Canto 1°
Venturosos aqueles, sim aqueles, que a vista levantando a toda parte, vêem os grossos chuveiros, vêem as ondas, as ondas furiosas que se espraiam, que inundam as campinas, que submergem as serras levantadas; que não poupam, que não respeitam nada: mas divisam uma arca mais extensa, e mais segura que foi a de Noé, em que se metam, e suas vielas salvem, bem que a onda, umas vezes descendo, outras subindo, umas vezes os leve ao baixo fundo que tem o mar cavado, e outras vezes sobre si os levante, até que cuidem que sobem a tocar nos próprios astros. Venturosos aqueles que descobrem esta arca salvadora, mui distante das terras em que vivem: mas que podem gozar do seu amparo, apenas queiram para ela encaminhar ligeiros passos: mas inda mais ditosos os aflitos, que querendo salvar-se de um naufrágio, que sobre erguidas serras já se espraia, sem largas diligências, sem fadigas a podem encontrar em toda parte: em qualquer parte sim, aonde estejam, e levantem aos céus, que a todos ouvem,
que te ergueram em Chipre, mais em Pafos; sobre as infames piras, onde o filho as chamas devorantes ascendia com o vento da boca, e mais das asas. Ainda isto, que disse, é tudo pouco: queimei o coração, que é mais que tudo, e dei ao pé de ti suspiros tantos, tão fortes, tão ardentes, que puderam fazer incendiar os frescos ares. Quantas vezes a mãe do cego infame vendo tantos extremos, invejosa só para não os ver, voltou a cara? Quantas vezes se irou com o seu filho porque era disto a causa, e lhe pedia que a sua honra vingasse, e me ferisse com outra penetrante, oposta farpa? Quantas vezes o filho por mostrar-lhe a falsa submissão lho prometia, e depois de voltar à mãe as costas a todas as promessas lhe faltava? Verti sangue, verti; queimei as reses. Provera o pio céu que o não vertesse, provera o pio céu que as não queimasse! Ah como estou diverso! Muitas vezes depois da feia noite tormentosa aparece a manhã serena, e limpa, seguida por um sol ardente, e claro. Muitas vezes aquele que se via já quase moribundo, vê seu corpo vigoroso, e robusto, e só por isso que morto se julgava, e que reputa a vida, e a saúde um bem celeste que não tem outra dita a quem se iguale. Venturoso daquele, que já pode