A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 3

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Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura--um Deus de rabona, jantando á mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco, da minha imaginação esfalfada foi-se evolando não sei que sonho, esparso e tenue, como o fumo que se eleva de uma brazeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os velhos Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter. Os Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates) não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo á Grecia, viviam refugiados n'um valle da Laconia, outra vez entregues, nos ocios que lhes impozera o Deus novo, ás suas occupações primordiaes de lavradores e pastores. Sómente, já pelo habito que os Deuses nunca perderam de imitar os homens, já para escapar aos ultrajes d'uma Christandade pudibunda, os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o esplendor das nudezas que a Antiguidade adorára: e como tomavam outros costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser Homem), os Deuses iam lentamente consummando a sua humanisação. Já por vezes deixavam a doçura do seu valle bucolico; e com bahús, com saccos de tapete, viajavam por distracção ou negocios, folheando os _Guias Bedecker_. Uns iam estudar nas cidades, entre a Civilisação, as maravilhas da Imprensa, do Parlamentarismo e do Gaz; outros, aconselhados pelo erudito Hermes, cortavam a monotonia dos longos estios da Attica bebendo as aguas em Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na saudade imperecivel das omnipotencias passadas, peregrinavam até ás ruinas dos templos onde outr'ora lhes era offertado o mel e o sangue das rezes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem, cuja face cheia de magestade e força serena reproduzia as feições com que Jupiter se revelou á Escóla d'Athenas--fosse na realidade Jupiter, o Tonante, o Fecundador, pai inesgotavel dos Deuses, creador da Regra e da Ordem. Mas que motivo o traria alli, vestido de flanella azul, pelo Cairo, pelo Hotel Sheperd, comendo um macarrão que profanadoramente se prendia ás barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente o dôce motivo que através da Antiguidade, em Céo e Terra, sempre inspirára os actos de Jupiter--do frascario e femeeiro Jupiter. O que o podia arrastar ao Cairo senão _alguma saia_, esse desejo esplendidamente insaciavel de deusas e de mulheres que outr'ora tornava pensativas as donzellas da Hellenia ao decorarem na Cartilha Pagã as datas em que elle batera as azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de touro entre os braços d'Europa, gottejára em pingos d'ouro sobre o seio de Danae, pulára em linguas de fogo até aos labios d'Egina, e mesmo um dia, enojando Minerva e as damas sérias do Olympo, atravessára toda a Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da morena Seméle? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar umas férias sentimentaes, longe da Juno molle e conjugal, com aquella viçosa mulher, cujo busto irresistivel provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de Madame Marcel. E ella, quem seria ella? A côr das suas tranças, a suave ondulação dos seus hombros, tudo indicava claramente uma d'essas deliciosas Nymphas das Ilhas da Ionia, que outr'ora os Diaconos Christãos expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baptisar centuriões cacheticos e comidos de dividas, ou velhas matronas com pêllo no queixo, tropegas do incessante peregrinar aos altares de Aphrodite. Nem elle nem ella porém podiam esconder a sua origem divina: através do vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e, attendendo bem, vêr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em cadencia, no calmo esforço de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem.

Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos Immortaes, bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a harmonia ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do Olympo, devotamente prostrado diante da Fórma, e transbordando de alegria pagã. Visitára a Laconia; fallava a lingua dos Deuses; recebia d'elles a inspiração. Nada mais consequente do que descobrir Jupiter no Cairo, e prender-se logo ao seu serviço, como _cicerone_, nas terras barbaras de Allah. E certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia Fradique subir o Nilo, na _Rosa das Aguas_, até aos derrocados templos onde Jupiter poderia murmurar, pensativo, e indicando minas d'aras com a ponta do guarda-sol:--«Abichei aqui muito incenso!»

