Canto 4º
No dia, que era o sexto da viagem, a ofendida Vênus determina tomar vingança nova: sobe ao carro que puxam brancas pombas: rompe os ares, a Éolo procura, mal o encontra, lhe fala deste modo... Ó Rei potente, de cujo arbítrio pende a sorte toda de quem o mar navega. Escuta, escuta as queixas de uma Deusa maltratada; dá-lhe o remédio que te pede, e pronto. Eu tenho imensas ninfas, e na terra não acharás belezas que se possam com elas comparar. Se me servires no que te peço agora, eu te concedo o número de nove, e também deixo só na tua eleição a sua escolha.
O Rei assim lhe diz ... ó Deusa bela, a paga, que me ofertas, é mui grande mas por isso, que é grande, eu a contemplo à honra injuriosa. Dize, ó Vênus, para que eu te obedeça é necessário que tu me incites c'o valor do prêmio? Eu hei de, ó grande Vênus, comprazer-te sem olhar para a paga; pois não quero que ela tire o valor ao meu serviço mudando o meu serviço em vil contrato. Contudo, grande Vênus, não me exponho a que te persuadas que eu desprezo vaidoso a tua graça. Sim, eu quero, eu quero que entre nós se aperte o laço de uma estreita amizade; entrar na conta daqueles que compõem a tua casa. Alcançando este bem, não tenho, ó Deusa, mais outro bem igual, aonde possa bater o meu desejo ás suas asas. Escolhe entre essas ninfas que me ofertas aquela que quiseres; que eu procuro fazer-te um sacrifício mais completo dá rendida vontade: à que me deres sem reparar qual seja, eu hei de dar-lhe por ser escolha tua alegre está alma.
A Deusa lhe responde - Ó Rei, eu tenho uma ninfa que é bela, conhecida pelo nome que tem de Danopéia. Não te quero afirmar que a todas vence na beleza, e nas graças; que estes dotes não têm nos olhos todos igual peso. Só te afirmo que ela é entre as mais todas a quem mais amo, e prezo. Danopéia será, será, ó Rei, aquela ninfa que deste feliz dia para sempre com dobradas prisões nos una, e prenda. O Rei assim lhe torna. Eu já me abraso nos ardentes desejos dessa posse; porque sendo esta escolha escolha tua não pode escolha haver mais digna e nobre. Mas nós, ó grande Deusa, depusemos de parte o teu negócio. Vênus, Vênus este insulto perdoa; e por que possas perdoar-me este insulto, ah tu repara que a causa dele não foi minha toda! Deixemos os ajustes, Deusa, fala, que quando se cogita da vingança que procuras tomar aos teus insultos, não é, não é decente, ó grande Deusa, que o tempo se consuma em tais contratos. A Deusa o modo atento lhe agradece e prossegue a queixar-se assim dizendo. Aqueles Portugueses que navegam no leve Marialva, me fizeram uma afrontosa ofensa. Mal chegaram à corte do Brasil, busquei fazer-lhes alegres seus trabalhos. Fui eu mesma... O Rei, que estas palavras escutava, lhe interrompe o discurso assim dizendo. Suspende á voz, ó Deusa, que eu não posso consentir que me contes teus sucessos sem que nisso te ofenda. Se eu quisesse saber os teus agravos para dar-lhes castigo equivalente, me faria desta sorte o juiz dá tua ofensa. Tu és só o juiz, e és só por isso quem à pena lhe arbitra: a mim só toca fazer executar qualquer sentença; e em ser executor do que mandares já tenho glória, que não é pequena.
A Deusa novamente lhe agradece uns tão puros desejos, que se fazem mais dignos de valor por se explicarem por tão urbanos termos. Depois disto seus desejos explica assim dizendo. Despede, ó grande Rei, o vento irado; açoita este navio: agita os mares e bate o seu costado: faz nele os estragos maiores; mas não mandes que estes estragos passem ao excesso de o fazer submergir nas verdes ondas. Não cuides, grande Rei, que o meu pedido assenta em piedade; pois assenta nos desejos ardentes que me abrasam de querer despicar a minha afronta. Eu quero que estes Lusos não acabem; porque quero acabá-los pouco a pouco ao peso sucessivo dos trabalhos, que é mal inda pior que a mesma morte.
