A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 4

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Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak, onde elle ia embarcar para o Alto Egypto. O seu _debarieh_ esperava, amarrado á estacaria, rente das casas do Velho Cairo, entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana dôce. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo adormecia, sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua profundidade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cantaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos, vinham, como no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eirados, com um bater d'azas contentes, a benção crepuscular.

Baixei, atraz de Fradique, ao salão do _debarieh_, envidraçado, estofado, com armas penduradas para as manhãs de caça, e rumas de livros para as séstas de estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga. Depois, durante momentos, no convés, contemplámos silenciosamente aquellas margens que, através das compridas idades, têm feito o enlevo de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida é cheia de bens maiores e de doçura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que arrazaram Thanis, aqui pararam como nós, alongando para estas aguas, para estes céos, olhos cobiçosos, extaticos ou saudosos: Reis de Judá, Reis de Assyria, Reis da Persia; os Ptolomeus magnificos; Prefeitos de Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahomet, S. Luiz enviado de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do Oriente, Bonaparte retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram só para contar da terra adoravel, desde o loquaz Herodoto até ao primeiro Romantico, o homem pallido de grande _pose_ que disse as dôres de «Réné»! Bem conhecida é ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre, paternal e fecundo. Para além verdejam, sob o vôo das pombas, os jardins e os pomares de Rhodah. Mais longe as palmeiras de Giseh, finas e como de bronze sobre o ouro da tarde, abrigam aldeias que têm a simplicidade de ninhos. Á orla do deserto, erguem-se, no orgulho da sua eternidade, as tres Pyramides. Apenas isto--e para sempre a alma fica presa e lembrando, e para viver n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas guerras.

Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. A vela fôra içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á prôa o arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou:--«Em nome de Allah que nos leve, clemente e misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas murmuraram:--«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da _dourbaka_, outro tomou uma flauta de barro. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.

III

Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrára as suas jornadas dentro da Europa Occidental--emquanto eu errava pela America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.

Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós, apesar de tão tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes trocavamos uma carta--cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique miudamente enchia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.

Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras differentes de conceber a vida--tinham como eu sentido a seducção d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do _Portugal Contemporaneo_:--«Cá encontrei o teu Fradique, que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a mesma attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos»; o mesmo amor do mystério, e das subitas desapparições; a mesma vaidade, nunca confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes concorressem a realisar. E receio que em logar do _Discurso sobre o Methodo_ venha só a deixar um _vaudeville_». Ramalho Ortigão, pouco tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:--«Fradique Mendes é o mais completo, mais acabado producto da civilisação em que me tem sido dado embeber os olhos. Ninguem está mais superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. Marcha cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre, arremette com um chicote na mão contra um troço de lanças abyssinias:--e á noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri ás mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo e á morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as noções mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia, sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um ensino, uma lição de alto gosto, vêl-o no seu quarto, na vida intima de _gentleman_ em viagem, entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas aos _boudoirs_ de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo--e lê Sophocles no original».

O poeta da _Morte de D. João_ e da _Musa em Ferias_ chamava-lhe «um Sainte-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta d'esse tempo que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pedaços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe por cima _champagne_ e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipotentes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra disse: Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de Fradique está admiravelmente construido e mobilado. Só lhe falta uma idéa que o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique é um genio com escriptos!»

Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das _Odes Modernas_, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com tanta elevação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Teixeira d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da _Saragoça_, onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel antipathia pelo que elle chamava o _lymphatismo critico_ de Fradique. Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem não o impressionava. «As noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sêda), a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito de beber champagne com _soda-water_, outros traços ainda, causavam uma irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór. Confessava porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se regularmente com elle--mas para o contradizer com acrimonia.

Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do _Temps_, quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;--e o _maitre-d'hotel_ recuou assombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual--que em oito annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo _intellectual_, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a intelligencia de Fradique--e interrompidamente assisti e me misturei á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de a conhecer--talvez por sentir que a rara originalidade de Fradiqoe se concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o sêr sensivel, feito da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservámos sempre o habito especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espiritos. Se eu então concebesse uma Philosophia original, ou preparasse os mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis--de preferencia escolheria Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperança ou d'uma desillusão. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel recato--não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua funcção intellectual.

Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flôr, o jardim das Tulherias. Fradique, que se encostára ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento através das plebes, era o grande erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade para a praça da Concordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as tenras verduras de maio, estas predicções de desastre e de fim--estaca, emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passára vivamente, para os lados da rua Royale, um coupé onde entrevi, na penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente tambem, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philosophava com um amigo no jardim das Tulherias...») Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao velho palacio dos Tredennes, onde elle installára desde o Natal os seus aposentos com um luxo tão nobre e tão sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a «Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os _Trabalhos de Hercules_, Fradique deixa a janella d'onde olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa manhã _nenhum outro_ cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim das Tulherias:

--Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha outro meio de nos salvar da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta idéa um programma para as gerações novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente occupado na deducção do seu conceito. Outro homem que, como aquelle, tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude, murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:--«Ah, amigo, que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das Plebes,--desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos não penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem demais, nas amarguras do seu coração.

N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:--«O homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão unica e serenamente _occupado no officio de reinar--isto é, de pensar_». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se comportou immutavelmente, através da nossa activa convivencia, não se abrindo, não se offerecendo todo, senão nas funcções da Intelligencia. Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim imperio e seducção.

IV

O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audacia. Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J. Teixeira d'Azevedo) que _a linha recta é a mais curta distancia entre dois pontos_, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal á porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo á secular geometria--que a distancia mais curta entre dois pontos é uma _curva_ vadia e delirante!». Esta independencia da Razão, que Fradique assim apregôa com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:--mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e rarissima, de radiosa excepção!

Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G. Cornuski, professor e critico, que escrevia na _Revista Suissa_, e que (diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes--a _Gerusalemme Liberata_ do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de Racine, as orações de Bossuet, os nossos _Lusiadas_, e outros monumentos canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico lhe impunha a proclamação da verdade, este homem robusto, sanguineo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava:--«Não! Porque será o meu criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a sublimidade--e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono, continuava, diante dos córos da _Athalie_ e das nudezes do Ticiano, a murmurar desconsoladamente:--«Como é bello!»

Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto; já porque as idéas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa memoria, depois de leituras e conversas, nos pareçam ser as nossas proprias; já porque a suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve subtilmente a concluir em concordancia com elles--a lamentavel verdade é que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.

«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle é essencialmente do seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma pallida e morna _infecção de banalidade_, causada pelos quarenta mil volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente e monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela Renascença. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. A isto, oh Carolus, se chama _educar_! A creança, desde a sua primeira «Selecta de Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada do Logar-Commum--camada que depois todos os dias, através da vida, o Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão atochando no espirito até lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas, de viçosa originalidade, seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opéra sobre o Intellecto como Vichy sobre o figado--desobstruindo-o, e permittindo-lhe o são exercicio da funcção natural. Depois de dois annos de vida selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do Instincto,--que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o Progresso, a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Politica, a Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de matagal e de brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que lhe renovem uma provisão de «idéas feitas», nem um benefico Nunes Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»--o Europeu irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo, nudez do corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar é um Adão forte e puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que distillas _espiritos_, queres remergulhar nas Origens e vir commigo á inspiradora Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol entre a palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo, com a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos n'um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma precisa--deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de riso á idéa das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que vão por essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se atropellam, estonteados pelas superstições da civilisação, pela illusão do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificações dos reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida admiração de si mesmos!...»

Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas humanas», só possivel, segundo o poeta das Lapidarias, ao Adão renovado que regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de longos annos de Litteratura--tentou-o elle, sem deixar os muros classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o prendiam os seus gostos e os seus habitos--mundo mediano e regrado, sem invenção e sem iniciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar, devem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» e não individualmente creadas--Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos, affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria, deixando transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche--é mais desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira, o estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava mais intensamente do que o _effeito_ e o _destaque excessivo_. Nunca lhe conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa, agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo preferiria--menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) «ter de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de levar a minha amiga núa, toda núa, pisando os tapetes com os seus pés nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios nús. _Amicus Mundus, sed magis amica Veritas!_ Este bello latim significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade é agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens--o que duplamente me leva a amal-a com pertinacia».