A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas
Chapter 6
Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho d'um preconceito que dogmatisa--e não d'uma observação que discrimina. Assim lh'o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por elle nos Politicos--se explicam sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador á destruição da nossa terra.
Fradique replicou simplesmente:
--Se um rato morto me disser,--«eu cheiro mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apodreci»,--eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto.
Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer. Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inhabil, descomedida e papalva imitacão de Paris. Essa «saloia macaqueação», superiormente denunciada por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que «_Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão_»--tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo, algum resto do genuino Portugal.
Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido vernaculo!»--«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do _boulevard_, requentados, e servidos em chalaça e galantine! Desastre estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitella de Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos, degeneraram, _insipidaram_... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o sabor, como os homens têm perdido o caracter...»
Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual, Fradique protestou com paixão:
--Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da Democracia e da Critica!
A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por ter perdido esse typo de civilisação intensamente original, o mundo ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente, quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o «modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no Rato--n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:
--Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim, desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos, rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa, pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!
Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava, com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do tempo do snr. D. João V--Ramalho Ortigão não se conteve:
--Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu, regalar-se de pittoresco e de archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes, consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas, inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurrões para a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que vossê queria!
Fradique volveu serenamente:
--Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui, a vós, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas algibeiras da casaca de sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de Marialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do perú e o mote. Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vós não merecieis melhor; e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do almoço.
Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo _sujeito utilitario e sério_ de sobrecasaca preta)--com a monotonia com que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo--o povo que não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos seus defeitos:--pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do _Senhor Rei_ venera o _Senhor Governo_; pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das _Sebentas_ de Direito Publico».
V
A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e grave--tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de _bric-à-brac_, tanto seduz os financeiros e as _cocottes_. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço, claridade, uma harmonia de tons castos--eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico, formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu creado Smith, velho escossez da _clan_ dos Macduffs, já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz, gritava:--_Morning, Sir!_ Immediatamente Fradique, dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique) reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos telegrammas politicos do _Times_, do _Standard_ e da _Gazeta de Colonia_!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de xadrez verde e preto (côres da sua _clan_), os sapatos de verniz decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita consciencia:--«Não se realisa a conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia--«Li no _Times_»--mas «Li no Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade, radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:--e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»), sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos _ateliers_, ás salas d'armas, ás exposições, aos clubs--aos cuidados diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.
De tarde subia ao _Bois_ conduzindo o seu phaeton, ou montando a _Sabá_, uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na _Comédie_) era passada n'algum salão--precisando sempre findar o seu dia entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração, Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas, critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas--é bem permittido, creio eu, segundo a Cartilha e o Codigo».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo», tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de absorpção--mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento enleado dos seus olhos finos,--as mulheres viam apenas a influencia omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel--de que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido--facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada--que peccados e que traições não commetterá a Maharina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os homens--um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade inestimavel, quasi unica na nossa geração--uma alma extremamente sensivel, servida por um corpo extremamente forte.
De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda--confessei um dia a J. Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das Lapidarias aquelle _tepido leite da bondade humana_, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade, lançava este rude programma de conducta:--«Os homens nasceram para trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar friamente através!...»
Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges chamou depois _le degel de Fradique_, bem cedo senti, através da impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias, brotar, tepida e generosamente, o _leite da bondade humana_.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza--Fradique, perante o peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que, consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella _voz_ que fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica, sempre prompto a brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres palavras:--«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação. Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, summa divina de toda a experiencia humana--«ajudai-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam--cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome; estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte».
Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis, lançando ao lado um algarismo--que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas Justiça)--era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes, singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que pede, tranzido de frio--param sob a chuva e sob o vento, desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d'um dia.
Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em Paris, correndo ambos a uma estação de _fiacres_ para nos salvarmos d'um chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas _Nove Musas dançando entre loureiraes_), encontrámos apenas um _coupé_, cuja pileca, com o sacco pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou em esperar que o cavallo almoçasse com socego--e perdeu as _Nove Musas_.
Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes--por sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e de sentimento natural passa a funcção official--é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos pobres?...»
Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao longe, como afundados em horisontes de tristeza--para assim lamentar, com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, _homo homini lupus_.
--Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros:
--Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis, decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar, sempre appetecera--_inopinatam atque repentinam_.