Chapter 2
A protetora Palas, que não pode sofrer a corrupção dos Portugueses, a quem pelo valor, que ousados mostram, como um povo de heróis estima e preza. Esta Deusa propícia receando o encontro segundo que ajustaram com as ninfas de Vênus, que só buscam nos peitos acender-lhes vivas chamas, a fim de que se esqueçam de vitórias, de tesoiros, conquistas, e de palmas, que são os bem sublimes, por que sempre os peitos Portugueses se abrasaram. Esta Deusa que sabe que um veneno, bem que ele seja fraco, repetido por diversas porções, inficiona o sangue pouco a pouco até que mata: intenta socorrer os Portugueses com empenho tão forte, que cogita quando isto necessário, defendê-los lutando com a mesma Deusa Vênus, que perdê-los intenta, braço a braço. Quanto tem de formosa a sã virtude! que até quando se esfria ainda encontra no peito protetor o forte amparo dirigido a que as forças já perdidas de novo se restaurem, ou que ao menos essas pequenas forças que inda restam com repetidas quedas não se acabem.
Apenas viu a Deusa que os guerreiros alegres se aprontavam por que fossem à vizinha cidade atrás do encanto e fingidos prazeres que esperavam. Ela muda o seu rosto, e muda o traje; toma o traje modesto, mais o rosto de um seu próprio ministro douto, e grave, que os expostos guerreiros acompanha.
Mal mudou o semblante foi meter-se no meio dos já prontos navegantes. O semblante carrega, e apenas fita nos seus rostos a vista assim lhes fala. Que é isto, Portugueses? Vós correndo aos prazeres de Amor? A uns prazeres que afrouxam dos heróis as fortes almas? que voltam os leões, e mais os tigres numas pombas cobardes, que não podem fazer outro serviço que não seja o conduzir da mãe o torpe carro? Quem entrega os seus braços às cadeias que lhe bota a beleza inerme e fraca pode ter a constância que é precisa para se expor aos riscos de um combate? Para ver junto aos muros altos montes de corpos inda quentes palpitando, de amigos, e parentes; uns vertendo aos borbotões o sangue; outros sujos de negro pó a dar finais arrancos, sem que feche de horror os olhos turvos? Sem que volte também ao sítio a cara?
Pois isto, Portugueses, inda é pouco? Terá, terá valor, terá virtude, para correr ao muro, e sobre o corpo até do próprio pai firmar a escada? Subir, e já disposto a que não deve deixar os seus degraus, sem que consiga o muro cavalgar, ou sem que dele precipitado caia, dando aflito o último suspiro sobre os ares? Os jardins, Portugueses, só produzem as flores sem valia. O loiro, a palma que servem para insígnias do heroísmo só se cortam nos sítios que se regam com rios de suor, e mais de sangue.
Enquanto a Protetora assim dizia os fortes portugueses increpados se olhavam confundidos, e as rosetas que a vergonha levanta lhes subiam sobre as modestas faces: então Palas que via estes efeitos da virtude que estava adormecida, conhecendo que ainda as suas vozes poderiam ter forças de cautério que avivassem os brios outra vez das frouxas almas, fitando com mais força a vista neles reforça, e continua desta sorte a interrompida fala. Portugueses: Cupido fez de Aquiles zombaria fazendo com que Aquiles se assentasse no estrado das belezas, que o cercavam? que despindo o arnês vestisse a saia? que pusesse à cintura a roca indigna tirando da cintura a mesma espada e vós, Portugueses (com que custo este nome vos dou), vós, Portugueses, julgais que podereis chegar às chamas sem que elas vos abrasem? Por ventura vós sois melhores do que foi Aquiles? Tendes almas mais fortes? Sois mais sábios? Os vossos Patriotas, que inda existem, Portugueses no nome, e mais nas obras, estarão combatendo os inimigos vertendo o ilustre sangue, e vós, Lusos, gastais o vosso tempo a enfeitar-vos para ir, quais Narcisos, às campanhas de Vênus, e Cupido? Estareis surdos? Estareis insensíveis? Não vos movem as vozes dos amigos, e parentes que ao socorro vos chamam? Portugueses, para gozar deleites, para estardes nos braços das belezas, carecíeis cortar os tormentosos, verdes mares? Não há também belezas em Lisboa? Não tem, não tem recreios vossa pátria? O valor, Portugueses, não se alcança por serem nossos membros só nutridos com nervos de serpentes, e tutanos dos ursos, e dos tigres: quem pretende ter valor, e virtude é necessário ganhar essa virtude e valentia por meios concernentes: sim, ó Lusos, não deve obrar ação sem que primeiro a sua ação conheça, e sem que faça nas leves conseqüências que ter pode maduras reflexões em tudo sábias, abrindo o coração a quanto pode a virtude excitar: fechando o peito a tudo quanto pode corromper-lhe os são desejos que residem n'alma. Enquanto a protetora discorria desta maneira forte, os Portugueses, pondo no chão os olhos, não diziam unia palavra só, e muitas vezes sentidos suspiravam, forcejando por que a sábia Deusa não sentisse os ardentes suspiros que eles davam.