Assim, através da salada de tomates, eu desenvolvia e coordenava estas imaginações--decidido a convertel-as n'um Conto para publicar em Lisboa na _Gazeta de Portugal_. Devia chamar-se _A derradeira campanha de Jupiter_:--e n'elle obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar todas as notas de costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do Egypto. Sómente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de realismo picante, levaria a Nympha das aguas, durante a jornada do Nilo, a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos pilones d'Osiris para se pendurar do pescoço do poeta das Lapidarias, murmurar-lhe coisas em grego mais dôces que os versos de Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o seu aroma de ambrosia, e ser por todo esse valle do Nilo immensamente _cochonne_--emquanto o Pai dos Deuses, cofiando as barbas encaracoladas, continuaria imperturbavelmente a conceber a Ordem, supremo, augusto, perfeito, ancestral e cornudo!

Enthusiasmado, já construia a primeira linha do Conto: «Era no Cairo, nos jardins de Choubra, depois do jejum do Ramadan...»--quando vi Fradique adiantar-se para mim, com a sua chavena de café na mão. Jupiter tambem se erguera, cançadamente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com um principio de obesidade, arrastando a perna tarda, bem proprio para o ultrage que eu lhe preparava na _Gazeta de Portugal_. Ella porém tinha a harmonia, o aroma, o andar, a irradiação d'uma Deusa!... Tão realmente divina que resolvi logo substituir-me a Fradique no Conto, ser eu o _cicerone_, e com os Immortaes vogar á véla e á sirga sobre o rio de immortalidade! Junto á minha face, não á de Fradique, balbuciaria ella, desfallecendo de paixão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou, as coisas mais dôces da _Anthologia_! Ao menos, em sonho, realisava uma triumphal viagem a Thebas. E faria pensar aos assignantes da _Gazeta de Portugal_:--«O que elle por lá gozou!»

Fradique sentára-se, recebendo, de Jove e da Nympha que passavam, um sorriso cuja doçura tambem me envolveu. Vivamente puxei a cadeira para o poeta das Lapidarias:

--Quem é este homem? Conheço-lhe a cara...

--Naturalmente, de gravuras... É Gautier!

Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganára pois inteiramente. Se não era um Olympico--era pelo menos o derradeiro Pagão, conservando, n'estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade, a religião verdadeira da Linha e da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor de _Mademoiselle de Maupin_, com o velho paladino de _Hernani_, tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á nossa gasta Patria um lustre tão original! Para saber se elle preferia aniz ou genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi em mim um extase ruidoso, diante da sua agudeza, quando elle me aclarou o grunhir do negro de Seneh. O que eu tomára pelo annuncio d'uma presença divina significava apenas--_c'est le deux!_ Gautier no hotel occupava o quarto numero dois. E, para o barbaro, o plastico mestre do Romantismo era apenas--_o dois!_

Contei-lhe então a minha phantasia pagã, o Conto que ia trabalhar, os perfeitos dias de paixão que lhe destinava na viagem para a Nubia. Pedi mesmo permissão para lhe dedicar a _Derradeira Campanha de Jupiter_. Fradique sorriu, agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa fosse a realidade, porque não se podia encontrar mulher de mais genuina belleza e de mais aguda seducção do que essa Nympha das aguas, que se chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos _Delassements-Comiques_. Mas, para seu mal, a radiosa creatura estava caninamente namorada de um Sicard, corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fôra n'essa tarde, com banqueiros gregos, jantar aos jardins de Choubra...

--Em todo o caso, accrescentou o originalissimo homem, nunca esquecerei, meu caro patricio, a sua encantadora intenção!

Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicuriana ou atomista, falla algures das affeiçoes produzidas pelos _Atomes crochus_, atomos recurvos, em fórma de colchete ou d'anzol, que se engancham invisivelmente de coração a coração, e formam essas _cadeias_, resistentes como o bronze de Samothracia, que para sempre ligam e fundem dois sêres, n'uma constancia vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida. Um qualquer _nada_ provoca esse fatal ou providencial enlaçamento d'atomos. Por vezes um olhar, como desastradamente em Verona succedeu a Romeu e Julieta: por vezes o impulso de duas creanças para o mesmo fructo, n'um vergel real, como na amizade classica de Orestes e Pylades. Ora, por esta theoria (tão satisfatoria como qualquer outra em Psychologia affectiva), a esplendida aventura de amor, que eu tão generosamente reservára a Fradique na _Ultima campanha de Jupiter_, seria a causa mysteriosa e inconsciente, o _nada_ que determinou a sua primeira sympathia para commigo, desenvolvida, solidificada depois em seis annos de intimidade intellectual.

