A Divorciada

Chapter 10

Chapter 103,713 wordsPublic domain

--achava estupido que lhe distribuissem o papel de tyranno de comedia--tinha phrases irritantes, d'uma grosseria mal educada, que a pungiam na sua delicadeza.--

Concordavam apenas n'uma tregua de harmonia, quando tinham de sahir juntos, alguma visita, um ou outro passeio, qualquer pequena _soirée_ familiar... Ahi mesmo porém Ermelinda lacrimava-se com as suas intimas, aconselhava as solteiras a que não cazassem,--havia muitos espinhos que só a experiencia revelava.

E deposta a mascara com que se tinham afivellado para apparecer ao publico, a tregua rompia-se, um motivo futil os irritava, cada um querendo a superioridade da sua opinião, distanciando-se n'uma separação odiosa, enojados de se verem, de terem de se corresponder a cada momento.

Ermelinda principiou assim a ter uma aversão da toilette, do aceio; deixava-se ficar todo o dia com o penteador encardido da gordura dos cabellos, um desleixo de si, uma preguiça sentimental occupada em se lastimar.

--Não que valia a pena, realmente, estar a enfeitar-se para o senhor seu marido! nunca ella o tivera conhecido--

--e tambem era só para lhe _fazer a raiva_; só porque elle gostava de luxo, é que ella se não vestiria.--

O Alberto ás vezes sentia ainda desejos de reconciliação; a natureza impulsionava-o, uns fermentos da paixão, que o tinha attrahido para a formosura de Ermelinda, levedavam no seu coração d'homem, tornando-o bom, momentaneamente acaroavel. Vinha de fóra com tenções conciliativas,

--dar-lhe-ia um beijo, recordaria com ella as venturas formosas do passado--combinaria planos sobre o futuro da pequena--

mas via-a desleixada, ainda com a roupa da manhã, bocejando de tédio, desabafando n'um mau humor de contrariada com a sua presença.

Enojava-o aquillo;--

--fizera-se porca de mais a mais--e a creança andava mal limpa, a ama só tratava de comer bem e de dormir, deixando-a n'uma immundicie revoltante, os olhos remelados, o babeirito sujo.

--Era impossivel! não estava para se encommodar,--a mãe que olhasse por ella, se quizesse--

E comia, n'um mutismo obstinado, uma ou outra palavra rapidamente proferida, levantava-se ao _dessert_ sahia logo, ia tomar o seu café no Suisso.--

--Vê, papai, é isto e eu que o ature! não... tambem já é de mais... agora só lá para as duas da noite.

e vinha para o quarto lastimar-se, arremeçava-se sobre o leito, a cabeça occulta no travesseiro, lagrimas a desfiarem n'uma torrente impetuosa, levantando-se com os olhos injectados, muito abatida e quebrada.

O Jorge, o cotovello sobre a meza, com um ar de compassividade, via-a sahir abruptamente.

--Quem o havia de dizer, Joaquina.

--Eu sempre o prophetisei; aquella cara nunca me enganou; e sabe que mais? o remedio é cada um para seu lado; olha agora o pandilha! a menina assim cae ahi doente e depois o verás...

--Mas que vergonha, que vergonha!

Todas estas sensações desagradaveis se infiltravam no seu espirito, desmoronando-lhe a firmeza e claridade, como as aguas salitrosas que arruinam um bello edificio. Fallava pouco, um esquecimento de si mesmo em meditações prolongadas, a fixação d'uma ideia a absorver-lhe toda a actividade do pensamento. Os seus padecimentos aggravaram-se, tomava muitos remedios depauperando-se com dietas obrigadas; apparecia um achaque pelo mais ligeiro motivo, a cabeça que tinha dores nevralgicas, o estomago que depunha os alimentos quando a Joaquina apresentava um prato novo, o figado que se opilava á mais leve indisposição.

Andava hypocondriaco, tinha distracções imperdoaveis, os empregados do banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiseração, quando o viam errar a mais simples conta de sommar.

O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,

--Anda tão abatido o amigo Jorge!

--Vai-se andando, vai-se andando.

--Trate de si, homem.

--Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.

--Vão-se os anneis e fiquem os dedos, você me entende, hein... quem cá ficar que se arranje...

No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fusão.

--Quem cá ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais com a pequerrucha... _n'elle_ nem queria pensar... estavam servidas as pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas estavam tão mal, os primeiros passos errados haviam sido como um meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum bocadito... mas para isso só a _separação_ de pessoa e bens... uma vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.

