A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 5

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Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa sinceridade--impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema, onde para sempre permanecesse por inercia--eram de resto as qualidades que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára a mais continua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero dizer, não sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que consistem em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois um sabio, nem um philosopho, não posso concorrer para o melhoramento dos meus semelhantes--nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia tambem se me conserva vedada:--porque, se, para se produzir Litteratura basta possuir talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes. E eu!... Só portanto me resta ser, através das idéas e dos factos, um homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupação do meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma idéa ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente, explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de verdade que exista nos seus refolhos--e sahir, passar a outro facto ou a outra idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia, enlevado no esplendor das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente fiquei simplesmente um _touriste_».

Estes _touristes_ da intelligencia abundam em França e em Inglaterra. Sómente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua imagem) transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Mantinha por principio que se devia momentaneamente _crêr_ para bem comprehender uma crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo. Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario, _As Pantheras de Batignolles_, e frequentára as suas sessões, encolhido n'uma quinzena sordida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flôr de alguma extravagancia instructiva». Assim se incorporava em Londres aos Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vão queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára com os _Theosophistas_, concorrera prodigamente para a fundação da _Revista Espiritista_, e presidia as Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre os dois _mediums_ supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitára durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo, «para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que fazem um _Carlista_--porque todo o sectario obedece á realidade d'um motivo e á illusão d'uma formula». Assim se tornára o confidente do veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e estudar peça a peça o mecanismo d'um cerebro de Nihilista». Assim se preparava (quando a morte o surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára a curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as Philosophias--cometa errando através das idéas, embebendo-se convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um _dilettante_. Não! essa séria convicção (a que os inglezes chamam _earnestness_), com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida uma valia e efficacia muito superiores ás que o _dilettantismo_, a diversão sceptica que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a elle deliciosamente se abandonam. O _dilettante_, com effeito, corre entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde seculos comparado) correm entre as flôres, para pousar, retomar logo o vôo estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extrahindo o seu mel:--quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.

Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porém a sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser--uma percepção extraordinaria da Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma carta a Anthero de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que a envolve) tem uma Realidade. A expressão de _Realidade_ não é philosophica; mas eu emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel, quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar, uma Realidade--quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recommenda Buffon) certos _contornos_ que o limitam, o definem, lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto, e constituem o seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. Sómente o erro, a ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a ILLUSÃO, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e deforma os seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise no seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. É justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está cahindo d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as coisas tomam um relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura. Mas vossê decerto comprehenderá, Anthero excellente e subtil! Já esteve em Londres, no outono, em novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma pardacenta illusão submerge toda a cidade--e com espanto se encontra n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios, quasi todos os seus juizos são enganos; e estes constantemente estão trocando o Templo e a Taberna. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria tartamudear».

Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões privilegiadas. O proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e _detalhar em silencio_--como dizia Oliveira Martins--revelava logo o seu processo interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a pouco lhe surgisse na sua rigorosa e _unica_ fórma.

A manifestação d'esta magnifica força que mais impressionava--era o seu poder de _definir_. Possuindo um espirito que _via_ com a maxima exactidão; possuindo um verbo que _traduzia_ com a maxima concisão--elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte, enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se alargára:--«A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação».

Certamente, não conheço mais completa definição d'Arte! E com razão affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que «se o bom Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, nos atirasse lá de cima, do seu divino ermo, a final explicação da Arte, nós ouviriamos resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a definição de Fradique!»

A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Além d'um solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e de Litteratura decorativa, o habilitára a crear em latim barbaro poemetos tão bellos como o _Laus Veneris tenebrosae_)--possuia profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes, a França, a Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com abundancia e gosto.

As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que divinamente o compõe, desde os insectos até aos astros. Estudos carinhosamente feitos com o coração--porque Fradique sentia pela Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma veneração genuinamente budhistas. «Amo a Natureza (escrevia-me elle em 1882) por si mesma, toda e individualmente, na graça e na fealdade de cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade intangivel, a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em resumo adoro a Vida--de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e (com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro--porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. E a minha religião está toda no credo de Athanasio, com uma pequena variante:--«Creio na _Vida_ toda-poderosa, creadora do céo e da terra...»

Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas sobretudo que pertencem á Pre-historia--a Anthropologia, a Linguistica, o estudo das Raças, dos Mythos e das Instituições Primitivas. Quasi todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette, densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania, indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com intensidade e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitações lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica; com as raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferradas investigações duravam emquanto podia extrahir d'ellas «alguma emoção ou surpreza intellectual». Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre o tapete livre:--«Sorvi todo o Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»

O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com especial constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixão da Historia. E adivinha vossê porquê, Historiador? Pelo confortavel e conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando fiz onze annos, minha avó, de repente, _para me habituar ás coisas duras da vida_ (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes, e mandou-me a uma escóla chamada _Terceirense_. O jardineiro levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho--por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porém, folheando uma _Encyclopedia de Antiguidades Romanas_, que tinha estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambem de manhã para a escóla, como eu, pela mão d'um servo--denominado o _Capsarius_; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do Velabro ou das Carinas, para comerem á merenda--que chamavam o _Ientaculum_. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva procurador--respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião. A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os rapazes de escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto, evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando com uma vangloria heroica:--«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma mulher obesa que morava ao fim da rua...»

N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:--«Levou-me pois effectivamente á Historia o meu amor da Unidade--amor que envolve o horror ás interrupções, ás lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de explorações e de travessias--porque me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus extremos limites, e não sentir a contínua solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a Historia, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de todos os que me precederam na vida. Talvez vossê murmure com desdem--«mera bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ella é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás portas--e pelo outro a descobrir a America!»

O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:--«Aquelle Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda, d'uma transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;--depois accende o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar psychologicamente os caracteres individuaes--alliava-se n'elle a um minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica até á França Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)[1] são verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia synthetica, a certeza do saber, a força e a abundancia das idéas novas. E, por outro lado, a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou, na sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma. Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu jardim de Chelsea.

Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo recolhia e tudo retinha--vasto e claro armazem de factos, de noções, de fórmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel á memoria de Fradique, como «installação, ordem e excellencia do _stock_», só conhecia a adega do café Inglez.

A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admirações ou de curiosidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao Oriente:--ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no naufragio do _Magnolia_. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria, constitue o mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta força, de eternisar uma civilisação».

O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves, n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar á costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV secção da policia imperial:--_Monsieur, vous nous observez de trop près, pour que votre jugement n'en soit faussé; je vous invite donc, sur votre intérêt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte, d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de Paris!_--Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou logo á Suecia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general Armankoff:--_Monsieur, j'ai reçu votre invitation où il y a beaucoup d'intolerance et trois fautes de français._

Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga... «Tenho folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. Para vêr _por fóra_, por mera festa dos olhos, nunca fui senão a Marrocos».

O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira do detestavel _touriste_ francez, para notar de alto e pêcamente «os defeitos»--isto é, as divergencias d'esse typo de civilisação mediano e generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes, as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito--«_em Roma sê romano_»--tão facil e dôce de cumprir em Roma, entre as vinhas da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do Himalaya. E estava tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen--como n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da carabina «Express» e da carabina Winchester, entre caçadores de elephantes.

Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris e Londres--com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.

O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás coisas de Portugal. A compra da quinta do _Saragoça_, em Cintra, realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção) «para _ter terra em Portugal_, e para se prender pelo forte vinculo da propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de quem elle herdára o sangue e a curiosidade do _além_!»

Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma provincia, lentamente, a cavallo--com demoras em villas decrepitas que o encantavam, infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos, fraternisações ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado de louro. A sua região preferida era o Ribatejo, a terra chã da leziria e do boi. «Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e lavados ares da manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia de viver».

Lisboa só lhe agradava--como paizagem. «Com tres fortes retoques (escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma varredella definitiva por essas bemditas ruas--Lisboa seria uma d'essas bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de sonho, de arte e de peregrinação. Mas uma existencia enraizada em Lisboa não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a alma respire. Depois certas feições, singularmente repugnantes, dominam. Lisboa é uma cidade _alitteratada_, _afadistada_, _catita_ e _conselheiral_. Ha _litteratice_ na simples maneira com que um caixeiro vende um metro de fita; e, nas proprias graças com que uma senhora recebe, transparece _fadistice_: mesmo na Arte ha _conselheirismo_; e ha _catitismo_ mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes».

Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano, presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle não têm o habito profissional.