Muitas vezes, no decurso da nossa convivencia, Fradique alludiu gratamente a essa minha _encantadora intenção_ de lhe atar em torno do pescoço os braços de Jeanne Morlaix. Fôra elle captivado pela sinuosa e poetica homenagem que eu assim prestava ás suas seducções de homem? Não sei.--Mas, quando nos erguemos para ir vêr as illuminações do Beiram, Fradique Mendes, com um modo novo, aberto, quente, quasi intimo, já me tratava por _vossê_.

As illuminações no Oriente consistem, como as do Minho, de tigellinhas de barro e de vidro onde arde um pavio ou uma mecha d'estopa. Mas a descomedida profusão com que se prodigalisam as tigellinhas (quando as paga o Pachá) torna as velhas cidades meio arruinadas, que assim se enfeitam em louvor de Allah, realmente deslumbrantes--sobretudo para um occidental besuntado de litteratura, e inclinado a vêr por toda a parte, reproduzidas no moderno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas _Mil e uma noites_ que ninguem jámais leu.

Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva), as tigellinhas eram incontaveis--e todas as linhas do Cairo, as mais quebradas e as mais fugidias, resaltavam na escuridão, esplendidamente sublinhadas por um risco de luz. Longas fieiras de pontos refulgentes marcavam a borda dos eirados; as portas abriam sob ferraduras de lumes; dos toldos pendia uma franja que faiscava; um brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha d'arvore; e os minaretes, que a Poesia Oriental classicamente compara desde seculos aos braços da Terra levantados para o Céo, ostentavam, como braços em noite de festa, um luxo de braceletes fulgindo na treva serena. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse cahido sobre a sordida cidade uma grossa poeirada d'ouro, pousando em cada friso de _moucharabieh_ e em cada grade de varandim, e agora rebrilhasse, com radiosa saliencia, na negrura da noite calma.

Mas, para mim, a belleza especial e nova estava na multidão festiva que atulhava as praças e os bazares--e que Fradique, através do rumor e da poeira, me explicava como um livro de estampas. Com quanta profundidade e miudeza conhecia o Oriente este patricio admiravel! De todas aquellas gentes, intensamente diversas desde a côr até ao traje--elle sabia a raça, a historia, os costumes, o logar proprio na civilisação musalmana. Devagar, abotoado n'um paletot de flanella, com um chicote de nervo (que é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do braço, ia apontando, nomeando á minha curiosidade flammejante essas estranhas figuras, que eu comparava, rindo, ás d'uma mascarada fabulosa, arranjada por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as «modas» dos Semitas e os seus «typos» através das idades:--aqui Fellahs, ridentes e ageis na sua longa camisa de algodão azul; além Beduinos sombrios, movendo gravemente os pés entrapados em ligaduras, com o pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe Abadiehs, de grenha em fórma de mêda, eriçada de longas cerdas de porco-espinho que os corôam d'uma aureola negra... Estes, de porte insolente; com compridos bigodes esvoaçando ao vento, armas ricas reluzindo nas cintas de sêda, e curtos saiotes tufados e encanudados, eram Arnautas da Macedonia; aquelles, bellas estatuas gregas esculpidas em ebano, eram homens do Sennar; os outros, com a cabeça envolta n'um lenço amarello cujas franjas immensas lhes faziam uma romeira de fios d'ouro, eram cavalleiros do Hedjaz... E quantos ainda elle me fazia distinguir e comprehender! Judeus immundos, de caracoes frisados; Coptas togados á maneira de senadores; soldados pretos do Darfour, com fardetas de linho ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante verde; Persas de mitra de feltro; mendigos de mesquita, cobertos de chagas; amanuenses turcos, pomposos e anafados, de collete bordado a ouro... Que sei eu! Um Carnaval rutilante, onde a cada momento passavam, sacudidos pelo trote dos burros sobre albardas vermelhas, enormes saccos enfunados--que eram mulheres. E toda esta turba magnifica e ruidosa se movia entre invocações a Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes partindo das cordas das _dourbakas_, e cantos lentos--esses cantos arabes, d'uma voluptuosidade tão dolente e tão aspera, que Fradique dizia passarem n'alma com uma «caricia rascante». Mas por vezes, entre o casario decrepito e rendilhado, surgia uma frontaria branca, casa rica de Sheik ou de Pachá, com a varanda em arcarias, por onde se avistavam lá dentro, n'um silencio de harem, sêdas colgantes, recamos d'ouro, um tremor de lumes no crystral dos lustres, fórmas airosas sob véos claros... Então a multidão parava, emmudecia, e de todos os labios sahia um grande _ah!_ languido e maravilhado.

