A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 7

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Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um _yacht_ uma viagem á Islandia) achou no _vestiario_ a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de casaca, até ao club da _Rue Royale_. A noite estava sêcca e clara, mas cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos, seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a Fontainebleau com amigos no alto d'um _mail-coach_. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia de verão.

O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades humanas:--«_Toujours de la chance, ce Fradique!_»

Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.

Jaz no _Père-Lachaise_, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que tanto amára em vida o creador da _Comedia Humana_. Mãos fieis, por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o cobre na terra.

VI

O erudito moralista que assigna _Alceste_ na _Gazette de Paris_ dedicou a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a sua acção:--«Pensador verdadeiramente pessoal e forte, Fradique Mendes não deixa uma obra. Por indifferença, por indolencia, este homem foi o dissipador d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que poderia ter talhado um monumento imperecivel--tirou elle durante annos curtas lascas, migalhas, que espalhou ás mãos cheias, conversando, pelos salões e pelos clubs de Paris. Todo esse pó d'ouro se perdeu no pó commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia escrever:--«Aqui jaz o ruido do vento que passou derramando perfume, calor e sementes em vão...»

Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade e inconsideração dos francezes. Nada menos reflectido que as designações de _indolencia_, _indifferença_, que voltam repetidamente, n'essa pagina bem ornada e sonora, como para marcar com precisão a natureza de Fradique. Elle foi ao contrario um homem todo de paixão, de acção, de tenaz labor. E escassamente póde ser accusado de _indolencia_, de _indifferença_, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma religião, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisações, percorreu todo o saber do seu tempo.

O chronista da _Gazette de Paris_ acerta porém, singularmente, affirmando que d'esse duro obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas ao mundo só d'elle conhecemos com effeito as poesias das Lapidarias, publicadas na _Revolução de Setembro_--e esse curioso poemeto em latim barbaro, _Laus Veneris Tennebrosae_, que appareceu na _Revue de Poésie et d'Art_, fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas symbolistas. Fradique porém deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de Varennes, os entrevi eu dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de ferro lavrado, que Fradique denominava a _valla commum_. Todos esses papeis (e a plena disposição d'elles) foram legados por Fradique áquella _Libuska_ de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de Jouarre, e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno».

Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e escrevia _capitaine_ com _t_, _e_, (_capiténe_) morrera em Paris, por fins d'outono, ainda moço, de uma languida e longa anemia. Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa, cercada d'aias e de crépes, recolheu ás suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Na primavera, porém, voltou com as flôres dos castanheiros,--e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. Um dia, em casa de Madame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado então no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais antigo e nobre dos seus poemas, o _Julgamento de Libuska_, casualmente encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. Madame Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora, condes de Colloredo--e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de pergaminho que contêm a velha epopeia barbara.

Ambos leram esse texto heroico--até que o dôce instante veio em que, como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo». Fradique dera a Madame Lobrinska o nome de _Libuska_, a rainha que no _Julgamento_ apparece «vestida de branco e resplandecente de sapiencia». Ella chamava a Fradique _Lucifer_. O poeta das Lapidarias morreu em novembro:--e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Os seus amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira, para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez--até que reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez _Libuska_ não voltou, nem com as flôres dos castanheiros.

O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava sobretudo os _menus_ e os _cotillons_. A sua carreira foi portanto irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu no Rio de Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario, esperando aquella legação na Europa que o Principe Gortchakoff, então Chanceller Imperial, affirmava pertencer a Madame Lobrinska _par droit de beauté et de sagesse_. A legação na Europa, n'uma capital mundana, culta, sem bananeiras, nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das saudades da neve:--e Madame Lobrinska, no seu exilio, chegou a aprender tão completamente a nossa dôce lingua de Portugal, que Fradique me mostrou uma traducção da elegia de Lavoski, _A Collina do Adeus_, trabalhada por ella com superior pureza e relevo. Só ella pois, realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar como paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento, esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sêccas e mortas folhas de papel, cobertas de linhas incomprehendidas.

Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes, escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo carinhoso as feições d'esse transcendente espirito--e implorando, se não alguns extractos dos seus manuscriptos, ao menos algumas revelações _sobre a sua natureza_. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa, bem determinada, bem deduzida,--mostrando que decerto sob «os claros olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. «Os papeis de Carlos Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados, a ella que vivia longe da publicidade, e do mundo que se interessa e lucra na publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o caracter intimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n'estas condições o _revelar a sua natureza_ seria manifestamente contrariar o recatado e altivo sentimento que dictára esse legado...» Isto vinha escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel aspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma corôa d'ouro, esta divisa--Per terram ad coelum.

D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com desconsolado orgulho denominava a _valla commum_, por julgar pobres e sem brilho no mundo os pensamentos que para lá arrojava?

Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se não completas, ao menos esboçadas, ou já coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e um artista d'este seculo--uma _Psychologia das Religiões_ e uma _Theoria da Vontade_.

Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um romance de realismo epico, reconstruindo uma civilisação extincta, como a _Salammbô_. E deduzem essa supposição (desamoravel) d'uma carta a Oliveira Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia mysteriosa:--«Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas culpadas e vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o mal! Que demonio malfazejo, coberto do pó das Idades, e sobraçando in-folios archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de duro inverno e de erudição decorativa:--«Trabalha um romance! E no teu romance resuscita a antiguidade asiatica!»? E as suas suggestões pareceram-me dôces, amigo, d'uma doçura lethal!... Que dirá vossê, dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente no seu lar receber um tomo meu, impresso com solemnidade, e começando por estas linhas:--«_Era em Babylonia, no mez de Sivanù, depois da colheita do balsamo?..._» Decerto, vossê (d'aqui o sinto) deixára pender a face aterrada entre as mãos tremulas, murmurando:--«Justos céos! Ahi vem sobre nós a descripção do templo das Sete-Espheras, com todos os seus terraços! a descripção da batalha de Halub, com todas as suas armas! a descripção do banquete de Sennacherib, com todas as suas iguarias!... Nem os bordados d'uma só tunica, nem os relevos d'um só vaso nos serão perdoados! E é isto um amigo intimo!»

Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crêr que os papeis de Fradique contêm _Memorias_--porque só a _Memorias_ se póde coherentemente impôr a condição de permanecerem secretas.

Eu por mim, d'um melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que elle não deixou um livro de Psychologia, nem uma Epopeia archeologica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de saber pittoresco e facil), nem _Memorias_--inexplicaveis n'um homem todo de idéa e de abstracção, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido n'um velho solar russo, não existe uma _obra_--porque Fradique nunca foi verdadeiramente um _auctor_.

Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas--mas faltou-lhe a certeza de que ellas, pelo seu valor _definitivo_, merecessem ser registradas e perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para produzir aquella fórma que elle concebera em abstracto como a unica digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idéas. Desconfiança de si como pensador, cujas conclusões, renovando a philosophia e a sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um movimento inesperado; desconfiança de si como escriptor e creador d'uma Prosa, que só por si propria, e separada do valor do pensamento, exercesse sobre as almas a acção ineffavel do absolutamente bello--eis as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica inclemente e sagaz que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento, tão vivo n'elle, da Realidade fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era, na sua real potencia e nos seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais potente ou mais largo esses «fumos da illusão litteraria»--que levam todo o homem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que, nem pela idéa, nem pela fórma, poderia levar ás intelligencias persuasão ou encanto que definitivamente marcassem na evolução da razão ou do gosto--preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que tanto seduzia Descartes--_bene vixit qui bene latuit_.

Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e ruidoso inverno: e desde o café, com os pés estendidos á alta chamma dos madeiros de faia que estalavam na chaminé, conversavamos sobre a Africa e sobre religiões Africanas. Fradique recolhera na região do Zambeze notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos nativos--que são divinisações dos chefes mortos, tornados pela morte _Mulungus_, Espiritos dispensadores das coisas boas e más, com residencia divina nas cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e, comparando os ceremoniaes e os fins d'estes cultos selvagens da Africa com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou, Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real, essencial, necessario e eterno é o Ceremonial e a Liturgia--e o que ha de artificial, de supplementar, de dispensavel, de transitorio é a Theologia e a Moral.

Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos traços de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas. E sorrindo, seduzido:

--Fradique! porque não escreve vossê toda essa sua viagem á Africa?

Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de compôr um livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propozesse marchar descalço, através da noite tormentosa, até aos bosques de Marly. Depois, atirando a cigarette para o lume, murmurou com lentidão e melancolia:

--Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros não tivessem já visto.

E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e saturado de erudição, faz a travessia da Africa; e que em sciencia uma só verdade necessita mil experimentadores--Fradique quasi se impacientou:

--Não! Não tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo, conclusões que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a pena registrar... Só podia apresentar uma série de impressões, de paizagens. E então peor! Porque o verbo humano, tal como o fallamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a simples fórma d'um arbusto... Eu não sei escrever! Ninguem sabe escrever!

Protestei, rindo, contra aquella generalisação tão inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente. E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé que nos aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a Sorbonna, o Instituto de França e a Escóla Normal, muitos homens houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a «bella arte de dizer».

--Quem? exclamou Fradique.

Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o _meu_ Bossuet até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, côr, intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o contentava. A distenção retumbante de Hugo era tão intoleravel como a flaccidez oleosa de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez e nervo; a Taine fluidez e transparencia; a Flaubert vibração e calor. O pobre Balzac, esse, era d'uma exuberancia desordenada e barbarica. E o preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente...

Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz insatisfeito» que prosa pois concebia elle, ideal e miraculosa, que merecesse ser escripta. E Fradique, emocionado (porque estas questões de fórma desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallino, de avelludado, de ondeante, de marmoreo, que só por si, plasticamente, realisasse uma absoluta belleza--e que expressionalmente, como verbo, tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados d'alma...»

--Emfim, exclamei, uma prosa como não póde haver!

--Não! gritou Fradique, uma _prosa como ainda não ha!_

Depois, ajuntou, concluindo:

--E como ainda a não ha, é uma inutilidade escrever. Só se podem produzir fórmas sem belleza: e dentro d'essas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é reductivel ao verbo.

Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que mantivera mudo aquelle superior espirito--possuido da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de fórmas absolutamente bellas.

Por isso, e não por indolencia de meridional como insinua _Alceste_,--Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da formidavel actividade do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos annos espalhou, á maneira do sabio antigo, «em conversas com que se deleitava, á tarde, sob os platanos do seu jardim, ou em cartas, que eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o separavam...» As suas conversas, o vento as levou--não tendo, como o velho dr. Johnson, um Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse pela cidade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas cartas--leves migalhas d'esse ouro de que falla _Alceste_, e onde se sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram.

VII

Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro proposito de abstenção e silencio--eu, publicando as suas Cartas, pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de espirito. E assim seria--se eu não possuisse a evidencia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a um livro que me acompanhára e me encantára, a _Correspondencia de Xavier Doudan_--um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde gastára o verão, accrescentava n'um _post-scriptum_:--«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas cartas--como leio todas as collecções de Correspondencias, que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente approvo--publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa vantagem:--que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua philosophia--que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo _accessivel_ ao esforço intellectual. E finalmente como _cartas são palestras escriptas_ (assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento sacramental da _tal prosa como não ha_... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado--e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar ao pico de Bigorre».

Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um anno--porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel--esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma idéa--resulta que cada idéa me fica por _cento e vinte e cinco mil reis_. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação--provando, como inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar... Contrabalanço _pensar_ e _fumar_, porque são, ó Carlos, duas operações identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».

Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de Fradique--F. M.--minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava _le dégel de Fradique_, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de flammula ao vento.