a menina e dê-lhe biscoutos--era preciso ter cautella em fallar diante de creanças--dizia prudentemente.

--E então a Rosina que era tão viva.--

--Pois por isso mesmo; então menina, conta lá.--

Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as violencias de que era victima

--que visse,--e mostrava-lhe os braços com largas echymoses, como nodoas de tinta postas na tez assetinada.--

--Mas isso é um horror, filha, tu não pódes continuar a viver com esse monstro.

--E ainda aquillo não era nada, que fosse vendo, que fosse vendo--descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas apparecendo a macular a brancura da pelle.