O Rei assim lhe torna... ó Deusa, espera, espera um breve instante por que vejas que o teu pedido é ordem, e tal ordem, que bem que o coração se oponha a ela, tem sempre execução inteira, e pronta. Apenas isto disse, o cetro move; fere um grande penedo que servia de robusto postigo a uma cova onde encerrados tem os ventos todos, por que dela não saiam sem que tenham para saírem dela expressas ordens. Mal tocou o penedo com o cetro, retirou-se o penedo ao lado um pouco, e mal se afasta a pedra, sai bramindo o furioso Noto. Os outros ventos no profundo da casa se revolvem, e vêm como em tropel também correndo para a pequena porta. O Rei previsto o seu cetro maneia, e com a ponta fere a pedra de novo; a pedra corre e caminha a tapar a negra cova.
O Rei se vira ao Noto, que inda firme as ordens esperava, e carregando o rosto respeitoso assim lhe fala. O que Vênus mandar, que tu lhe faças, isso deves cumprir exato, e pronto: reputa os seus preceitos os meus próprios. Não digo bem. Reputa os seus preceitos que os meus próprios preceitos mais forçosos, que eu posso perdoar se me faltares; faltando a ela perdoar não posso.
A Deusa e mais o Noto vão seguindo O rumo do Brasil, e já descobrem o grande Marialva que rompia, como quem de tormenta não pensava, com todo o pano cheio as mansas ondas. Apenas viu a Deusa o Marialva subiu-lhe a cor as faces, e apontando para ele com o dedo, ao vento o mostra, e soltando um suspiro assim lhe fala. Aquele é o navio em que navegam os loucos Portugueses que me ultrajam. Despica, pois é tempo. a minha afronta: agita os mansos ares, que lhe rompam as velas desrinzadas; move as ondas, que açoitem seu costado. Veja o mundo, que se tem atrevidos que me insultem, eu tenho também ondas, e mais ventos, que vinguem meus ultrajes; e se forem outros meios precisos, terei inda os ministros do céu, que são os raios.
Apenas isto disse a Deusa busca do sitio retirar-se: talvez fosse para evitar impia que os lamentos, mais os humildes rogos dos aflitos, não pudessem fazer que se abrandasse o fogo em que se abrasa o duro peito.
Mal do sítio se aparta, o fero Noto a vingança começa: alarga, e enche as rugosas bochechas; curva o corpo, põe na cintura as mãos: respira, e sopra. As águas pouco a pouco se encapelam; E dentro em pouco tempo está formada a tormenta medonha. O bom piloto, ao catavento firme, agora manda que o leme se alivie: agora ordena que se meta de encontro. Os joanetes e mais as grandes gáveas já se arriam para assim se quebrar do impulso a força. Os punhos do traquete e mais da grande ligeiros se carregam; os mancebos pelas escadas sobem por que ferrem as já descidas velas que, batendo, os mastaréus açoitam: quais se fazem em mais velas partidas, quais rompendo as bem atadas cordas que as seguram as longas vergas pelos ares voam. Não se escutam senão sentidas vozes de quem manda, e trabalha, e o sussurro do Noto furioso, que assobia nos moitões e nas cordas, misturado c'o sussurro também das bravas ondas.
Uma onda se levanta mais crescida e se deixa cair com toda a força na proa do navio. O grande beque depois de levantar-se sobre as nuvens desce ao profundo infernos já vem outra mais forte que a primeira, nele bate, e o grande beque treme: já se enrolam a terceira, e a quarta, e não podendo o beque resistir a tanta força um grande estalo deu e fez um rombo apesar das cavilhas, que o sustentam.
Com a vitória o Noto mais se alenta: aperta os beiços outra vez de novo, ajunta mor porção na. funda boca dos comprimidos ares; quer soltá-los e neste mesmo instante ao mal acode a Deusa Protetora. Corre, e chega ao portaló que está de barlavento, e toma o seu semblante. Aqui se mostra já como Deusa Palas, aos contrários, ao mar embravecido, e ao fero Noto. O Noto mal conhece a grande Deusa turbado se confunde, e sacudindo as negras asas, deste sítio foge. Mal o vento se ausenta, os verdes mares aplacando se vão, já se convertem em mares de bonança e já parece que de cansados dormem. O Moreira um só pequeno instante não sossega, e sem que perca o tempo determina que se passe a fazer aos graves danos que a tormenta causou, o necessário, o possível conserto. A ordem sábia com prontidão se cumpre, e sem falência. Ao beque já se lançam duras cordas que o fazem reduzir ao velho estado. Depois de reduzido se lhe pregam firmes castanhas, três de cada parte. que fortes o sustentam Pela proa sai o deitado mastro, e este mesmo também solto ficou, porque faltara o beque a que se prende. Já lhe passam uma forçosa trinca, que o segura ao beque consertado, e além da trinca o seguram também com grossos cabos.
Depois que o mar serena se descobre uni mui formoso carro que voava sobre as já mansas ondas, mais ligeiro que as setas voadoras. Ele vinha puxado por Delfins, em cuja conta não entrava o Delfim astuto e sábio que ajustou de Netuno o casamento com a bela Anfitrite, que este em prêmio está nos altos céus mudado em astro. Em cima deste carro majestoso se assentava Anfitrite, e o seu semblante enchia de prazer o ar em torno, enchia de prazer também os mares. As ninfas, que este carro acompanhavam, mil círculos faziam sobre as ondas só por darem prazer à sua Deusa; umas vezes nas águas mergulhavam as erguidas cabeças e surgiam dos rostos apartando os seus cabelos. Outras vezes corriam à porfia as águas dividindo com os peitos. Quais depois de cansarem se apegavam ao carro de Anfitrite; quais imóveis nas águas se sustinham e formavam uma bela alcatifa matizada da cor do mar e corpos, branca, e verde. Os peixes sobre as águas se moviam saltando de contentes, e as famintas gaivotas, que voam, não desciam dos ares mansos a pegarem neles. Até os mesmos peixes inimigos, amigos se mostravam, nem os grandes sustentar-se buscavam nos pequenos.
A esta Deusa segue um vento brando que os ares refrescava; e muitas vezes pasmado na beleza do semblante se esquecia bater as leves asas. Move-se o catavento: os navegantes desferram o seu pano, e vão seguindo o rumo para as costas Africanas compensando com esta nova dita todo o desgosto dos passados males.
Os Lusos navegantes atravessam o cabo Tormentoso, a quem diria que houveram de passar com mansos mares um sítio, a quem chamaram tormentoso à triste custa de desgraças tantas. Aqui se aprontam todos para verem o deforme gigante, que pôs medo ao mesmo ousado Gama; porém ele só de longe aparece, e levantando sobre o sereno mar o corpo imenso, em profético sorri assim lhes fala. O que fazer não pude farão outros, que eu tenho quem despique o meu ultraje.
O deforme gigante que preside neste medonho cabo é um gigante de uma estatura imensa. Os seus cabelos são limos estirados que lhe descem pelo grosso costado, e são de limos também as suas barbas, que lhe pendem, e tocam da cintura muito abaixo. A testa é espaçosa, e atrás cingida com folhas de espadana: as sobrancelhas compridas e fechadas. Os seus olhos acesos, e rasgados: beiços grossos; como troncos as pernas, pouco menos os dois nervosos braços. O seu corpo tão forte, e tão fornido, que pudera suster o céu inteiro, se o céu todo nos seus fornidos ombros se assentasse. Traz na direita um pau, em que se encosta, que formado não foi de um grande ramo; mas de um crescido tronco. Se levanta a sua rouca voz o ar impele, vence o rijo trovão que o mundo assusta, e faz estremecer o inteiro monte.
Os Lusos navegantes se perturbam mal ouvem tão funesto vaticínio: intentam aplacar o Deus Netuno com puros sacrifícios: não degolam os enfeitados toiros; mas derramam nas águas do seu mar o puro vinho.
Netuno o sacrifício não aceita, que Vênus enfadada é como filha e a quantos animais beber puderam das águas com o vinho borrifadas, para o ódio mostrar tirou as vidas. Não pára nisto a força do seu ódio. Ele leva o navio sobre a costa da Ilha São Lourenço, aonde espera que o dano não evite: pois que corre sem que saiba que corre, e sem que possa prever, e acautelar tão certo risco.
A protetora Palas, que vigia sobre os amados Lusos, não sossega. A ilha vai buscar, e sobre a praia acende uma fogueira. Os navegantes, mal este fogo avistam, estremecem. Conhecem que estio perto desta praia. Arreiam prontamente as soltas gáveas, com que só navegavam, e conservam todo o resto da noite a nau à capa. Com esta prevenção prudente, e justa apesar dos desejos de Netuno do naufrágio iminente a nau se salva.
Ó Deusa sem igual! Ó grande Palas! Tu sim, tu sim proteges a Virtude: és uma Deusa de ser Deusa digna por isso mesmo, que a virtude amparas. Portugueses, correi pelo caminho da honra, e do valor: correi afoitos, como sempre correstes. Desta sorte, não tendes que tremer a dura sanha dos peitos inimigos, bem que sejam muito mais que os humanos. Portugueses, se uma mão se levanta contra o justo, há outra mão talvez mais forte ainda, que o dano, que ela busca, lhe repara, e não só lho repara: mas às vezes os trabalhos permite, por que o leve as ditas, e às venturas, que ela mesma por estes úteis meios lhe prepara.
Categoria:Tomás Antônio Gonzaga