A Divorciada

Chapter 1

Chapter 13,623 wordsPublic domain

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1906.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, inclusivamente a peculiaridade de formatação dos diálogos que o autor adoptou. Foram corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Outras correcções, por termos considerado importante dar nota delas, foram assinaladas na versão html deste texto.

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COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--59.º volume

A DIVORCIADA

COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA

A

DIVORCIADA

POR

JOSÉ AUGUSTO VIEIRA

2.ª EDIÇÃO

1906 Parceria Antonio Maria Pereira LIVRARIA EDITORA E OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO Movidas a electricidade _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA

1906

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º andar_

LISBOA

_Ao Ex.mo Sr._

_Elyseu Xavier de Souza e Serpa_

OFFERECE E DEDICA

O AUCTOR.

A DIVORCIADA

I

Festejavam-se á noite em casa do brasileiro Mendes os dezenove annos da menina Adelaide.

Toda ella se affogueava nos contentamentos intimos de _rainha_ da festa, as faces carminando-se das exhuberancias humidas e quentes d'uma mocidade recatada e honesta, muito vaidosa do seu vestido novo, praguejando em frente do espelho, como um collegial estroina, contra aquella _moda_ de penteado, que lhe não deixava pôr em relevo as longas tranças castanhas, tão espessas, que a natureza lhe doara.

Tinham-se convidado apenas as filhas do Gomes, as Bastinhos, a Ermelinda Silva, filha do Jorge director d'um banco, e umas poucas mais, ex-companheiras de collegio, muito intimas, com quem se não fazia ceremonia.

Rapazes viriam tambem.

O Juca, sobrinho do Mendes, tinha-se encarregado de apresentar alguns amigos, e o brazileiro, muito popular nos estabelecimentos da Praça de D. Pedro, convidara alguns caixeiros--para irem beber um calice do fino, fazer uma saude á pequena.--

Era cedo ainda.

A grande meza de jantar, como um cetaceo brunido, estendia toda a elasticidade das suas articulações para sustentar no dorso viandas appeteciveis, carnes frias, podins gelados, os largos taboleiros de doce, as garrafas de crystal com opalinos vinhos do Porto e da Madeira. Ao centro um jarrão de porcellana, cheio de camelias encarnadas e brancas, dominava todo aquelle acampamento de coisas appetitosas, orgulhoso de si, como o general Boum no meio das amazonas da Grã-Duqueza.

Na sala de visitas a menina Adelaide collocava por suas proprias mãos heras e flores em volta das serpentinas.

O Mendes, em mangas de camisa, suando como outr'ora nas labutações dos seus armazens, dava ao piano uma collocação apropriada de modo a occupar o menor espaço possivel; depois vinha para o meio da sala, olhava-o na bruta admiração da sua grossa esthetica e via que ainda se podia chegar mais á parede.

--Ficava melhor, dizia.

Mas a filha, interrompendo o seu trabalho:

--que assim não estava bem, nem se ouviam os sons,--credo!--e, de mais, pouco espaço ficava para uma senhora poder tocar!--

O Mendes reconsiderou, cedendo um pouco da sua opinião, e em seguida foi auxiliar a filha a dispor as flores sobre as serpentinas.

Dentro, n'outra parte da habitação, a D. Carola, accomodava uma saleta para _toilette_ das senhoras, e o Juca, no seu quarto que serviria de sala de fumo, dispunha charutos deliciosos n'uma estatueta bronzeada, que fingia um escravo carregador.

Das oito para as nove horas os convidados principiaram a chegar.

Vieram primeiro as Bastinhos; traziam uns _bouquets_ muito elegantes, feitos no Loureiro; foram recebidas com beijos cantadinhos e com um:

--Oram vivam, do brazileiro.

Acompanhava-as o pae, ex-socio do Mendes,

--homem de peso, dizia-se na praça, e compadre do dono da casa.

--Como ia de saude, ein?--perguntou, n'um _shake hands_ expressivo, espalmando a larga mão, com uma grande cordealidade alegre.

--Uma faina, compadre, lhe não digo nada! me parece este dia aquelles em que estavamos nos trapiches do Rio, se lembra você?