A Deusa, que isto observa, continua desta sorte o discurso. Portugueses, se quereis ir aos brincos tão impróprios do guerreiro caráter, ide embora: porém debaixo ao menos de um disfarce. Imitai, imitai o bravo Aquiles, depondo os ferros, e vestindo as saias. Eu irei procurar os bons patrícios, eu assim lhes direi... Valentes Lusos, não olheis para a barra. Os companheiros ficarão engolfados nos prazeres próprios das frouxas almas. Ide à guerra. Combatei os guerreiros que vos chamam, fiai-vos no valor dos próprios braços: vencereis, e tereis a glória toda, que os vossos patriotas não pretendem entrar na partição das vossas palmas. Repartiu-se a campanha: a vós pertence soldados combater, soldados homens, inimigos da pátria: a eles toca os peitos combater de inermes damas. E de damas vencidas, sim daquelas que buscam nas vitórias os remédios que lhes curem do peito as vivas chagas. Uma vitória destas, bem que fosse na verdade vitória, só faria ao peito generoso muito infame. Quando a honra tivermos de dobrarmos ante o trono os joelhos, mostraremos ao nosso Augusto os peitos; porém como. Os nossos peitos nus, cobertos todos de feridas honradas; e os seus peitos cobertos com as fardas nunca rotas e de mimosas flores enfeitadas. Fujamos, Portugueses. deste Porto, que é um porto empestado: sim fujamos. Não queirais que correndo atrás da glória, só venhamos buscar a nossa infâmia.
Apenas isto disse, a Deusa os cobre com seu brilhante escudo, que trazia sem que os guerreiros vissem, no robusto, no firme esquerdo braço. Neste instante os tentados guerreiros recuperam o seu quebrado esforço, qual a planta abatida do sol, que mal recebe os orvalhos que nutrem, se levanta: ou qual vergôntea nova, que se inclina à violência do peso, e apenas sente o peso de si fora, já se move, de novo se apruma sobre os ares.
A Deusa, que lhes nota o novo alento, o seu semblante alegra, e já risonha lhes fala desta sorte. Portugueses, a virtude dos homens é sujeita a despenhar-se em faltas. O sol mesmo não brilha sempre igual: as suas luzes que são no meio-dia tão intensas, quando nasce, e se põe, já são mais fracas. Os justos também erram:: mas dos erros só tiram argumentos da fraqueza que os fazem mais prudentes, e mais sábios. Os Deuses são somente os que são justos em todo o tempo, e parte. Aquele peito que menos vezes erra é entre todos quem se mostra em segui-los mais exato. Fujamos, Portugueses, deste sítio: que se hoje inda podemos fugir dele amanhã pode ser que a enfermidade as forças nos consuma, e não possamos, qual o enfermo que corre à sepultura se o seu mal no princípio não se atalha. Os Lusos navegantes que isto escutam na já frouxa virtude mais se inflamam: os deleites desprezam, e se haviam à cidade correr, depõem as galas. Uns sobem para as vergas, e desferram os enrolados panos: outros correm ao grosso cabrestante, e nele enrolam a corpulenta amarra. O lenho vira, põe para a barra a proa, e já navega rompendo sossegado as mansas águas. Ó Deusa valerosa! que proteges os da minha nação, e mais a quantos os buscam imitar no esforço d'alma! Eu não tenho cem toiros, que degole nos teus santos altares; porém posso cantar os teus louvores, que isto vale muito mais do que vale o sacrifício em que se alaga o chão de quente sangue.
Vênus, que tudo observa, em iras arde, corre à vizinha praia, busca o nume que no porto preside e assim lhe fala. Já não me chames Vênus; nem ainda como Deusa me trates. Noutro tempo bastava o ver meu rosto para ver-se o mar; em que nasci, envolto em chamas. Tenho vencido os Deuses; mas agora já não tenho poder sobre os humanos. Queria mais dizer: mas os suspiros lhe cortam as palavras. A Deidade que preside no porto, surpreendida deste estranho sucesso nunca visto, pretende consolá-la: mas debalde, que quanto mais o busca, mais excita a força impia do corrente pranto, qual menino mimoso, que suspira inda mais, quando a mãe lhe faz afagos.
Apenas o tormento lhe permite um pequeno repouso, o Deus do porto com sentido semblante assim lhe fala. Que é isto, ó grande Vênus? Tu suspiras? Tu aflita desmaias? Porventura no céu, aonde habitas, também pode entrar motivo que produza a mágoa? A Deusa lhe responde: Sim, no Império também entra o ultraje, e há de sempre entrar no céu o crime, enquanto Jove o castigo poupar do ousado humano. O Nume se horroriza e assim lhe torna. E Jove já não tem ardentes raios? Ou se os tem. já não quer punir ofensas que aos mesmos céus ultrajam? Quem te insulta ao ver que um tal delito não tem pena, não pode aos seus insultos animar-se? Esse peito insolente, que te ultraja, é livre do furor e da justiça do teu potente braço? Dize, aonde está o teu Cupido? As suas setas só têm poder nos peitos inocentes; para punir os peitos que te insultam não têm mãos, não têm forcas, não têm armas? Os ultrajes da mãe não são ultrajes que ao filho honrado abraçam? Vênus, dize, quem é, quem é o monstro, que te falta ao devido respeito. A ser daqueles que estão nas minhas águas, te seguro um desagravo tal, que servir possa de freio e de escarmento aos mais humanos. Assim; ó grande Deusa, assim o juro pela sagrada Esfinge, a quem não falta nem o supremo Jove. Eu também tenho na tua ofensa parte; pois ainda que sejas uma Deusa de outra esfera, nasceste como nós também das águas.
A Deusa assine responde. Eu bem conheço que tens um coração em tudo digno de ser o coração da Divindade que manda as águas deste porto extenso. Se tu assim não foras, não viera buscar agora em ti o desagravo da minha própria ofensa. Aquele, aquele que ali vês ancorado é o navio que excita a minha raiva. Enquanto a Deusa estas vozes dizia, com o dedo apontava o navio Marialva. Eu quero, eu quero ver este navio (continua a dizer) naquelas pedras em vingança quebrado. Aqueles homens ao meu favor ingratos se atreveram a voltarem as costas aos prazeres que eu mesma lhes buscava. Que mais queres ouvir da minha boca? Sou Divina, estou queixosa deles. Este agravo pede a justa vingança, e isto basta. Se os homens não temerem os celestes, dentro em mui pouco tempo não teremos nem templos, nem altares. Isto é pouco: pararão sobre a terra os sacrifícios, e talvez se convertam nos ultrajes.
O Nume lhe responde. Ó Deusa! Os Lusos são senhores do porto, e eu os amo. Mas isto nada Importa. A tua ofensa deve ser preferida, pois que vence sem menor exceção os outros males. Nem pode ter valia o sacrifício se a mão, que ao ar levanta o ferro agudo, as reses avalia em pouco, ou nada. Apenas isto disse, as águas fere com o cetro, que traz: as águas correm com força nunca vista, e arrebatam o grande Marialva sobre as pedras, que rodeiam a ilha dilatada, que da grande cidade está defronte, e é uma fortaleza guarnecida que da Ilha das Cobras tem o nome.
O navio se salva por influxo da protetora Palas: vai dar fundo num lugar à saída acomodado, que o Poço se apelida: novamente as águas o arrebatam e vão pô-lo em cima da restinga pedregosa que parte como uma ilha inculta e breve que o nome tem dos Ratos. Toca o leme na encoberta restinga, e se levanta. A gente, que o guarnece, se perturba. Corre à popa da nau a grande Palas: põe os olhos acesos na corrente; a corrente parou, no mesmo instante. O leme levantado cai e torna ao primeiro lugar aonde estava. O navio do sítio se retira, dá fundo noutro sítio mais seguro, de mais fundo, e mais limpo, e desta sorte deste segundo risco enfim se salva.
Apenas o navio lançou fundo em lugar oportuno, a justa Deusa ao portaló se chega. e estas vozes soltou do fundo peito ardendo em raiva. Ministros desse Nume, que perturba deste porto o sossego, moderai-vos. Dizei ao vosso Nume que repita a essa injusta Deusa, a quem agrada, este fiel recado. Quem procura os caminhos da glória, só merece das mãos dos altos Deuses, que são justos, benigna proteção, e não estragos. Que se isto a meio modera, que eu lhe digo que ponha as suas forças por que busque dos Lusos a desgraça; pois as minhas estarão vigilantes a salvá-los. Que se ela é uma Deusa, eu sou o mesmo, E sendo ambas iguais, bem poderemos medir as nossas forças braço a braço.
O navio levanta finalmente o grosso unhado ferro: os mares corta, e sai do porto infausto. Tu, ó Palas, defende os Portugueses, que eles correm atrás do seu naufrágio. Sim, que as Deusas, inda que Densas sejam, são mulheres: mulheres que não deixam que se curem as chagas do rancor, quando elas nascem da injúria da beleza, bem que corram depois da chaga aberta os longos anos: os anos sim, os anos, que consomem as mais profundas chagas, que se abriram pelas ousadas mãos dos mais agravos.
Valerosos Guerreiros, animai-vos: que os peitos virtuosos, que padecem em ódio da virtude, por fim podem dos males triunfar, e quando chegam os dias do triunfo, ó quanto, ó quanto formosos lhes parecem os trabalhos! Não é digno das ditas quem não pensa que as ditas são uns bens que os céus fizeram para prêmio dos peitos sofredores, que mostram os seus rostos sempre inteiros no fundo abismo dos maiores males.