A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 13

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O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte, com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta, brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga. Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei--e que, como elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho, em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja--e todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas almofadas da sua cella mandava buscar o _D. Quichote_, ou as _Farças de D. Petronilla_. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e notas traçadas pela mão erudita dos Abbades--só a adega...

Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão, fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta, bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados, como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a profanidade;--e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada, os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a fila dos jornaleiros mette-se ás terras--e o trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza, nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura. Essa era a ditosa feição da vida antiga.

Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece prodigamente:--e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se chamava a _comezaina_. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe, para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:--e estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida por Deus.

Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no tempo dos Cruzios--porque só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde, como a escutar, por detraz dos negros montes.

_Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae_... Mau latim--grata verdade.

Seu grato e mau afilhado--Fradique.

XIII

A CLARA...

(_Trad._)

Paris, novembro.

_Meu amor._--Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei n'um _fiacre_ desolador desde a nossa _Torre de Marfim_) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude--e já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel inerte, esse ineffavel _estar comtigo_ que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser--e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome--recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva--que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o meu--«_amo, logo existo!_» E não foi só a minha realidade que me desvendaste--mas ainda a realidade de todo este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus hombros--não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso affirmar:--«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei--e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera--que nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dôr--então não estaria collocada n'um museu, mas consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam acclamado _in eternum_ como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que deve ser universal--mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha Divindade,--para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,--e eu sempre diante d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação, abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente--que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo--que te queria entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente--«_Pobre creatura!_» E só eu saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por _ti_! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma virtude:--e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente--ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança--e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á mesma hora e indo continuar no _além_ o mesmo sonho estatico. E outras vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas--que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade. Ainda hontem me perguntavas:--«No calendario do seu coração, quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto--e que tu me resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti--e se elle me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulchro. Só posso deixar de te amar--quando deixar de ser. E a vida comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. Melhor talvez:--e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não receio:--toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha graça.

Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que todas as verdades--que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!... Fradique.

XIV

A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)

Lisboa, junho.

_Minha querida madrinha._--N'aquella casa de hospedes da travessa da Palha, onde vive, atrellado á lavra angustiosa da Verdade, meu primo o Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente divertido.

O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros, que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese;--e que resume mesmo, com uma fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fóra, na casca, padre Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba, desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentação das auctoridades e das Secretarias, por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa, n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja; as mãos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e doçura das hostias; o carão côr de couro curtido, com um sobre-tom azul nos queixos escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos--tudo n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano só entrevira exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um velho lenço de rapé posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...

O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo algum uma funcção espiritual--mas unicamente e terminantemente uma funcção civil. Nunca, desde que foi collado á sua parochia, padre Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado, um Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs n'uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartição, onde, em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar sacramentos. As suas relações portanto não são, nunca foram, com o céo (do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)--mas com a Secretaria da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem social--baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.

Os sacramentos são, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras ceremonias civis, indispensaveis para a regularisação do estado civil,--e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina, na Graça que communicam ás almas, e na força com que ligam a vida transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario, padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu Liguori--mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso, ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as _Sebentas_ de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o curso», receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de um emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A sciencia é a formalidade penosa que lá conduz--verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa ao espirito desejos de regressar á sua disciplina, á sua aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do casamento:--mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com boa fiscalisação civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões, pondo na benção toda a uncção prescripta, perfeito em unir as mãos com a estola, cabal na ejaculação dos latins, porque é subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos, e, funccionario zeloso, não quer cumprir com defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo.