A Cidade e as Serras

Part 17

Chapter 17 3,492 words Public domain Markdown

O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia cabelludo e quasi negro, d'uma manga muito curta.

--A mão!

E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:

--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Tôrto, bebeu com immensa lentidão, limpou as barbas, deu um geito á correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:

--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, que não o meu dia, e vi um homem!

Eu então debrucei-me para elle, mais em confidencia:

--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por ahi, pelos sitios, que El-Rei D. Sebastião voltára?

O pittoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo d'espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a percussão dos seus pensamentos:

--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vae, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Ha corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo é vestido, alma é pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!

E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:

--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei D. Sebastião não morreu na batalha?

O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma desconfiança:

--Essas cousas são muito antigas. E não calham bem aqui á porta do Tôrto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flôr da Flôr da Malva lá tem o paesinho doente... Mas o mal já vae pela serra abaixo com a inchação ás costas. Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!

Com a magra mão lançou um gesto para que seguissemos. E já passavamos o cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade cava:

--Bemdito seja o Pae dos Pobres.

Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as acclamações d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino um Sebastianista.

--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a loteria da Misericordia é uma forma do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?

--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o ultimo Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é aquella com os dous torreões?

--A Flôr da Malva.

Jacintho tirou o relogio:

--São tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e instructivo. É lindo este sitio.

Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flôr da Malva voltava para Oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dous torreões quadrados, onde as janellas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um burro pela arreata.

--Está por ahi o Manoel da Porta?

--Ainda agora subio pela alameda.

--Bem: empurra lá o portão.

E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta d'heras, e uma casota de cão, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o Tritão, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavallos.

--Como está o tio Adrião?

Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:

--E então vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josepha.

Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.

--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixão d'este Josésinho.

Mas quando chegamos ao laranjal, á beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh, prima Joanninha!...

--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...

Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com doçura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botões d'ouro.

O tanque, redondo, fôra esvasiado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.

Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.

--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.

--É uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.

--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excellente... Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle cebolinho!

Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o meu Principe, com os seus talhões debruados d'alfazema, e madresilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de parra densa. E démos volta á capella, onde crescia aos dous lados da porta uma roseira chá, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a Flôr da Malva repousava, até á ante-camara, d'altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um canario.

--É curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas cadeiras.

E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que elle descobrira no sotão, umas armas sob um chapéo de Cardeal.

--Oh senhores! exclamei. Não haverá um creado?

Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.

--É o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi indignado. Dá um berro!

--Não, caramba! Vou lá dentro!

Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, córada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e côr de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azues.

E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flôr da Malva, vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.

XV

E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe já não é o ultimo Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de familia, principiára a fazer-se monotono, pela perfeição da belleza moral, aquelle homem tão pittoresco pela inquietação philosophica, e pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!

Tambem a paternidade lhe despertára a responsabilidade. Jacintho possuia agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitára já as suas propriedades de Montemór, da Beira; e concertava, mobilava as velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma do meu Principe, foi quando elle, já sabido d'aquelle primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes á Civilisação. Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotãos immensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, por que elle suspirára, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta moderação a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ella jurou que assim o ordenára o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas, tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e mais caixotes, para installar um telephone!

--Um telephone, em Tormes, Jacintho?

O meu Principe explicou, com humildade:

--Para casa de meu sogro!... Bem vês.

--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os braços, quasi supplicante:

--Para casa do medico. Comprehendes...

Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, accordei aos berros da tia Vicencia! Um homem chegára, mysterioso, com outros homens, trazendo arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio, encolhendo os hombros:

--Que queres? Em Guiães está o boticario, está o carniceiro... E, depois, estás tu!

Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois não! o Progresso, que, á intimação de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistára mais um reino para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e não avistamos mais sobre a serra a sua hirta sombra côr de ferro e de fuligem. Então comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle fôra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer ás cavalleiras, observei ao digno preto, que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:

--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho está firme.

O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em curva como petalas d'uma tulipa:

--S. ex.^a brotou!

Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade, plantado na serra, pegára, chupára o humus do torrão herdado, creára seiva, afundára raizes, engrossára de tronco, atirára ramos, rebentára em flôres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos, derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos, cem casaes em redor a bemdiziam.

XVI

Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallára com prazer n'um regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris á prima Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo para as cousas da Civilisação. Mas, quando elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha sentiu uma preguiça immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem em flôr!» Mas em Abril vieram aquelles cansaços que immobilisavam a prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o roupão mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então soffrendo de desoccupação. As chuvas de Março promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, córada e bem feita, viuva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno, sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.

Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vêr um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flôres bacchanticas nas tranças, se estorcia, segurando n'uma das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! eis que, logo adeante, na estação quieta e clara de Saint Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:

--Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passára, o bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:

--E Jacintho?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia escarranchados no pescoço.

--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É capaz de ser feliz!

--Espantosamente, loucamente... Qual! não ha adverbios...

--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!

Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os hombros, accendendo a cigarette:

--Todo esse mundo circula...

--Madame d'Oriol?

--Continúa.

--Os Trèves? o Ephraim?

--Continuam, todos tres.

Lançou um gesto languido.

--Durante cinco annos, em Paris, tudo continúa... As mulheres com um pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno... E--e voilà!

--Dornan?

--Continúa... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo ás vezes o nome d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.

--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...

--Continúa tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta... Duquezas em camisa, almas núas... Cousas que se vendem bem!

Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o paletot e os jornaes, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:

--Até Paris!... Sempre rue Cambori.

Então, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flôr, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da mesma côr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descórado, parecia um vasto espelho muito lavado a grande agoa, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.

Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia Albergaria, dançavam, núas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as commoções d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, já se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que todos esses cinco annos eu ali permanecera á porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados sobre tranças pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da legião d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei então, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do kiosque desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a mesma mulher, sempre núa, ou meia despida, ora mostrando as costellas magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No café da Paz, o creado livido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao meu appetite, por ser tão tarde, um lingoado frito e uma costelleta.

--E que vinho, snr. Conde?

--Chablis, snr. Duque!

Elle sorrio á minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa núa, e um Capitão de Dragões, que soluçava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do costume.--Não ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e então foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descollasse da sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei pelo môço livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivella, arrancou emfim áquelle malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No trôco, que o moço me deu, com a polidez requintada d'uma civilisação muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dôce tarde de Maio sahi para tomar no terraço um café côr de chapéo côco, que sabia a fava.