A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 9

Chapter 93,474 wordsPublic domain

Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas estranhos--isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo--apaga n'elle toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espirito--porque as suas idéas forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão tristemente falla o povo--«que cabem bem na roupa de toda a gente».

Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de _não sermos nós mesmos_, de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel--sêr que rola através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta _escroquerie_.

E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de pronunciar _Viva la Gracia!_ e _Benditos sean tus ojos!_ exactissimamente como se vivesse a uma esquina da _Puerta del Sol_, com uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir--a faculdade de exprimir emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com perfeição o pão e o queijo--em sueco, hollandez, grego, bulgaro e polaco.

E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo, estas necessidades vitaes d'estomago e alma--o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos--que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional vernaculo de _ovos_. Para ella _huevos_, _oeufs_, _eggs_, _das ei_, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos--esta expedita senhora reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava _ki-ki-ri-ki!_ _kó-kó-ri-ki!_ _kó-ró-kó-kó!_ Nunca, em cidade ou região intelligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos--e superiormente frescos!

Beijo as suas mãos, benevola amiga--Fradique.

V

A GUERRA JUNQUEIRO

Paris, maio.

_Meu caro amigo._--A sua carta transborda de illusão poetica. Suppôr, como V. candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres, se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião--a uma religião que consista apenas n'uma Moral apoiada n'uma Fé--é ter da Religião, da sua essencia e do seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desapparece--porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia--oh incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um bordão, e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as arêas d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos por um aro d'ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capellães da humanidade,--e cada um d'elles está, por esta quente alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria», as hervas aromaticas que dão o _Sômma_; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mãos ao céo, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra--Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que póde encher de ruina e dôr o coração do Arya, sorvendo a agua das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando Septa-Sindhou mais esteril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados, a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo rural e pastoral.

Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica--nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para que Indra o attenda--uma vez que, pela experiencia de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho candido, lhe erguerem canticos dôces, lhe offertarem libações, lhe amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libações, sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do _Sômma_, o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus--e será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara os passos.

Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões, que todas por instincto repetem--e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude, da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço proprio, pede esses bens á hygiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus _ajude_ o seu esforço.

O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o proprio _Flamen Dialis_, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos moraes que compõe a Religião,--elle sorrirá, sem o comprehender. E responderá que a Religião consiste em _paces deorum quaerere_, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses. Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou seducção. E n'esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo--influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lançado á direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra a patria--porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice deixára perder um grão de cinza da ara--ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que commettiam um erro no sacrificio--fosse elle tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na _Velhice do Padre Eterno_, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do _Tuliano_.

E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos philosophicos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio--flôres pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observancias materiaes:--e todavia nunca houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das escólas e dos mosteiros--onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:--mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto _agradava a Deus_, _servia a Deus_, só por cumprir os dez mandamentos, fóra de toda a pratica e de toda a observancia ritual. E só decorou mesmo esses _Dez Mandamentos_, e as _Obras de Misericordia_, e os outros preceitos moraes do Catechismo, pela idéa de que esses versiculos, _recitados com os labios_, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a bemquerença e os favores do Senhor. Para _servir a Deus_, que é o meio _de agradar a Deus_, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus,--isto é, se alcançam d'elle os dons inestimaveis da saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediencia á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da _justiça_ de Deus, mas da _graça_ de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos--a missa, o jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a offerta, a promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Anciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e toda a Liturgia--o catholico immediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visivel, e que não lhe offerece os meios simples e tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida--Deus volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões em ritos, ceremonias, praticas--a mais conhecida das quaes é o _moinho de rezar_. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o _moinho de café_: em todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as orações escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. Ao contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa--e portanto mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regiões naturaes que são a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a face com o seu Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem transitorio que está na terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais elle se materialisa--mais ella na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». Mas para isso é necessario que venha o Millenio--em que cada cavador de enxada seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel chegar, e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica, intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande inspiração d'artista fez da costella de Adão,--haverá sempre ao lado d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilegio d'uma _élite_ espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã, mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realisar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem sahido da turba, que não seja um philosopho, ou um moralista, ou um mystico, o que é Religião. O inglez dirá:--«É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:--«É fazer _poojah_ todos os dias e dar o tributo ao _Mahadeo_». O africano dirá:--«É offerecer ao _Mulungú_ a sua ração de farinha e oleo». O Minhoto dirá:--«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira, commungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como sêres religiosos, está todo em communicar com Deus; e esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de civilisação e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes fornecem. _Voilà!_ Para V. está claro, e para outros espiritos de eleição, a Religião é outra coisa--como já era outra coisa em Athenas para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Socrates e de Senecas--bem felizmente para ellas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquillamente--«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:--«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo escravo era um _post-scriptum_.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu coração. Amigo do dito--Fradique.

VI

A RAMALHO ORTIGÃO

Paris, abril.

_Querido Ramalho._--No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no café da Paz!»

Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café da Paz, Centro catita do _Snobismo_ internacional, lá me installo, com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba baça e molle do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura. Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde, que abandonára á pressa uma sobremesa alegre _pour voir ce grand Ortigan_! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho, nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo, esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já desilludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na mão com respeito, quasi com religião, um soberbo ramo de cravos amarellos. É um homem d'além dos mares, da Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo--que o retem e apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada n'uma lamina de machado, d'uma côr acobreada de chapéo côco inglez, onde a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada, ao contrario, avança como o esporão d'uma galera por entre as pontas quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa perola.