A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 2

Chapter 23,726 wordsPublic domain

Sim! pensava eu. Talvez Fradique, á maneira do chanceller Bacon e d'outros homens grandes pela acção, deseje esconder d'este mundo de materialidade e de força o seu fino genio poetico! Ou talvez essa ira, ao vêr o seu nome impresso debaixo de versos com que se orgulharia Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente insatisfeito que não aceita ante os homens como sua a obra onde sente imperfeições! Estes modos de ser, tão superiores e novos, cahiam na minha admiração como oleo n'uma fogueira. Ao pararmos no Central tremia d'acanhamento.

Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Fradique Mendes, n'essa manhã, cedo, tomára uma caleche para Belem. Vidigal empallideceu, de desespero:

--Uma caleche! Para Belem!... Ha alguma coisa em Belem?

Murmurei, n'uma idéa d'Arte, que havia os Jeronymos. N'esse instante uma tipoia, lançada a trote, estacou na rua, com as pilecas fumegando. Um homem desceu, ligeiro e forte. Era Fradique Mendes.

Vidigal, alvoroçado, apresentou-me como um «poeta seu amigo». Elle adiantou a mão sorrindo--mão delicada e branca onde vermelhejava um rubi. Depois, acariciando o hombro do primo Marcos, abriu uma carta que lhe estendia o porteiro.

Pude então, á vontade, contemplar o cinzelador das Lapidarias, o familiar de Mazzini, o conquistador das Duas-Sicilias, o bem-adorado de Anna de Léon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez, a sã e viril proporção dos membros rijos, o aspecto calmo de poderosa estabilidade com que parecia assentar na vida, tão livremente e tão firmemente como sobre aquelle chão de ladrilhos onde pousavam os seus largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho. A face era do feitio aquilino e grave que se chama _cesareano_, mas sem as linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradição das Escólas invariavelmente attribue aos Cesares, na tela ou no gesso, para os revestir de magestade; antes pura e fina como a d'um Lucrecio moço, em plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Na pelle, d'uma brancura lactea e fresca, a barba, por ser pouca decerto, não deixava depois de escanhoada nem aspereza nem sombra; apenas um buço crespo e leve lhe orlava os labios que, pela vermelhidão humida e pela sinuosidade subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a Ironia e para o Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava nos olhos--olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de onyx, d'uma penetração aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se enterrava sem esforço, como uma verruma d'aço em madeira molle.

Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual á das calças que cahiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por botões de coral pallido: e o laço da gravata de setim negro, dando relevo á alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a perfeição concisa que já me encantára no seu verso.

Não sei se as mulheres o considerariam _bello_. Eu achei-o um varão magnifico--dominando sobretudo por uma graça clara que sahia de toda a sua força mascula. Era o seu viço que deslumbrava. A vida de tão varias e trabalhosas actividades não lhe cavára uma prega de fadiga. Parecia ter emergido, havia momentos, assim de quinzena preta e barbeado, do fundo vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique festejára os «trinta e tres» em Cintra, pela festa de S. Pedro, eu sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e agil de um ephebo, na infancia do mundo grego. Só quando sorria ou quando olhava se surprehendiam immediatamente n'elle vinte seculos de litteratura.

Depois de lêr a carta, Fradique Mendes abriu os braços, n'um gesto desolado e risonho, implorando a misericordia de Vidigal. Tratava-se, como sempre, da Alfandega, fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote, contendo uma mumia egypcia...

--Uma mumia...?