Assim caminhavamos, quando, ao sahir do Moujik, Fradique Mendes parou, e, muito gravemente, trocou com um moço pallido, de esplendidos olhos, o _salam_--essa saudação oriental em que os dedos tres vezes batem a testa, a bôca e o coração. E como eu, rindo, lhe invejava aquella intimidade com um «homem de tunica verde e de mitra persa»:

--É um Ulema de Bagdad, disse Fradique, d'uma casta antiga, superiormente intelligente... Uma das personalidades mais finas e mais seductoras que encontrei na Persia!

Então, com a familiaridade que se ia entre nós accentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Persia um anno inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorára tanto nas margens do Euphrates por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Persia um desenvolvimento quasi triumphal, e que se chamava o _Babismo_. Attrahido para essa nova seita por curiosidade critica, para observar como nasce e se funda uma Religião, chegára pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apostolos. O Babismo (contou-me elle, seguindo por uma viella mais solitaria e favoravel ás confidencias) tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um d'esses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a occupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Christãos por contacto com os Missionarios; iniciado na pura tradição mosaista pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do Guebrismo, a velha religião nacional da Persia--Mirza-Mohamed amalgamára estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Mahometismo, e declarára-se _Bab_. Em persa _Bab_ quer dizer _Porta_. Elle era, pois, a _porta_--a unica _porta_ através da qual os homens poderiam jámais penetrar na absoluta Verdade. Mais litteralmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande _porteiro_, o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade--e portanto do Paraiso. Em resumo era um Messias, um Christo. Como tal atravessou a classica evolução dos Messias: teve por primeiros discipulos, n'uma aldeia obscura, pastores e mulheres: soffreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras: prégou parabolas: escandalisou em Méca os doutores: e padeceu a sua Paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Rhamadan, em Tabriz.

Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divisões religiosas--os Sieds e os Sunis. Os Persas são Sieds, como os Turcos são Sunis. Estas differenças porém, no fundo, têm um caracter mais politico e de raça, do que theologico e de dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre um persa do Euphrates como _heretico_ e _sujo_. A discordancia resalta, mais viva e teimosa, logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se perante uma nova interpretação de doutrina ou uma nova apparição de propheta. Assim o Babismo entre os Sieds, topára com uma hostilidade que se avivou até á perseguição:--a isto desde logo indicava que seria acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia.

Partindo d'esta idéa, Fradique, que em Bagdad se ligára familiarmente com um dos mais vigorosos e auctorisados apostolos do Babismo, Said-El-Souriz (a quem salvára o filho d'uma febre paludosa com applicações de _Fruit-salt_), suggerira-lhe um dia, conversando ambos no eirado sobre estes altos interesses espirituaes, a idéa de apoiar o Babismo nas raças agricolas do valle do Nilo e nas raças nómadas da Libya. Entre homens de seita Suni, o Babismo encontraria um campo facil ás conversões; e, pela tradicional marcha dos movimentos sectarios, que no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas sinceras do povo até ás classes cultas, talvez essa nova onda de emoção religiosa, partindo dos Fellahs e dos Beduinos, chegasse a penetrar no ensino de alguma das mesquitas do Cairo, sobretudo na mesquita de El-Azhar, a grande Universidade do Oriente, onde os ulemas mais moços formam uma cohorte de enthusiastas sempre disposta ás innovações e aos apostolados combattentes. Ganhando ahi auctoridade theologica, e litterariamente polido, o Babismo poderia então atacar com vantagem as velhas fortalezas do Musulmanismo dogmatico. Esta idéa penetrára profundamente em Said-El-Souriz. Aquelle moço pallido, com quem elle trocára o _salam_, fôra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a antiga Thebas), para sondar o Sheik Ali-Hussein, homem de decisiva influencia em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e elle, Fradique, não tendo agora no Occidente occupações attractivas, cheio de curiosidade por este pittoresco Advento, partia tambem para Thebas, devendo encontrar-se com o babista, á lua mingoante, em Beni-Soueff, no Nilo...