Alheava-se n'estas considerações, um olhar espantado, d'uma tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o berço da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas á creança.

E a verdade é, que aquella familia se não desagregara talvez desde muito, porque tinha em Jorge um laço de cohesão, uma como columna a sustentar a estabilidade do edificio. Elle conheci-o; o Alberto respeitava-o um pouco, o seu interesse egoista a isso o obrigava,

--Mas se eu falto, se eu falto, que ha de ser de tudo isto?--

Esta ideia atravessava-o com uma tenacidade impertinente de verruma; impunha-se-lhe a todos os pensamentos, pesava sobre elle como uma grande avalanche precipitando-se no declive d'uma serra.

Era necessario tomar uma resolução definitiva:--não, assim aquillo não tinha geito.--

O Alberto não se emendava; sacudia com hypocrisia o jugo despotico da casa, ia conquistando pouco a pouco a sua liberdade sacrificada. Uma noute por outra não apparecia; e depois, quando no dia seguinte Ermelinda, com uma ejaculação represada de bilis, abria o capitulo das recriminações, elle ao sentir-se culpado, tomava uma attitude acriminosa, abafava com a sua voz trovejante as queixas d'ella, revestia-se d'uma pose sarcastica, a palavra secca de ironias,--se tinha medo a menina havia de comprar um cãosinho.--

E não conseguiam reconciliar-se, obstinadamente mudos um para com o outro, olhando-se odiosamente durante dous ou tres dias até que uma futilidade qualquer os ia abonançando, supportando-se então, a paz calma dos vulcões suspensos.--

Mas as hostilidades abriam-se por um motivo ligeiro; questinculas pequenas surgiam, contradicções oppondo-se teimosas, mutuamente.

--É o cão e o gato--dizia a Joaquina ao vel-os de novo n'uma discussão quasi sempre futil.--

Havia já despedido a ama. A creança principiava já a balbuciar as primeiras palavras, as suas pernitas roliças tinham as hesitações dos primeiros movimentos; o Jorge sentia dilatar-se d'um amor paternal ao ver a pequerrucha trepando-lhe pelas pernas, n'uma tenacidade em vencer aquellas columnas que se lhe afiguravam collossaes.

--Olha o diabrete, não chegas cá, ainda tens muito pão para comer.

A Rosina não desanimava porém, estendia o bracinho curto, queria apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a palavra--Avô,--chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho da sua pequenina vontade.

Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes abrem um sorriso ás suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes das suas phantasias de _baby_.

Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua vaidade de mulher e de mãe. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digestão, alegrando-se de ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras imaginaveis.

--Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto--e como ella inventava umas historias sem pés nem cabeça.--

A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os dous; esqueciam-se de si, a attenção convergindo para a filha, surprehendendo-se até de se verem agora tão amaveis, admirados de que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que até ahi os divorciavam em recriminações asperas e molestas.

Mas este periodo não se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda a pé; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.

--Bonito, não tinha duvida! Tres horas da manhã!... em casa tudo tinha andado em afflições, e o estroina lá por fóra... nas orgias... um bello comportamento de homem casado... o pae doente, tão mal, sem haver quem fosse chamar um medico... realmente...

Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma indifferença fingida áquelle assalto de palavras irritantes.

Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:

--Isto só no inferno, só a minha paciencia! Mas é de mais, todas as cousas teem um termo.--

--Pois é procural-o--respondeu bruscamente.

--Olé se hei-de, pois que pensava o meu menino!...--

E cantava ironicamente o diminutivo, o corpo saracoteando n'um movimento de rotação, uma attitude de escarneo provocante.

O Alberto avançou para ella, apertou-lhe os pulsos violentamente, os olhos injectados d'uma colera animal.

--Tu não penses que brincas comigo! e sacudiu-a fortemente, com uma rudesa aspera.--

Ermelinda encarou n'elle com um olhar profundo de desprezo e de colera por se sentir fraca; e depois o corpo enteiriçando-se, muito pallida, a voz com um timbre imperativo:

--Deixe-me, senhor.--

O Alberto largou-a, sahiu do quarto impetuosamente, os seus passos ouviam-se sonoramente no corredor emquanto ella atirando-se sobre o pequeno leito de Rosalina.

