A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 12

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Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem afreguezada, ha agora sete hospedes--e todos fieis, solidos, gastando, com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o Pinho--o Pinho brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar á mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle, na rua, a cada esquina, desemmaranha do cordão d'ouro do relogio para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de sêda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um môcho, junto do balcão, com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o _London Brazilian_. Aos domingos, á noitinha, com recato, visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões.

Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas entidades--elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho, graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta para contentar a porção d'Alma e Corpo de que apparentemente se compõe. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e diz, desdobrando o guardanapo--«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e murmura--«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um prato fundo, que elle possa encher duas vezes--fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O _Diario de Pernambuco_, o _Diario de Noticias_, alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas outras necessidades de intelligencia e de imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a mim proprio me assegurou)--«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». Mesmo ácerca d'um ponto tão importante, como é para um commendador o seu mausoléo, Pinho pouco requer:--apenas uma pedra lisa e decente, com o seu nome, e um singelo _orai por elle_.

Errariamos porém, minha querida madrinha, em suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios, verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance muito--para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã que voltei, depois d'essa revelação, á casa de hospedes, Pinho, ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella alma! Pinho não é um egoista, um Diogenes de rabôna preta, sêccamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Sómente quem são, para Pinho, os seus genuinos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada--e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como elle, não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o acto de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce dentro d'um guardanapo.

É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nação, não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca póde sahir idéa ou acto, affirmação ou negação, que desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando tambem, Pinho apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente, Pinho é um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos, que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado, segundo corre, o vai crear barão. E barão d'um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque é n'elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pae de Pinho chamava-se Francisco--Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No caso d'estas aguas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de Jehovah, para com este paiz peccador, são diluvianas; e, não me julgando menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do coração--Fradique.

XI

A MR. BERTRAND B.

_Engenheiro na Palestina_

Paris, abril.

_Meu caro Bertrand._--Muito ironicamente, hoje, n'este Domingo de Paschoa em que os céos contentes, se revestiram paschalmente d'uma chasula d'ouro e d'azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar, me chega a tua horrenda carta, contando que findaste o traçado do _Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem_! E triumphas! Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta, o lapis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a «linha» onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros, limpando o grosso suor da façanha, desarrolham as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o Progresso, hirto contra as muralhas de Herodes, todo engonçado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando, com estalidos asperos, as suas rigidas mãos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traçado, oh filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes d'uma faca vil por cima d'uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima Jeppo, já heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estação com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de bonet agaloado, se ergue entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva, com a sua 1.^a classe forrada de chita, rola descaradamente pela planicie de Saaron, tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar das hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza, derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua, por um tubo de couro, do Poço Santo d'onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arymathea (_Arymathea, quinze minutos de demora!_), a aldeia dos dôces hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis fumarentos, as collinas de Judá, onde choraram os prophetas. Rompe por entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus. Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no valle de Hennom, no _terminus_ de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e Calçadas, nem accionista da _Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina_, apenas um peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero que a tua obra de civilisação é uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S. Pedro resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra das arvores que os anjos iam adiante semeando,--são fabulas... Mas são fabulas que ha dois mil annos dão encanto, esperança, abrigo consolador, e energia para viver a um terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na tão linda mythologia christã, são por isso veneraveis. N'elles viveram, combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob até S. Paulo, todos os sêres excepcionaes que hoje povoam o céo. Jehovah só entre esses montes se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E é penoso que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda não se apagaram as pégadas divinas.

Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma incorrigivel fonte de Illusão. Mas a illusão, Bertrand amigo, é tão util como a certeza: e na formação de todo o espirito, para que elle seja completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa, tanto nos corações simples como nas intelligencias cultas, é um retrocesso na Civilisação, na verdadeira, n'aquella de que tu não és obreiro, e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Judéa e Galiléa, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz, destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De ella se ter conservado, através d'estes quatro mil annos, immutavelmente _biblica_ e _evangelica_... Decerto sobrevieram mudanças em Israel; a administração turca tem menos esplendor que a administração romana; dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só resta penhasco e ortiga; as cidades, esboroadas, perderam o seu heroismo de cidadellas; o vinho é raro; todo o saber se apagou; e não duvido que aqui e além, em Sião, n'algum terraço de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de _Madame Angot_.

Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana ou nomada, as maneiras, os costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,--tudo permanece como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina é penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle de cabra plantadas á sombra dos sycomoros; o pastor apoiado á sua alta lança, seguido do seu rebanho; as mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho da fonte, com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta das villas muradas; os claros terraços cheios de pombas; o escriba que passa, com o seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o grão; o homem de longos cabellos nazarenos que nos saúda com a palavra de _paz_, e que conversa comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando, para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as procissões nupciaes, e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,--tudo transporta o peregrino á velha Judéa das Escripturas, e de um modo tão presente e real, que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher, com largas argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro preso pela ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se, entre os homens sentados além, á sombra da figueira e da vinha, aquelle de curta barba frisada, que ergue o braço, não será Jesus ensinando.

Esta sensação, preciosa para o crente, é preciosa para o intellectual, porque o põe n'uma communhão flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoção na Grecia, e que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em pó, sob a Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas barbara, e a Athenas musulmana, e a Athenas constitucional e sordida. Por toda a parte o velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruinas. Os proprios montes perderam, ao que parece, a configuração classica: e ninguem póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou e tão virgilianamente cantou. Um unico sitio na terra permanecia ainda com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas transformações:--e esse sitio era um pedaço da Judéa, da Samaria e da Galiléa. Se elle fôr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo social, querido do seculo, que é o districto de Liverpool ou o departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a opportunidade educadora de _vêr_ uma grande imagem do Passado, que profanação, que devastação bruta e barbara! E por perder essa fórma sobrevivente das civilisações antigas, o thesouro do nosso saber e da nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido.

Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro, meu Bertrand;--e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus, como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem, escarranchado n'um burro. As coisas mais uteis, porém, são importunas, e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes não são congeneres. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e todavia ninguem, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se installasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados,--nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra. Um caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus. Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares, á beira de uma agua clara, e onde se dorme tão santamente sob a paz radiante das estrellas da Syria.

E são justamente essa tenda, e o camello grave que carrega os fardos, e a escolta flammejante de beduinos, e os pedaços de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de Salomão que se colhe nas fendas d'uma ruina sagrada, e as frescas paragens junto aos poços biblicos, e as rememorações do Passado á noite em torno á fogueira do acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o homem de gosto que ama as emoções delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de Jerusalem se partir para a Galiléa n'um wagon estridente e cheio de pó, talvez ninguem emprehenda a peregrinação magnifica--a não ser o destro _commis-voyageur_ que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou pannos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolará vazio. Que pura alegria essa para todos os entendimentos cultos--que não sejam accionistas dos _Caminhos de Ferro da Palestina_!...

Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que melhor servem o Ideal, nunca resistem ás tentações sensualistas do Progresso. Se d'um lado, á sahida de Jaffa, a propria caravana da Rainha de Sabá, com os seus elephantes e onagros, e estandartes, e lyras, e os arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos, infindavel em poesia e lenda, se offerecesse ao homem do seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão--e do outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por hora, com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por mais eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria sofregamente para o wagon, onde podesse descalçar as botas, e dormitar de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude da sua malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo que de manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.^a classe, e comprar na estação de Gaza a _Gazeta Liberal do Sinai_, e jantar divertidamente em Ramleh no _Grand-Hotel dos Machabeus_--irá, á noite, em Jerusalem, através da _Via Dolorosa_ illuminada pela electricidade, beber um bock e bater tres carambolas no _Casino do Santo Sepulchro_!

Será este o teu feito--e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!--Fradique.

XII

A MADAME DE JOUARRE

Quinta de Refaldes (Minho).

_Minha querida madrinha._--Estou vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo, todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural serenidade, que me affaga e me adormece.