E n'uma phonetica abrazilada, machucando a lingua patria, como se premissem canna d'assucar, os dous recordavam as suas amargas horas de trabalho, fatigantes mas productivas, que lhes davam agora uma tranquillidade modesta e sã, no meio da qual as suas carnes espapavam nas blandicias oleosas d'uma nutrição sadia.

--Se gosa tambem agora, deixe lá.

--Ah! se não fôra isso!

As meninas entretanto, tinham ido, abraçando a cintura de Adelaide, até ao quarto da toilette, conversando muito, umas interrogativas agglomeradas, de quem se não vê desde tempo.

--E de rapazes quem viria?--perguntava a mais nova das Bastos.

--Ah, olha que não sei verdadeiramente; quem os convidou foi o Juca e o papá.

--Virá o Alberto?

--Maliciosa! bem sabes que elle não faltaria.

--Como ouvi dizer que andava indifferente com teu primo.

--Ora, deixa lá! Ainda hontem o Juca me disse que tinha estado com elle no Suisso!

Tiraram os agasalhos, ageitaram as flores do penteado, viam-se ao espelho, muitas vezes, com uma grande vaidade de si proprias.

--Este penteado, tambem,--dizia a Amelia Bastos,--não me fica hoje direito.

--Oh, filha, pois a mim!--confirmava a Adelaide, parece que é praga.

--Isto de cabelleireiras, não vos digo nada! são todas a mesma cousa, não tem geito nenhum,--umas imbecis.--

E ambas acotovellando-se para apanhar a maior porção da lamina reflectora, pregavam ganchos no penteado, com um estalido secco, de tic nervoso, e quando o espelho não reflectia a perfeição do typo imaginado, irritavam-se procurando outros ganchos na pequena concha de madreperola, com adornos de filigrana, que pousava sobre o marmore do toucador.

Entretanto a campainha tocando successivamente, annunciava a entrada de novos convidados.

--Quem será? perguntou a Bastinhos.

--Esperai que eu volto já, disse-lhes a Adelaide.

--Não, não, vamos comtigo.--

Empoaram-se ainda uma vez com a pluma _de poudre de riz_ e depois desceram todas; tinham entrado o Jorge, director do banco, e Ermelinda, a filha.

Adelaide encarregou-se d'esta; deixou as Bastinhos na sala, com a mamã; quando voltaram, ellas vieram cumprimentar Ermelinda, depondo-lhe beijos miudinhos nas faces d'um moreno pallido.

Ás dez horas não faltava ninguem.

O Mendes com grandes sorrisos d'alegria satisfeita, movia-se em todas as direcções, muito cumprimentador e prasenteiro, dizendo graças affectuosas a cada conviva.

As senhoras, sentadas em volta da sala, nostalgicas, como larvas em metamorphose, conversavam baixo, timidamente, sobre motivos da _ultima moda_. Algumas fallavam dos ultimos passeios á Cordoaria e Palacio, das scenas de namoro, colhidas aqui e ali, nas maliciosas besbilhotices d'amizade; soltavam pequenas risadinhas, abafadas nos brancos lenços de cambraia, amarfanhando-os muito entre as mãos.

Os rapazes encostavam-se envergonhadamente ás hombreiras das portas, ou fallavam dentro na sala do fumo, com uma vozearia de praça. Os seus olhos, acesos d'uma curiosidade concupiscente, tomavam a direcção dos elegantes collos brancos, que sahiam das toilettes mais decotadas.

Só um d'entre elles, mais ousado, com uns ares de _lion ganté_, abanando com o seu chapeu de pasta o peitilho, onde o collete branco muito aberto deixava vêr uma camisa folheada, com botões de coral, passeava na sala, sorrindo-se com amabilidade olympica para as damas conhecidas e fitando o monoculo d'uma sobranceria atrevida, sobre as carnações frescas e sensuaes das elegancias femenis.

Os rapazes invejavam surdamente aquella naturalidade e garbo simples de porte.

--Aquillo é que é um _menino_!--exprimiam dous caixeiros, n'uma metaphora admirativa e ciosa.

--E então? fazia elle muito bem... que andasse d'ahi, iriam dar um gyro... egualmente!--convidava um d'elles todo almiscarado, com a risca do idiotismo ao meio da cabeça e o cabello frisado, n'umas ondeações luzentes de bandolina.