--Oh, minha filha, como ambas fomos infelizes.--

XIII

No quarto de Jorge a luz mortiça d'uma lampada derramava uns tons lividos em todos os objectos. A roupa da cama, um pouco em desalinho, enroscava-se em volta do corpo do doente, cuja cabeça esbatida n'uma côr macillenta, revellava soffrimentos graves, irremediaveis, o corpo levantando-se nas almofadas, arquejando em movimentos rapidos, d'uma dyspnea violenta. O braço descarnado, com a brancura da camisola a envolvel-o, procurava a pequena escarradeira de porcellana que Ermelinda lhe apresentava com um carinho muito affectuoso.

O commendador, sentado n'uma cadeira aos pés do leito, tinha uma attitude gravemente composta, d'uma embecilidade passiva em face d'um mal, que não podia remediar.

Pronunciava palavras de conforto, de espaço a espaço, uma grande oppressão d'aquelle meio taciturno, com volatilisações acres de mostarda e um cheiro de doença, que provinha da renovação incompleta do ar.

A Joaquina entrava de quando em quando, com uma taça de caldo na mão, os olhos avermelhando-se na fricção de lagrimas absorvidas na ponta do avental, e sempre esquecendo um objecto necessario, a colhér para remecher o caldo, o guardanapo para limpar os labios, o copo d'agua que se lhe havia pedido, uma perturbação de sentidos que a alienava, fazendo-a entregar disparatadamente um objecto em logar d'outro.

Pedia a Deus:

--que lhe valesse--e sahia a cochichar umas resas, seduzindo a divindade e a patrocinação dos bem-aventurados com a promessa d'umas velas de cera, d'umas missas pedidas, d'umas voltas de joelhos em que flagellasse a propria carne em de redor da capella do santo invocado...

O Dr. Roberto dissera confidencialmente ao Alberto:

--que não havia esperança, e depois, aquelle espirito estava n'um abatimento grave, algum desgosto profundo o havia prostrado.--

Estas palavras queimavam-lhe a alma; tinha vontade de entrar no quarto do sogro, pedir-lhe perdão, prometter que d'ali para o futuro seria sempre o leal amigo d'Ermelinda, que podia morrer descansado e confiando n'elle.

Mas o Jorge entrava sempre n'um paroxismo violento, quando a sua figura assomava á porta do quarto, rosnava umas palavras entrecortadas, que mal se entendiam e depois pedia a neta,

--que lhe trouxessem a Rosina, porque não estava ali á beira do avô.--

Abraçava a pequena, beijando-a com soffreguidão, os olhos avivando-se d'um brilho excitado,--

O commendador recommendava-lhe prudencia--

--que aquelles abalos lhe faziam até mal--e pedia a Ermelinda, que retirasse a creança, que era necessario presença d'espirito.

--e não chorasse, havia sempre esperança, emquanto havia vida.--

Ermelinda agradecia no seu intimo aquellas consolações, onde a sua fina perspicacia de mulher percebia um tremulo de amor e sinceridade!--Oh, quanto não seria mais feliz em ter desposado aquelle homem, que agora a ampararia, que a respeitaria sempre como um escravo, que teria por ella todas as attenções delicadas d'uma alma leal;--mas era irremediavel, estava unida ao outro!...

--_Ao outro_, que differença no confronto!... Sempre fôra bem creança em se apaixonar pelo que suppunha ser o romance da vida!... Oh, como estava arrependida.--

Vinham-lhe estas considerações, velando á cabeceira do leito, emquanto o Jorge, n'uma intermittencia calma, entregue a uma somnolencia de prostração, dormitava brandamente, o vigor alquebrando-se n'aquella madornice comatosa, como um fio de azeite que se escoa lentamente por um orificio aberto no fundo d'um vaso, e o Commendador e o Alberto, conversando baixo com o doutor, na saleta proxima, rumorejavam agouros funerarios.

O doente teve um momento de allivio; a respiração tornou-se-lhe calma, o rosto socegado deixou de se contorcer em contrações paroxisticas, a palavra, posto que branda, sahia com uma fluencia doce.

--Melhorzinho, ein--disse o commendador consolando-o.--

--Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.--

--Coragem é o que se quer.--

O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginação.

--Se não fossem ellas, commendador!--bem me importava a mim a morte.

--Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.--

--Não posso, quer que lhe diga, não posso, levo-as aqui atravessadas--e apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera lá collocado.--

--Mas então... se por fatalidade isso acontecesse, o que está muito longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar assim.--

O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se agitava; mas o seu egoismo, a confissão do seu infortunio, um quebranto de cobardia sopesavam-o com toda a força. Depois, abruptamente, como quem atira de si um fardo pesado:

--Oiça, commendador; eu sei que é meu amigo; Ermelinda é infeliz, ella... coitada, digna de tão boa sorte... e depois sabe... o banco... ai, não posso, não posso... e uma dor sobre o coração fel-o contorcer n'uma agonia violenta, a falta de ar reapparecia, a respiração agitava-se frequente.--

O commendador amparou-o, tinha palavras de consolação, d'uma sinceridade leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos seus braços.

--Eu velarei por ellas, descance, não tenho familia, serão a minha, amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...--

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da scintillação da vida, as mãos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fóra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

--Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu, é a sua filha, tem ali a sua netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

--Já te não ouve, Ermelinda.--

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos braços do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhação carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolações de affecto áquella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus braços, na mais critica das occasiões, quando o corpo do pae ainda quente lhe parecia lembrar na baça fixidez do seu olhar cadaverico, que velasse por ella, por aquella desgraçada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a familia do Mendes, a Amelinha Bastos; todas porfiavam em prestar os seus serviços, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de consolações banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos incidentes miudamente accumulados--

--que ainda ha pouco tempo andava tão bom.--

--um homem que parecia que vendia saude--dizia a apaixonada D. Gabriella--ai, se me lembro d'uma cousa assim.--

A D. Carola Mendes insinuava:

--que talvez algum desgosto,... os negocios iam tão maus; ella d'alguma cousa sabia, o seu marido dissera-l'ho confidencialmente.--

--pois desgosto houve e grande--confirmava a D. Gabriella--mas quanto a isso, D. Carola, talvez não, aqui era sempre do bom e do melhor...--

--Onde se tira e se não põe, minha cára amiga...

A D. Clementina aventurou outra hypothese:

--Não ia por alli o gato ás filhozes, a cousa era outra...--

Mas a D. Carola não se dava por vencida.

--Pois se o Mendes m'o disse, menina.--

--deixasse lá fallar os homens, elles ás vezes não eram dos primeiros que sabiam as cousas; que tambem--accrescentava--não dizia que não houvesse certos embaraços pecuniarios, porque luxo, louvado Deus, era o que se via, um desaforo...--

--Lá isso era verdade.--

--Mas aqui para nós a Ermelinda deu-me outro dia certas queixas; creio que o Jorge não vivia muito bem com o genro...--

--Isso até o mais cego o percebia--

--Vejam lá os _passetes_ que elle fez; aquillo era tudo impostura, mas olhe lá agora, lagrimas, viste-as, nem eu!...--

Seguiu-se por unanimidade esta ultima hypothese,

--que o Jorge morrera d'um grande desgosto motivado n'uma forte questão com o Alberto, que os dois se não podiam ver, que isso estava provado á evidencia--

--quem devia saber pormenores havia de ser o commendador--lembrou a D. Gabriella.--

--sim, o commendador, esse devia saber--concordou a D. Clementina affogueando-se d'um carminado serodio.--

--mas aquillo era caixa fechada, não se descosia com facilidade.--

--a questão era de saber tirar os nabos do pucaro sem a gente se escaldar.--

--e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de chamar-se d'ora em deante o commendador _Pucaro_.--

Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu forçadamente para fazer côro, mas lá no seu intimo mordia com ferocidade o _espirito_ d'aquellas pedantes,

--umas tolas, capazes de festejar o _pucaro_... se elle lhes acenasse com a sua riqueza.--

Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua immobilidade, o rosto lividamente esbatido na reflexão dos lumes de cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o braço esquerdo rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava as velas, com uma grande indifferença de _habitué_, fumando o mais voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o contemplava da sua cruz branca de marfim.

Um carro funebre parou á porta, um ruido surdo, de molas pesadas e lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases grosseiras em dialecto gallego.

Mas a Ermelinda ouviu-os; protestou, debateu-se nos braços d'Alberto.--

--que o não levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o via--e arremessada pela impetuosidade da sua dôr, entrou na camara ardente; os homens tiravam o chapéo que servira apenas ceremoniosamente e ella pôde ver ainda o cadaver, na sua lividez _mate_, um fio vermelho ao canto do labio, o nariz afilado.

--Meu pae--e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a presurosas, com um grande carinho affectado.--

A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...

--e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente áquelle caixão, cingir nos braços o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.