Não recordo, depois de tantos annos, se estes eram os factos certos. Só sei que as revelações de Fradique, lançadas assim através do Cairo em festa, me impressionaram indizivelmente. Á medida que elle fallava do Bab, d'essa missão apostolica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra fé surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d'extasis, da possivel fundação de um imperio Babista--o homem tomava aos meus olhos proporções grandiosas. Não conhecera jámais ninguem envolvido em coisas tão altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de receber este segredo sublime. Outra não seria minha commoção, se, nas vesperas de S. Paulo embarcar para a Grecia, a levar a Palavra aos gentilicos, eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de Seleucia, ouvindo-lhe as esperanças e os sonhos!

Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surprezas d'aquelle arraial musulmano--nem _almées_ dançando entre brilhos de vermelho e d'ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas d'Antar; nem Derviches, sob as suas tendas de linho, uivando em cadencia os louvores d'Allah... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n'essa campanha espiritual! Se eu partisse para Thebas com Fradique?... Porque não? Tinha a mocidade, tinha o enthusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher á banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gaz, na _Gazeta de Portugal_! E pouco a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia subindo o vapor lento d'uma visão. Via-me discipulo do Bab--recebendo n'essa noite, do ulema de Bagdad, a iniciação da Verdade. E partia logo a prégar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferencia a salvação ás almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava n'uma galera: as tormentas assaltavam a minha prôa apostolica: a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomavel. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos seculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injuria ás igrejas de Lisboa, construcções d'uma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, n'um desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquella bemdita rua do Alecrim, e em meio do Loreto, á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava:--«Eu sou a _Porta_!»

Não mergulhei no Apostolado babista--mas succedeu que, enlevado n'estas phantasmagorias, me perdi de Fradique. E não sabia o caminho do Hotel Sheperd,--nem, para d'elle me informar, outros termos uteis, em arabe, além de _agua_ e _amor_! Foram angustiosos momentos em que farejei estonteado pelo largo de El-Azhar, tropeçando nos fogareiros onde fervia o café, esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. Já por sobre a turba atirava, aos brados, o nome de Fradique--quando topei com elle olhando placidamente uma _almée_ que dançava...

Mas seguiu logo, encolhendo os hombros. Nem me permittiu adiante admirar um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrimados ás lanças, lia, n'uma toada langorosa e triste, tiras de papel ensebado. A Dança e a Poesia, affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes, iam em miserrima decadencia. N'uma e outra se tinham perdido as tradições do estylo puro. As _almées_, pervertidas pela influencia dos casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can--já polluiam a graça das velhas danças arabes, atirando a perna pelos ares á moda vil de Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade, mesclada de extravagancia. As fórmas delicadas do classicismo persa nem se respeitavam, nem quasi se conheciam; a fonte da imaginação seccava entre os musulmanos; e a pobre Poesia Oriental, tratando themas vetustos com uma emphase preciosa, descambára, como a nossa, n'um _Parnasianismo_ barbaro...

--De sorte, murmurei, que o Oriente...

--Está tão mediocre como o Occidente.

E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fradique, findando o charuto, me contava que o espirito oriental, hoje, vive só da actividade philosophica, agitado cada manhã por uma nova e complicada concepção da Moral, que lhe offerecem os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do deserto...