Sim, perfeitamente, uma mumia historica, o corpo veridico e veneravel de Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista de Ramèzes II. Mandára-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação d'Inglaterra, Lady Ross, sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e plena ventura, colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da Assyria... Mas, apesar d'esforços sagazes, não conseguia arrancar o defunto letrado aos armazens da Alfandega--que elle enchera de confusão e de horror. Logo na primeira tarde, quando Pentaour desembarcára, enfaixado dentro do seu caixão, a Alfandega aterrada avisou a policia. Depois, calmadas as desconfianças d'um crime, surgira uma insuperavel difficuldade:--que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d'um hierogrammata do tempo de Ramèzes? Elle Fradique suggerira o artigo que taxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que é um arenque defumado senão a mumia, sem ligaduras e sem inscripções, d'um arenque que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos fiscaes. O que a Alfandega via diante de si era o corpo d'uma creatura, outr'ora palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava n'um cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os _capitulos de fim de dia_--não era certamente da conta dos Poderes Publicos. Isto parecia-lhe logico. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a hesitar, coçando o queixo, diante do cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade! E agora n'aquella carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam, como mais nacional e mais rapido, que se arrancasse um _empenho_ do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direitos o corpo augusto do escriba de Ramèzes. Ora este empenho, quem melhor para o alcançar que Marcos--esteio da Regeneração e seu Chronista musical?

Vidigal esfregava as mãos, illluminado. Ahi estava uma coisa bem digna d'elle, «bem catita»--salvar do fisco a mumia «d'um figurão pharaonico»! E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou para a tipoia, gritou ao cocheiro a morada do Ministro, seu collega na _Revolução de Setembro_. Assim fiquei só com Fradique--que me convidou a subir aos seus quartos, e esperar Vidigal, bebendo uma «soda e limão».

Pela escada, o poeta das Lapidarias alludiu ao torrido calor d'agosto. E eu que n'esse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa--deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

--Sim, está d'escachar!

E ainda o torpe som não morrera, já uma afflicção me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sêbo sobre o supremo artista das Lapidarias, o homem que conversára com Hugo á beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda scintillante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes parallelas, em calão teimoso:--«é de rachar»! «está de ananazes»! «derrete os untos»!... Atravessei alli uma d'essas angustias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se começa a vida e a litteratura, vincam a alma--e jámais esquecem.

Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova. Só, limpando o suor, considerando que altos pensadores se exprimem assim, com uma simplicidade rude,--serenei. E á perturbação succedeu a curiosidade de descobrir em torno, pelo aposento, algum vestigio da originalidade intensa do homem que o habitava. Vi apenas cançadas cadeiras de reps azul-ferrete, um lustre embuçado em tulle, e uma console, de altos pés dourados, entre as duas janellas que respiravam para o rio. Sómente, sobre o marmore da console, e por meio dos livros que atulhavam uma velha mesa de pau preto, pousavam soberbos ramos de flôres: e a um canto afofava-se um espaçoso divan, installado decerto por Fradique com colchões sobrepostos, que dois cobrejões orientaes revestiam de côres estridentes. Errava além d'isso em toda a sala um aroma desconhecido, que tambem me pareceu oriental, como feito de rosas de Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.

Fradique Mendes voltára de dentro, vestido com uma cabaia chineza! Cabaia de mandarim, de sêda verde, bordada a flôres de amendoeira--que me maravilhou e que me intimidou. Vi então que tinha o cabello castanho-escuro, fino e levemente ondeado sobre a testa, mais polida e branca que os marfins de Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz franca, não apresentavam aquella negrura profunda que eu comparára ao onyx, mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu uma cigarrette e ordenou a «soda e limão» a um creado surprehendente, muito louro, muito grave, com uma perola espetada na gravata, largas calças de xadrez verde e preto, e o peito florido por tres cravos amarellos! (Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). O meu enleio crescia. Por fim Fradique murmurou, sorrindo, com sincera sympathia:

--Aquelle Marcos é uma flôr!

Concordei, contei a velha estima que me prendia a Vidigal, desde o primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Concertina e _Sebenta_. Então, alegremente, recordando Coimbra, Fradique perguntou-me pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros lentes ainda, do antigo typo fradesco e bruto; depois pelas tias Camêlas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações d'estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no céo, ao lado de Santa Cecilia, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memorias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camêlas, e as ceias desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrára das risadas, das illusões e dos piteus d'então!...