E os dous fingindo-se interessados n'uma conversa importante que lhes disfarçasse o acanhamento tosco, aventuraram-se a um passeio pela sala, sentindo-se logo invadir d'um rubor de face ao perceberem os olhares das senhoras, que se riam baixinho das suas grossas mãos entaladas n'umas gritadoras luvas amarellas.

As meninas tinham o mesmo syncretismo dos caixeiros; admiravam a elegancia do Alberto, achando esbelta a figura, o penteado, a maneira de trazer a camelia, a curva artistica do bigode. As mais curiosas examinavam furtivamente os berloques do relogio, procurando surprehender alguma _bijouterie_ symbolica de coisas de namoro. A Ermelinda primava entre todas n'essa muda contemplação extactica.

As Bastinhos leram no seu olhar e cochicharam logo:

--Queres tu ver que a temos _tramada_! repara na Ermelinda como se derrete a admirar o Alberto.

--Forte tola! Deixa que a não hei-de perder de vista, Amelinha!

O Mendes entrou porém na sala; um sorriso de bonhomia, despido de etiquetas lhe pairava nos labios.

--Vamos, minhas senhoras, vae-se dançar alguma cousa para matar o tempo, ein! Que ha-de ser, ó Adelaide?

--Uma quadrilha, papá!

--Seja, eu chamo o tocador! tirem pares, tirem pares--disse passando entre o grupo dos homens.

D'ali a instantes um d'estes artistas obscuros, na gala festiva do seu casaco preto roçado pelo uso, sentava-se ao piano e preludiava uma quadrilha.

Os homens vinham entrando de vagar, tomavam pares, animavam a sala de grupos. Começava a levantar-se um pó fino, que excitava as tosses.

O Alberto dançou com Ermelinda.

--Olha, não te dizia eu!--murmurou a Bastos para uma visinha.

A musica de Angot elevava-se sonoramente do teclado; a quadrilha começou.

As senhoras velhas deslocavam-se para conversar, agrupando-se em volta da dona da casa; algumas meninas que não tinham dançado, levantavam-se com grande despeito e tomavam o caminho da _toilette_, onde iam empoar-se; outras porém reuniam-se, vingando-se da descortezia da sorte, em aguçar as linguas rosadas e viperinas n'uma analysesinha burlesca dos pares que dançavam; tinham um vivo prazer sobretudo em _pôr nomes_, em chamar a um _pé de cabra_, a outro o _alho vivo_, áquelle que dançava mais pesadamente o _pataco gordo_, rindo muito, umas gargalhadinhas abafadas, que chamavam a attenção dos pares.

Entretanto o Alberto tinha phrases d'um effeito romanesco, com que melodisava os ouvidos da filha do director do banco; inclinava-se com profundas reverencias nas diversas evoluções da quadrilha e depois, quando erguia a cabeça, os seus olhos envolviam largamente, com magestade, os olhos de Ermelinda, que recebia esse fluido penetrante, fazendo purpurear o rosto por um phenomeno reflexo, que a physiologia não sabe ainda bem explicar, quando se trata de mulheres que namoram. Quando os outros pares dançavam, Alberto um pouco mais alto de estatura, abaixava-se para ella, murmurando phrases d'um sentimentalismo de Antony, que ouvira muitas vezes no theatro.

--Creia vossencia, dizia, que só um coração de gelo poderia deixar de impressionar-se ante a fulguração d'um olhar d'esses.

--Lisongeiro!

--Lisongeiro, eu, minha senhora? Como a infelicidade me bafeja todas as vezes que pronuncio uma verdade!

A sua voz arrastava-se n'uma tonalidade sentida; dir-se-hia que as lagrimas iam a rebentar d'aquelles olhos baços das orgias, em face d'uma grande concentração d'affecto.

Ermelinda olhava-o distrahidamente e gostava de se adormecer ao som d'aquellas palavras, docemente proferidas, que poucos homens lhe tinham dito com tanto _sentimento_!

A quadrilha terminou; os rapazes mais cheios de familiaridade, conversavam com as senhoras; mas dentro o Juca esperava-os com deliciosos charutos--que não podiam perder-se.

--E d'ahi um calice de Madeira, offerecia o Mendes, nós cá não temos ceremonias, ein! são boas ellas para a missa, entendeu você, sôr Alberto?

Agrupavam-se em volta da mesa; os liquidos, como n'um apparelho hydrostatico, desciam de nivel nas garrafas para subirem nos estomagos. Os caixeiros esvasiavam calices com uma soffreguidão mal educada--de quem apanhava d'aquelle poucas vezes.

A senhora do Mendes examinava com cuidado, curvando-se, as bandejas do chá e dos dôces que iam servir-se ás senhoras; dispunha as garrafas de crystal em salvas de prata e distribuia aos creados as ramificações d'aquelle serviço. Depois voltando-se para o sobrinho:

--Juca, vae servir as senhoras, avia-te!

O Alberto n'este momento enchugava os labios do sexto calice que havia esvasiado; offereceu-se para acompanhar o seu amigo--n'aquella agradavel incumbencia--dizia.

--Pois não, era até um obsequio--e agradeceu-lhe com um sorriso a sua amabilidade.

Na sala tinha uns modos finamente elegantes de offerecer um calice de vinho, que não havia recusar-lhe.

--Este Alberto, diziam as senhoras, sempre tem uma apresentação tão distincta!...

Junto d'Ermelinda deteve-se alguns minutos mais.

--Ah! ella não queria beber; e vinho perturbava-a um pouco, mas visto que elle insistia, ia fazer-lhe a vontade--e levou o calice aos seus vermelhos labios, que apenas se embeberam no liquido doirado pousando-o logo.

No quarto do Juca os rapazes, tomando posições commodas, estirados uns sobre o sophá, cavalgados outros sobre as cadeiras, discutiam n'uma nuvem de fumo e de grosserias os _bons bocados_, que estavam na sala e faziam commentarios, indecentemente libidinosos, que provocavam cheias gargalhadas.

Nos seus olhos faiscava um pouco a scintillação do Porto e do Madeira. Depois a conversação recahiu sobre o Alberto, o heroe da noite; os menos favorecidos plastica e estheticamente proromperam logo com muito azedume:

--Afinal quem era elle, de que vivia, de que se sustentava?

--Ninguem o sabia--era um vadio, não havia que duvidar.

Mas o Jeronymo, com um sorriso significativo de finura, aprumando-se para os outros, como quem tinha o segredo do enigma:

--Sabem vocês onde mora a mulher do commendador Bernardo?

--De qual? perguntaram logo muitas vozes.

--D'aquelle... d'oculos, que está sempre á porta do Guimarães.

--Ah! logo se via... só assim!... ou então calotes em cada esquina.

Entraram logo em minuciosidades da sua vida; as informações foram apparecendo; disia-se que tinha dividas no alfaiate, no sapateiro e até no Central, onde já nem de jantar lhe queriam dar.

Mas a presença de Alberto veio pôr termo a estas murmurações; a conversação mudou de rumo, até que o piano preludiou uma walsa.

--Era irresistivel, não podia perder-se--e tomaram a direcção da sala, onde as meninas os esperavam, com os bellos olhos humidos dos ardores choreographicos, anehelando os braços d'elles, a que sonhavam encostar-se, como sylphides vaporosas, arrastadas na vertigem.

Incontestavelmente as honras da walsa pertenceram a Alberto e a Ermelinda.

--Se não fosse o par que ella tinha, veriamos--protestavam muitas, n'um tom mordente d'inveja, que as irritava como picadas d'alfinetes.

--Boa, pois olha, das outras vezes!

--Logo eu então, sempre tive um par!

--Ai! menina, nem me falles, o meu, esse parecia de chumbo!.. e sempre a parar, crédo!...

Lamentavam-se muito da sorte, que as destinara a enlaçar os seus braços nos d'um par sem elegancia e pessimo walsista--mas para outra vez, já os conheciam--affirmavam.

--Depois, sem animação, mesmo uns tumbas, não sei que gente escolhe este Mendes.

Proximo d'Ermelinda o Alberto tinha já grandes intimidades, que se estavam tornando a pedra d'escandalo das meninas, que não possuiam essa mesma pedra. A filha do director acolhia por detraz do seu leque as phrases incendiarias do seu par, e sorria ao sentir em volta dos ouvidos a musica monotonamente harmoniosa da borboleta vadia da paixão. No seu intimo duas sensações subjectivas confluiam a dar-lhe um goso inestimavel de felicidade--esmagar a vaidade das outras e elevar a propria, sentindo-se preferida.

