A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas
Chapter 10
Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz é toda de desconsolo:--mas, no que diz, revela a mais forte, segura e insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte, que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetára em monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admirações effervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua. Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para fóra o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d'uma parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que comprehendi, sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia critica--porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço, o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente, não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da mamã (da mamã d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos! Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!... Madame Mendibal até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe d'ella, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na _gare_ Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda, gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!»
--É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma franceza. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos, um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo principe de Galles. Eu não sei se o senhor é casado. Perdôe a confiança. Mas se não é, sempre lhe direi, como digo a todo o mundo:--Case com uma franceza, case com uma franceza!...
Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece--o «formoso Chambray». Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinião tem n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E, immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido.
Fôra a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher, _une grande et belle femme_. Corpo soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitarios nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente installado na vida.
E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua... Chambray pensa comsigo:--«burgueza, trinta annos, sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova». E apenas o comboyo larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido. Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do _Figaro_ aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado d'ella, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repellida por Madame:--e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico, de incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois, ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar--arrebata-a moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.
Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com effeito, uma installação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o caso que o almoço suba depressa, porque elles têm de partir pelo trem das duas horas»--tal é o brado sincero de Chambray!
Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial--despe o casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a _garota_ que ha quasi sempre no fundo da _matrona_. Atira tambem o chapéo, um chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este grito d'alma:
--_Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!_
E depois, como dizem os hespanhoes--_la mar_. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;--e outra vez á mesa, diante d'um _beefsteak_ reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.
Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr--e partem. Na estação, ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a Paris), Chambray n'um aperto de mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura--_Lucie_.
--E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E sei tambem que é casada porque na _gare_ Saint-Lazare, á espera d'ella, e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o marido... É um _rastacuero_ côr de chocolate, com uma barbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francezas!
Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que, em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio, todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade--os dois unicos resultados que elle conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma sensação nova ou differente, que a desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicação. E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente organisado.
Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Hollanda--Fradique.
VII
A MADAME DE JOUJARRE
(Trad.)
Lisboa, março.
_Minha querida madrinha._--Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia á memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição dos _Deveres_ de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descripções, notas, reflexões e panoramas», como se lê no sub-titulo da _Viagem á Suissa_ do seu amigo o Barão de Fernay, commendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções, notas, reflexões e panoramas» d'esta terra que é minha e que _está a la disposicion de ustêd_... Chegáramos a uma estação que chamam de Sacavem--e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz, através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram lanternas de faluas dormindo no rio:--e symbolisavam d'um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. De sorte que tornei a cerrar resignadamente os olhos--até que, á portinhola, um homem de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu bilhete, dizendo _Vossa Excellencia_! Em Portugal, boa madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por _Excellencia_.
Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta talvez--gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.
No casarão soturno, á espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith[3] e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do casarão regelava os pés.
Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em que oscillava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo, uma boceta de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda enterrou o braço através d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.
Ficamos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem. Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos, barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o saco de couro? Depois, descorçoado, declarou que positivamente nas nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do carregador, e recomeçou elle, com a sua intelligencia superior de chefe, uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões... Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes voltou, coçando a cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda, pelo chão vasio, á espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega através do casarão. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beiço (bondoso homem!), deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e magistral. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a porta da estação:
--Será aquillo, meu senhor?
Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda. Não indaguei como elle se encontrava alli, sósinho, separado da bagagem a que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras grossas--e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia que não havia tipoias.
--Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d'aqui os passageiros?
O homem encolheu os hombros. «Ás vezes havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões, e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação, á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle serviço. Em todas as estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia, á chegada dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço que deshonrava a Nação!
O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciencia de que todos os serviços eram abominaveis, e a Patria toda uma irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas na face humana.
Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que não havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.
--Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?
O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao meu conforto. Pois n'esse caso elle não via solução, a não ser que por acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por aquellas paragens.
Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos apinhamos á porta da estação, esperando através da treva a vela--quero dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.
Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar tres horas, e elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado, sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido, o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por um carregador--atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos annos de civilisação repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a esperança n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao longe, não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da Providencia. Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha, seguindo estes lances, deve ter já lagrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. Eu não chorei--mas tinha vergonha, uma immensa e pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha patria--e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada mais fragil que a reputação das nações. Uma simples tipoia que falta de noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma civilisação secular!
No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, á decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de dia), começamos, sombrios e em fila, a trilhar _á pata_ a distancia que vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E todos tres, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com um intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos, devagar, n'uma fileira soturna, avançando para dentro da capital d'estes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando, tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de carrejão!...
Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da nossa guarda) uma caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella. Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E, á uma, todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote, praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa omnipotencia--e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por menos de _tres mil reis_. Sim, minha madrinha, _dezoito francos_! Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes. Tremulo de colera, mas submisso como quem cede á exigencia d'um trabuco, enfiei para a tipoia--depois de me ter despedido com grande affecto do carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.
Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques, clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e todas as seducções. Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada. Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:
--Então, são tres mil reis?
Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de elle responder, o malandro sem par?
--Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D. Fradique... Lá para o snr. D. Fradique é o que quizer.
Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amollecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos portuguezes. Dei uma libra áquelle bandido!
E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu, aquelle que de longe de si sempre péna--Fradique.
VIII
AO SNR. E. MOLLINET
Director da _Revista de Biographia e de Historia_
Paris, setembro.
_Meu caro snr. Mollinet._--Encontrei hontem á noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse da _Revista de Biographia e de Historia_, me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que idéas, ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.
Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque _tinha um immenso talento_. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro, Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do conselho--Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca, n'estas situações, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fóra, aquelle immenso talento que lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os partidos, os jornaes, as repartições, os corpos collectivos, a massa compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco «_que immenso talento!_» o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna--Pacheco sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco.