A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 8

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Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação--_Paris, Julho_; _Lisboa, Fevereiro_... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano--_Paris, Floreal_; _Londres, Nivoze_. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucolica data--_Florença, primeiras violetas_ (o que indica fins de fevereiro); _Londres, chegada dos Chrysanthemos_ (o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data atroz--Lisboa, _primeiros fluxos da verborreia parlamentar!_ (Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos compendios).

Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um _auctor_ e que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a _personalidade_--o conjunto de idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.

Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste--_c'est son genie qui mousse_. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.

Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que tanto amei--eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nação só vive porque pensa. _Cogitat ergo est._ A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser glorificada na Historia--como rijos musculos n'um corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente educassem o mundo--nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Fórmas.

Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades--onde os palacios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade--e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de homens--Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres, Gounod, Massenet--que pela incessante produccão do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as _Origens do Christianismo_, o _Fausto_, as telas de Bonnat, os marmores de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental Chicago--para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o sol, os espiritos e os corações da Terra.

Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;--e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castello.

Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de Quental:--«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das _Odes Modernas_, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O mestre da _Historia de França_ com isto significava--que emquanto viver pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio Politico:--mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da phantasia, do humorismo e do gosto...

Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso eu o revelo aos meus concidadãos--como uma consolação e uma esperança.

AS CARTAS

I

AO VISCONDE DE A.-T.

Londres, maio.

_Meu caro patricio._--Só hontem á noite, tarde, ao recolher do campo, encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á minha experiencia--«qual é o melhor alfaiate de Londres». Depende isso inteiramente do fim para que V. necessita esse Artista. Se pretende meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto, então recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. São tantos passos que forra--e, como diz o _Ecclesiastes_, cada passo encurta a distancia da sepultura.

Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe dê consideração e valor no seu mundo; que V. possa citar com orgulho, á porta da Havaneza, rodando lentamente para mostrar o córte ondeado e fino da cinta; que o habilite a mencionar os Lords que lá encontrou, escolhendo d'alto, com ponta da bengala, cheviotes para blusas de caça; e que lhe sirva mais tarde, na velhice, á hora gêba do rheumatismo, como recordação consoladora de elegancias moças--então com ardente instancia lhe aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é da mais extremada moda, absolutamente ruinoso, e falha tudo.

Para subsequentes conselhos de «fornecedores», em Londres ou outros pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato serviço--Fradique Mendes.

II

A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)[2]

Paris, dezembro.

_Minha querida madrinha._--Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe presentir, apesar de tão indolentemente enterrada n'um divan, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e _dianico_ (de Diana), provém estas garatujas.

Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho castello do Anjou com herva nos fossos, porque me não lembro de ter encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de Londres em dezembro--nem aquelles hombros descahidos, dolentes, _angelicos_, imitados de uma madona de Montegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do _Lyrio no Valle_, e dos corações incomprehendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegiaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surprehendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensivel--que a datava do seculo XVIII. Dirá a minha madrinha:--«como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalisando?» É que voltei. Voltei, e da hombreira da porta readmirei os hombros dolentes de virgem do seculo XIII; a massa de cabellos que o mólho de velas por traz, entre as orchideas, nimbava d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos--dos olhos finos e languidos... Olhos _finos e languidos_. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade.

Porque é que não me adiantei, e não pedi uma «apresentação?» Nem sei. Talvez o requinte em _retardar_, que fazia com que La-Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta seducção ao palacio das Fadas, nos tempos do rei Arthur? Não sabe. Resultados de não lêr Tennyson... Pois era a immensidade d'annos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque offerecia a emoção inesperada d'um _flirt_, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que morbida propensão acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto é que, depois da contemplação junto á hombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tyranna. Mas por entre o banal sandwich de _foie-gras_, e um copo de Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi, constantemente _vi_, os _olhos finos e languidos_. Não ha senão o homem, entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a fatias de _foie-gras_. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seriamos nós desejados pelo «ephemero feminino» se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção de Materia que ha no homem faz com que as mulheres se resignem á incorrigivel porção d'Ideal que n'elle ha tambem--para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarcha aos olhos de Laura--foram os _Sonetos_. E quando Romeu, já com um pé na escada de sêda, se demorava, exhalando o seu extasi em invocações á Noite e á Lua--Julietta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus!» Este detalhe não vem em Shakspeare--mas é comprovado por toda a Renascença. Não me amaldiçôe por esta sinceridade de meridional sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura castellã do Anjou. A proposito de castellos: cartas de Portugal annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como «seu pensadoiro e retiro nas horas de sésta»--abateu. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende á ruina n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu é deputado, e escreve no _Jornal da Tarde_ estudos melancolicos sobre as Finanças! O meu procurador em Cintra aconselha agora, para reedificar o kiosque, um estimavel rapaz, de boa familia, que entende de construcções e que é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez se eu necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha. É com estes elementos alegres que nós procuramos restaurar o nosso imperio d'Africa! Servo humilde e devoto--Fradique.

III

A OLIVEIRA MARTINS

Paris, maio.

_Querido amigo._--Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caracter dos Antigos,--e remetto, como documento, a photographia da mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.

Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto--_Ramèzes photographado_?... Mas ahi está justificada a mumificação dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n'este anno da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito decentemente a _Eternidade_ e a _Vida-Futura_. E eis-nos agora podendo contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aquelles que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel força; todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um _Dono de homens_! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um Napoleão III; com o focinho de _bull-dog_ acorrentado d'um Bismarck; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e affavel que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!

D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:--e hoje, nas nossas civilisações, não ha logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o illimitado querer--para d'elle tirar o illimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra, e o logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um _homem_--e que seguramente póde affirmar no seu canto triumphal:--«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á minha direita e tambem á minha esquerda; quando eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»

«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.

Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossivel dispôr d'um cidadão como d'um astro. Nunca póde avançar d'uma arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»--surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia no cimo das grandes coisas;--mas como a boia solta vai no cimo da torrente.

Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não póde deixar de influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo _amolgado_ que se nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a maior somma de poder contemporaneo--o feitio _amolgado_ d'uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.

Em conclusão:--a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força, sem outros limites que os do proprio querer--resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a summa e perfeita expressão da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas por entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres são as das feras, genuinos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um codigo.

Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P., conselheiro d'estado, _e muchas cosas más_. _Más_ em hespanhol; e _más_ também em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro--um banho lustral, immenso banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de Shelley ou de Masset. Amigo certo _et nunc et semper_--Fradique Mendes.

IV

A MADAME S.

Paris, fevereiro.

_Minha cara amiga._--O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os _Romanceros_, o _D. Quichote_, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,--para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)--em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber--como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida--é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares Touraine?

Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da sua terra:--todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade;--e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da _falla materna_ com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. _Rue de Rivoli_, _Calle d'Alcalá_, _Regent Street_, _Wilhem Strasse_--que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com todas--em todas sente e aceita uma Patria.