--Meu rico patrãosinho, ai, meu querido sr. Jorge, que nunca mais o torno a ver,--tão meu amiguinho era!--

E na dilatação expansiva da sua dor, a pobre mulher recordava inconveniente as scenas recolhidas do seu passado com elle, e a alma quebrada n'uma saudade dolorosa:

--Nunca mais, nunca mais, tudo acabou ali.--

O Alberto percebeu a violencia d'esta saudade; as palavras da Joaquina revelavam-lhe o que elle apenas desconfiara e com um cynismo revoltante:

--Vá lá para cima, Joaquina, era melhor que se lamentasse mais a sós; não lhe faltará quem o substitua.--

E com um desprezo para aquelle morto que sahia e por aquella mulher que ficava:--

--Que bonita sogra me não dava o sr. director!--realmente, oh moralidade dos bons paes de familia!

Accendeu um charuto; foi recostar-se n'uma poltrona da sala de visitas, onde alguns homens estavam para lhe fazer companhia.

Fóra ouvia-se o rodar abafado do carro funebre, e uma claridade luminosa, proveniente das tochas dos que o acompanhavam, penetrou atravez das janellas meio cerradas, derramando uns tons amarellados por sobre a sala.

Sugeitos batiam na escada entregando cartões de visita e o Alberto, com uma vaidade orgulhosa das suas relações, ia mostral-os a Ermelinda, um pouco com o fim de humilhar de inveja as suas amigas.--

--Um bilhete da Viscondessa de Romualdo para ti, menina--

--E outro do conselheiro Silva Monteiro.--

Ermelinda recebia-os com ar contristado.

--Coitados, são verdadeiros amigos!--e atirava-os para cima da meza, gloriosa dos brazões estampados, em que as amigas faziam uns minuciosos reparos.

* * * * *

Foi-se pouco a pouco esvaecendo a nuvem sombria d'aquelle drama de familia; os dias de nojo tinham passado e Alberto retomava as suas occupações no Banco; mas percebia que um certo desdem dos directores o envolvia, uma atmosphera de desconfiança, em que se não encontrava á sua vontade.

--Pulhas--dizia do alto da sua prosapia de imbecil--acham o osso um pouco roido! tenham paciencia... ainda tem muito que devorar!... mas não hão-de ser os unicos, eu lhes protesto; não, que não faltava mais nada.

E meditava um lance de mestre, a riqueza fascinava-o, uma sêde de vida ociosa e facil lhe acenava á imaginação ambiciosa.

--Agora de mais a mais estava livre do Jorge, livre d'uma vez para todo o sempre, não teria quem o estorvasse na sua marcha, era senhor seu, completamente seu, sem aquella peia que lhe vedava os passos.--

--Em casa mesmo tudo havia de correr d'outra maneira; até ali em qualquer questãosinha a mulher tinha logo apoio no pae, e depois a criada vinha tambem, uns grandes ares dominativos, d'uma familiaridade, que se respeitava; mas a cousa ia mudar de figura... a Joaquina ia pôl-a no andar da rua, o mais pequeno motivo, uma questão qualquer... desejava uma creada _chic_...--

Ia a si destruindo tudo o que podesse lembrar-lhe o dominio imperativo do Jorge; esta ideia desafogava-o, fazia-o dilatar d'uma grande satisfação intima, e um dia, que uma indisposição o azedou com Ermelinda, ao ver que a Joaquina vinha intervir, como de costume, levando-lhe o conforto das consolações.

--Quem lhe deu a Você liberdade de se metter onde não é chamada?--

--Oh, senhor Alberto.

--Já lhe disse, não quero em minha casa quem mande mais do que eu e se lhe não serve, procure, estou farto de a aturar.

--E eu ao senhor; é já, é fazer-me contas e a porta da rua é larga...

O Alberto cresceu para ella--

--Não me _fanfe_, ouviu.

--O senhor pensa que eu lhe tenho medo.--

Esbofeteou-a; o temperamento molle da Joaquina prorompeu n'um soluço comprimido, Ermelinda interveio, patrocinou a causa d'ella...

--Nem quero ouvir fallar de tal mulher, contas e rua, já...--e sahiu da sala, um ar embofado de D. Quixote--

--Cá a espero no escriptorio.

--Oh, minha rica senhora--e abraçaram-se as duas, uma effusão tumultuosa de lagrimas, um adeus á convivencia de dezoito annos,--

--Tem paciencia, Joaquina, eu hei-de fazer-te tudo que puder, mas que queres, tu bem o conheces--

--Ah que se não fosse a senhora e a menina!

--Então, mulher; olha, talvez a mais infeliz de todas seja eu...--