E emquanto o Alberto cinzelava n'uma linguagem fluente as phrases da sua _declaração_, ella muito feliz por ter arranjado _namoro_, pensava já na inveja que as outras lhe teriam quando elle passasse debaixo da sua janella, nas cartas que lhe escreveria, no portador d'ellas, se seria de tarde ou á noute que elle viria, como illudiria a vigilancia do papá, e em mil outras futilidades, que fluctuavam indecisas na sua imaginação, como o pollen das flôres no céo azul de maio.

As Bastos e a Adelaide Mendes murmuravam:

--Parece que o namoro sempre _péga_!

--Aquillo é pau para toda a obra.

--Só queria saber quantos namoros ella já terá tido.

--Quatro lhe conheci eu.

--N'esse caso não admiro que arranje mais um!

Uma solteirona que veio para o grupo, a D. Clementina do Rosario, disse sarcasticamente:

--Aquillo são inclinações, meninas! Tambem ha homens, que sempre gostam de cada delambida! nem que não houvesse mais mulheres no mundo! Ora reparem que collo aquelle, uma esganiçada!...--e protestava n'umas excursões thoracicas, expansivas e rijas, em que os seios fartos se elevavam n'uma curva ampla e rasgada.

Entretanto o pae de Ermelinda jogava pacificamente o _solo_ com o Bastos e o commendador Faria; o Mendes acercou-se da mesa.

--Então no _rico_, ein, commendador?

--Verá como este se vai tambem; pois olhe que é dos firmes; mas um _caiporismo_ assim, nunca eu vi!

O Jorge interrompeu depois de examinar as suas cartas:

--Bólo.

--Não lhe dizia eu, sôr Mendes!...

O Bastos que era o _pé_, disse para o commendador:

--Jogue bem, parceiro, que elle o tem _furado_, essa lhe affianço eu!

Jogaram com muito silencio; mas o commendador estava realmente infeliz; logo á terceira cartada os olhos de Jorge, que era o _feito_, encheram-se da cubiçosa alegria das _remissas_; á quinta cartada mostrou o jogo.

O Bastos teve vontade de chamar burro ao commendador.

--Esta se não fazia, ein!--disse exaltado.

--Mas que lhe digo eu, estou caipora, não ha que vêr.

O Jorge, fatigado, pediu substituto--era preciso tambem cavaquear um pouco--e affagando a sua honesta suissa burgueza, veio até á porta da sala observar o aspecto que offerecia.

O commendador, á meza do jogo, dizia entretanto:

--Tem uma filha bem sympathica este Jorge!

--Nem por isso, acudiram logo os dous que viam n'elle um candidato ás suas Adelaide ou Amelia.

--Peza pouco, continuou o Bastos.

--Me dizem que ainda tem os seus cinco contos! defendeu o commendador.

--E que é isso! fez n'um gesto despresivel o Bastos.

Avistando a Ermelinda e vendo a seu lado aquelle rapaz, o Jorge pensou logo n'um casamento, n'um bom partido. Foi colher informações.

--Um peralvilho, ein, só d'isto é que lhe apparecia--e irritado chamou a filha, dizendo-lhe--que iam sendo horas.

--Já, papai!

--E não era cedo!--accrescentou com uma tonalidade brusca na voz, que a Ermelinda percebeu logo.

N'este momento o piano tocava uns lanceiros. O commendador Faria approximou-se.

--Então por aqui, commendador!--perguntou o Jorge.

--É verdade, estava um caipora! Eram dias... vinha então um pouco desentorpecer as pernas.

--Quer dizer que dança?

--É verdade, e se a senhora sua filha me concede essa honra.

--Pois não! oh! Ermelinda--disse o Jorge lisongeado--dansa estes lanceiros aqui com o snr. commendador Faria.

A joven olhou o Alberto, mordeu os beiços com o azedume de quem desejaria despedir um massador que se tem de supportar, e collocou-se no grupo respectivo.

As outras meninas viram que até o commendador dançara com Ermelinda, facto de provocar as attenções, porque o Faria quasi nunca dançava.

A D. Clementina do Rosario, abafando um ciume outomniço, disse para Adelaide:

--Só faltava mais esta!

--Não, a minha casa não torna ella n'uma occasião assim.

--É o que devias já ter feito, menina.