Tudo isto vinha n'um tom muito moço, sincero, singelo--que eu mentalmente classificava de _crystallino_. Elle estirára-se no divan; eu ficára rente da mesa, onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre volumes de Darwin e do Padre Manoel Bernardes. E então, dissipado o acanhamento, todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idéas de Litteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder o seu genio poetico, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra imperfeita,--alludi ás Lapidarias.

Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir--com um riso que seria genuinamente galhofeiro, se de certo modo o não contradissesse um laivo de vermelhidão que lhe subira á face côr de leite. Depois declarou que a publicação d'esses versos, _com a sua assignatura_, fôra uma perfidia do leviano Marcos. Elle não considerava _assignaveis_ esses pedaços de prosa rimada, que decalcára, havia quinze annos, na idade em que se imita, sobre versos de Lecomte de Lisle, durante um verão de trabalho e de fé, n'uma trapeira do Luxemburgo, julgando-se a cada rima um innovador genial...

Eu acudi affirmando, todo em chamma, que depois da obra de Baudelaire nada em Arte me impressionára como as Lapidarias! E ia lançar a minha esplendida phrase, burilada n'essa noite com paciente cuidado:--«A fórma de v. exc.^a é um marmore divino...» Mas Fradique deixára o divan e pousava em mim os olhos finos de onix, com uma curiosidade que me _verrumava_:

--Vejo então, disse elle, que é um devoto do maganão das _Flôres do Mal_!

Córei, áquelle espantoso termo de _maganão_. E, muito grave, confessei que para mim Baudelaire dominava, á maneira d'um grande astro, logo abaixo d'Hugo, na moderna Poesia. Então Fradique, sorrindo paternalmente, afiançou que bem cedo eu perderia essa illusão! Baudelaire (que elle conhecera) não era verdadeiramente um poeta. Poesia subentendia emoção: e Baudelaire, todo intellectual, não passava d'um psychologo, d'um analysta--um dissecador subtil d'estados morbidos. As _Flôres do Mal_ continham apenas resumos criticos de torturas moraes que Baudelaire muito finamente comprehendera, mas nunca pessoalmente _sentira_. A sua obra era como a d'um pathologista, cujo coração bate normal e serenamente, emquanto descreve, á banca, n'uma folha de papel, pela erudição e observação accumuladas, as perturbações temerosas d'uma lesão cardiaca. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa as _Flôres do Mal_--e só mais tarde, depois de rectificar a justeza das analyses, as passára a verso, laboriosamente, com um diccionario de rimas!... De resto em França (accrescentou o estranho homem) não havia poetas. A genuina expressão da clara intelligencia franceza era a prosa. Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia se caracterisasse pela precisão, lucidez, sobriedade--que são qualidades de prosa; e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais visivelmente possuia o genio de prosador. Boileau continuaria a ser um classico e um immortal, quando já ninguem se lembrasse em França do tumultuoso lyrismo de Hugo...

Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, penetrante--que ia recortando os termos com a certeza e a perfeição d'um buril. E eu escutava, varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de côrte, permanecesse nos cimos da Poesia Franceza, com a sua _Ode á tomada de Namur_, a sua cabelleira e a sua ferula, quando o nome do poeta da _Lenda dos Seculos_ fosse como um suspiro do vento que passou--parecia-me uma d'essas affirmações, de rebuscada originalidade, com que se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente classificava de _insolente_. Tinha mil coisas, abundantes e esmagadoras, a contestar: mas não ousava, por não poder apresental-as n'aquella fórma translucida e geometrica do poeta das Lapidarias. Essa cobardia, porém, e o esforço para reter os protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da minha mocidade, suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava só por abalar d'aquella sala onde, com tão bolorentas opiniões classicas, tanta rosa nas jarras e todas as molles exhalações de canella e mangerona,--se respirava conjuntamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia.

Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella conversação com o familiar de Mazzini e d'Hugo, miudos reparos sobre o Pedro Penedo e o carrascão das Camêlas. E na justa ambição de deslumbrar Fradique com um resumo critico, provando as minhas finas letras, recorri á phrase, á lapidada phrase, sobre a fórma do seu verso. Sorrindo, retorcendo o buço, murmurei:--«Em todo o caso a fórma de v. exc.^a é um marmore...» Subitamente, á porta que se abrira com estrondo, surgiu Vidigal:

--Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!

