A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

Chapter 11

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Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco, desdenhando a _Sebenta_, assegurou «que o seculo XIX era um seculo de progresso e de luz». O curso começou logo a presentir e a affirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um _premio_ no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou então por toda a academia--que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia alli um grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta geração academica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança:--«Parece que ha agora ahi um rapaz de immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu seio--trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:--«É o Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco, que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a «liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo:--«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!» Era pouco, decerto:--mas a camara comprehendeu bem que, sob aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idéas solidas. Não volveu a fallar durante mezes--mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco--como se olha para o céo pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam maravilhados:--«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar». Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro só devia conhecer as coisas _pela rama_».

Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da Corôa. Pacheco, n'uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro:--e immediatamente se percebeu que massiça consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de gerencia «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espiritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este regimen, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lapis:--e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a opposição. É que o immenso talento de Pacheco terminára por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerario com esta coisa tremenda:--«Ao illustre deputado que me censura só tenho a dizer que emquanto, sobre questões d'Instrucção Publica, s. exc.^a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta cadeira, faço luz!»--Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, n'uma assembléa humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d'ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um Director universal de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz certas fórmas d'expressão só proprias da religião e do amor. Quando elle foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar piamente:--«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com langor:--«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando patadas ao chão:--«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta.

Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr. Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal--Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco--Portugal não seria o que é entre as nações!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu immenso talento--mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite (sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.^a pensava de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo apenas, s. exc.^a deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio d'admiração, lento e maravilhado. N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:--«mediocre, meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como aquelle talento, sendo tão vasto--era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;--quero dizer, s. exc.^a morreu, quasi repentinamente, sem soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro Accacio (em carta ao _Diario de Noticias_) foi esculpida uma figura de _Portugal chorando o Genio_.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei, diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco, a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservára baixos--e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da bôca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento! Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado--Fradique.

IX

A CLARA...

(Trad.)

Paris, junho.

_Minha adorada amiga._--Não, não foi na _Exposição dos Aguarellistas_, em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console, cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a _meditar_ em silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella, alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio, meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada dôce momento olhava--mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza, os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;--e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava--até que só essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella, alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso, d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma influencia descia d'ella sobre mim--uma influencia estranha, differente de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella, comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me abandonasse a sua influencia--devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça--todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as minhas--bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um acto de ineffavel misericordia--como outr'ora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida, mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar.--Fradique.

X

A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)

Lisboa, junho.

_Minha excellente madrinha._--Eis o que tem «visto e feito», desde maio, na formosissima Lisboa, _Ulyssipo pulcherrima_, o seu admiravel afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o meu parente, que se chama Procopio, considerando que a mulher não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista--votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre pela Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma aguardente de muscatel excellente;--e eu trepo com gosto duas ou tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do Infinito, elle já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou, pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profissões em que se occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como n'um indice, as idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral da nação.

Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,--e é mantido em rigido asseio por uma d'estas creadas como só produz Portugal, bella moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarolla as louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia--_quo te carmine dicam, Rethica?_ A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparavel. E os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de Collares, e duas donzellas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Innocencia.

A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um pescoço muito nedio, e toda ella mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de boa economia. Sem ser rigorosamente viuva--tem um filho, já gordo tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e está destinado por D. Paulina á Burocracia que ella considera, e muito justamente, a carreira mais segura e a mais facil.

--O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora, depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr. conselheiro Vaz Netto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames, já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartição...

--Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v. exc.^a vê: era pelo gosto.