Entretanto o commendador sentia-se barbaramente atrapalhado nas evoluções dos lanceiros; a Ermelinda quasi tinha vergonha. Mas em compensação o commendador fallava de muitas riquezas, de muitas acções, e ella era filha d'um director de banco!

Na grossa mão do brazileiro um brilhante coruscava scintillações luminosas, quando os raios de luz vinham ferir a sua face. Ermelinda sentia uma especie de fascinação.--

--O que lhe faltava senão a riqueza--pensava--e olhando menos asperamente o commendador, animava-o com um olhar, como se anima um molosso fiel e intelligente. De repente porém os seus olhos batiam nos olhos de Alberto; esquecia o seu par e sorria-lhe. Comparava-os muito ligeiramente, muito frivolamente. O Alberto era d'uma estatura elevada, elegante, sympathica; o commendador era grosso e baixo, como um tronco de oliveira, os seus pés assentavam no chão como as pesadas plantas d'um pachyderme, a sua mão tinha os relevos pesados d'uma massa de gymnastica.

--Ora, sempre tenho cada ideia--pensava--isto tem lá comparação!

Os lanceiros terminaram, com grande magoa do commendador--que tinha achado muito agradaveis aquelles momentos--dizia--. Ermelinda sorriu-se.

Fez-se então um grande silencio na sala; correu a voz de que o Alberto a pedido de varias senhoras ia recitar uma poesia.

Os homens amontoaram-se logo uns sobre os outros, nas entradas da sala, ávidos de sensações lyricas. As senhoras, tomando um ar admirativo e profundo, mal agitavam os seus labios, ciciando phrases curtas, cheias de enternecimentos.

O teclado principiou a gemer uma melopeia vaga, muito triste, como a voz funerea de cyprestes nas aleas d'um cemiterio. O Alberto, tomando uma _pose_ impertigada, ao lado do piano, começou a recitar, n'uma cadencia monotona, o «Noivado do sepulchro» de Soares de Passos. A formosa balada, estafada como uma cortezã viciosa, que apesar de tudo conserva a sua belleza ossianica, soava lugubremente, aos ouvidos d'um publico recolhido, que admirava o recitador mais ainda que a producção do poeta.

O Alberto tinha gestos tetricos, adequados ás condições do verso; as senhoras, ao vel-o, quasi pensavam vêr o phantasma da balada, arrastando o branco sudario por entre as lousas do cemiterio. Ermelinda estava commovida, extactica, absorta, e quando o Alberto terminou,

--_Dous esqueletos um ao outro unidos_ _foram achados n'um sepulchro só!..._

ella sentiu o olhar d'elle acaricial-a, como n'um beijo gelido de morte, promettendo-lhe um amor assim, immenso, eterno, até mesmo além da campa.

Uma salva de palmas acolheu a ultima estrophe da poesia. Alberto agradeceu, com cortesias reverentes, de modestia affectada.

Então o Jorge veio dizer á filha que se preparasse.

--Não importa--pensou--assim como assim já marcamos a hora.--E foi despedir-se da Adelaide, das Bastinhos, da D. Clementina. Ao passar por Alberto disse-lhe tambem--Adeus.

--Já!

--O papá assim o determinava.

--Que tyrannia!

Subiu á toilette para cobrir a capa de noite, e quando desceu, o Alberto estava proximo da escada; sorriu-se ainda, trocaram um ultimo olhar.

Ele dansou uma vez mais; foi com a Adelaide, uma walsa, que os fatigou muito. A filha do Mendes fez allusões aos seus novos amores, deu-lhe os parabens--elle, que não, que nada havia!--era uma menina muito sympathica de certo, mas o seu coração estava morto desde muito.

--E quer que lh'o ressuscitem, talvez?

--Respondeu que das cinzas não podia nascer a vida, que a paixão já não podia incendiar o gelo,--mil banalidades cheias de sentimentalismo, muito estafadas pelo uso, que elle conservava todavia no seu cerebro, como se conservam as coisas pathologicas nos frascos d'alcool.

A Adelaide escutava-o e sorria-se; lá bem no seu intimo achava-o tolo, mas a educação impunha-lhe o dever da admiração, e a sua voz, se algum dia se levantasse para dar uma opinião ácerca de Alberto, diria que era um rapaz elegante, fallando muito bem, com muito _sentimento_.