O ministro, homem de poesia, e de eloquencia, interessára-se francamente por aquella mumia d'um «collega», e jurára logo poupar-lhe o opprobrio de ser tarifada como peixe salgado. S. exc.^a tinha mesmo ajuntado:--«Não, senhor! não, senhor! Ha de entrar livremente, com todas as honras devidas a um classico!» E logo de manhã Pentaour deixaria a Alfandega, de tipoia!

Fradique riu d'aquella designação de _classico_ dada a um hierogrammata do tempo de Ramèzes--e Vidigal, triumphante, abancando ao piano, entoou com ardor a _Grã-Duqueza_. Então eu, tomado estranhamente, sem razão, por um sentimento de inferioridade e de melancolia, estendi a mão para o chapéo. Fradique não me reteve; mas os dois passos com que me acompanhou no corredor, o seu sorriso e o seu _shake-hands_, foram perfeitos. Apenas na rua, desabafei:--«Que pedante!»

Sim, mas inteiramente _novo_, dessemelhante de todos os homens que eu até ahi conhecera! E á noite, na travessa do Guarda-Mór (occultando a escandalosa apologia de Boileau, para nada d'elle mostrar imperfeito), espantei J. Teixeira d'Azevedo com _um_ Fradique idealisado, em que tudo era irresistivel, as idéas, o verbo, a cabaia de sêda, a face marmorea de Lucrecio moço, o perfume que esparzia, a graça, a erudição e o gosto!

J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar. O homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço e theatral. Concordou no emtanto que convinha ir estudar «um machinismo de _pose_ montado com tanto luxo»!

Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipoia. Eu, engravatado em setim, de gardenia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo, caracterisado de «Diogenes do seculo XIX», com um pavoroso cacete ponteado de ferro, chapéo braguez orlado de sêbo, jaquetão encardido e remendado que lhe emprestára o creado, e grossos tamancos ruraes!... Tudo isto arranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, só para horrorisar Fradique--e diante d'esse homem de sceptismo e de luxo, altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867!

Tudo perdido! Perdida a minha gardenia, perdida a immundicie estoica do meu camarada! O snr. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na vespera n'um vapor que ia buscar bois a Marrocos.

III

Alguns annos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Fórma, não tornei a lêr Baudelaire. Marcos Vidigal, que, através da _Revolução de Setembro_, trepára da Chronica Musical á Administração Civil, governava a India como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ocios asiaticos que lhe fazia o Estado, á _Historia da Musica_ e á concertina: e levado assim esse grato amigo do Tejo para o Mandovi eu não soubera mais do poeta das Lapidarias. Nunca porém se me apagára a lembrança do homem singular. Antes por vezes me succedia de repente _vêr_, claramente _vêr_, n'um relevo quasi tangivel--a face eburnea e fresca, os olhos côr de tabaco insistentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde viviam vinte seculos de litteratura.

Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasião, em Memphis, ou no sitio em que foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por entre palmeiraes que emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante de luar oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas arcarias de claustros. Era uma solidão, um vasto silencio de terra morta, apenas dôcemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto dolente do arraes... E eis que subitamente (sem que recordação alguma evocasse até esta imagem)--_vejo_, nitidamente _vejo_, avançando com o barco, e com elle cortando as faxas de luz e sombra, o quarto do Hotel Central, o grande divan de côres estridentes, e Fradique, na sua cabaia de sêda, celebrando por entre o fumo da cigarette a immortalidade de Boileau! E eu mesmo já não estava no Oriente, nem em Memphis, sobre as immoveis aguas do Nilo; mas lá, entre o reps azul, sob o lustre embuçado em tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo as carroças de ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera porém o acanhamento que então me enleava. E, durante o tempo que assim remámos n'esta decoração pharaonica para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui argumentando com o poeta das Lapidarias, e enunciando emfim, na defeza de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e tremendas com que o devia ter emmudecido n'aquella tarde de agosto! O arraes cantava os vergeis de Damasco. Eu berrava mentalmente:--«Mas veja v. exc.^a nos _Miseraveis_ a alta lição moral...»

Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora mais quente; quando os _muezzins_ cantam a terceira oração. E ao apear do meu burro, diante do Hotel Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei de eu avistar? Que homem, d'entre todos os homens, avistei eu no terraço, estendido n'uma comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas por traz da nuca, o _Times_ esquecido sobre os joelhos, embebendo-se todo de calor e de luz? Fradique Mendes.

Galguei os degraus do terraço, lançando o nome de Fradique, por entre um riso de transbordante prazer. Sem desarranjar a sua beatitude, elle descruzou apenas um braço que me estendeu com lentidão. O encanto do seu acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas lunetas azues, e o meu vasto chapéo panamá:

--«Então como vai desde o Hotel Central?... Ha quanto tempo pelo Cairo?»

Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. N'um banco ao seu lado, todo eu sorria, limpando o pó que me empastára a face com uma espessura de mascara. Durante o curto e dôce momento que alli conversámos, soube que Fradique chegára havia uma semana de Suez, vindo das margens do Euphrates e da Persia, por onde errára, como nos contos de fadas, um anno inteiro e um dia; que tinha um _debarieh_, com o lindo nome de _Rosa das Aguas_, já tripulado e amarrado á sua espera no caes de Boulak; e que ia n'elle subir o Nilo até ao Alto Egypto, até á Nubia, ainda para além de Ibsambul...

Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates não lhe tostára a pelle lactea. Trazia, exactamente como no Hotel Central, uma larga quinzena preta e um collete branco fechado por botões de coral. E o laço da gravata de setim negro representava bem, n'aquella terra de roupagens soltas e rutilantes, a precisão formalista das idéas occidentaes.

Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vidigal que burocratisava entre os palmares brahmanicos... Depois, como eu continuava a esfregar o suor e o pó, aconselhou que me purificasse n'um banho turco, na piscina que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed, e que repousasse toda a tarde, para percorrermos á noite as illuminações do Beiram.

Mas em logar de descançar, depois do banho lustral, tentei ainda, ao trote dôce de um burro, através da poeira quente do deserto libyco, visitar fóra do Cairo as sepulturas dos Kalifas. Quando á noite, na sala do Sheperd, me sentei diante da sopa de «rabo de boi», a fadiga tirára-me o animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas. O que me appetecia era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde tão romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes entre os rosaes.

Fradique Mendes já estava jantando, n'uma mesa onde flammejava, entre as luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado pousava de leve, sobre um escabello mourisco, uma senhora, vestida de branco, a quem eu só via a massa esplendida dos cabellos louros, e as costas, perfeitas e graciosas, como as d'uma estatua de Praxiteles que usasse um collete de Madame Marcel; defronte, n'uma cadeira de braços, alastrava-se um homem gordo e molle, cuja vasta face, de barbas encaracoladas, cheia de força tranquilla como a de um Jupiter, eu já decerto encontrára algures, ou viva ou em marmore. E cahi logo n'esta preoccupação. Em que rua, em que museu admirára eu já aquelle rosto olympico, onde apenas a fadiga do olhar, sob as palpebras pesadas, trahia a argilla mortal?

Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarrão. O selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ebano do carão redondo, e, através da mesa, grunhiu com respeito:--_Cé-le-diêu_... Justos céos! _Le Dieu!_ Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de barbas encaracoladas _era um Deus_--_o Deus_ especial e conhecido que habitava o Sheperd! Fôra pois n'um altar, n'uma téla devota, que eu vira essa face, dilatada em magestade pela absorpção perenne do incenso e da prece? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos espalmadas uma travessa que fumegava. De novo o Nubio me atirou, em syllabas claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza--_C'est le Dieu!_